A sociologia de Lula romantiza o crime
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Já entrou para a antologia política a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que os traficantes são “vítimas dos usuários”. Em seguida, temendo os efeitos eleitorais, tentou dizer que a frase foi “mal colocada”. Seus intelectuais de estimação – sempre prontos a traduzir toda estupidez lulista em tese sociológica – contemporizaram: o presidente só queria apontar a cumplicidade do consumo na cadeia do tráfico. Mas não foi ato falho. Para Lula e a esquerda, o crime, numa sociedade capitalista, é mero subproduto do meio, um reflexo das desigualdades. A culpa, portanto, é da sociedade.
De Marx a Foucault, a cada geração os esquerdistas conjuram a fraseologia da “violência estrutural” para dissolver responsabilidades pessoais em sociologia. O criminoso é desconstruído como sujeito ético e reduzido a objeto de forças externas. No lugar da moral, entra o diagnóstico: “contextos de vulnerabilidade”, “ressocialização em meio aberto”, “reeducação psicossocial”. Sob essa semântica profilática, a delinquência vira sintoma, e o delinquente, paciente de uma patologia coletiva diagnosticada por quem jamais esperou um ônibus à noite. E enquanto o crime avança, os criminólogos lapidam eufemismos.
Essa subcultura humanitária não disfarça uma inversão moral: a compaixão pervertida em condescendência. A responsabilização do indivíduo é tratada como opressão burguesa, e a indulgência, como virtude. O progressismo cultiva o marginal como símbolo de “autenticidade social”, enquanto humilha o cidadão comum, que paga impostos e respeita a lei, como hipócrita e alienado. O delinquente virou personagem de “resistência”; o trabalhador, engrenagem da máquina de opressão.
A teologia da inocência universal esquerdista redime vítimas perpétuas e condena culpados abstratos: o “sistema”, o “mercado”, a “herança colonial”. Mas, mais do que um instrumento de satisfação narcísica, essa vitimologia é uma ferramenta de poder: um modo de capturar o monopólio da virtude, exigir mandatos para desconstruir “estruturas” e desmoralizar toda contestação como repressão “fascista”.
Os ideólogos que povoam o governo alternam garantismo e punitivismo ao sabor da conveniência política: rigor contra adversários, indulgência com aliados. É a ética dos “companheiros” travestida de teoria crítica. Os mesmos militantes que celebram terroristas e ditadores recriminam a punição a delinquentes como “violência estatal”. Entre o sentimentalismo e o cinismo, derramam lágrimas para bandidos e fazem selfies com tiranos.
O Comando Vermelho herdou mais que seu nome das milícias marxistas dos anos 1970. Elas lhe ensinaram não só táticas de guerrilha urbana, mas o léxico da guerra cultural. “Paz, justiça e liberdade!”, rezava o lema da facção, enquanto a contracultura glamourizava a bandidagem: “Seja marginal, seja herói!”.
Hoje a esquerda festiva celebra qualquer pichador como um Rimbaud das periferias. Mas essa farsa revolucionária se repete todos os dias como tragédia. Juízes progressistas libertam criminosos com dezenas de reincidências (alegando que o “Estado de Direito” não admite “futurologia”), desativam hospitais de custódia e despejam psicopatas em “ambientes comunitários”. ONGs financiadas por facções filmam documentários sobre “direitos humanos”. Ministros e secretários de Segurança querem enfrentar o crime com assistentes sociais e campanhas de reeducação. O resultado é um país onde o medo é rotina, e a lei, ficção.
A ideologia coitadista fabricou um paradoxo cruel: quanto mais a esquerda se compadece dos criminosos, mais abandona os pobres. O progressismo penal, que se apresenta como gesto civilizatório, é na prática um luxo ostentado por elites protegidas nas torres de marfim da academia ou em condomínios amuralhados. E quem paga a conta são os pobres. São eles que veem seus filhos aliciados, seus bairros sitiados, sua vida devorada por uma guerra estetizada pela retórica progressista.
Nenhuma sociedade pode prosperar quando transforma a justiça em “opressão” e o criminoso em “oprimido”. O Brasil já experimentou o bastante dessa moral bastarda. É tempo de descartar a mitologia de que punir o criminoso é “criminalizar o pobre”. A esquerda quis humanizar o crime. Desumanizou-se a si mesma. E os pobres são punidos todos os dias pelos tribunais da bandidagem.
Por que Brasil virou refém de Lula para preservar democracia
Marcio Aith
Quando Lula sentou-se ao lado do turbulento Donald Trump em Kuala Lumpur, no domingo passado, o encontro tinha todos os ingredientes do impossível. Três meses antes, Washington havia imposto tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal. A crise bilateral era a mais grave em dois séculos de relações diplomáticas.
E ali estava Lula —perseguido, preso, com processos anulados pelo STF, reeleito— conversando de igual para igual com Trump, que declarou admirar a carreira política do brasileiro, eleito três vezes presidente da República.
A cena na Malásia é a síntese perfeita da extraordinária capacidade de sobrevivência política de Lula. Ele renasce das cinzas. Da prisão em Curitiba ao Palácio do Planalto em menos de cinco anos. Do político com processos judiciais ao estadista que negocia com potências. Essa capacidade de renascimento, porém, tornou-se também sintoma de uma debilidade nacional: nossa democracia não consegue produzir alternativas ao seu protagonista mais longevo.
Poucos dias antes, em Jacarta (Indonésia), Lula havia encerrado qualquer suspense sobre 2026. "Eu vou completar 80 anos, mas pode ter certeza que eu estou com a mesma energia de quando tinha 30 anos. Vou disputar um quarto mandato no Brasil", declarou ao lado do presidente indonésio Prabowo Subianto. E completou, com uma franqueza reveladora: "Estou preparado para disputar outras eleições."
Com essa frase, acabou o falatório mais previsível da política brasileira. Em 2022, o mesmo Lula dizia: "Quando chegar 31 de dezembro de 2026, quando a gente entregar esse mandato para outra pessoa, o país estará bem".
Pois bem. Chegou o segundo ato. Prometeu mudar tudo e mudou de ideia. Jurou sair, mas só jurou. A indecisão foi teatro. O final, previsível.
Ao confirmar que disputará um quarto mandato, Lula encerra o teatro da dúvida e revela um país incapaz de substituí-lo. Neste ponto, o autor se vê obrigado a corrigir o próprio texto: não se trata de disputar um quarto mandato, mas de uma sétima tentativa presidencial. Lula foi candidato em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2022 e agora será novamente em 2026. Antes disso, foi eleito deputado federal em 1986 e derrotado ao governo de São Paulo em 1982.
Ou seja: há 43 anos Lula é candidato a alguma coisa. E talvez o país tenha se acostumado tanto a vê-lo disputar que, quando vota nele, parece reencenar o mesmo ato.
A questão, portanto, não é a idade, mas a longevidade. Não a biológica, mas a política: o fato de o Brasil, quatro décadas depois, ainda depender do mesmo nome para salvar a democracia, articular esperança, poder e estabilidade. A política brasileira parece um carrossel: gira, mas o eixo continua sendo Lula.
Nascido em 27 de outubro de 1945, ele chegará ao primeiro turno de 2026 com 80 anos e 11 meses; ao segundo, com 81. Nenhum presidente em democracia consolidada chegou tão longe em idade e, sobretudo, em tempo de influência contínua. Mas não é o corpo que preocupa. É o vazio em volta.
A energia de Lula aos 80 é, de fato, notável. Viajou 22 horas de avião até a Indonésia. Participou de cerimônias, firmou acordos comerciais, ganhou uma festa de aniversário antecipada com o presidente Subianto (que fez 74 anos dias antes). Seguiu para a Malásia. Reuniu-se com Trump por 50 minutos. Negociou tarifas, defendeu ministros do STF, propôs mediação na Venezuela. Voltou ao Brasil após uma semana de agenda intensa.
Não há sinais de fadiga cognitiva. Não há perda de comando. Lula mantém o instinto político, o carisma, a capacidade de improvisação —que, de tão eficiente, às vezes tropeça na autoconfiança e comete gafes, como a de dizer que traficantes são vítimas de usuários. Sua lucidez aos 80 anos supera a de muitos líderes mais jovens.
Individualmente, tanta vitalidade é admirável. Coletivamente, nosso problema é a ausência de energia ao redor dele. Lula persiste porque o sistema não produziu alternativas —e ele mesmo não permitiu que existissem.
Em 2010, obrigado a deixar o cargo, Lula tinha capital político para eleger qualquer um. Havia quadros preparados, lideranças jovens, ministros de talento. Ele escolheu Dilma Rousseff, uma técnica sem trajetória eleitoral, com origem em outro partido.
O objetivo era claro: não o ameaçar. Dilma não foi projetada para liderar, mas para guardar o lugar até o retorno do chefe. Lula quis voltar em 2014? Os que o conhecem de perto dizem que sim. Não voltou por resistência da própria Dilma, em um episódio nunca satisfatoriamente esmiuçado por jornalistas, historiadores e cientistas políticos.
Fernando Haddad, desprezado em 2010, só virou alternativa na missão impossível de 2018, quando Lula estava preso, e Bolsonaro varreu o país. E Haddad, agora, carrega pedras no Ministério da Fazenda. É assim que Lula move as suas peças
(Aqui, o autor se vê obrigado a corrigir novamente o próprio texto. Mesmo da prisão, em 2018, Lula se lançou candidato, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral. O que leva a oito o número de suas tentativas presidenciais.)
Dilma não foi herdeira, foi interregno. Haddad virou preposto. Gleisi Hoffmann é bedel, não alternativa. Nenhum sucessor sobreviveu dentro do PT. O partido envelheceu sob a sombra do homem que o fundou. E ali ficou. Na sombra. Houve várias oportunidades de forjar novas lideranças ao longo de décadas. E 2010 talvez tenha sido o momento mais adequado para uma verdadeira renovação.
Em 2022, Lula literalmente segurou a democracia pelo colarinho. Por pouco. Mas 2026 será outra história. O golpismo bolsonarista, que quase venceu, foi contido e punido. O próximo pleito promete correr dentro da normalidade democrática. A direita terá seu nome. À esquerda, só há Lula. Ao redor dele, o deserto político que ele mesmo ajudou a criar.
E sempre há uma justificativa para Lula concorrer. Desta vez, é o avanço da direita no eleitorado. Só ele poderia se contrapor a essa onda. Só ele manteria a esquerda no poder. A lógica se renova a cada ciclo, mas o protagonista permanece o mesmo.
A crítica, repito, não é ao octogenário candidato, mas ao sistema político que o torna indispensável, ao partido que se dissolveu nele e ao país que não soube criar alternativas.
Lula é populista. E isso não é ofensa, é constatação. Dispenso o aval acadêmico: a palavra tem valor descritivo, não depreciativo. Quando "Vem fazer o L" substitui programa partidário, fica óbvio que não há mais partido, apenas um homem.
O homem que fala "como o povo" há décadas aprendeu a ser o próprio povo. Seu populismo é democrático, performático, conciliador e centrado em si. Fala aos de baixo contra os de cima, encarna o injustiçado que venceu, transforma a biografia em mito. Promove inclusão social sem romper o pacto dos privilegiados: rentistas, conglomerados erguidos por crédito estatal.
Seria injusto, porém, tratar Lula como aberração. Os modelos de representação mudaram no mundo todo, como bem demonstrou o cientista político francês Bernard Manin, falecido em novembro de 2024. Segundo ele, as democracias contemporâneas deixaram de ser de partido para se tornarem "democracias de público".
Nelas, os eleitores não se guiam mais por ideologias ou programas coletivos, mas por vínculos afetivos com figuras carismáticas. A política virou espetáculo, e o voto, ato de identificação pessoal. O líder passa a representar o sentimento difuso da maioria —não uma plataforma, mas um personagem.
Nesse ambiente, o populismo não é desvio nem destino: é uma possibilidade constante. Surge quando a representação política se confunde com a performance, e o público transforma o político em protagonista. A democracia de partido deu lugar à democracia do público.
Há outro fator a se registrar. Lula também é filho legítimo do sistema que o cerca, o mesmo que manteve oligarquias no poder por décadas. Alckmin governou São Paulo durante 12 anos no período de hegemonia tucana; Sarney controlou o Maranhão por quase meio século; ACM transformou a Bahia em dinastia; Maluf, Quércia, Garotinho e Barbalho são variações regionais do mesmo padrão. No Brasil, o poder raramente troca de mãos.
Lula, portanto, não inventou a perpetuação, apenas a democratizou. Construiu sua longevidade no voto direto, na popularidade genuína e no carisma pessoal. No entanto, o resultado é o mesmo: a incapacidade do sistema de produzir renovação.
E não apenas nas eleições majoritárias. Como observa o cientista político Antonio Lavareda, o voto proporcional em "lista aberta" é, na prática, uma lista desordenada, um convite para escolher rostos, não ideias. O modelo transforma cada candidatura em uma franquia pessoal de poder. O voto deixa de representar um projeto coletivo e vira ativo privado.
As legendas, dominadas por seus donos de voto, perdem a capacidade de se renovar. O resultado é um Congresso imóvel, de caciques vitalícios e reeleições sem fim. É nesse terreno que o populismo prospera —e que Lula se torna, mais do que líder, uma instituição.
Democracias tendem a se apegar a líderes que parecem insubstituíveis, como os Estados Unidos fizeram com Franklin D. Roosevelt, eleito quatro vezes seguidas entre 1933 e 1945. Sua permanência no poder foi tamanha que o país criou, em 1951, a 22ª Emenda, limitando todos os presidentes a dois mandatos. A medida nasceu do medo de ver uma democracia transformar-se em monarquia eletiva.
O Brasil, ao permitir a reeleição em 1997 através da Emenda Constitucional nº 16, seguiu caminho oposto. Acreditou que a limitação a dois mandatos consecutivos, ainda que com a possibilidade de retorno depois de um interregno, seria suficiente para evitar a perpetuação.
Ignorou, porém, a lição que o caso Roosevelt havia ensinado: um líder não precisa de golpe ou fraude para se perpetuar. Bastam a popularidade e a falta de alternativas. Foi exatamente isso que os americanos temeram: não o abuso do poder, mas a dependência em relação ao líder.
Lula, como Roosevelt, não governa pela força, mas pela ausência de quem possa substituí-lo. E, como Roosevelt, tornou-se o fiador de uma estabilidade que, também, esconde a fragilidade das instituições. A diferença é que os americanos aprenderam a lição em 1951. O Brasil ainda a adia.
Lula, aos 81, será o mais velho candidato de uma democracia estável. E o mais longevo líder popular da história do país. Getúlio Vargas, é verdade, governou por mais tempo —18 anos e meio, entre 1930 e 1954. Mas desses, apenas seis anos e meio foram em governos democráticos (1934 a 1937,eleito pela Assembleia Nacional Constituinte, e 1951 a 1954, dessa vez pelo voto popular). Oito anos foram de ditadura declarada, no Estado Novo (1937-1945). Quatro anos, de governo provisório sem eleições (1930-1934), após tomar o poder pela Revolução de 1930. Getúlio construiu sua longevidade também pela força, pelo golpe, pela supressão do voto.
Lula, ao contrário, construiu a sua exclusivamente pelo voto direto, pela popularidade genuína, pela capacidade de se reinventar dentro das regras democráticas. É exatamente isso que torna sua longevidade ainda mais emblemática: não apenas o tempo no poder impressiona, mas sobretudo os 43 anos de influência política ininterrupta, de candidaturas sucessivas, de presença constante no imaginário nacional.
Um feito admirável e, ao mesmo tempo, um sintoma alarmante: o de uma nação que confunde continuidade com futuro. A democracia envelhece quando o futuro é tratado como risco, e o passado, como zona de conforto.
O encontro com Trump na Malásia provou que Lula ainda tem energia, sagacidade e presença de palco. Mas também revelou algo mais profundo: o Brasil, após 43 anos, ainda precisa dele para se fazer ouvir no mundo. O Brasil não envelheceu com Lula. O Brasil envelheceu por não conseguir sair de dentro dele.
Lula volta para a defensiva com operação no Rio e sofre ataque em redes, Congresso e estados
A segurança pública, tema em que a esquerda costuma patinar, foi alçada à prioridade das discussões do governo Lula (PT) com a crise decorrente da megaoperação contra a facção Comando Vermelho, recolocando o petista na defensiva.
A ação de terça-feira (28) no Rio de Janeiro se tornou a mais letal da história do país, com 121 mortes, e fez Lula tomar atitudes até então inusitadas no campo da esquerda, em uma movimentação embalada pela apreensão entre aliados com os efeitos sobre a imagem de sua gestão.
Pesquisa Datafolha mostrou que a operação foi vista como um sucesso por 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio, contra 39% que pensam o contrário.
A operação patrocinada pelo governo do oposicionista Claudio Castro (PL) deixou em segundo plano, no campo político, assuntos até então na ordem do dia, como as negociações em torno do tarifaço de Donald Trump.
Mais do que isso, reunificou o discurso da direita —até então abalada pelas ações de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos e a condenação de Jair Bolsonaro (PL).
Além disso, interrompeu um ciclo de boas notícias para o Palácio do Planalto, que esperava pautar a campanha em busca de um quarto mandato de Lula com bandeiras como a defesa da soberania e da justiça tributária.
Destoando da reação histórica da esquerda a esse tipo de ação, Lula não criticou ou questionou publicamente a operação policial e evitou falar diretamente sobre o caso, o que deixou eventuais manifestações alusivas a "chacina" e "massacre" para a esquerda no Congresso, em especial o PSOL.
Havia uma expectativa de que Lula usasse evento de posse de Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência, na quarta (29), para abordar o tema —o que não ocorreu. Na ocasião, houve um minuto de silêncio pelas vítimas da operação.
O petista só quebrou o silêncio à noite, numa publicação nas redes sociais, em que falou em "trabalho coordenado" contra o tráfico de drogas que atinja a espinha dorsal do crime "sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco."
Um aliado de Lula diz que essa estratégia foi pensada justamente para evitar qualquer outro tipo de fala do presidente que pudesse ser usada por opositores para desgastá-lo.
Tão inusual quanto a ausência de questionamentos à ação policial foi o fato de o governo exaltar nas redes sociais para a sanção, por Lula, do projeto que prevê pena de prisão para quem planeja ataque ou ameaça contra autoridades que combatem o crime organizado.
Além de a esquerda quase sempre dizer que propostas de endurecimento da legislação penal não resolvem a criminalidade, o projeto em questão é de autoria do senador Sergio Moro (União Brasil-PR), responsável pelas condenações e prisão de Lula quando era juiz.
"É mais um passo no combate ao crime com inteligência, integração e punição. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro, contra o crime organizado", diz a peça, sem citar o ex-juiz.
Lula já havia derrapado no tema da segurança pública ao chamar traficantes de vítimas —diante da repercussão, ele depois se retratou. A frase o levou a voltar ao foco da direita nas redes, sob o discurso de que ele e a esquerda defendem bandidos. Os ataques se intensificaram após a ação no Rio.
"Não dá mais para tratar o criminoso como vítima. O criminoso não é vítima, o criminoso faz vítima", disse o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), principal nome cotado para enfrentar Lula no ano que vem, em postagem sobre a reunião com governadores para tratar sobre o Rio, com mais de 3 milhões de visualizações até esta sexta-feira (31).
Apesar de a segurança pública ser um tema de competência dos estados, há uma avaliação entre integrantes do governo Lula de que essa crise poderá frear a maré favorável dos últimos meses ao petista.
Em meio às discussões sobre a reação mais adequada, aliados cobraram celeridade na tramitação de projetos enviados pelo Executivo que ainda não tinham sido chancelados, como a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública.
A megaoperção no Rio serviu também de oportunidade para governadores de direita, alguns deles pré-candidatos ao Planalto, novamente tentarem fustigar o petista. Na quinta (30), eles se reuniram no Rio para demonstrar apoio a Castro.
Em discursos com tom de campanha eleitoral antecipada, anunciaram a criação de um grupo que chamaram de "Consórcio da Paz", que reunirá os chefes dos Executivos estaduais em torno de ações de combate ao crime organizado.
Entre aliados de Lula, a reação foi de críticas às reais motivações dessa união. Boulos e a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) disseram que o grupo atua para colocar o Brasil no radar de intervenções do governo Trump, num incentivo à ofensiva do americano contra a soberania brasileira.
Nos bastidores, um auxiliar do petista diz avaliar que a operação no Rio é uma espécie de tábua de salvação da direita, que estava acuada nos últimos meses. Ele reconhece que esse fato gerou uma oportunidade para unir os governadores numa tentativa deles se descolarem da figura de Bolsonaro.
Apesar de reconhecer possíveis efeitos negativos para o governo federal, esse aliado diz avaliar que o tema da segurança pública, por mais relevante que seja, não é, sozinho, determinante em resultados eleitorais.
Nas redes, a estratégia do governo será apostar no discurso de que está promovendo alterações no sentido de vencer o crime pela inteligência e não à bala, fazendo referências frequentes à Operação Carbono Oculto, em São Paulo, que contou com a atuação integrada da Polícia Federal, da Polícia Militar de São Paulo, do Ministério Público Federal e da Receita Federal, e identificou a infiltração do PCC no setor de combustíveis.
Um dirigente do PT diz que o partido encomendou duas pesquisas para entender o sentimento dos brasileiros em relação à megaoperação, uma presencial e outra digital. Ele afirma que o partido deverá ser objetivo no enfrentamento da narrativa da oposição, mas sem se estender na temática.
Gasto público desordenado afeta acesso a livros didáticos
A expansão desordenada de gastos desde o início do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não impacta apenas a política monetária, com juros escorchantes para controlar a inflação, mas políticas públicas essenciais.
É o caso do acesso a livros didáticos na rede pública de ensino. Para que as editoras consigam entregar as obras até o início do ano letivo de 2026, as encomendas deveriam ter sido feitas até agosto. Mas, como revelou a Folha, em julho ainda não havia pedido para parcela considerável dos cerca de 240 milhões de exemplares necessários.
Logo após a publicação da reportagem, o Ministério da Educação afirmou ter conseguido a verba para suprir integralmente a demanda. Ao final de agosto, contudo, os livros não haviam sido comprados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão ligado ao MEC responsável pela aquisição.
Agora, faltando apenas dois meses para o fim do ano, o problema continua, e a pasta ainda está em busca de recursos.
Há cerca de R$ 2,3 bilhões reservados aos livros, mas o MEC pede R$ 3,7 bilhões —as obras só para o ensino médio custariam em torno de R$ 1,4 bilhão.
Em ofício entregue à equipe econômica do governo na semana passada, o FNDE afirma que o atraso no repasse "compromete, também, a entrega nacional dos exemplares em tempo hábil para utilização pelos alunos". Ressalte-se que comunicado de teor semelhante já havia sido encaminhado pelo órgão em agosto.
Assim, a pasta foi obrigada a fazer escolhas. Em julho, das cerca de 59 milhões de obras para todas as disciplinas dos anos iniciais do ensino fundamental, foram encomendadas 23 milhões só para português e matemática.
Nenhum dos exemplares do tipo consumível (apostilas) de história, geografia e ciências, do 1º ao 3º ano, e de artes, do 1º ao 5º ano, havia sido adquirido. Para os anos finais dessa etapa (6º ao ao 9º), também só português e matemática foram contemplados.
Considerando os indicadores sofríveis da educação brasileira, tal incompetência é inaceitável. No Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências de 2024, o país ficou entre os últimos colocados na avaliação das duas disciplinas no 4º e no 8º ano do ensino fundamental e foi superado pelo vizinho Chile.
O governo Lula 3 promoveu expansão inaudita e insustentável do gasto federal, em especial com aposentadorias e outros benefícios sociais. O resultado é o estrangulamento progressivo de programas de execução não obrigatória no Orçamento, caso do Programa Nacional do Livro Didático, cujos recursos vêm sendo comprimidos desde 2023.
É ilusório imaginar que ampliar despesas com a seguridade será eficaz no combate à pobreza se não houver equilíbrio fiscal. Cedo ou tarde, inflação, juros, baixo crescimento econômico e cortes em serviços públicos incidirão sobre os estratos carentes.
Diretor-geral diz que PF no Rio sabia de operação e descartou participação
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta quarta-feira (29) que a equipe da corporação no Rio de Janeiro foi informada que haveria uma operação no Rio de Janeiro. No entanto, após analisar as características apresentadas no planejamento operacional, decidiu não participar por entender que não se tratava do tipo de atuação compatível com a PF.
A operação das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro deixou ao menos 119 mortos, incluindo quatro policiais, sendo a mais letal do país.
A declaração foi dada após o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, falar à imprensa que o governo federal não havia sido avisado da operação no Rio.
Andrei, no entanto, acrescentou que a data da operação não foi comunicada à Polícia Federal.
"Houve um contato em nível operacional informando que haveria uma grande operação e se a Polícia Federal teria alguma possibilidade de atuação na sua área e dentro do seu papel. A nossa equipe do Rio de Janeiro, a partir da análise geral do planejamento, não teve detalhes do planejamento. Entendemos que não é o modo como a polícia atua, o modo de fazer operações", disse.
"O colega do Rio de Janeiro informou o seu contato operacional que a PF segue seu trabalho de investigação, de polícia judiciária, fazendo seu trabalho de inteligência, mas que aquela operação que era do estado, tinha mais de cem mandados para cumprir do estado do Rio de Janeiro, não teríamos atribuição legal para participar e, portanto, não fazia sentido nossa participação", acrescentou.
Durante a fala do diretor-geral da PF, Lewandowski o interrompeu e disse que a comunicação precisa ser feita pelos níveis superiores das autoridades.
"A comunicação entre governador de estado e governo federal tem que se dar ao nível de autoridades de hierarquias mais elevadas. Uma operação desse nível, porte, não pode ser acordada entre o segundo ou terceiro escalão. Se fosse uma operação que exigisse a interferência do governo federal, o presidente da República deveria ser avisado, o vice-presidente que estava respondendo, ou o ministro da Justiça e Segurança Pública ou o próprio diretor-geral da PF", disse.
A ação ocorreu enquanto Lula retornava de uma visita oficial ao continente asiático. O presidente ficou incomunicável durante as mais de 15 horas de viagem, só tomando contato com o que ocorria no Brasil ao aterrissar. A conversa desta quarta foi feita na residência oficial da Presidência, o Palácio da Alvorada, em Brasília.
Operação no Rio: os bastidores da reunião no Palácio do Planalto que discutiu a GLO
Por Bela Megale / O GLOBO
Policiais entrando na Vila Cruzeiro, na Penha, durante Operação Contenção — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
A decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi um dos temas tratados na reunião de emergência realizada no Palácio do Planalto nesta terça-feira (28), sobre a megaoperação da polícia do Rio de Janeiro na zona norte da cidade, que deixou 64 mortos. A ação mirou a facção criminosa Comando Vermelho e se tornou a mais letal da história do estado fluminense.
Segundo presentes na reunião, que durou cerca de duas horas, parte dos integrantes do governo — inclusive um ministro — defendeu a adoção da GLO pelo presidente Lula. Entre os argumentos usados para sustentar a necessidade da medida estava o de que existe uma “falência múltipla” dos órgãos de segurança no Rio de Janeiro. A medida abriria espaço para a atuação das Forças Armadas na área de segurança pública do estado.
Foi consenso, porém, que uma das principais condições para a decretação da GLO é o reconhecimento público, por parte do governador Cláudio Castro, da falta de condições do estado para controlar a segurança pública fluminense, além do pedido formal pela adoção da medida.
No início do ano, o governador do Rio chegou a pedir ao governo federal que cedesse blindados, mas nunca formalizou a solicitação da GLO. Na ocasião, a Advocacia-Geral da União (AGU) avaliou que a cessão dos blindados só poderia ocorrer por meio da decretação da medida. Lula já declarou ser contrário à sua adoção.
Entre os órgãos que se colocam contra a medida está a Polícia Federal, que participou da reunião no Palácio do Planalto. Também estavam presentes Geraldo Alckmin, enquanto presidente em exercício; os ministros da Casa Civil, Rui Costa; da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira; das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann; e da AGU, Jorge Messias; além de representantes dos ministérios da Justiça e da Defesa. O presidente Lula não estava presente porque voltava de viagem da Ásia e estava em voo.
Conforme reportagem do GLOBO, mesmo com o agravamento da crise de segurança no Rio, o Palácio do Planalto não vê, por ora, perspectiva de adoção da GLO.
Apesar do corte da Petrobras, consumidores não percebem redução nos preços dos postos de Fortaleza
Segundo observado pelo personal trainer Lucas Faustino, de 36 anos, que abastecia o carro em um dos postos, o preço do litro da gasolina reduziu poucos centavos em alguns postos de Fortaleza, mas nada muito significativo.
Quem também não percebeu variação no valor da gasolina foi o motorista de aplicativo Carlos Vinicius Cortez, 48, que preferiu abastecer o carro com etanol. Outro gerente de um dos postos, Dailton de Lima, também reforçou que não houve queda no preço da gasolina. "Esse mês todinho ficou em R$ 6,23", indica.
Litro de gasolina no Ceará poderia chegar a R$ 5,55
De acordo com cálculo realizado em matéria publicada pelo Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), caso a redução anunciada pela Petrobras fosse repassada inteiramente ao consumidor, o preço médio do litro da gasolina comum nos postos do Ceará poderia variar entre R$ 5,55 e R$ 6,65.
Esse resultado tem como base os dados mais recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que registrou o menor e maior preço do combustível no Estado como, respectivamente, R$ 5,63 e R$ 6,75.
As informações são referentes à semana de 12 a 18 de outubro, com levantamento feito em 111 postos cearenses.
Ainda segundo os dados, com a aplicação do desconto de 4,9% sobre a parcela da Petrobras na composição do combustível, o preço médio do litro da gasolina no Ceará poderia cair para R$ 6,18, já que a média indicada pela ANP no período em questão foi de R$ 6,27.
Entenda como é calculado o preço da gasolina.
Vale a pena abastecer com etanol?
De acordo com o consultor na área de gás e petróleo, Bruno Iughetti, somente "compensa abastecer com etanol quando o preço por litro for de até 70% do preço por litro de gasolina".
Assim, tomando como exemplo o preço de R$ 6,23 por litro de gasolina, o especialista indica que só será mais vantajoso abastecer com etanol se o preço for de até R$4,36 por litro.
Considerando os preços observados nos três postos visitados nessa segunda-feira (27) (R$ 4,88, R$ 4,69 e R$ 4,63), não é vantajoso abastecer com etanol, de acordo com Iughetti.
Quanto custa encher o tanque com gasolina atualmente em Fortaleza
Considerando o valor de R$ 6,23 para o litro da gasolina comum, encontrado nos três postos visitados pelo Diário do Nordeste nesta segunda-feira (27), uma pessoa precisa desembolsar cerca de R$ 280 para encher um tanque de 45 litros. Já no caso de um carro com tanque de 55 litros, o valor sobe para R$ 342,65.
Caso a redução no preço da gasolina fosse aplicada nos postos do Ceará, os consumidores poderiam economizar de R$ 3,60 a R$ 4,50 para encher um tanque de 45 litros. Já para um tanque de 55 litros, a economia seria entre R$ 4,40 e R$ 5,50.
Em entrevista ao Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), o assessor de assuntos econômicos do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos-CE), Antônio José, salientou que o preço da gasolina é influenciado por uma série de fatores e que não é possível afirmar que a redução da Petrobras irá ocasionar baixa nos preços da gasolina no Ceará.
O Sindipostos-CE foi procurado para um novo posicionamento sobre os preços atuais da gasolina em Fortaleza, mas ainda não retornou os questionamentos. Em caso de novas informações, essa matéria será atualizada. 
Operação expõe limite estadual no combate ao crime
Por Editorial / O GLOBO
A resistência feroz que a polícia fluminense encontrou na operação desta terça-feira contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, é demonstração eloquente dos limites enfrentados pelos governos estaduais no combate às organizações criminosas. A ação reuniu 2,5 mil policiais e deixou ao menos 64 mortos, entre eles quatro policiais, 60 suspeitos, além de vários inocentes feridos. Diante da incursão, os criminosos ergueram barricadas, incendiaram veículos e fecharam vias essenciais paralisando a cidade. Usaram até drones com explosivos para intimidar a polícia.
O secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, reconheceu que o governo do estado não tem condição de enfrentar o tráfico. “Não dá para enfrentar sozinho”, afirmou. “É preciso que, sem ideologia, estado, União e município se sentem à mesa.” O governador Cláudio Castro cobrou “um trabalho de integração muito maior com as forças federais”. Ele disse que pediu apoio de blindados do Exército por três vezes e que os pedidos foram negados. O governo federal afirmou que não houve pedido de ajuda para a operação atual.
A milhares de quilômetros dali, o panorama não é diferente. A cidade colombiana de Leticia, na tríplice fronteira de Brasil, Colômbia e Peru, virou reduto do CV, hegemônico na região, como mostrou reportagem do GLOBO. É lá que a facção negocia com fornecedores a compra de droga, produzida em fazendas vizinhas. Como no Rio, autoridades locais admitem que, isoladamente, não têm como combater o crime. “A gente precisa que haja ação mais incisiva das forças federais, e falo das Forças Armadas mesmo, no combate ao tráfico de drogas”, diz o secretário de Segurança do Amazonas, coronel Marcus Vinicius de Almeida.
A incapacidade dos estados para enfrentar as organizações criminosas já deveria estar clara. Primeiro, porque as maiores, como CV e PCC, atuam em vários estados e até no exterior, dificultando as investigações. Segundo, porque em geral estão mais bem armadas que as forças locais — no Amazonas, policiais abortaram a abordagem de uma lancha ao ver uma arma capaz de derrubar pequenas aeronaves. Terceiro, porque dominam extensões significativas do território, onde as forças de segurança têm dificuldade para entrar.
Não há outra saída a não ser combatê-las, ou elas continuarão a estender seus domínios pela economia formal e até pelas instituições da República. Mas operações letais como a do Rio expõem a vida de policiais e inocentes, com poucos resultados práticos. Daí a necessidade de atuação mais efetiva do governo federal e de maior integração entre as forças de segurança, priorizando o uso de inteligência e tecnologia para asfixiar o crime financeiramente e planejar o foco das ações da polícia.
Executivo e Legislativo têm obrigação de se debruçar sobre o tema urgentemente. Não dá para adiar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que prevê participação do governo federal e articulação entre as diversas forças, nem a legislação antifacção que o governo deve entregar ao Congresso. Eventuais divergências precisam ser superadas. Projetos aprovados recentemente são positivos, mas não resolverão o problema. O Brasil precisa de medidas capazes de tornar o Estado mais organizado que o crime. Ou governos federal e estaduais se unem para enfrentar as organizações criminosas, ou todos sairão derrotados.
Operação das polícias do Rio nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/ 28/10/2025
O bunker eleitoral de Lula e o café servido pelo Planalto
Por Thiago Bronzatto / O GLOBO
O cafezinho servido no Palácio do Planalto tem sido usado como metáfora para ilustrar a estratégia do presidente Lula para 2026. Integrantes do governo costumam dizer que não adianta servir um expresso com pouco adoçante a quem gosta da bebida pura e aos que preferem uma dose extra de açúcar. O meio-termo desagradará aos dois extremos. Segundo essa lógica, não dá para atender ao mesmo tempo o público moderado e o radical. Por isso o plano do chefe do Executivo envolverá uma combinação de elevar o tom dos ataques ao statu quo, reforçando o coro do “nós contra eles”, com medidas que toquem no bolso da classe média.
Daqui até 2026, o Lula que deverá se lançar à reeleição se aproximará mais da figura política controversa de 1989, que emergiu atacando as elites, que do político pragmático de 2002, signatário da “Carta ao povo brasileiro” para tranquilizar o país. O discurso conciliatório na posse em 2023 e a promessa de unir a nação numa frente ampla de partidos de centro têm cedido terreno à retórica antissistema, alicerçada na retomada da popularidade e na dispersão de líderes da direita.
Lula deverá apostar cada vez mais em se conectar com a indignação dos eleitores, criticando a Faria Lima e antagonizando o Congresso. A ideia é hastear as bandeiras da redução da jornada de trabalho, da taxação das grandes fortunas e da tributação das bets. Se não conseguir emplacar essas pautas, a culpa será dos “outros que não deixaram”.
A lógica maniqueísta, que joga contra o futuro do país, será impulsionada tanto pelo bunker eleitoral montado no entorno do presidente quanto pela investida do PT na guerra digital contra a oposição. Além de contar com os conselhos do marqueteiro Sidônio Palmeira, mandachuva da comunicação do governo, Lula terá a seu lado o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), novo ministro da Secretaria-Geral, que recebeu a missão de mobilizar os movimentos sociais a favor das pautas do Planalto. O parlamentar fará dobradinha palaciana com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, ex-presidente do PT, que tem se tornado mais porta-voz da polarização do mandatário que articuladora política.
Alinhado com essa estratégia, o PT reestruturou seu braço de comunicação para aumentar o engajamento das brigas compradas pelo presidente. O partido montou uma equipe própria que atua em sintonia com um grupo de influenciadores digitais arregimentados para espalhar conteúdos de interesse de Lula, nutrindo o algoritmo da polarização política. Entre os assuntos designados pela legenda para propagar nas redes, está um organograma que, sem provas, associa o ex-mandatário Jair Bolsonaro ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, no escândalo de desvio de aposentadorias que ameaça o atual governo.
Além da retórica, o presidente aposta num combo de medidas eleitorais para reconquistar parte da classe média, segmento em que a gestão petista derrapa desde a recessão e o escândalo do petrolão que minaram o governo Dilma. A ideia é ampliar o alcance da imagem de Lula para além do “pai dos pobres”. Nesse terreno, são adubados a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e um novo modelo de crédito imobiliário para comprar a casa própria. Nas palavras de um auxiliar palaciano, as eleições de 2026 deverão ser vencidas ainda em 2025, fazendo a máquina pública girar a favor da reeleição do líder petista.
A cartilha seguida por Lula contraria a do Lula candidato em 2022, quando criticou o então presidente Jair Bolsonaro por ser radical e usar o Planalto a seu favor nas urnas:
— Temos um cidadão que está na Presidência e que está usando a máquina do governo para fazer campanha (…). Quando eu era presidente, a gente só saía para fazer campanha às seis da tarde — disse à época o líder petista , que agora ativa o modo eleitoral antes do fim do expediente.
*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em Brasília
'Excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro', afirma porta-voz da PM sobre confronto entre facções rivais na região da Pedreira e do Chapadão
Por O Globo —
Ao falar sobre a guerra entre bandidos dos complexos da Pedreira (Terceiro Comando Puro) e do Chapadão (Comando Vermelho), na Zona Norte da capital, nesta madrugada, que deixou dois moradores e dois suspeitos mortos, a porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Claudia Moraes afirmou que a situação "excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro". Em entrevista à Rádio CBN, a oficial defendeu uma integração com forças de segurança federais para tentar conter o a violência gerada pelo tráfico de drogas.
— Não interprete mal a minha fala. A Polícia Militar, as forças de segurança vêm trabalhando muito e duramente. A gente vem trabalhando todos os dias. O que eu estou deixando muito claro é que essa situação que estamos enfrentando nessa região, principalmente nesse confronto de facções criminosas, excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro — disse a tenente-coronel.
A oficial frisou que a PM está fazendo o seu trabalho diariamente, realizando apreensões de fuzis: — Ali é uma área onde a presença do policiamento vai desde buscar proteger a integridade física das pessoas até o combate a roubo de veículo, roubo de carga, roubo a transeunte. O roubo de veículo rapidamente pode evoluir para um latrocínio, a gente sabe disso. Essa questão da integração do estado com as forças federais... esses fuzis entram por algum lugar, a droga também não é fabricada aqui, ela chega aqui. A gente está combatendo o efeito, mas para trabalhar na causa é preciso de muito mais atores nesse contexto.
Claudia Moraes destacou que o 41º BP (Irajá) — responsável pelo policiamento no Chapadão e na Pedreira — é o que mais apreende fuzis no estado. Mas isso, afirmou, não é motivo de orgulho.
— A gente não se orgulha de um resultado desse porque se a gente está apreendendo muito é porque tem muito. Entram por fronteiras, por outras áreas. E tirar essas armas das mãos dos criminosos não é uma coisa simples. Não é uma questão de pedido de socorro. É um alerta para o país. O que acontece no Rio de Janeiro pode ser referência para outros estados. Para se ter uma ideia, esse ano em Pernambuco apreendeu 18 fuzis. Isso a gente apreende em uma semana no Rio de Janeiro — disse.
De acordo com a tenente-coronel, o policiamento segue reforçado na região do Chapadão e da Pedreira, com uma ocupação por tempo indeterminado nos acessos às comunidades.
Morte de refém
Claudia Moraes lamentou a morte de Marli Macedo dos Santos, de 60 anos, que teve a casa invadida por um traficante do CV que se perdeu. A idosa foi baleada na cabeça após bandidos do TCP metralharem a residência. Quando a PM chegou, negociou a rendição do criminoso e encontrou Marli já ferida. A oficial voltou a pedir integração das forças de segurança:
— O que aconteceu com a dona Marli é para a gente lamentar profundamente. É isso que os criminosos fazem, colocam a população como refém. Eles utilizam as Upas como pontos de vendas de drogas, utilizam a população, usam os serviços como uma espécie de escudo humano para se proteger e atuar livremente. Essa situação da invasão dessa casa, e a outra facção vai até lá para confrontar o criminoso, colocando essas pessoas em risco, e que culminou com a morte da moradora em sua residência, mostra como isso é complexo. Não é simples, não existe bala de prata, não existe solução única. A integração é o primeiro caminho, o primeiro passo. A gente não pode resolver da noite para o dia um cenário que se estabelece há mais de 40 anos.
A porta-voz destacou a proximidade da Pedreira e do Chapadão como fator que facilita esse cenário de guerra.
— O que a gente vê é isso: essa tentativa de domínio territorial. Ali naquela região você tem de um lado o Chapadão e, de outro, a Pedreira, cada um com uma facção. E é uma área muito próxima, então esses criminosos conseguem rapidamente acessar a área de um e do outro. A Polícia Militar faz o seu trabalho de policiamento ostensivo, mas é um cenário muito complexo e que a gente sempre diz o seguinte: a presença do fuzil, desses armamentos de guerra, de granadas não é uma questão banal, não é uma questão trivial. Esses equipamentos entram no Brasil. A gente precisa de um esforço grande para a gente conseguir enfrentar esse problema. Não será a Polícia Militar sozinha que vai resolver — afirmou.
UPA de Costa Barros
Sobre a reabertura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Costa Barros, que ficou fechada por cerca de um mês por questões relacionadas à segurança e foi reaberta na manhã desta segunda-feira, Claudia citou a necessidade da presença de policiamento em frente ao local: — A gente está com o desafio agora de reabertura da UPA onde a gente está com uma situação de ter que colocar um blindado na porta da UPA para ela funcionar. Isso não é um estado de normalidade.
Tiroteio levou pânico a moradores do Complexo da Pedreira — Foto: X/Reprodução

