Com obras ainda em andamento, Belém se prepara para testar infraestrutura na COP30, que consumiu R$ 4 bilhões
Por Lucas Altino— Belém / O GLOBO
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/p/j/T9ihGyTgidWpNMrCJOZQ/20251108115256-gf00025415-f00464331.jpg)
Na quinta e na sexta-feira, foi decretado feriado municipal, a fim de desafogar o trânsito. A situação favoreceu a logística, que a partir de amanhã, quando começa oficialmente a COP30, será mais uma vez colocada à prova. A expectativa é que cerca de 50 mil pessoas cheguem à cidade.
Em alguns pontos, o cenário de canteiro de obras se mantém. Neste sábado, por exemplo, o governo estadual inaugurou mais uma obra: a macrodrenagem do canal União, no bairro do Marco.
Ao todo, foram mais de 30 obras. A administração de Helder Barbalho (MDB) informou que os investimentos para a COP chegaram a R$ 4,5 bilhões, somando tesouro estadual, BNDES, Caixa Econômica e parceria com a Itaipu Nacional. Já a União cita um valor, de sua parte, de R$ 4,2 bilhões, mas também considerando os recursos do BNDES. Procuradas, as partes não souberam esclarecer o valor total, evitando repetições. A prefeitura investiu R$ 63,5 milhões.
Otimismo da população
Desde o anúncio da sede, autoridades defendem que as obras na cidade serão um legado para a população, com destaque para o Parque da Cidade, onde acontecerão as reuniões da COP, a macrodrenagem de 13 canais, as reformas do Porto de Outeiro e Mercado de São Brás e a implantação do novo BRT.
No caminho, não faltaram turbulências. Além de críticas sobre alguns gastos e suposta ausência de projetos para a periferia, a crise da oferta e preços de hospedagem, que assustou comitivas internacionais nos últimos meses, evidenciou problemas de gestão e gerou, inclusive, pedidos pela troca de sede da COP30.
Mas, chegada a conferência, a maioria dos moradores ouvidos pela reportagem diz que as obras melhoraram a cidade. Entre participantes da cúpula de líderes, a impressão inicial foi positiva.
Kaline Lima, motorista de aplicativo, mantém expectativa positiva de um legado para a cidade. Apesar de se dizer cética quanto a soluções climáticas, ela afirma que a recuperação de galpões abandonados, transformados no Porto Futuro II, foi bem-vinda para a população, e as reformas do aeroporto e do Porto de Outeiro serão essenciais para manter o turismo aquecido.
Já os Parques Lineares ela destaca que, apesar de positivos, serviram mais para “esconder o esgoto”. Em Belém, mesmo nos bairros mais ricos, é normal ver o despejo correndo a céu aberto.
Durante o encontro de chefes de Estado, a motorista elogiou o esquema de trânsito.
— Está melhor que o normal, o feriado funcionou. Muita gente viajou para praias próximas — disse Kaline.
Cofundador do Observatório das Baixadas, ONG ambiental que foca nas periferias, Andrew Leal disse que as vias centrais ficaram de fato desafogadas com o esquema desenhado, em que algumas avenidas eram bloqueadas para passagem exclusiva de ônibus da COP. Por outro lado, ele cita que algumas regiões da periferia ficaram sobrecarregadas e com trânsito.
Esta semana não será feriado, mas haverá ponto facultativo para o funcionalismo público e férias escolares. Assim, o governo acredita que o trânsito continuará bom.
Para Leal, as obras na cidade foram positivas, apesar de sua queixa sobre a concentração dos investimentos na região central.
— O movimento está grande nos locais inaugurados, vai impulsionar de fato a economia turística. Já as obras para o problema de saneamento e as inundações vão ajudar, mas não resolvem totalmente, até porque precisaria remodelar toda infraestrutura da bacia. Essa semana choveu e inundou algumas regiões da cidade.
Para amenizar o forte calor, de quase 40ºC nos últimos dias, pontos de hidratação foram distribuídos nos pontos mais movimentados da cidade. A Águas do Pará instalou 13 pontos, que garantem água até para pets, no Parque da Cidade, Estação das Docas, Nova Doca, Mangal das Garças e Parque do Utinga. Já a Companhia de Saneamento do Pará instalou no Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna, Porto Futuro e na Green Zone da COP30.
Durante a conferência, parte das delegações internacionais precisará apenas atravessar a rua para acessar a área oficial do evento. São os hóspedes da Vila COP, área de 19 mil metros quadrados, com cinco blocos que somam 405 suítes, 37 presidenciais, inaugurada às vésperas do evento. A partir do ano que vem, o espaço, que custou cerca de R$ 200 milhões, será convertido em um centro de administração estadual.
Por motivos de segurança, a Vila não pode receber visitantes nem imprensa nessa semana. Mas, na última quinta-feira, O GLOBO acessou o lobby de recepção, onde uma cafeteria de uma tradicional rede argentina atraía os hóspedes. A Vila ainda conta com escritórios, salas de reunião, academia, quiosques de artesanato e souvenirs. Os quartos estão sendo usados principalmente por delegados internacionais, responsáveis pelas negociações durante a COP. Poucos são os chefes de Estado. Entre os nomes mais conhecidos da lista, está o da ex-presidente Dilma Roussef, que hoje comanda o Banco dos Brics.
Hospedagem no porto
Outra solução pensada para a hospedagem foi a contratação de dois transatlânticos, que somam seis mil leitos, atracados no Porto de Outeiro. Lá, ficará boa parte da delegação brasileira, além de algumas comitivas internacionais, como a da Itália e da própria ONU.
Gabriela Lima, gerente de projetos da Secretaria Extraordinária para a COP30, responsável pela operação do Porto de Outeiro, explica que as cabines variam de perfil, e chegam até ao luxo de 5 estrelas. A operação de logística, ela diz, é rápida:
— O hóspede sai de sua cabine, pega uma van e em quatro minutos está no receptivo, onde pega um ônibus até a Blue Zone.
O trajeto do Porto ao local da COP dura cerca de 40 minutos, quase meia hora a menos do que durava antes da inauguração da nova ponte do outeiro, feita para o evento. Além disso, o próprio porto foi reformado, em uma obra de R$ 233 milhões, para possibilitar a atracação de mais navios: de um para cinco.
Jardel Silva, diretor presidente da Companhia Docas do Pará, afirma que o novo Porto abre um novo horizonte de turismo para a cidade.
— Cada navio que atraca aqui é uma fábrica de emprego, oportunidade, renda. Fora que além das operações de turismo, a gente vai poder seguir com novas operações de carga — celebra.
Caetano Scannavino, integrante do Observatório do Clima e morador do Pará, diz que os percalços eram previstos e aposta que o evento será bem-sucedido.
— É uma cidade que ainda está em obras. Mas Belém se preparou, a população se preparou e o povo aqui tem o orgulho de hospedar a COP.
Se parcerias com o setor privado funcionam bem em diversas áreas, por que não aplicar na educação?
Por Fernando Schüler / O ESTADÃO DE SP
Cerca de 95% dos alunos que concluem o ensino médio em nossas redes públicas não sabem o adequado em matemática. Não é um problema deste ou daquele governo. A falência é crônica. Em 2009, nossos alunos obtiveram 386 pontos em matemática, no PISA, da OCDE, contra 379 pontos, em 2022. Em doze anos, aumentamos o recurso para a educação, mas os resultados são pífios. Recentemente, o Estado de Minas Gerais fez um movimento para virar o jogo: o projeto Somar, permitindo que três escolas da periferia de Belo Horizonte tivessem gestão privada. O projeto vem dando certo. As faltas de professores diminuíram, o desempenho melhorou. Em qualquer país civilizado, seria a senha para corrigir falhas e seguir em frente. Mas não no Brasil. Por esta semana, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) mandou proibir a iniciativa, a partir de uma ação do sindicato de professores.
Esta tem sido a crônica brasileira. Criamos um sistema de monopólio estatal da educação pública. Ele não funciona, mas não reagimos. Não funciona em razão da burocracia, do mando corporativo, da falta de competição e incentivos. E a cada vez que alguém tenta mudar, a reação é feroz. Nos tornamos um vergonhoso país do status quo, na educação. Há várias razões para isso. Uma delas é que se trata de um drama em banho-maria. Na saúde, é chocante ver um idoso morrer na sala de espera de uma unidade do SUS. Na educação, um jovem negro abandona a escola e a maioria não aprende. Mas quem se preocupa? Outra razão: famílias de menor renda não têm poder de pressão. Já os sindicatos e ONGs ideológicas, têm de sobra. E por fim, a indiferença. Quem tem dinheiro, no Brasil, põe o filho na escola privada. Está “protegido”, no mercado. Alguém acha que os juízes que decidiram proibir os alunos mineiros de estudar em escolas com gestão privada topam colocar os próprios filhos no sistema estatal?
Os bons exemplos estão aí, a nossa disposição. Na Inglaterra, o sistema das Academies é um sucesso. A escola é pública, a gestão privada. No Brasil, é só ir até a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, e visitar o IMPA, instituição modelo no ensino e pesquisa da matemática. Há 25 anos ela é gerida por uma Organização Social privada. A pergunta óbvia é: qual o princípio metafisico que impediria que isto também fosse feito em nossa educação básica?
No Brasil recente, nossos aeroportos deram um salto de qualidade migrando para a gestão privada. O mesmo se dá com a cultura, as ciências e o meio ambiente, em casos de sucesso como a OSESP e o Museu do Amanhã. Ou ainda com o Porto Digital, no Recife, ou parques como o das Cataratas do Iguaçu e o Ibirapuera, em São Paulo. Se o modelo funciona em todas estas áreas, por que não poderia funcionar na educação? É evidente que poderia. O que temos é apenas o mando das corporações. Justamente na educação, optamos pelo atraso. E quem sabe só vamos resolver o problema quando levarmos nossas escolas tão a sério como levamos a qualidade de nossos aeroportos. Isto definitivamente não deveria ser assim.

Fernando Haddad ainda não entendeu o regime de metas
Por Alexandre Schwartsman / O ESTADÃO DE SP
Fernando Haddad afirmou que, se fosse diretor do BC, votaria pela redução da taxa de juros, “apesar da pressão dos bancos”. Declaração curiosa por ao menos dois motivos: primeiro porque sete dos nove membros da diretoria do BC, portanto do Copom, inclusive seu presidente, foram indicações de Haddad; segundo porque revela ignorância imperdoável depois de 26 anos do regime de metas para a inflação.
Simplificadamente, o Copom decide a taxa de juros com base no desvio da inflação com relação à meta. Se a inflação está acima da meta, a Selic deve superar o que se estima ser o juro dito “neutro”; se abaixo da meta, o contrário.
Obviamente, inflação não se refere à observada nos últimos 12 meses. Ainda não inventaram uma maneira de alterar a inflação passada (alguns bem que tentaram, mas não deu muito certo).
Como a taxa de juros afeta os preços com certa defasagem (15 a 18 meses), quando o Copom fala de inflação, refere-se à sua própria projeção para o “horizonte relevante”, que, diga-se, não é a mesma feita pelo mercado financeiro.
No caso, o BC prevê inflação de 3,3% nos 12 meses até junho de 2027, com base numa trajetória em que a Selic começaria a cair já na primeira reunião de 2026 e atingiria 10,50% ao final de 2027. A menos que o STF tenha alterado também a matemática, a inflação ficaria acima da meta caso a Selic fosse reduzida agora.
Isto dito, o Copom não é escravo dos seus modelos. Há, como sempre houve, espaço para julgamento por parte de seus membros, em particular o chamado “balanço de riscos”, isto é, como se avaliam as chances de a inflação ficar acima ou abaixo da projetada em seu cenário de referência. A decisão sobre a Selic, portanto, depende tanto do que o Copom espera ser a inflação futura, como dos riscos associados a esta previsão.
Aí me pergunto se Haddad sabe de algo sobre a evolução futura da inflação que o BC não saiba para ter tanta certeza de que a Selic já poderia cair. Pergunta retórica, bem entendido.
É feio, embora não inédito, o desconhecimento do regime monetário em vigor há tantos anos no Brasil. Mais feio ainda, todavia, é o esquerdismo juvenil de associar o juro alto no Brasil à “pressão dos bancos”.
Não é, porém, surpreendente dada a insistência de Haddad em se distanciar de qualquer responsabilidade pelas consequências de suas políticas. A origem do elevado juro real no Brasil é o crescimento dos gastos e da dívida, quesitos que só pioraram em sua gestão. Quando entender isso e agir de acordo, o juro poderá cair.
Opinião por Alexandre Schwartsman
Economista e consultor da Pinnotti & Schwartsman Associados
Lula ganhou nos erros dos adversários, mas adotou tática arriscada agora
Por William Waack / O ESTADÃO DE SP
Lula decidiu desafiar uma convenção do marketing político, segundo a qual se a onda é forte o melhor é passar por baixo dela. E passou a criminalizar a atuação da polícia na megaoperação no Rio, que desfruta hoje de um apoio na população tão inédito quanto o número de mortos registrados no confronto com uma organização criminosa preparada para combater.
Considerando que segurança pública é a preocupação número 1 do eleitor, o tipo de assunto no qual governos petistas apanham fácil, peitar a onda em favor da megaoperação é postura de alto risco. O que levaria um político experiente a optar por um cálculo que só promete desvantagens?
Relatos de quem esteve conversando com Lula nas últimas semanas– antes da megaoperação mas depois dos sucessivos erros políticos da oposição (dos quais o apelo a Trump foi monumental) – dão conta de que ele está convencido de vencer no primeiro turno. Lula já insinuou isso publicamente.
Os profissionais em pesquisas são mais cautelosos. Observam como são voláteis as alterações em termos de aprovação/desaprovação do governo em função da velocidade com que se sucedem os acontecimentos políticos dentro e fora do Brasil. A “arte” desse tipo de interpretação de dados estatísticos consiste em separar a “volatilidade” da “constância” nos números.
Trata-se dos tais “fatores estruturais” que teimam em permanecer negativos do ponto de vista do governo. Grosso modo eles se dividem em dois grandes grupos. O primeiro é a disseminada noção de que o “sistema” quebrou e que governos (qualquer um) nada resolvem. Muito menos o que está de plantão.
O segundo é específico de Lula e o PT. O velho em Lula não é a sua idade, mas a incapacidade atual de “vender” sonhos e perspectivas. Há transformações importantes também nas periferias que o petismo e seu único nome viável hoje não conseguiram acompanhar – resultado em boa parte do mesmo tipo de “sociologia” que os levam a considerar criminosos como “reflexos” de uma sociedade capitalista cruel.
Vem daí a combinação de duas conhecidas táticas, a dos “ricos contra pobres” e o assistencialismo turbinado. Ocorre que a primeira já não “cola” como em eleições anteriores, pois a pregação da prosperidade avançou bastante em faixas do eleitorado que Lula há anos não consegue atingir.
E na segunda não há diferenças sensíveis em relação ao Centrão de “centro direita” que vive da eterna expansão fiscal. Assistencialismo virou política de Estado. Lula é altamente competitivo sobretudo – neste momento – em função dos erros e omissões de seus adversários. Mas parece que resolveu devolver o favor.
Lula tenta se blindar de responsabilização política ao chamar ação no Rio de 'matança'
Por Ivan Martínez-Vargas — Brasília / O GLOBO
Lula fala com jornalistas estrangeiros em Belém — Foto: Pablo Porciúncula/AFP
Ao declarar que a operação Contenção, realizada pelas polícias do Rio e que deixou 121 mortos, foi uma "matança", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis deixar um registro de manifestação sobre o assunto para o futuro, ocasião em que eventuais investigações podem chegar à conclusão de abusos. A ideia do petista, segundo aliados, é não ser responsabilizado politicamente pela omissão. Além disso, apoiadores acham importante demarcar que o governo federal não vê como aceitáveis possíveis violações de direitos humanos, mesmo que os atos de repressão sejam populares.
Aliados próximos do presidente afirmam, reservadamente, que a estratégia de esperar para dar uma declaração pública também foi proposital. O Palácio do Planalto não quis dar corda a uma disputa midiática com a gestão de Cláudio Castro, mas o presidente avaliou ser necessário dar sua visão após os primeiros dias da operação, considerada a mais letal da história do país.
— O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa — afirmou Lula em entrevista a agências internacionais em Belém, cidade que vai sediar a COP30 nas próximas semanas.
O presidente também disse que “houve uma matança” e que “é importante investigar em que condições ocorreu”. A escolha de falar a agências internacionais não foi trivial. Lula quis falar também para o público externo — na imprensa internacional a operação foi retratada majoritariamente de maneira negativa.
Embora a operação traga ganhos de popularidade ao Castro no curto prazo, assessores próximos de Lula fazem um paralelo dessa operação com a que matou 111 detentos no Carandiru. No longo prazo e na História, o governo Fleury ficou marcado pelas execuções.
Um aliado que esteve com o presidente ao longo da terça-feira em Belém diz que a fala de Lula é lastreada na comparação com outras operações de combate ao crime organizado.
O exemplo usado mais por assessores de Lula é o da Operação Freedom, deflagrada pela Polícia civil da Bahia, estado governado pelo PT, na própria terça-feira. A polícia baiana deflagrou a operação com o intuito de desarticular o núcleo armado e financeiro do Comando Vermelho, a mesma facção criminosa que havia sido alvo da ação policial no Rio.
A operação na Bahia prendeu 38 pessoas e resultou na morte de um único suspeito, que usava roupas camufladas e portava um revólver. Foram cumpridos 46 mandados de busca e apreensão, de forma simultânea, na Bahia e no Ceará e houve o bloqueio de 51 contas bancárias supostamente usadas pela organização criminosa.
Na Contenção, 99 pessoas foram detidas, sendo 82 em flagrante e 17 com mandados de prisão. Além disso, foram apreendidos 96 fuzis, 25 pistolas e um revólver.
No Planalto, a avaliação é de que ambas as operações policiais foram realizadas contra a mesma facção e para cumprir mandados judiciais, mas tiveram índices de letalidade muito diferentes. O argumento é que o número de mortos na Operação Contenção precisa ser investigado e que a operação policial na Bahia mostra que é possível combater o crime organizado com respeito ao Estado Democrático de Direito.
Além disso, assessores do presidente lembram que, apesar de Lula não ter se manifestado publicamente sobre o tema nos primeiros dias, ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) já haviam feito críticas à operação.
Um movimento de endosso à operação do Rio ou um silêncio mais prolongado sobre o tema, diz um assessor próximo de Lula, poderia ser lido como oportunismo político, ao passo que a defesa de investigações e de ações policiais com o foco em ações de inteligência são bons contrapontos à ação. Lula disse em Belém que o governo federal já está "tentando (fazer) essa investigação".
— Estamos tentando, inclusive, ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte. A decisão do juiz era uma ordem de prisão. Não tinha ordem de matança e houve uma matança. É importante a gente verificar em que condições ela se deu — ressaltou o presidente.
Apesar disso, o governo de Cláudio Castro dispensou na quarta-feria o auxílio de peritos da Polícia Federal para analisar os corpos dos 117 mortos durante a operação Contenção.
Juridicamente, uma investigação federal sobre as mortes só poderia ocorrer caso haja determinação da Justiça, o que pode ocorrer a pedido do Ministério Público ou da Defensoria do Rio.
Haddad, como Lula, dificulta a redução dos juros
EDITORIAL DA FOLHA DE SP
Fernando Haddad foi a voz solitária da racionalidade econômica no governo e no PT até a primeira metade do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo deste ano, contudo, vai deixando de lado os reparos à gestão das contas públicas e compartilhando críticas oportunistas ao Banco Central.
Na terça-feira (4), disse que, se fosse presidente do BC, votaria pela redução dos juros. Nesta quarta (5), para surpresa de ninguém, a instituição manteve sua taxa, a Selic, em 15% anuais.
No atual patamar, os juros são insustentáveis, diz o ministro da Fazenda —é fato. No entanto ele não aborda as condições para que eles possam começar a cair, como afirma desejar, para já.
Na hipótese menos ruim, Haddad apenas prepara discurso para a campanha eleitoral de 2026, ameaçando a credibilidade do BC e dificultando o corte da taxa. Se não é o caso, mostra compreensão precária dos problemas macroeconômicos do país.
A economia ainda está inflacionada. A variação do IPCA deve terminar o ano perto de 4,5%, longe da meta de 3%. A expectativa para o fim de 2027, mesmo com a Selic nas alturas, é de 3,8%. Continua difícil conter a alta dos preços de serviços, pressionados pelo mercado de trabalho aquecido.
O déficit com o exterior sobe, em boa parte devido à queda do saldo comercial, pois as importações crescem, dada a escassez de oferta, sintoma de atividade econômica acima do potencial.
O IPCA melhor do que o esperado deste ano deve-se a safra, clima melhor, preços mundiais bem comportados e queda do dólar por efeito de medidas de Donald Trump. No mais, a carestia e a desvalorização do real são contidas pelo arrocho monetário.
As taxas de juros seriam menores caso houvesse contribuição da política de gastos, que pressiona a demanda. No ano passado, o afrouxamento da meta fiscal e o pacote frustrante de ajuste deram impulso a um movimento de alta de dólar, inflação e juros.
Haddad tergiversa sobre os erros, preferindo atribuir responsabilidades a administrações passadas ou ao Congresso Nacional. De fato, o governo herdou gastos contratados e isenções fiscais —muitas delas, diga-se, de outras administrações petistas. Porém o que fez foi agravar o quadro.
Sob Lula, o Tesouro terá déficit primário (sem contar juros) em todos os anos —neste 2025, o rombo esperado ronda os R$ 70 bilhões, dos quais a maior parte não será considerada para o cumprimento da meta oficial.
A despesa federal já aumentou 14%, em termos reais, cerca de R$ 290 bilhões ao ano, e no momento avança no Congresso um reajuste salarial para os servidores do Judiciário mais caro do mundo. A dívida pública subiu de 71,7% para 78,1% do PIB.
O governo criou as condições que levaram os juros ao insustentável. Baixar a Selic agora ou sem mais causaria danos no dique que contém deterioração macroeconômica ainda maior, se não for o gatilho de tumulto imediato.
Governo testa projeto contra facções em estado comandado pelo PT e tenta driblar resistência de governadores
Por Jeniffer Gularte — Brasília / O GLOBO
O Ministério da Justiça começou a testar um projeto-piloto contra facções criminosas no Nordeste. O governo escolheu uma área do Rio Grande do Norte, estado comandado pela petista Fátima Bezerra, para implantar um projeto em parceria com a USP que prevê a retomada do território por força policial, prendendo lideranças e colocando serviços de acesso à Justiça e assistência social. A primeira operação ocorreu em uma comunidade do Rio Grande do Norte em outubro.
A área foi retomada com forças policiais em uma ação com participação da Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Ministério Público do RN.
A pasta comandada pelo ministro Ricardo Lewandowski planeja divulgar a partir de dezembro os primeiros resultados do território seguro. Se o modelo se demonstrar eficiente, a ideia é multiplicar esse formato em outras áreas conflagradas pelo tráfico.
— É um projeto científico, construído com diálogo com universidade e sociedade civil, que tem como fundamento a inteligência e a retomada por força policial, serviços entrando no território. A polícia entra, satura e depois entram os serviços públicos, e a polícia vai saindo aos poucos — explica o secretário Nacional de Segurança, Mário Sarrubbo.
O Ministério da Justiça trabalha neste projeto desde março, iniciativa que prevê uma ação urbana em múltiplas frentes. A iniciativa prevê, por exemplo, a entrada de serviços público de Defensoria, mediação de conflitos, iluminação, urbanismo e serviços de saúde e educação.
Nota vermelha
É inegável que o Brasil ampliou o acesso à educação nas últimas décadas. Mas tal avanço não se deu pari passu com a aprendizagem, como mostram avaliações domésticas e internacionais. E mais uma pesquisa, divulgada na última quinta (30), evidencia o problema.
O Índice de Inclusão Educacional (IIE), desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, é um indicador que cruza dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) para mensurar a distorção entre série e idade dos alunos em conjunto com o nível de aprendizagem.
O resultado é vexatório. Em 2023, só 15,5% dos jovens se formaram no ensino médio na idade correta (17 anos) ou com apenas 1 ano de atraso e demonstraram conhecimento mínimo desejável em português e matemática. Para piorar, a pandemia interrompeu uma trajetória de alta, e o país não conseguiu se recuperar.
O IIE, que é medido a cada dois anos, era de 9,5% em 2015, subiu a 13,5% em 2017 e atingiu 18,9% em 2019. Em 2021, caiu a 17%.
Há discrepâncias regionais. Dentre os 26 estados mais o Distrito Federal, 4 dos 5 piores colocados são do Norte: Amapá (5,6%), Amazonas e Roraima (6,6%, ao lado do Maranhão) e Pará (6,9%). Já do topo da lista, consta só um estado do Nordeste, o Ceará (18,1%), atrás de São Paulo (18,6%), Goiás (19%), Espírito Santo (19,5%) e Paraná (20,4%).
Baixos índices de aprendizagem estimulam a distorção série-idade com repetência que, por sua vez, leva à evasão escolar, o maior flagelo do ensino médio.
Ademais, esse enorme montante de jovens com educação precária enfrentará dificuldades para continuar sua formação acadêmica ou encontrar trabalho e alcançar boa remuneração. Trata-se, portanto, de um ciclo de mediocridade que limita talentos individuais e o desenvolvimento econômico do país.
Tal gargalo precisa ser atacado já no ensino fundamental, com aulas de reforço para alunos em defasagem. O modelo de ensino integral, que melhora indicadores, deve ser expandido nas duas etapa da educação básica.
A reforma do ensino médio, que ampliou a carga horária de disciplinas obrigatórias como português e matemática, além de adaptar o currículo aos interesses dos alunos inclusive com o ensino técnico, também tem potencial para minimizar a evasão e incrementar a aprendizagem.
Espera-se, assim, que a expansão de matrículas possa enfim redundar num ensino de qualidade.
Declaração de Lula sobre operação irá prejudicá-lo eleitoralmente
Por Fabiano Lana / O ESTADÃO DE SP
De um lado, o presidente Lula finalmente se pronuncia verbalmente sobre a megaoperação que fulminou cerca de 120 homens no Rio de Janeiro. Considerou uma “matança” e “desastrada”.
De outro, temos a mesma ação majoritariamente aprovada pelos brasileiros. E com índices que se aproximam de 90% nos locais mais afetados pelo tráfico, as favelas da capital fluminense. E, por fim, uma imagem que vale por mil palavras.
No último domingo, ao comparecer à missa matinal, o governador Cláudio Castro foi aplaudido de maneira veemente pelos fiéis – que provavelmente não se lembraram do versículo de Mateus sobre amar até os inimigos (5:44).
Se, em breve, os traficantes conseguirem se recompor e voltar a dominar toda a região conflagrada no Rio, Lula pode até ter razão do ponto de vista dos fatos. Teria sido uma matança inútil, que não abalou de maneira profunda o comércio de venda de drogas na região, nem mesmo o controle de território pelas facções. Isso logo saberemos.
Na prática, o que temos visto são os criminosos seguirem a enfrentar o Estado depois dessas operações que deixam um rastro de sangue nas ruas.
Também conta toda a ideologia do presidente Lula, que não vê o criminoso como alguém apenas dotado de uma psicologia intrinsicamente perversa. Mas uma espécie de vítima (nas palavras dele) de um sistema muito maior, que envolve usuários dispostos a pagar uma fortuna pela droga, uma polícia truculenta, uma sociedade desigual que o oprime e não lhe oferece saídas. A visão clássica da esquerda sobre a bandidagem.
O que Lula pode não ter percebido (ou tem consciência disso, mesmo assim enfrentou a opinião pública) é que os atos policiais violentos no Rio de Janeiro são fortemente aprovados não pela sua racionalidade, mas pelo grau de catarse envolvido. No sentido de que a megaoperação ajudou a liberar uma série de emoções reprimidas por tantos.
A fúria descarregada sobre quem, em tese, ameaça a nossa vida diariamente. O presidente, nas eleições, por causa de frases como a de hoje, terá que dar explicações. Mais uma vez será acuado pelos adversários como “protetor de bandidos”.
É ultrajante criminosos ocuparem territórios, extorquirem moradores de comunidades pobres, imporem toques de recolher, lei do silêncio. Uma espécie de regime totalitário dentro de tantas comunidades aceito passivamente por parcela de extratos privilegiados da sociedade. Cria-se todo um caldo que se desdobra em revolta surda por quem está envolvido ou se sente acuado.
Aplaudir a matança, no final das contas, tem mais a ver com o desespero de perceber todo esse absurdo ocorrer e finalmente o Estado agir. Acordou e se moveu, executando, contra quem consideram bandidos.
Exaltar tantos assassinatos pode ser, ao mesmo tempo, inaceitável do ponto de vista de preceitos éticos abstratos (um filósofo como Kant ficaria horrorizado) e compreensível quando se leva em conta o mundo real. É uma reação humana, demasiada humana. Contraditória, muitas vezes inevitável, e necessariamente violenta.
TCU dá 15 dias para Hugo Motta prestar esclarecimentos sobre suspeitas de ter funcionárias fantasmas
Por O GLOBO — Brasília / O GLOBO
A área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) solicitou ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que preste esclarecimentos sobre suspeitas de empregar funcionárias fantasmas em seu gabinete. A Corte de Contas deu um prazo de 15 dias para que Motta forneça uma série de dados que comprovem que as funcionárias exerciam de fato as atividades para as quais eram contratadas.
Em reportagem publicada em julho, o jornal Folha de S. Paulo mostrou o caso de três servidoras que acumulavam o cargo com outras ocupações. Gabriela Pagidis, com salário de R$ 11,4 mil, e Monique Magno, com salário de R$ 1,7 mil, exerciam funções remotas e estavam no gabinete de Motta, mas tiveram a exoneração encaminhada.
“Quanto aos indícios de irregularidade, a representação informa que os fatos narrados teriam potencial de causar dano ao erário. Nesse sentido, faz-se necessário diligenciar ao gabinete do representado para que preste esclarecimentos sobre o regime de trabalho das servidoras acusadas de trabalhar como funcionárias fantasmas antes que seja realizada uma análise precisa da admissibilidade da representação”, diz a decisão da área técnica do TCU.
O parececer do TCU, noticiado pelo Metrópoles, também foi obtido pelo GLOBO.
Em nota divulgada em julho, Motta afirmou que “preza pelo cumprimento rigoroso das obrigações dos funcionários de seu gabinete, incluindo os que atuam de forma remota e são dispensados do ponto dentro das regras estabelecidas pela Câmara”.
Como a vaga não era presencial, as funcionárias tinham dispensa de marcação de ponto. Segundo a Folha, Motta empregou em seu gabinete três funcionárias com rotinas incompatíveis com as funções que deveriam exercer no Legislativo. As duas dispensadas são uma fisioterapeuta (Gabriela Pagidis) e uma assistente social (Monique Magno) de uma prefeitura na Paraíba.
Em reportagem, a Folha citou ainda uma estudante de medicina. Todas são contratadas no cargo de secretário parlamentar, com jornada de 40 horas semanais, com proibição de exercer outra função pública e sem necessidade de bater o ponto com biometria na Câmara.



