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Greve atinge mais de 50 universidades federais; entenda disputa entre servidores e governo Lula

Por Paula Ferreira e Raphael Ramos / O ESTADÃO DE SP

 

BRASÍLIA - Pelo menos 53 universidades federais enfrentam greves totais ou parciais de funcionários em todas as regiões do País. O movimento atinge instituições importantes, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a maior federal do País, e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mas não é uniforme. No Ceará, por exemplo, as universidades federais não aderiram ao movimento. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, apenas 10% dos servidores estão de braços cruzados.

 

O levantamento foi atualizado pela Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra) no último fim de semana. Os servidores afirmam que o governo federal não cumpriu parte do acordo celebrado com a categoria em 2024.

 

Em nota, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que os compromissos assumidos “já foram cumpridos ou se encontram em fase de implementação”, de acordo com as etapas de tramitação no Executivo e no Legislativo. Já o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) afirmou que tem mantido o diálogo e incorporado os compromissos assumidos (leia mais abaixo).

 

As aulas continuam e os principais impactos da greve nas universidades federais atualmente estão nos serviços de apoio (atrasos em emissão de documentos, processamento de matrículas e suporte administrativo), bibliotecas (funcionamento restrito ou suspensão de empréstimos/devoluções), laboratórios e rádios.

 

Mas, em algumas unidades, o atendimento médico também é afetado. É o caso, por exemplo, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde técnicos administrativos trabalham em escala reduzida de 30%. Assim, consultas e exames eletivos estão sendo adiados ou remarcados. Cirurgias não emergenciais também foram suspensas temporariamente. No Paraná, a paralisação também afeta as atividades assistenciais nos hospitais universitários.

 

Na Universidade Federal de Ouro Preto, foram suspensas a abertura de processos seletivos para contratação de professores e a manutenção de sistemas de TI, além dos serviços administrativos e de transportes. Outra unidade que está com os serviços administrativos afetados é a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde a greve se estende desde 23 de fevereiro. Secretarias acadêmicas, atendimento ao público e rotinas como matrículas, emissão de documentos e tramitação de processos estão prejudicados. As bibliotecas estão em sua grande maioria com funcionamento paralisado, mantendo inacessíveis ao público acervos e serviços de apoio ao ensino e à pesquisa.

 

Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a paralisação começou há mais de um mês, em 16 de março. Laboratórios de ensino estão parcialmente fechados em todas as unidades no Estado. Ao Estadão, a Unifesp afirmou que “até o momento, não houve prejuízo em nenhuma atividade.” A UFRJ disse que o bandejão não é administrado por técnicos da universidade e sim por empresa terceirizada. A universidade não comentou sobre eventuais impactos em outras áreas.

 

A Fasubra reclama principalmente do descumprimento de pontos do acordo aprovado em 2024. “A gente tem vários itens da nossa pauta que não foram cumpridos. E o principal, nesse momento, é que a gente não tem uma mesa de negociação. Estamos reivindicando para que abra-se uma mesa de negociação”, disse a coordenadora geral da Fasubra, Ivanilda Reis.

 

A entidade prevê um ato diante da sede do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, em Brasília, nesta quinta-feira, 23. Entre os pontos cobrados pelos servidores está a regulamentação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC). O instrumento permite a valorização salarial do profissional de acordo com suas experiências práticas ao longo da carreira, considerando competências adquiridas ao longo dos anos independentemente do cargo para o qual o servidor foi contratado.

 

Um projeto de lei sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado instituiu o RSC, mas, segundo os grevistas, é preciso que seja assinado o decreto com sua regulamentação para que o mecanismo seja colocado em prática.

 

Os servidores reivindicam ainda uma jornada de 30 horas semanais para toda a categoria. Outro ponto é a demanda por racionalização dos cargos, uma vez que, segundo o sindicato, há pessoas cumprindo a mesma demanda, mas com salários diferentes. A categoria pede ainda que os servidores tenham paridade com outros cargos da universidade, podendo, por exemplo, se candidatar a reitor.

 

Ao Estadão, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos afirmou que “os pontos negociados no acordo foram sendo incorporados, reforçando o diálogo com os servidores”. A pasta disse que, em janeiro deste ano, o governo se comprometeu a incluir na legislação vários pontos solicitados pelas entidades. Sobre o RSC, o governo afirma que o projeto de lei sobre o tema foi sancionado pelo presidente em março e que o mecanismo passará a ser incorporado ao plano de carreira da categoria ainda neste mês.

 

Em relação à jornada de 30 horas, o governo diz que ela foi incorporada à lei “para atividades de atendimento ao público externo, que inclui alunos e população em geral.” A categoria rejeita esse ponto, pois acredita que não deveria haver condicionantes. Sobre a crítica de falta de uma mesa de negociação, o MGI afirma que em 2024 as negociações com os servidores duraram vários meses e culminaram na assinatura do acordo, que também levou à criação de um grupo de trabalho com reuniões realizadas ao longo de 2024 e 2025.

 

“Ao longo de todo esse processo, o governo manteve e mantém diálogo permanente com representantes da categoria, a exemplo da reunião realizada no último dia 15 de abril, em Brasília”, diz a nota do MGI. O MEC afirmou que respeita o direito de greve dos servidores e mantém diálogo permanente com as categorias da educação federal.

 

“Por último, no caso da regulamentação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), a proposta segue em andamento dentro do cronograma legal e administrativo. O MEC permanece atuando para concluir pontos remanescentes na dinâmica das mesas setoriais observados os cronogramas estabelecidos em regramento próprio da mesa”, diz a pasta.

Quase 8 milhões de famílias que têm direito a desconto na conta de luz não recebem o benefício

Por Bruna Lessa — Brasília / O GLOBO

 

 

A conta de luz fica entre R$ 350 e R$ 400 por mês e ocupa quase todo o orçamento doméstico de Rosane Lopes Cabral Corrêa, de 64 anos, moradora de Cosmos, na Zona Oeste do Rio. Em casa o dia inteiro, ela divide o imóvel com o marido, de 65, e o neto de 16 anos — todos com rotinas diferentes, mas dependentes dos mesmos aparelhos essenciais: duas geladeiras, um freezer, três ventiladores, dois chuveiros quentes e duas televisões.

 

O valor da fatura de energia é maior que a renda fixa da família, que conta com o Bolsa Família, de R$ 600. O marido, que trabalha como autônomo, não tem ganhos garantidos.

— Deveria reduzir (o consumo de energia), porém todos os aparelhos são de uso essencial, infelizmente não tem como deixar de usar. Isso impacta bastante o meu orçamento, pois pagar R$ 400 é muito pesado para mim — diz Rosane.

 

Mesmo enquadrada nos critérios da Tarifa Social de Energia Elétrica (TSEE), que concede descontos na conta de luz para famílias de baixa renda, ela nunca conseguiu acessar o benefício.

A dificuldade enfrentada por Rosane não é exceção. De acordo com números obtidos junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ao Ministério de Minas e Energia (MME), estima-se que 7,9 milhões de famílias ainda não recebam o benefício, mesmo que estejam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e dentro dos critérios de renda.

 

Por que as famílias ficam de fora

Não há um motivo único para tantas famílias ficarem de fora. Alguns dos problemas são:

  • falhas no cruzamento de dados das distribuidoras;
  • inconsistências no endereço das unidades consumidoras;
  • cadastros desatualizados;
  • falta de padronização histórica; e
  • dificuldades enfrentadas pelas famílias, como pouca familiaridade com o ambiente digital ou distância da moradia em relação aos postos de atendimento.

Qualidade dos dados

Hoje, o programa já atende 16,4 milhões de famílias. Se todas que têm direito ao benefício fossem contempladas, o número subiria mais de 40%, para 24,3 milhões — potencial de famílias que poderiam acessar o programa, segundo o MME. O modelo da tarifa foi reformulado no ano passado e é uma das bandeiras que o governo Lula quer levar para a campanha eleitoral neste ano. Pelo sistema, há uma tarifa zero para o consumo de energia de até 80 kWh/mês. Acima desse consumo, não haverá desconto. Antes, havia descontos para faixas escalonadas.

 

O Ministério de Minas e Energia disse em nota que o número de 24,3 milhões de famílias corresponde ao universo potencial de beneficiários, estimado a partir das bases do Cadastro Único para programas sociais do governo federal. Esse número considera não apenas as famílias que já recebiam a TSEE, como também os beneficiários do Novo Desconto Social, previsto no Programa Luz do Povo e cuja implementação ocorre de forma gradual.

 

A pasta diz ainda que a variação apresentada entre o número de famílias atendidas ao longo dos meses foi causada por processos periódicos de revisão cadastral dos inscritos no CadÚnico, necessidade de atualização cadastral periódica e mudanças nas condições socioeconômicas de parte das famílias.

 

Vitor Hugo Miro, pesquisador do FGV Ibre, avalia que há um problema estrutural e persistente na integração e na qualidade das bases de dados utilizadas para a TSEE. Segundo ele, o benefício depende do cruzamento entre informações do CadÚnico, da Aneel e dos cadastros das distribuidoras. E qualquer divergência, por menor que seja, é suficiente para interromper a automatização. — A própria Aneel tem apontado problemas cadastrais como principal obstáculo para ampliar a cobertura, mesmo após a adoção do cadastro automático em 2021. Um segundo gargalo é a dependência de um CadÚnico bem gerido e atualizado — afirma.

 

Baixa inclusão digital

Miro destaca ainda que muitos municípios, especialmente os menores e mais vulneráveis, enfrentam defasagem na atualização dos registros, equipes reduzidas de assistência social e dificuldade para realizar busca ativa. Ele cita também a falta de informação entre famílias de baixa renda e as exigências que se acumulam no processo, como atualização do cadastro, apresentação de documentos específicos e notificações.

 

Para o pesquisador, essas etapas se tornam obstáculos ainda maiores para idosos, pessoas com deficiência e famílias com baixa inclusão digital.

— Na prática, isso produz um efeito regressivo: quem mais precisa acaba enfrentando as maiores barreiras de acesso e, muitas vezes, desiste de usufruir do benefício — conclui Miro.

 

O advogado tributarista Bruno Medeiros Durão explica que a TSEE é um direito previsto em lei, regulamentado pela Aneel, e que as distribuidoras são obrigadas a revisar periodicamente suas bases de consumidores, cruzar dados com o CadÚnico e aplicar o desconto de forma automática sempre que uma família elegível for identificada. Para ele, o principal entrave hoje não é jurídico, é tecnológico e operacional.

 

— Muitas distribuidoras ainda dependem de processos manuais, o que gera atrasos e inconsistências. A comunicação também é falha. Grande parte da população vulnerável sequer sabe que tem direito ao benefício ou não recebe informação adequada sobre como acessar. Isso revela um desafio regulatório e operacional que precisa ser corrigido — afirma.

 

A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica disse em nota que as empresas realizam busca ativa, orientações e campanhas para identificar famílias aptas ao desconto. Entretanto, a atualização do CadÚnico, requisito obrigatório para manutenção da TSEE, deve ser feita pelos próprios beneficiários nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de cada município.

 

“As distribuidoras seguem comprometidas em apoiar o aperfeiçoamento da política pública e assegurar que a Tarifa Social cumpra seu propósito: ampliar proteção, acessibilidade e inclusão energética às famílias brasileiras que mais precisam”, diz o texto.

 

 

Gestão Lula propõe s

Idiana TomazelliLuany Galdeano / FOLHA DE SP

 

A gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prevê um superávit de R$ 8 bilhões em 2027, primeiro ano de mandato do próximo governo. Se concretizado, esse será o primeiro resultado positivo das contas desde 2022.

A meta fiscal proposta é de superávit de R$ 73,2 bilhões, o equivalente a 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Mas o resultado efetivo será menor devido a R$ 65,7 bilhões em despesas que ficam fora da regra —como parte dos precatórios (sentenças judiciais) e projetos ligados às áreas de defesa, saúde e educação.

Durante a execução do Orçamento, no ano que vem, a margem de tolerância da meta fiscal, concebida para amortecer eventuais frustrações de receitas, ainda vai permitir o abatimento de outros R$ 36,6 bilhões (0,25% do PIB). Na prática, o novo governo ainda terá espaço para gastar até R$ 28,6 bilhões acima de suas receitas no ano que vem, o que pode contribuir para o endividamento do país.

Os números foram apresentados nesta quarta-feira (15) no PLDO (projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2027. A proposta precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional e valerá para o próximo governo, quem quer que seja o presidente eleito.

O PLDO traz as projeções gerais para o Orçamento no ano que vem, além de fixar a meta para as contas públicas. O atual governo tem até 31 de agosto para enviar o PLOA (projeto de Lei Orçamentária Anual), onde será detalhado quanto cada área vai receber em recursos em 2027.

Na proposta, a equipe econômica ainda indicou uma meta de 1% do PIB em 2028, 1,25% do PIB em 2029 e 1,5% do PIB em 2030. Em valores nominais, os alvos representam superávits de R$ 157,3 bilhões, R$ 211,1 bilhões e R$ 272,2 bilhões, respectivamente.

O resultado das contas para o ano que vem só não foi pior porque o governo decidiu incluir 39,4% das sentenças judiciais dentro da meta fiscal, como antecipou a Folha. O percentual é maior do que o patamar mínimo de 10% previsto na emenda constitucional que fixou as novas regras para o pagamento de precatórios.

Com isso, o montante de precatórios fora da meta fiscal será equivalente aos mesmos R$ 57,8 bilhões excluídos no ano de 2026. A lógica da equipe econômica é evitar que esse seja um fator de deterioração das contas e da trajetória da dívida no ano que vem.

"Isso é um sinal relevante", disse o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. "Não há um real adicional fora da meta para os precatórios em 2027 em relação aos valores nominais de 2026", acrescentou.

A prática de excluir despesas do cálculo da meta fiscal foi recorrente durante o terceiro mandato de Lula, cujas contas ficaram no vermelho de 2023 a 2025. Se as previsões do próprio governo se confirmarem, haverá novo déficit em 2026.

Uma parte disso serviu para acomodar a regularização dos precatórios, que haviam sido represados na gestão de Jair Bolsonaro (PL). Mas outra parte foi excluída por propostas do próprio governo, como a que flexibilizou as regras para destravar gastos com a defesa.

O próximo presidente eleito pode manter ou não o expediente de descontar gastos da meta, mas precisará do aval do Congresso para fazer eventuais alterações.

Como mostrou a Folha, a proposta ainda traz uma trava no aumento de gastos com pessoal e na criação de novos benefícios tributários em 2027.

Os gatilhos são previstos no arcabouço fiscal, regra que disciplina a condução das contas públicas, e estão sendo acionados pela primeira vez, devido o déficit apurado nas finanças públicas em 2025. Naquele ano, as contas do governo central, que reúne Tesouro Nacional, Previdência e Banco Central, tiveram saldo negativo de R$ 61,7 bilhões.

A lei prevê que, em caso de déficit, o governo precisará respeitar os dois gatilhos de contenção a partir do ano seguinte à divulgação do resultado (o que ocorreu em 2026). A restrição vai perdurar até que o governo volte a fazer superávit.

Qualquer que seja o governo eleito, será preciso seguir essas regras —ou então assumir o desgaste de pedir ao Congresso uma flexibilização das restrições. A única hipótese já prevista de alívio é eventual situação de calamidade pública.

Pela regra, os gastos com a folha de pagamento em 2027 não poderão subir acima da inflação mais uma parcela real de 0,6%, equivalente ao piso de expansão de despesas do arcabouço. É menos do que a expansão total do teto de gastos (2,5%). Além do Executivo, também precisarão respeitar essa trava o Legislativo, o Judiciário e órgãos autônomos como o Ministério Público Federal.

Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, a expectativa é que, sob essa regra, a despesa com pessoal tenha uma variação nominal de 4,2% em 2027.

O outro dispositivo veda a promulgação de lei que conceda novos incentivos ou benefícios de natureza tributária. A ampliação de políticas já existentes ou a prorrogação daquelas que eventualmente estejam para expirar também ficarão proibidas.

Pelas projeções do governo, as despesas com benefícios previdenciários em 2027 devem somar R$ 1,2 trilhão, alta nominal de 7,2% em relação a este ano. Já os gastos discricionários, que não são obrigatórios e incluem custeio e investimentos públicos, devem crescer a R$ 207,1 bilhões, alta de 11,05%.

Vincular gastos sociais é armadilha orçamentária

Por  Editorial / O GLOBO

 

Em pleno ano eleitoral, a Câmara aprovou em primeiro turno uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que destina um percentual mínimo da receita da União ao Sistema Único de Assistência Social (Suas). A iniciativa é bem-intencionada, pois engloba uma série de ações sociais. Mas se mostra descolada da realidade, ao ignorar o impacto nas contas públicas. A PEC é vista pelo governo como mais uma pauta-bomba. O custo é estimado pela equipe econômica em R$ 36 bilhões durante quatro anos e pode alcançar R$ 100 bilhões em uma década. Pela PEC, o percentual começaria com 0,3% da Receita Corrente Líquida da União em 2027, passaria a 0,5% em 2028, subiria a 0,75% em 2029 e atingiria 1% em 2030. O escalonamento, no entanto, não torna a proposta menos prejudicial aos cofres públicos.

 

Não se questiona a importância de prover ações sociais num país desigual. Mas não se pode fazer isso engessando ainda mais um Orçamento demasiadamente engessado. Já existem vinculações orçamentárias obrigatórias em saúde (15%) e educação (18%), que deixam pouca margem a outras despesas não menos importantes. Ampliar a lista de obrigações só faz piorar a situação das contas públicas. Pergunta óbvia: de onde sairão os recursos? Ou: o que ficará fora do Orçamento para atender à nova determinação? A PEC naturalmente não traz resposta, como se fosse possível fabricar recursos do nada. Na prática, cria mais uma linha orçamentária obrigatória a inflar o déficit público e a alimentar um endividamento que já beira os 80% do PIB.

 

Por ora, a análise da PEC foi adiada a pedido do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), para que o Ministério da Fazenda possa avaliar o impacto orçamentário. E ela ainda terá de passar pelo segundo turno antes de seguir para o Senado. Mas, a seis meses das eleições, há pouca esperança de interromper o fluxo inesgotável de generosidades pagas com o dinheiro do contribuinte que tem brotado do Congresso. No primeiro turno, o texto foi aprovado por 464 votos a 16.

 

Repetindo as práticas deletérias de um Executivo perdulário, os parlamentares não têm demonstrado a menor preocupação com o controle fiscal. Um exemplo é a PEC, já aprovada na Câmara, que cria aposentadoria especial para agentes de saúde. Além de ser uma medida injustificável, ao privilegiar uma categoria em detrimento de outras carreiras não menos relevantes, a proposta tende a ampliar em quase R$ 30 bilhões o rombo no sistema de aposentadoria.

 

Tais propostas, a despeito de bem-intencionadas, abrem caminho para outros tantos projetos descompromissados com a realidade fiscal. Exige-se maior responsabilidade de todos, tanto Executivo quanto Legislativo. Pode ser difícil, do ponto de vista político, barrar iniciativas de apelo popular em ano eleitoral. Por isso mesmo, este não é o momento adequado para debatê-las. Não é razoável o Congresso distribuir benesses e empurrar a fatura a este ou aos próximos governos.
 
O Brasil já vive uma crise fiscal crônica de que não consegue se desvencilhar. Some-se a isso o cenário global de incerteza. O zelo com as contas públicas precisa ser prioridade.

Lula precisa conter tentação intervencionista

Na segunda-feira (6), o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PTanunciou novos subsídios temporários para conter o impacto da guerra no Irã sobre os preços domésticos dos combustíveis, desta vez atingindo, além do óleo diesel, o gás de cozinha (GLP), o biodiesel e o querosene de aviação.

No mesmo dia, a Petrobras anunciou a demissão do diretor de Logística, Comercialização e Mercados, área responsável por vendas e formação de preços. Dias antes, Lula havia atacado publicamente um leilão de GLP realizado pela estatal, que resultou em ágios de mais de 100% sobre os valores costumeiros.

O contexto é mais do que suficiente para evidenciar como o impacto de um choque econômico em ano eleitoral pode aguçar o ímpeto intervencionista da administração petista —a ideologia partidária, afinal, tanto advoga ações diretas do Estado sobre os mercados quanto minimiza as consequências nefastas do desequilíbrio orçamentário.

A guerra já gerou efeitos negativos consideráveis. Em apenas um mês, as expectativas mais consensuais para a inflação neste ano subiram de 3,91% para 4,36%, bem acima da meta de 3% e mais próximas do teto de 4,5%.

Não por acaso, o Banco Central deixou de se comprometer com novas quedas de sua taxa de juros, há pouco reduzida de 15% para ainda elevadíssimos 14,75% ao ano. Quanto mais alta a Selic, piores as perspectivas para as já muito deficitárias contas do governo e para o endividamento das famílias —dois outros temas espinhosos na campanha eleitoral.

Por ora, o governo tem sido relativamente contido em suas medidas. Ao menos no papel, os subsídios já concedidos, que somam R$ 31 bilhões em custos, serão compensados pelo imposto instituído sobre as exportações de petróleo e pela alta da tributação sobre os cigarros.

É fundamental, porém, que as providências sejam de fato temporárias, mesmo que o impacto da guerra perdure. Preços irrealistas resultam em desabastecimento, e o Tesouro não tem como arcar com as benesses por tempo indefinido —estima-se um rombo orçamentário federal superior a R$ 1 trilhão neste 2026.

Cumpre ainda zelar pela solidez da Petrobras. A estatal já será a principal onerada pelo imposto sobre a exportação do petróleo. Tem ganhos com o aumento das cotações internacionais, mas tende a ser obrigada a repassá-lo a seus preços internos.

A tarefa de lidar com o choque global de oferta seria menos árdua se o país não estivesse em situação tão vulnerável nas finanças governamentais, o que também dificulta o controle da inflação. Sob Lula, o déficit público saltou de 4,6% do PIB, em 2022, para 8,3% no ano passado, bem acima do padrão das principais economias globais.

A poucos meses da eleição, é irrealista esperar ajuste fiscal. A guerra pode tornar ainda mais problemática a herança a ser deixada para o próximo governo.

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Promessa é dívida: com novo programa, Lula tenta evitar fim de mandato sem ‘desenrolar’ endividados

Por Thaís Barcellos e  Lívia Mendes* O GLOBO

 

A seis meses da eleição, o governo Lula corre para tentar reduzir o alto nível de endividamento que corrói a renda de boa parte da população. É uma tentativa de reduzir a rejeição nas pesquisas às vésperas de o presidente concorrer à reeleição e não descumprir uma das principais promessas da campanha que lhe deu o terceiro mandato. Em 2022, o petista prometera uma saída para as famílias com dificuldades de lidar com dívidas, atacando os níveis recordes de endividamento do fim do governo de Jair Bolsonaro. Lançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas, no início do mandato, em 2023, mas, passados três anos, com a escalada dos juros para conter pressões inflacionárias, os números estão nos mesmos níveis de 2022.

 

E com um agravante: a fatia da renda das famílias usada para pagar dívidas cresceu. Com o custo alto dos empréstimos, há pouco tempo para Lula apresentar avanços nessa área.

 

O desafio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, é entregar soluções que gerem efeitos no curto prazo, tendo em vista a campanha para a eleição de outubro, quando Lula será cobrado sobre o tema. Os dados de endividamento acenderam um sinal de alerta no governo, que busca explicações para o mau humor dos eleitores em meio à alta da renda e o desemprego na mínima histórica.

 

O auge do endividamento ocorreu em julho de 2022, quando a relação entre o saldo das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses chegou a 49,9%, sem considerar o financiamento da casa própria. A taxa fechou aquele ano em 49%. Em janeiro de 2026, último dado disponível, foi de 49,7%. A parcela do orçamento familiar gasto com parcelas foi recorde: 29,3%.

 

Neste período, houve algum alívio. O Desenrola, que terminou em maio de 2024, surtiu um efeito momentâneo. Mas os indicadores de endividamento voltaram a subir, acompanhando a escalada da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% ao ano e segue no maior nível em duas décadas mesmo com o corte recente do Banco Central para 14,75%. É só a base de um sistema financeiro que cobra taxas muito mais altas de quem pega empréstimo e usa cartão de crédito.

 

Um relatório do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif) em colaboração com o BC mostra que o comprometimento de renda com dívidas é maior entre os mais pobres. No grupo de beneficiários do Bolsa Família, superou 30% no fim de 2024, último período analisado.

 

Nova estratégia

plano em discussão no governo e com bancos é ter, dentro de poucos dias, um novo programa de renegociação de dívidas em atraso, uma versão simplificada e de menor duração do Desenrola, focada nas modalidades mais caras do mercado: cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, como antecipou O GLOBO. Durigan adiantou à colunista Míriam Leitão que busca descontos de até 80% na dívida com refinanciamento do restante. Ainda está em discussão se será imposta um teto para a taxa dos novos contratos, mas essa é a tendência, dizem executivos do setor financeiro, diante de garantias que devem ser dadas pelo governo.

 

O programa também deve incluir algum tipo de solução para tentar evitar que as pessoas se endividem novamente. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo cogita algum tipo de veto a apostas em bets para quem ingressar no programa e estender benefícios a pequenos empreendedores com CNPJ, como microempreendedores individuais (MEIs).

 

'Enrolados' vivem 'bola de neve'

Entre os que seguem “enrolados”, a sensação é de uma “bola de neve” incontrolável. O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma de suas dívidas no Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para as outras, e ele segue inadimplente. — O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam as chances de pagamento da dívida real. Devo cerca de R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Hoje tenho que comprar tudo à vista, ou pedir cartão emprestado a familiares — diz Fonseca.

 

Ele continua: — Eu tinha uma dívida de dois cartões de crédito de R$ 6 mil com juros, o valor original era R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$ 180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas as dívidas porque tinha um período determinado considerado. Fonseca diz conviver com dívidas desde que começou a trabalhar, aos 18 anos:

 

— Eu me deixei levar. Comecei a usar cartões em grande quantidade, limites especiais em bancos, linhas de crédito e financiamentos. Comecei viver uma sensação de ter uma renda dez vezes maior.

 

'Ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar'

O bombeiro civil Yan Teixeira, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também começou a usar cartões aos 18. Hoje, com 26 anos e salário de R$ 1.820, chega a comprometer até R$ 1.500 por mês com três cartões diferentes. Admite que, em alguns meses, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente: — Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa, e meu medo é virar uma bola de neve.

 

Apesar de satisfeito com a renda fixa do emprego formal, ele diz que essa dinâmica tem frustrado seu plano de sair da casa dos pais. Sente que ordenado “desaparece” de forma menos perceptível usando cada vez menos dinheiro vivo: — No começo, o cartão era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo.

Ele diz ter dificuldade de conter o impulso no consumo de roupas, acessórios e passeios;

 

— Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora, parece que vai dar para pagar depois. Você faz um Pix, passa o cartão, parcela... Não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando você vê, foi quase o salário todo. Era pra eu conseguir guardar, só que nunca sobra. Trabalho, ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar. Quero comprar um carro, financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão pra pagar.

 

Cartão como ‘extra’

Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria, Isabela Tavares, o governo Lula teve boas iniciativas para enfrentar o problema, como a criação do crédito consignado privado. É uma opção mais barata e estruturada de crédito, mas não disponível para quem não tem carteira assinada. Esse grupo acaba recorrendo ao rotativo quando a situação aperta. Sem educação financeira muitos veem o cartão como uma “renda extra”, ela observa:  — Essas pessoas não conseguem modalidades melhores porque os bancos estão mais seletivos. Acabam pegando crédito nas piores modalidades, o que vira uma bola de neve. Pagam contas (imediatas), mas não conseguem pagar o empréstimo.

 

Para Isabela, um novo programa de renegociação do governo tende a ajudar se alongar prazos e reduzir as taxas do cartão.

 

'Vou dando um jeito'

Clea Machado, de 66 anos, vive sozinha em Magé, no Grande Rio, com a aposentadoria de um salário mínimo (R$ 1.621), mas terá R$ 270 descontados por mês até 2030 para pagar um empréstimo renegociado. A dívida começou com gastos inesperados de saúde, que ela foi cobrindo com o cartão de crédito. Em pouco tempo, perdeu o controle. — Fui passando o cartão, quando vi já estava em quase R$ 3 mil. Aí fiz um empréstimo de R$ 5 mil. Passados dois anos, tentei renegociar para pegar outro para fazer uma obra, e o banco juntou tudo num só. Quando eu vi, já estava devendo R$ 16 mil. Já tinha pago cerca de R$ 4 mil reais. Peguei mais R$ 6 mil, mas aquilo que eu já tinha pago parece que sumiu — diz a aposentada.

 

Enquanto as despesas com medicamentos não param de subir, ela segue usando o cartão de crédito para tentar fechar as contas do mês: — Quando faço a compra do mês, parcelo tudo. Compro arroz, feijão, azeite, o que está faltando em casa. Depois vou só completando. Mas você parcela uma compra de R$ 400 e, quando vê, está pagando quase R$ 600.Sem familiares para contar, Clea resolveu voltar a trabalhar para tentar sair do endividamento. Ela conta que passou a fazer faxinas para complementar a renda, mesmo sofrendo de osteoporose.

 

— A aposentadoria não dá para tudo, não. Não é suficiente para pagar os remédios e as contas — ela diz, ressaltando que tenta manter algum dinheiro para necessidades cotidianas. — Tem que sobrar ao menos R$ 100, R$ 150, para comprar um pão, uma verdura ou se eu quiser tomar um sorvete. A gente trabalha e merece. Vou dando um jeito. Mesmo enrolada, eu me organizo. Mas só a aposentadoria é pouco para viver com dignidade de verdade.

Cartão à mão vira problema

 

O aumento do uso das linhas de crédito mais caras — cujo acesso foi facilitado pelas fintechs — é apontado por especialistas como um fator decisivo na alta do endividamento e comprometimento de renda, mesmo com salários em alta nos últimos anos. Só o montante financiado no rotativo do cartão de crédito (quando o titular paga parte da fatura e soma o restante à próxima com juros) cresceu 32,7% nos 12 meses encerrados em fevereiro, a maior expansão entre linhas do crédito livre para pessoas físicas. É a modalidade mais cara, com juros de 15% ao mês ou 435% ao ano, mas muito usada para fechar as contas do mês.

 

A designer Taisa Alcantara, de 28 anos, começou a acumular dívidas no cartão quando se mudou para São Paulo, em 2022. Em junho do ano seguinte, devia R$ 2.614. Em fevereiro de 2025, a dívida em aberto já superava R$ 26 mil. — Resolvemos tentar a vida lá sem uma reserva financeira. Fui sem emprego e, nesse meio tempo, meu cartão estourou. Meu marido já estava com o nome sujo — conta.

 

Taisa tinha outras dívidas e fez novos empréstimos no nome do sogro para pagá-las, mas acabou deixando a fatura do cartão de lado. Já recebeu proposta de desconto e parcelamento, mas espera oferta melhor enquanto se reorganiza: — Há um ano, consegui retomar o controle. Tenho tudo em planilha e aos poucos estou me livrando das dívidas. A prioridade é pagar meu sogro, as dívidas do meu marido e, por último, limpar meu nome.

 

Porta de entrada

Um dos autores do estudo do FGVcemif, o professor de Finanças Rafael Schiozer diz que, nas faixas de renda mais baixas, a inclusão no setor bancário nos últimos anos se deu majoritariamente pelo cartão de crédito, cuja oferta tem sido “menos discriminada”, principalmente nos bancos digitais:

 

— As pessoas que têm mais cartões estão mais endividadas. Poderia ser demanda, mas parece mais um problema de oferta. Quem está ofertando está fazendo de maneira menos discriminada — avalia Schiozer, ressaltando que a democratização do crédito é positiva, mas precisa de um ajuste qualitativo e iniciativas de esclarecimento sobre as condições que poderiam vir das próprias instituições financeiras. — É preciso dar mais informação na concessão do limite.

Viviane Fernandes, pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), vê uma oferta indiscriminada de produtos financeiros ruins. Por isso, ela não vê sentido num novo Desenrola, cujo impacto diz não ser claro.

 

— Falta acompanhamento. Não é que a pessoa não saiba gerir seu orçamento. Ela recebe tanta oferta de crédito, com cheque especial, cartão, consignado CLT, Pix Parcelado, que, em algum momento, vira a vítima perfeita. Se estou precisando, vou usar. Se contratei e não entendi, saio prejudicada — diz. — Precisamos pensar nas causas. Regular a oferta indiscriminada de crédito.

 

(*Estagiária sob supervisão de Luciana Rodrigues)

 

Gargalo do INSS força pelo menos 75 mil beneficiários no Ceará a viajar mais de 70 km para perícia

DIARIONORDESTE

O trajeto de cerca de 140 km entre Fortaleza e Itapipoca leva até três horas, mas, para o educador físico Ederson Prado, que é tetraplégico, o desafio vai além da distância. Ele será obrigado a fazer essa viagem para acessar um direito no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), apesar de haver uma unidade a apenas 3 km de sua casa, na Capital.

 

Para realizar a perícia médica em Itapipoca, Prado precisará enfrentar o desgaste físico e desembolsar R$ 400 somente com o transporte, além de atentar para a medicação e a alimentação específica durante o trajeto. A situação dele não é exceção. No Ceará, apenas em 2025, mais de 156,3 mil pessoas foram agendadas para realizar a perícia em outros municípios ou até estados.

 

Dessas, pelo menos 75,7 mil (48,4%) requerentes tiveram perícia médica marcada para cidades a mais de 70 km do município de residência, distância apontada pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) como "razoável" para evitar deslocamentos excessivos dos segurados.

A análise exclusiva foi realizada pelo Diário do Nordeste com base em dados do Ministério da Previdência Social, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), ao longo de três meses de apuração jornalística.

 

Na solicitação, foram requeridos dados sobre perícias médicas, incluindo o município de residência do solicitante e a cidade onde a consulta foi realizada, por ano, entre 2019 e 2025.

 

Na prática, esse número é ainda maior. Como o cálculo considera apenas a distância em linha reta, sem especificar os trajetos reais pelas estradas, muitos percursos que hoje aparecem abaixo de 70 km podem, na verdade, superar esse limite.

Além disso, na resposta ao pedido de acesso às informações, o Ministério explicou que nem todos os registros na Base Geral da Perícia Médica Federal (BG-PMF) continham o município de residência do requerente. Por isso, só foram enviados os dados com esse campo preenchido.

 

Custos de viagem para perícia pesam no orçamento de beneficiários

Natural de Manaus, o educador físico de 33 anos citado no início desta reportagem ficou tetraplégico após fraturar as vértebras cervicais (C5 e C6) em um acidente de motocicleta em 2018.

Há pouco mais de um ano, ele mudou-se definitivamente para Fortaleza pelos custos com os materiais, para dar continuidade ao tratamento em um hospital de referência e em busca de melhor qualidade de vida. Na primeira vez que teve a perícia marcada para Itapipoca, Ederson não conseguiu comparecer pela logística necessária para o deslocamento.

 

Quando recebeu o Diário do Nordeste para entrevista, pouco mais de duas semanas antes da segunda data marcada, já estava com um carro agendado para realizar os trajetos de ida e volta no início de abril, por R$ 400. “É a única vaga que tem no aplicativo e, se eu não fizer, infelizmente eu vou perder meu benefício. Eu vivo dele, pago aluguel, pago pensão, compro alimento. Não tem como ficar sem ele. E, se eu perder, preciso fazer todo o processo de novo”, afirma Ederson.

 

"Eu cheguei lá (na agência de Fortaleza para o exame psicossocial), e a pessoa que fez a avaliação social estava por videochamada. Sendo que eu, que sou cadeirante, debilitado, acho que poderiam fazer em casa, já que tem internet em todo lugar", relata.

Ederson Prado questiona a modalidade do atendimento, argumentando que, se muitos serviços se tornaram digitais após a pandemia e o profissional atua de forma remota, o acesso deveria ser facilitado. “Eu vou sair daqui para Itapipoca, enfrentar 4 horas para ir e para voltar, e não vai ter um perito lá?”, diz.

 

Número de perícias feitas por residentes do CE fora de seus municípios sobe 68%

Na análise, a reportagem selecionou apenas as perícias marcadas para residentes no Ceará na região Nordeste, uma vez que a base fornecida também incluía agências em estados de outras regiões, como Paraná e Rio Grande do Sul. Segundo o Ministério da Previdência Social, esses registros provavelmente se devem a procedimentos realizados por telemedicina.

 

Considerando essas limitações, os dados fornecidos pela pasta mostram aumento na quantidade de pessoas que tiveram perícia marcada para cidades diferentes de onde moram. No ano passado, essa parcela foi de 156,3 mil pessoas, 67,5% dos mais de 231,4 mil requerentes de perícia médica em 2025. Essa quantidade é 68,1% maior do que os quase 92,9 mil casos registrados em 2024.

 

Na série histórica analisada, desde 2019, o ano de 2023 foi o único que apresentou redução na quantidade de requerentes de perícia médica. Ainda assim, em mais da metade desses casos a consulta foi marcada em outra cidade. O número absoluto dos requerentes com perícia em municípios a mais de 70 km de distância também tem aumentado nos últimos anos. Só entre 2024 e 2025, passou de 46.379 para 75.709 — um aumento de 63,2%.

 

A proporção desses casos em relação a todas as consultas agendadas para cidades diferentes da residência, porém, tem reduzido. Em 2021, as marcações para cidades a mais de 70km de distância representaram 52,1% do total de perícias em outros municípios. No ano passado, essa parcela representou 48,4%.

 

Veja os 10 trajetos mais frequentes para realização de perícia

O mais frequente, em 2025, foi que moradores de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), tivessem as consultas agendadas para a Capital. Foram 7.309 requerentes de perícias médicas com esse fluxo de origem e destino. Em seguida, aparecem outros dois municípios da RMF, Maracanaú e Maranguape, com 3.971 e 2.057 registros, respectivamente.

 

A primeira cidade a mais distante a aparecer no ranking é Quixadá, a cerca de 149 km da Capital. A combinação Quixadá-Fortaleza foi a quarta principal no ano passado, com 1.750 requerentes computados. Já Canindé-Fortaleza (8º lugar) e Boa viagem-Fortaleza (10º lugar) também aparecem entre as principais combinações do ano passado, com 1.255 e 1.200 requerentes de perícias, respectivamente. Ambas as cidades estão localizadas a mais de 70 km da Capital.

 

Como o limite de distância para perícias do INSS é estabelecido

A definição do que é uma distância “razoável” para o deslocamento de segurados foi pacificada pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) ao analisar casos em que requerentes encaram trajetos de 256 km e até mais de 600 km para realizar perícias médicas. Como não existe uma lei ou norma do INSS que trace um limite territorial para a marcação do procedimento, o tribunal aplicou, por analogia, um critério do Conselho da Justiça Federal (Resolução nº 603/2019).

 

Essa norma orienta como a Justiça Estadual pode assumir causas previdenciárias quando não há uma Vara Federal por perto. O limite de 70 km estabelecido entre a cidade do segurado e a unidade judiciária mais próxima tem o objetivo de garantir que ninguém perca o acesso aos seus direitos, evitando deslocamentos desproporcionais.

 

O desembargador federal Frederico Wildson da Silva Dantas, do TRF5, esclarece que o entendimento não possui efeito vinculante. Na prática, isso significa que o INSS não está juridicamente obrigado a reformular seus critérios administrativos de maneira imediata. “Não temos condições de avaliar se o critério adotado é viável para todas as regiões do País, nem se a Administração dispõe de meios para implementá-lo de forma universal, pois não nos cabe substituir a Administração na formulação de suas políticas. Por outro lado, também não nos é possível fechar os olhos à realidade concreta que chega ao Tribunal”, afirma o magistrado.

 

Viagem para perícia do INSS impõe "dupla punição" a segurados

Uma pessoa que já está doente, acidentada ou com dores crônicas e precisa enfrentar longas distâncias na estrada para realizar uma perícia está “enfrentando uma ‘dupla punição’”. É o que avalia Sidney Guerra Reginaldo, doutor em Direito Constitucional e em Sociologia e professor do Departamento de Direito Privado da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Para ele, essa situação na qual se precisa arcar com altos custos de deslocamento, quando muitas vezes a pessoa está sem receber salário, não é apenas um transtorno logístico.

 

Falta de peritos e agências “esqueletos” 

Entre os principais fatores que levam à necessidade de se percorrer grandes distâncias, segundo o professor, está a concentração desigual de recursos humanos. Com um déficit histórico de peritos médicos dispostos ou alocados para trabalhar nas agências do interior, esse serviço fica concentrado nas capitais e em grandes cidades.

 

“Outro fator crucial é a subutilização da infraestrutura. Em vários municípios, a estrutura física da agência do INSS até existe, mas atua como um ‘esqueleto’ administrativo, pois o serviço de perícia médica não é ofertado por falta de profissionais ou de condições de trabalho adequadas”, acrescenta o professor.

 

O desembargador federal Frederico Wildson da Silva Dantas também destaca fatores estruturais do serviço pericial previdenciário como motivos para a recorrência desses casos. “Há dificuldades logísticas e administrativas, como carência de estrutura em algumas agências e limitações na gestão de recursos humanos, que contribuem para esse cenário”, afirma.

 

A quantidade de profissionais insuficiente também é destacada pela advogada Simone Lima, presidente da Comissão de Direito Previdenciário (CDPrev) da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE).

 

De acordo com ela, o sistema está sobrecarregado com muitos pedidos de benefício, especialmente para o BPC voltado a pessoas com deficiência. “Com esse ‘boom’, o sistema não suporta. A quantidade de pedidos de benefício é além da quantidade de trabalhadores, apesar de ter sido feito um concurso público para novos peritos”, afirma.

 

A advogada cita, porém, medidas adotadas pelo INSS e pelo Ministério para reduzir os prejuízos dessas pessoas, como a realização de mutirões. No fim de semana dos dias 14 e 15 de março, por exemplo, o Instituto realizou mais de 4 mil atendimentos extras em todo o País. No Ceará, foram 280, somando perícias médicas e avaliações, nos municípios de Camocim, Acaraú, Sobral, Horizonte, Pacajus e Juazeiro do Norte.

 

Ela também destacou a realização de concurso público para médicos peritos, apesar de apontar que a demanda continua elevada. “Os novos peritos já estão entrando, mas, mesmo assim, é tanta gente que não tem vaga, e, quando abre vaga, abre para municípios vizinhos”, reforça a presidente da CDPrev.

 

Em resposta ao Diário do Nordeste, o Ministério da Previdência Social afirmou que tem tomado várias medidas para, progressivamente, resolver a situação em localidades sem peritos médicos ou de locais de difícil provimento e fixação de peritos. A pasta destacou o papel da Perícia Conectada, uma parceria com o INSS que disponibiliza salas com estruturas para a realização de perícias por meio da telemedicina. No Ceará há 46 unidades aptas para a perícia conectada.

 

“Além disso, para os  requerimentos de benefícios de incapacidade, a análise inicial é realizada de forma documental, o que não exige deslocamento do cidadão”, acrescenta. O Ministério da Previdência Social informou que os peritos médicos federais aprovados no último certame, realizado em fevereiro de 2025, ainda estão sendo chamados e não há previsão de novo concurso. Até o momento, 59 novos profissionais tomaram posse no Ceará.

 

Metodologia

Esta reportagem utilizou dados concedidos pelo Ministério da Previdência Social por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) sobre os municípios de residência e de realização da perícia médica por requerentes do Ceará entre 2019 e 2026. Com o uso da linguagem de programação Python e auxílio de inteligência artificial para a construção do código de análise, foi feito o cruzamento com a base de dados da malha municipal disponível no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para se chegar às coordenadas geográficas de cada município.

 

Em seguida, foi aplicada a fórmula de Haversine, método matemático que calcula a menor distância entre dois pontos na superfície de uma esfera, como a Terra, a partir da latitude e da longitude. Por não levar em consideração as estradas e os caminhos reais percorridos para se deslocar de uma cidade a outra, as distâncias calculadas são conservadoras e subestimadas, podendo ser ainda maiores na realidade.

 

Considerando as distâncias encontradas, os deslocamentos feitos estados do Nordeste e o entendimento do TRF5 de que o limite razoável para a realização de perícias médicas deve ser de 70 km do domicílio, foram calculados: Quantos requerentes tiveram perícia médica marcada para cidades diferentes de onde moram e, destes, em quantos casos o local da perícia foi a mais de 70 km do município de residência;

  • Qual a distância média entre cada município e as cidades onde as perícias dos residentes foram marcadas, ponderada pelo número de perícias realizadas fora do local de moradia;
  • Quais os principais fluxos de origem e destino.

Para calcular a quantidade e a proporção de requerentes que tiveram perícia marcada para outras cidades ou não, e os que a distância era superior a 70 km, foi adotado o seguinte critério: quando o mesmo requerente aparecia mais de uma vez em um ano, foi considerada a maior distância entre os municípios de residência e da perícia. Isso evitou duplicidade de requerentes que aparecessem em duas categorias no mesmo ano.

Créditos

Gabriela CustódioRepórter
Fabiane de Paula, Kid Junior e Thiago GadelhaProdutores Audiovisual
Bruna Damasceno e Hugo R NascimentoSupervisores de Jornalismo
Victor XimenesCoordenador de Jornalismo
Ívila BessaGerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário
André MeloGerente de Audiovisual
Gustavo BortoliDiretor de Jornalismo e Esporte

Crise do diesel ataranta o governo

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Sem apoio político para fazer os Estados aderirem a um plano de mitigação do impacto da disparada de preço dos derivados de petróleo – em especial do diesel –, causada pela guerra no Oriente Médio, o governo joga suas fichas na contenção forçada de preços na Petrobras. São fatores interligados que podem provocar, a médio prazo, prejuízo para a economia, o consumidor, a empresa e até para o próprio governo.

 

Depois de tentar, sem sucesso, a adesão das administrações estaduais para reduzir o ICMS, principal fonte de arrecadação dos Estados, sobre o diesel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu trocar seis por meia dúzia, com um plano de subvenção de R$ 1,20 por litro do combustível, bancada meio a meio por União e Estados. Pelas contas do Ministério da Fazenda, isso corresponderia ao mesmo custo fiscal de R$ 3 bilhões por dois meses. Não há sinal de que conseguirá romper a resistência dos governadores.

 

Não se trata apenas de questão econômica, mas política, num ano marcado pelas incertezas da guerra e pela antecipação da intensa polarização que marcará mais uma eleição presidencial no País. Difícil imaginar o governo de São Paulo, o maior Estado consumidor de diesel, atendendo ao apelo de Lula em troca da perda de arrecadação e de um eventual fortalecimento do grupo político adversário. E é só um exemplo do jogo que o governo federal tende a perder de goleada.

 

Para piorar, a União, como controladora da Petrobras, impõe a mesma malfadada estratégia passada de congelar preços, mesmo diante do turbilhão internacional. No caso do diesel, imediatamente antes da guerra o produto saía das refinarias da Petrobras por um valor em torno de R$ 0,50 mais barato por litro do que o importado. A defasagem foi aumentando com a escalada do conflito, e mesmo depois da isenção dos impostos federais PIS/Cofins – que permitiu um reajuste sem repasse ao consumidor – chegou a quase R$ 3.

 

Nenhum importador se dispõe a operar com tamanha defasagem, assim como não há como evitar um prejuízo certo para a Petrobras. O Brasil atende a cerca de 75% da sua demanda de diesel; os outros 25% são importados. A suspensão de importações, portanto, é um passaporte para o desabastecimento, mas ainda não há risco de curto prazo porque as encomendas de abril foram fechadas com antecedência. Enquanto caminhoneiros fazem ameaça de greve, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, responde com um anúncio de intensificação da fiscalização nos postos de combustíveis contra “aumentos abusivos”, num mercado de preços liberados.

 

O governo Lula está perdido no enfrentamento ao mais visível impacto da guerra para o Brasil. É legítimo que tente reduzir os reflexos da alta internacional do diesel, mas não conseguirá com o chapéu alheio. Terá de buscar nos próprios recursos a solução. Considerando os ganhos da Petrobras com o petróleo acima de US$ 100, tudo passa a ser uma questão de planejamento – coisa que falta ao governo Lula.

Lula erra ao ceder a chantagem de grupos indígenas

Por  Editorial / O GLOBO

 

Foi um erro o governo federal ter decidido revogar a concessão de hidrovias na Amazônia, cedendo à pressão descabida de lideranças indígenas que incluiu atos de vandalismo e invasão de propriedade privada. O decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluía no Programa Nacional de Desestatização as hidrovias nos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, estratégicas para facilitar o transporte de grãos na região. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, atribuiu a decisão à “escuta ativa” dos povos indígenas, que apontaram impactos do projeto nas comunidades. Mas o recuo foi claramente uma capitulação à chantagem, para reduzir o desgaste à imagem do Planalto na base governista, especialmente no PSOL.

 

Protestos nada pacíficos contra o decreto começaram há um mês. Na madrugada do último sábado, um grupo invadiu o terminal da multinacional de alimentos Cargill no Porto de Santarém (PA), cuja portaria já estava bloqueada. A operação teve de ser interrompida. A fachada do escritório central, em São Paulo, também foi vandalizada. Antes da invasão, os manifestantes interceptaram uma balsa de grãos atracada no porto. O Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, que coordenou os protestos, afirmou ter esperado posição oficial do governo federal por 30 dias e não ter obtido resposta a pedidos de audiência para tratar do assunto.

Foi evidentemente exagerada a reação ao decreto. O próprio Planalto deixou claro que não se tratava de obras ou de privatização da hidrovia do Tapajós. “O normativo trata exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade”, afirma nota do governo. Ora, se o objetivo do decreto era estudar o assunto, por que então suspendê-lo? Estudos técnicos poderão fornecer informações importantes sobre possíveis impactos e subsídios para mitigá-los, como ocorre em tantos outros empreendimentos envolvendo concessões para a exploração de recursos pela iniciativa privada. É injustificável recuar sem sequer realizar uma análise técnica independente e pesando os riscos e benefícios da iniciativa.

 

Representantes dos povos indígenas têm todo o direito de se opor a um decreto governamental e a expor suas reivindicações. Nada impede também que se discutam os termos do projeto. Isso é saudável para a sociedade. Mas não é tolerável invadir propriedades e praticar vandalismo contra empresas essenciais para o êxito do pujante setor do agronegócio brasileiro. Está certa a Associação Brasileira de Terminais Portuários ao qualificar “atos de violência contra uma empresa privada que não possui ingerência sobre a pauta apresentada” como improdutivos e prejudiciais ao “legítimo espaço democrático de diálogo”. A aceitação da baderna só contribui para deteriorar o ambiente de negócios e afugentar investimentos do país.

 

Se a concessão de hidrovias na Amazônia é estratégica para escoar produção de grãos e minério, o governo tem obrigação de dar continuidade ao projeto. As comunidades indígenas merecem ser ouvidas, e suas ponderações devem ser levadas em conta. Mas há outros setores envolvidos, como o agronegócio, e suas reivindicações também precisam ser consideradas. Há que buscar um equilíbrio entre as demandas. Lula dá péssimo exemplo ao revogar o decreto sob chantagem. O recado é claro: basta partir para a violência que o governo cede.

 

Indígenas interceptaram balsa no Rio Tapajós em protesto contra decreto de hidroviasIndígenas interceptaram balsa no Rio Tapajós em protesto contra decreto de hidrovias — Foto: Apoena Audiovisual/20/02/2026

 

 

Verba do PAC para contenção de encostas em Juiz de Fora está travada há quase um ano

André Fleury Moraes / FOLHA DE SP

 

 

São Paulo

A gestão da prefeita Margarida Salomão (PT), de Juiz de Fora (MG), tenta há quase um ano liberar R$ 21,6 milhões que foi autorizada a receber do governo federal para realizar obras de contenção de encostas na cidade. Por pendências documentais, porém, isso ainda não aconteceu.

A reportagem procurou a prefeitura do município no início da tarde desta terça-feira (24). A assessoria confirmou o recebimento do pedido, mas não respondeu até a publicação deste texto.

A cidade está em estado de calamidade pública e decretou luto oficial de três dias em razão de um temporal que causou deslizamentos e desmonoramentos e que matou 22 pessoas segundo a última atualização. Outras 40 estavam desaparecidas. Há ainda 3.000 desabrigados.

A previsão era que a primeira parte do projeto —a avaliação técnica dos locais para os quais estão previstas as obras— começasse em janeiro deste ano.

O recurso para Juiz de Fora faz parte do novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), bandeira do governo Lula (PT) para obras de infraestrutura em todo o país.

Quando encaminhou o projeto para ser aprovado, ainda em 2023, a prefeitura argumentou que "a instabilidade de encostas no município representa um sério risco para a segurança de pessoas, bens materiais e infraestrutura local, podendo causar danos significativos e até mesmo perda de vidas".

A iniciativa prevê três frentes de obras em contenção de encostas na cidade. Uma de R$ 3 milhões no bairro Cidade do Sol; outra, de R$ 6 milhões, no bairro Olavo e uma terceira, de R$ 16 milhões, na região de Graminha —para esta última o município se comprometeu a aportar R$ 5 milhões em recursos próprios.

O público-alvo do projeto, disse a administração ao Ministério das Cidades, são 2.168 famílias. Metade delas mora em áreas de alto risco para desastres e outra metade, em locais classificados como zonas de risco muito alto.

O termo de compromisso foi assinado em julho de 2024 e previa a entrega de documentos até abril do ano passado. A papelada está desde então pendente de adequações, razão pela qual o edital não chegou a ser lançado.

A primeira alteração no documento foi solicitada em janeiro de 2025. O parecer pediu ajustes para que o plano estivesse compatível com um programa federal de gestão de riscos e desastres.

Em fevereiro do ano passado veio a primeira prorrogação: o Ministério das Cidades deu até outubro para o município encaminhar documentos complementares.

A história se repetiu em outubro, com a entrega prorrogada para novembro, e depois em dezembro, quando se estipulou o dia 30 daquele mês como o prazo final.

Na data-limite, por sua vez, o município solicitou ao Ministério das Cidades uma nova dilação de prazo. Pediu que pudesse entregar tudo até novembro de 2026. Argumentou que a medida seria necessária "devido à complexidade das obras e, consequentemente, da elaboração das peças técnicas necessárias".

A solicitação da prefeitura foi parcialmente atendida: o governo federal deu até 18 de março. Depois disso, disse à Folha o Ministério das Cidades, o cronograma ainda pode ser prorrogado por mais 30 dias.

Entre os documentos necessários a essa etapa estão o anteprojeto e o projeto básico da obra, o termo de referência do edital e uma declaração sobre a sustentabilidade do projeto.

A última exigência por adequações no termo de referência veio em 6 de janeiro. A prefeitura encaminhou o material complementar, que começou a ser analisado na semana passada.

O município já foi contemplado com outras duas operações do PAC para obras de contenção de encostas —uma em 2012, com R$ 40 milhões em recursos, e outra em dezembro do ano passado, com R$ 8,5 milhões.

BOMBEIROS NA BUSCA POR SOBREVIVENTES NO PARQUE JARDIM BURNIER EM JUIZ DE FORA MG

 

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