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Desempenho do PT nas 200 maiores cidades, com metade do eleitorado do país, preocupa campanha de Lula

Por Sérgio Roxo

 e Dimitrius Dantas — Brasília ; O GLOBO

 

O desempenho nas 200 maiores cidades do país, que concentram cerca de metade do eleitorado, se transformou em motivo de preocupação para a pré-campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dados de votação mostram uma queda ao longo dos anos nesse grupo de municípios, e o temor é que o desgaste na popularidade do chefe do Executivo acentue o processo.

 

Os cálculos sobre os aptos a votar na disputa de outubro ainda não foram finalizados pela Justiça Eleitoral, mas em 2024 essas cidades tinham 47,9% dos eleitores.

O retrospecto das últimas disputas mostra que o PT vem perdendo força. Em 2012, o partido elegeu 37 prefeitos nos 200 maiores municípios do país. Quatro anos depois, atingido pela Lava-Jato, a sigla venceu em apenas nove, sendo que apenas uma era capital (Rio Branco).

As investigações sobre irregularidades da Petrobras, iniciadas em 2014 e que se estenderam pelos anos seguintes, levaram para a cadeia dirigentes e lideranças da sigla. Foram presos, entre outros, os ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu, o ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto e o próprio Lula.

Em 2020, o PT elegeu novamente nove prefeitos nos maiores municípios, mas com a diferença que, pela primeira vez desde 1985, não venceu em nenhuma capital. Em 2024, foram oito chefes do Executivo, um em capital (Fortaleza).

 

Nas últimas três disputas presidenciais, os candidatos petistas também foram derrotados no segundo turno na soma dos votos obtidos nesse grupo de 200 cidades. Em 2022, Lula teve 47,2% dos votos válidos contra Jair Bolsonaro. Quatro anos antes, Fernando Haddad havia conquistado 38% também contra Bolsonaro. Em 2014, quando o oponente era Aécio Neves (PSDB), Dilma Rousseff obteve 46,8%.

 

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, entende que o PT se distanciou, ao longo dos anos, da nova realidade vivida pela população nas grandes cidades em razão das mudanças econômicas e sociais. Ele avalia que esse distanciamento se soma ao desgaste provocado pelos escândalos de corrupção que fomentaram o antipetismo, que tiveram mais impacto na população desses municípios.

"Fadiga" com o PT

— O mundo mudou, e o PT não. É um partido com uma cultura da sociedade industrial, com os sindicatos, as escolas organizadas, os movimentos sociais. Há uma fadiga do material. Tem cidades, por exemplo, que têm uma interface muito grande com o agro. Qual o discurso do PT para esse setor? Tem um mundo novo acontecendo nessas cidades e um discurso velho, da política em geral, mas do PT em especial — analisa Melo.

Na eleição presidencial de 2022, Lula conseguiu recuperar terreno em algumas grandes cidades em comparação com o desempenho de Haddad quatro anos antes.

O atual presidente venceu, por exemplo, em São Paulo, município mais populoso do país, com 53,54% dos votos válidos no segundo turno contra Bolsonaro. Em 2018, o ex-mandatário havia tido 60,38% dos votos na capital paulista contra 39,62% de Haddad.

Em São Bernardo do Campo, cidade do ABC paulista onde Lula iniciou sua carreira política nos anos 1970 como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, também houve mudança de cenário de uma eleição para outra. Lula bateu Bolsonaro com 53,83% dos votos válidos. Quatro anos antes, Haddad havia perdido na cidade, que é berço do PT, com Bolsonaro conquistando 59,57% dos votos válidos.

Mas na vizinha Santo André, também no ABC, Lula não conseguiu em 2022 reverter o quadro favorável a Bolsonaro. O então candidato do PL teve 52,13% dos votos válidos no segundo turno. Em 2018, o ex-presidente havia obtido 66,84% dos votos válidos contra Haddad na cidade.

 

Ex-prefeito não conseguiu se eleger vereador

No passado, o PT já teve presença forte em Santo André. O partido venceu cinco eleições para prefeito na cidade. Três das vitórias foram obtidas por Celso Daniel, que foi assassinado em 2002, quando era o coordenador do programa de governo da campanha presidencial de Lula. Depois de sua morte, seu posto ficou com Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto que seria escolhido para comandar o Ministério da Fazenda a partir de 2003.

O último prefeito petista de Santo André foi Carlos Grana, eleito em 2012. Em 2016, ele tentou a reeleição, mas foi derrotado no segundo turno para o tucano Paulo Serra por 78,21% a 21,79%. Ex-metalúrgico, assim como Lula, Grana, que hoje é assessor no Ministério do Trabalho, acredita que a cidade se transformou ao longo dos anos e isso afastou o eleitorado local do PT.

— Santo André deixou de ser industrial e passou a ser uma cidade de comércio e serviços. Houve uma mudança do perfil econômico e social. E o PT tem dificuldade de penetrar nessas camadas mais desorganizadas de trabalhadores, com um caráter mais transitório. O trabalho em fábrica é mais consistente, a pessoa passa anos no mesmo emprego. Para se ter uma ideia da mudança, nós temos uma avenida na cidade chamada Industrial, que hoje não tem mais nenhuma indústria. Só tem shopping e residência — avalia o ex-prefeito petista, que em 2020 tentou se eleger vereador no município e não conseguiu.

Na cidade baiana de Teixeira de Freitas, que também foi governada pelo PT no passado, Lula venceu em 2022, mas por uma margem apertada de votos (50,36% a 49,64%), muito inferior à média do estado. Na Bahia, Lula teve 72,12% dos votos válidos contra Bolsonaro no segundo turno. O município atualmente é comandado por um prefeito do União Brasil, Marcelo Belitardo. O petista João Bosco Bitetencourt governou a cidade de 2013 a 2016.

 

A preocupação do PT com o desempenho de Lula nas 200 maiores cidades do país ficou explícita com a decisão do presidente da legenda, Edinho Silva, que será o coordenador da campanha presidencial, de realizar uma reunião virtual no com os dirigentes dos diretórios desses municípios. O plano é ter porta-vozes locais de Lula nas redes sociais e buscar mobilizar eleitores ainda durante a pré-campanha. Quando a campanha propriamente começar, o atual presidente deve concentrar suas agendas nessas cidades para reverter o quadro visto hoje como desfavorável.

Trecho de decisão de Kassio Nunes contra pesquisa deixa outros institutos em alerta

Malu Gaspar / Análises e informações exclusivas sobre política e economia / O GLOBO / Por
Johanns Eller
 
 
 
A decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de suspender a pesquisa do instituto AtlasIntel que mostrava a queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL) após a divulgação dos áudios que ele enviou a Daniel Vorcaro provocou controvérsia no setor. Mas um trecho em especial deixou todos os outros institutos em estado de alerta.
A pesquisa, divulgada no último dia 19, mostrou que a intenção de voto de Flávio caiu seis pontos percentuais no segundo turno, cenário no qual pontuou 41,8% contra 48,9% de Lula. Na ação, os advogados de Flávio questionaram a redação das perguntas e a exibição do áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” – apesar de o material só ter sido exibido depois do preenchimento dos questionários de intenção de votos, que no caso da AtlasIntel ocorre online.
 
Mas, em sua decisão, além de ver "indícios relevantes de comprometimento" da neutralidade no método da pesquisa, Nunes Marques foi além. Ele considerou que também a entrevista que o CEO do instituto, Andrei Roman, deu à CNN Brasil sobre os resultados, corrobora o argumento de Flávio Bolsonaro.

Para o ministro, em sua análise Roman “externou juízo valorativo acerca do potencial de desgaste eleitoral do pré-candidato” , por ter dito que o áudio envolvendo Flávio foi “muito problemático para a imagem dele” e que revelava “fatos extremamente graves”, capazes de comprometer a viabilidade de sua candidatura.

Na entrevista, que tem cerca de 30 minutos e está disponível no YouTube, Roman também afirma que, a partir da pesquisa, é possível concluir que o áudio “não repercutiu de forma tão negativa em relação ao eleitorado [bolsonarista]. A tese dele de que estava pedindo dinheiro privado para um projeto privado é uma tese que parece ter sido acolhida por uma maioria do seu eleitorado. Outra coisa é o eleitorado brasileiro”. Na entrevista, Roman também mencionou as acusações de corrupção contra Lula no passado e disse que o eleitor também não tinha esquecido.

 

A liminar de Nunes Marques ainda será julgada no plenário do TSE, mas esse ponto causou especial preocupação entre os institutos de pesquisa porque a análise dos cenários por seus representantes não só é recorrente na imprensa como faz parte da contextualização dos resultados, especialmente em comparação com levantamentos anteriores.

 

À equipe do blog, o presidente do conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais (Abep), João Francisco Meira, avaliou que a interpretação dos números de pesquisas é uma “leitura válida” dos dados e não implica na distorção dos resultados.

 

“Pesquisadores comentam dados, não fazem juízo de valor”, declarou Meira, que considerou a decisão de Nunes Marques um ato de censura.

“A análise do pesquisador, em especial quando referente a um trabalho específico pelo qual é responsável, constitui uma leitura válida dos dados. Essa interpretação é necessariamente baseada nos dados obtidos. Não os modifica nem os distorce. Extrair implicações políticas desses resultados é tarefa do jornalismo”.

 

Já o dono de um importante instituto de pesquisa alertou sob reserva sobre possíveis reflexos na jurisprudência eleitoral durante a corrida presidencial:

“Discutir o questionário e sua aplicação é um debate válido, mas com argumentos técnicos. Quando vai além e entra na seara da liberdade de expressão, o presidente do TSE incorpora um elemento de incerteza aos julgamentos sobre pesquisas que pode tumultuar todo o processo eleitoral. E se o PL estava preocupado em desqualificar a pesquisa da Atlas, conseguiu o contrário, porque estão todos defendendo”.

 

O levantamento da AtlasIntel suspenso por Nunes Marques apontava um recuo de seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio em um segundo turno contra Lula. O filho 01 de Bolsonaro marcou 41,8% contra 48,9% de Lula. Na primeira rodada, o petista teria 47% contra 34,3% do rival.

 

Pesquisas realizadas pela Quaest e pelo Datafolha após o levantamento do instituto de Roman também indicaram cenário de queda nas intenções de voto do bolsonarista.

 

O CEO de um instituto responsável por sondagens eleitorais frisou ainda que os questionários de outras pesquisas formalizadas junto ao TSE após a do AtlasIntel também usaram termos como “escândalo” e “fraude financeira” e mediram a avaliação dos entrevistados sobre o impacto da revelação dos negócios entre Flávio e Vorcaro, sempre após a aferição da intenção de voto para presidente.

 

Em nota divulgada após a liminar de Kassio Nunes Marques, a AtlasIntel afirmou que respeitará a decisão do presidente da Corte Eleitoral e que o instituto confia “no colegiado do TSE para afirmar a robustez técnica e a legalidade do estudo”. No comunicado, Andrei Roman afirmou não ter reconhecido “qualquer viés político” na elaboração ou aplicação da pesquisa.

Indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) em outubro de 2020, Nunes Marques ingressou no TSE em maio de 2023 e assumiu a presidência da Corte Eleitoral no mês passado, cargo que ocupará durante a corrida presidencial ao lado de outro ministro indicado por Bolsonaro, André Mendonça, vice-presidente do Tribunal.


Segurança é ‘urgência’, mas candidatos devem fugir de ‘políticas fracassadas', diz Bruno Paes Manso

Escrito por Luana Barrosl DIARIONORDESTE
 
 

O limiar entre a urgência de uma discussão ampla sobre o combate ao crime e à violência no Brasil — que passa pelo investimento em inteligência, necessidade de compartilhamento de informação entre os entes federados e a garantia da segurança na rotina dos brasileiros — e a necessidade de não cair em "discursos populistas" focados em políticas públicas comprovadamente "fracassadas". 

Esse equilíbrio complexo é importante para o real avanço nas políticas públicas na área da segurança pública, defende Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) e professor de Jornalismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). 

Jornalista e cientista político, ele é autor de obras como "A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil" e "A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro", que venceu o Prêmio Jabuti em 2021.

O tema da segurança pública deve ser central para as eleições de 2026. Primeiro, porque a violência é a maior preocupação dos brasileiros, sendo citada por 31% dos entrevistados da pesquisa Genial/Quaest divulgada em maio. A atenção aos problemas na segurança pública supera áreas como Saúde (12%), Economia (12%) e Educação.6%  "O problema, e isso é muito comum na segurança, é quando tem um aproveitamento desse medo que as pessoas têm, dessa sensação de urgência e de vulnerabilidade presente, para replicar certas políticas fracassadas", defende Bruno Paes Manso. 

Como exemplo, ele cita medidas como a ostensividade policial — que resulta, muitas vezes, no aumento do uso da violência policial — e o "aprisionamento em massa", com a superlotação de prisões. Ele pontua que o caminho deve ser justamente "descontruir o senso comum de que a violência resolve as coisas e de que essa guerra ao crime produz resultado". 

 "O que talvez seja mais irônico e, ao mesmo tempo, triste é porque essas pessoas que usam o discurso da guerra, elas se fortalecem com o caos e com o medo. Quanto mais medo as pessoas têm, quanto mais desordem, mais elas têm legitimidade para promover a guerra".
Bruno Paes MansoPesquisador do NEV/USP e professor da FAAP

E se, por um lado, há uma preocupação com os índices de criminalidade em todo o País, por outro há um receio quanto ao nível de interferência que as facções criminosas podem ter no processo eleitoral de 2026, seja por meio do financiamento de candidaturas ou pelo controle dos territórios. "Isso acaba desvirtuando o próprio papel do Estado", pontua. 

O PontoPoder conversou com Bruno Paes Manso sobre o porquê de tantos brasileiros terem como maior preocupação os problemas na segurança pública. Ele também avalia propostas que vêm sendo apresentadas por pré-candidatos nessa área e chama a atenção do eleitor para o que é preciso estar atento nas propostas sobre esse tema. 

Confira a entrevista completa: 

Segundo dados da pesquisa Quaest, 31% dos brasileiros apontam a segurança pública como tema que mais preocupa e indicam que é um tema que devem priorizar nas eleições. Na sua avaliação, por que esse tema tem essa relevância para tantos brasileiros, inclusive superando  temas como saúde e educação?

Afeta no cotidiano de todo mundo, principalmente esses roubos mais próximos do dia a dia e, hoje em dia, envolve o celular que carrega uma imensa quantidade de funções, desde banco até comunicação, sem falar no valor financeiro do celular. Então, muitas vezes as pessoas estão pagando prestação quando são assaltadas, investiram dinheiro. 

O celular funciona também como um equipamento de negócios para pessoa jurídica e de utilidades para pessoa física. Então, ele tem um valor agregado elevado e uma importância vital hoje. E, ao mesmo tempo, e até por todos esses motivos, é o objeto mais visado pelos ladrões.

 E isso torna a vida difícil. Imaginar que pode sair na rua e sofrer esse tipo de violência, causa uma revolta muito grande. As pessoas ficam com uma raiva muito grande de viver num lugar onde realmente fica vulnerável diante da covardia de assaltantes e tudo mais. Então, naturalmente, quando realmente tem um tipo de crime que afeta tanto o dia a dia e a sensação de vulnerabilidade das pessoas, é natural que elas optem (na eleição) de acordo com isso. (...)
Bruno Paes MansoPesquisador do NEV/USP e professor da FAAP

Hoje em dia, (também) teve uma mudança na dinâmica do crime e do tráfico de drogas no Nordeste, no Ceará, na Bahia, no Rio Grande do Norte. Em algumas capitais, isso é ainda mais evidente, mais forte, essa expansão do Comando Vermelho do Rio de Janeiro para outros estados. 

E essa ideia de que o controle territorial armado pode permitir que eles ganhem a partir da extorsão da população desses territórios onde eles moram, com taxas diversas, vendas de produtos, de internet, armas para defesa de território e ao mesmo tempo disputas de território nesses lugares, o que torna a situação muito difícil.

Isso por um lado. E por outro lado, os próprios golpes financeiros também viraram um tipo de crime muito presente no dia-a-dia das cidades na contemporaneidade. Apesar de não ter a mesma violência física de um roubo de rua, isso gera uma insegurança e uma fragilização dos laços sociais, da sensação de confiança e vai afetando emocionalmente as pessoas. 

Com essa importância para os brasileiros da segurança, muitos discursos políticos têm sido centrados nesse tema. Qual é o impacto na sua avaliação com o discurso político centrado apenas na segurança, pode trazer para um debate eleitoral como o de 2026? 

É necessário discutir segurança. É preciso pensar sobre o tema de uma maneira ampla, de forma nacional. Como hoje, de alguma maneira, vem sendo feito o debate sobre a nacionalização das facções, a necessidade de compartilhar informação entre os estados... Os estados ficavam muito isolados nesse trabalho, então, finalmente, depois de anos, a União passou a assumir uma participação.

As facções já se nacionalizaram e o Estado ainda não tinha conseguido, e não conseguiu ainda gerir a gestão da segurança de uma forma nacional. Existe resistência dos Estados, mas, ao mesmo tempo, tem o debate sobre a importância de compartilhar informações, de trocar experiências e dados — para saber como se lava dinheiro, onde estão comprando determinados produtos para que a indústria do crime cresça. Tudo isso é importante. Discutir formas de financiamento desses modelos de segurança e tal.

 O problema, e isso é muito comum na segurança, é quando tem um aproveitamento desse medo que as pessoas têm, dessa sensação de urgência, dessa sensação de vulnerabilidade presente, como afeta muito dia a dia, para replicar certas políticas fracassadas, que há 40 anos têm se revelado fracassadas e que têm sido uma das causas inclusive do problema, que é o uso da violência policial, o aprisionamento em massa desmedido, que fortaleceu chefes das facções em presídios super lotados e promoveu o ódio de uma geração que acabou ficando vulnerável ao discurso antissistema do crime, de 'já que a polícia quer nos matar, vamos bater de frente com a polícia, vamos bater de frente com o sistema'.
Bruno Paes MansoPesquisador do NEV/USP e professor da FAAP

Tudo isso acabou sendo também um efeito colateral dos erros de políticas públicas que ficaram muito baseadas no patrulhamento territorial ostensivo dos bairros considerados violentos na cidade e no aprisionamento em massa em flagrante. Isso superlotou as prisões. As prisões passaram de 90 mil nos anos 1990 para 900 mil presos nos dias de hoje e isso acabou sendo o escritório onde as facções passaram a comandar o crime, se fortalecer e gerir e manipular sua massa de manobra. Então, quanto mais se prendia, mais se fortalecia esses grupos. O que pareceu remédio se revelou ser veneno. 

 Essas pessoas  usam esse velho discurso da violência policial, de trancar as pessoas (em prisões) como se isso funcionasse e isso tem produzido efeitos colaterais que tem fortalecido o crime. Mas, ao mesmo tempo, ele aplaca a sensação de urgência, ele parece dar respostas a essa demanda de urgência sem que as pessoas observem, de forma crítica, os efeitos colaterais que isso tem causado.

Por isso que o desafio é como consegue desconstruir esse senso comum, de que violência resolve as coisas e de que essa guerra ao crime produz resultado, para pensar em formas alternativas, que estão mais ligadas à investigação, ao compartilhamento de informação.... Está mais ligado, claro, a agir de forma a usar a força do Estado para libertar certos bairros de tirania armadas, sem dúvida, isso é importante. Mas isso não é a engrenagem da coisa. Tem que ser mais racional e olhar a indústria (do crime), o funcionamento da indústria para agir de forma mais estratégica, não tão emocional. (...)

O que talvez seja mais irônico e, ao mesmo tempo, triste é porque essas pessoas que usam o discurso da guerra, elas se fortalecem com o caos e com o medo. Quanto mais medo as pessoas têm, quanto mais desordem, mas elas têm legitimidade para promover a guerra. E, deu errado (as políticas de segurança pública), em vez de pensar em medidas alternativas, elas vão prometer duplicar o remédio, triplicar o remédio, quadruplicar o remédio. A coisa vai continuar dando errado e eles vão continuar se apresentando como a solução para o problema. 

Os senhores da guerra se apresentam como solução. Então, o caos para eles funciona porque eles ganham capital político e econômico – muita gente ganha dinheiro vendendo segurança para essa guerra. Desconstruir esse senso comum, que dialoga muito com as pessoas, e trazer a racionalidade para um tema que envolve tanto medo, tanto desespero, tanta urgência, questão de vida e morte, é sempre muito difícil.

Os entes têm responsabilidades diferentes. As gestões estaduais são mais responsáveis pelas ações da segurança pública e há uma cobrança cada vez maior para que o governo federal faça também a sua parte. Como diferenciar o que é a responsabilidade de cada um e o que deveria passar a ser mais responsabilidade de um ou de outro ente?

O governo estadual deve estar de fato preocupado com esse roubo e esse crime territorial, vinculado ao dia a dia dos bairros. Para garantir o direito das pessoas de terem seus direitos individuais respeitados no bairro onde mora, de não ser assaltado na rua da cidade... Essa estratégia, essa inteligência local deve ser feita pelos governos estaduais e pelas polícias estaduais.

Esse mapeamento de hotspot de crime, esse planejamento de onde colocar mais polícia, onde colocar menos polícia, de patrulhamento. Ao mesmo tempo, a própria discussão com a Justiça de crimes a serem priorizados como privativos de liberdade. Vai prender um monte de gente e superlotação de prisões ou vai focar a política nos crimes realmente violentos que aterrorizam a população? Então, esse tipo de discussão e esse planejamento de patrulhamento e de estratégia policial faz parte (da tarefa) dos Estados. 

Dos mapas de crime, dos mapas de hotspots... Tudo isso deve ser pensado a partir das polícias estaduais junto com o governador e tudo mais. 

Mas ao mesmo tempo, sem perder de vista o todo, sem perder de vista que isso faz parte do todo. Então, por exemplo, roubos de celulares também podem fazer parte de uma cena nacional e internacional. E dialoga com a Polícia Civil e com a Polícia Militar, não só para tentar prender o garoto na rua na hora que ele está roubando, mas para identificar quem são receptadores, quais são as rotas de venda dos celulares, se vai para fora ou se não vai... Vai mapeando junto e compartilhando informação para que aquele crime local seja compreendido dentro de uma engrenagem industrial nacional, que, de fato, muitas vezes é nacional. 

Tem também, por exemplo, a venda de cigarro pirata, da mesma forma: tem a ilegalidade, a informalidade das vendas nos bairros e nos territórios, mas junto com isso tem um novelo a ser desenrolado que diz respeito à rota nacional e internacional deste produto. Então, de um lado tem o desafio de gerir o território, isso tudo tem que ser feito com conversas nas próprias polícias locais, mas esses crimes muitas vezes estão ligados a cenas nacionais e a cenas internacionais. 

Isso tem que ser compartilhado e discutido com outras instituições para que tenha esse olhar mais nacional e que permita também ver um pouco o funcionamento da indústria como um todo, não apenas com o foco fechado no território.

Temos também o outro lado da moeda: as facções criminosas com cada vez mais interferência nas eleições, seja como financiadores de campanha, com envolvimento com os pré-candidatos e até com eleitos, seja por proibição, por exemplo, de que eleitores votem em determinado território. Quais as consequências que esse avanço das facções tem para o processo eleitoral, para o processo político e democrático do país? 

Isso é gravíssimo. É gravíssimo e está cada vez mais presente na política brasileira. Isso acaba desvirtuando o próprio papel do Estado, porque durante muito tempo, na Nova República, o debate sempre foi em torno de partidos, em torno de nomes ou em torno de políticas públicas ou de projetos e produzissem um país ou um estado ou um município menos desigual, mais justo, com liberdades e direitos garantidos. Esse era o projeto de um governador, de um prefeito, de um presidente que levava esse projeto para produzir um ganho e um contrato coletivo que favorecesse (a população). 

Tinham partidos mais liberais, partidos menos liberais, que defendia o Banco Central Independente, que defendia a redução de gastos... Tinha uma série de debates de políticas públicas e você votava sempre pensando em qual o projeto coletivo para produzir um país mais justo e menos desigual.

Hoje, tem um grupo que passou a ver o Estado como empecilho, como um obstáculo para se ganhar dinheiro e tem muita gente que enxerga o Estado como um meio de favorecer os negócios do seu grupo, dos seus aliados. Pode ser boi e grilagem, pode ser uma agricultura extrativista e danosa para o meio ambiente, pode ser crime ambiental, pode ser bet, pode ser um mercado financeiro especulativo e desregulamentado... E as pessoas querem assumir o Estado para ganhar dinheiro e para se perpetuar no poder e perpetuar os negócios do seu grupo no poder. 

Isso já é uma mentalidade e acaba favorecendo o crime e trocando figurinhas e experiências com criminosos. Então, pode ser criminoso de crime ambiental, de grilagem... Vê o projeto que foi debatido agora no Congresso para desregulamentar a fiscalização da grilagem de terra e usar fotos de satélite para identificar desmatamentos e multar pessoas que estavam desmatando a floresta. Isso, na verdade, é uma medida que facilita quem ganha dinheiro com o crime ambiental.

Isso começou a degringolar e piorar de vez quando, ironicamente, depois da crise da Lava Jato, se proibiu o financiamento privado de campanha e passou-se a tentar pensar em formas de financiar as eleições — caríssimas, sempre muito caras no Brasil, por causa do arranjo político, que exige votos e muitos votos, as eleições são muito caras.

Então, as emendas parlamentares viraram uma forma de favorecer os candidatos que estão já no Congresso e nos parlamentos. Lavagens de dinheiro sofisticadas passaram a ser feitas a partir dessas emendas. Um dos exemplos mais escancarados são shows milionários de músicos nas diversas prefeituras, como forma de financiamento de campanha e também o dinheiro do o próprio crime para partidos.

O caso da Carbono Oculto (Operação da Polícia Federal que investiga esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 26 bilhões em São Paulo, tendo o PCC como principal beneficiário) e o caso que envolveu as investigações da Refit, do Ricardo Magro, do Garotinho, que estão aparecendo agora, mostram como um empresário que era considerado devedor contumaz e, por causa disso, tinha benefícios na concorrência do setor de combustível, tinha muito mais peso político do que os empresários formais, que não podiam mais financiar campanha, porque agora era proibido e o devedor contumaz, que usava diversos subterfúgios para ter vantagens, é que tinha mais ascendência sobre partidos e políticos, até o governador do estado (do Rio de Janeiro).

Então, vai desvirtuando a coisa. Desrespeitar as regras e financiar com esse dinheiro o Caixa 2, acaba colocando, no Estado, os interesses desses empresários que atuam de forma ilegal ou informal.

Essa entrada das facções criminosas na política, com influência nos mandatos, também pode prejudicar as políticas públicas que já não tem sido tão efetivas, como você falou? Como você enxerga também essa relação de candidatos financiados por facções criminosas que entram na política e que vão ser os responsáveis por fazer a legislação e as políticas públicas para combater a violência?

Prejudica de duas formas. Primeiro, prejudica porque eles estão em territórios das cidades e, nesses territórios, eles querem manter o Estado afastado. Por causa disso, as políticas públicas não chegam da forma como digam. Então, às vezes, até hospitais e escolas têm dificuldade de trabalhar por causa da presença (das facções). Sem falar de caminhão de lixo, asfalto e luz, internet... Tudo isso acaba tendo dificuldade por causa dessas tiranias armadas que exercem controle sobre territórios. 

Então, de um lado, é a presença física mesmo nos territórios e, de outro lado, no lobby que eles fazem para favorecer os interesses deles. O lobby deles é para favorecer, para que sejam feitas políticas públicas para aumentar o lucro deles. Sendo que o Estado tem o papel de produzir políticas públicas, como a gente estava conversando, para reduzir desigualdades, para garantir direitos, para reduzir injustiças, para criar uma sociedade mais justa e não uma sociedade que favoreça lucros de quem tem armas.

No fundo, um Estado em que o crime está inserido, é um Estado que acaba favorecendo aqueles que têm dinheiro e que tem armas, e o lucro daqueles que têm dinheiro e que tem armas. É o pior dos mundos. 

Voltando para a questão eleitoral, estamos vendo uma discussão  dos pré-candidatos à presidência e, aqueles que estão na oposição, têm feito propostas como classificar facções criminosas como organizações terroristas e redução da maioridade penal, por exemplo. Esses são os caminhos mais apropriados para o tema? Como você avalia essas propostas para a área de segurança?

Ficou evidente o despropósito desse tipo de medida por dois motivos. Primeiro, a gente viu no caso dos Estados Unidos, da presidência norte-americana, um país que, nos dias de hoje, tenta exercer uma certa da ascendência política sobre a América Latina e o que aconteceu na Venezuela, com a prisão do (Nicolás) Maduro a partir de um discurso de tráfico de drogas e de grupos terroristas venezuelanos, caso isso seja replicado em outros países, você ameaça a soberania desses países.

 O Brasil aceitar esse tipo de classificação, a pedido dos próprio Estados Unidos, com medidas que já foram tomadas no nosso continente, medidas brutais de interesse apenas dos americanos, a gente abre um flanco de vulnerabilidade que não faz o menor sentido. 

O problema é grave, o tráfico de drogas é grave e precisa ser discutido inclusive com os Estados Unidos, mas passa pelo debate sobre o papel da União, sobre o compartilhamento das informações por parte do Estado, até formas de conseguir fazer acordos financeiros que permitam acessar contas de pessoas que estão condenadas ou que estão sendo processadas aqui no Brasil, como o caso do Ricardo Magro, que mora nos Estados Unidos e tem contas e investimentos lá nos Estados Unidos, como fazer e como cooperar para, de repente, conseguir identificar e bloquear recursos. Tudo isso faz parte do acordo. 

Mas classificar como terrorista é uma medida extrema que pode abrir esse flanco de fragilização da nossa soberania, inclusive fragilizar economicamente alguns empresários, que, a partir do momento que o país passa a ser classificado como terrorista, dificulta a vida dos exportadores, dos empresários de uma forma geral.

Então, não faz o menor sentido, mas é uma um discurso populista que pode fazer sucesso nas redes sociais, mas que, na verdade, é um desserviço para os interesses nacionais. 

O Governo Lula também tem atuado nessa seara. Anunciou um programa de combate ao crime organizado com R$ 11 bilhões de investimento e também enviou a PEC da Segurança, que está paralisada na tramitação do Senado. Essa resposta segue uma linha do que a área precisa? Como é que o senhor avalia esse tipo de política, inclusive os efeitos eleitorais dela? 

A discussão foi colocada na mesa, mas se avançou pouco. Inclusive, o próprio pacote (de investimentos), em ano eleitoral, perde a força, porque parece um pacote eleitoreiro. Então, é algo que já devia ter avançado de alguma forma e acabou não avançando como deveria. A própria PEC da Segurança demorou para tramitar, (porque) tinha uma série de resistências. Mas de fato não foi das áreas que mais avançaram.

Esse pacote atual, de R$ 11 bilhões, em ano eleitoral, acaba dando uma orientação do debate, pelo menos posicionando o governo para eleição para o próximo mandato, mas é uma medida eleitoral. Então, a gente, de alguma forma, tem que olhar com uma certa reserva, porque demorou um pouco para tirar as coisas do papel.

Mas o caminho da discussão é esse. O caminho da discussão em torno do da participação da União, do compartilhamento de informações que já vem sendo feito também... Independente de ter uma PEC ou de ter um novo projeto de lei, já tem um maior compartilhamento de informações e de cooperações entre as instituições, o próprio COAF e a Receita Federal estão mais presentes e atuando mais nessa inteligência financeira. 

A gente tem visto uma série de operações voltadas a esse tipo de investigação, porque as instituições estão aprendendo a investigar nesse mundo virtual também, tem mais instrumentos de investigação, que antes às vezes eram mais difíceis e hoje já se está aprendendo também como trafegar nesse universo e alguns resultados já estão aparecendo. 

Mas precisa de medidas mais concretas. Um financiamento eh nacional para políticas de segurança pública, a discussão do Ministério de Segurança Pública, pensar em políticas públicas que direcionam um novo tipo de modelo alternativo para os estados terem mais força para livrar os bairros controlados por essas tiranias armadas, deixar de lado o espetáculo da violência da violência policial, porque a violência policial hoje é uma forma de empurrar a polícia para o crime, é um descontrole da polícia que acaba empurrando muitas vezes a polícia para o crime. 

São mais de 6 mil homicídios praticados pela polícia e, muitas vezes, essa carta branca para matar acaba sendo negociada no mundo do crime cada vez com mais capacidade de corromper policiais. Essa retomada do controle das polícias é importante. Tudo isso ainda precisa avançar muito. 

Você falou sobre essa urgência que as pessoas têm quando se trata de segurança, pelo próprio medo e pela vulnerabilidade. Então, eu queria te perguntar, quais discursos e propostas os eleitores têm que estar atentos nessas eleições quando se trata de segurança pública?

Depois de tantos anos de debate de segurança pública, algumas coisas são importantes para ele parar para pensar. Por exemplo, durante muito tempo se fortaleceu o estigma de que quem defende os direitos humanos está defendendo o bandido. Esse estigma sempre pesou muito e, ao mesmo tempo, pessoas que defendiam a violência policial e a guerra contra o crime, eram vistas como pessoas interessadas em resolver o problema de segurança.

Eu queria que o eleitor olhasse para o caso do Rio de Janeiro para pensar sobre isso. O governador do Rio de Janeiro (Cláudio Castro) fez a Operação Contenção, com 122 mortes, sendo cinco policiais. E, a partir da Operação Contenção, ele recebeu o aplauso da população no ano passado e chegou a se fortalecer como candidato ao Senado. Matando 120 pessoas, ele tentava sinalizar de que a polícia dele estava trabalhando contra o crime. 

Mas, na verdade, o que ele estava fazendo? Ele estava fazendo, como a gente tem visto nas investigações, uma série de acordos com criminosos bem importantes, desviava muito dinheiro da população, e (fazia acordos) também com facções — pessoas aliados dele eram ligados a facções. Enquanto, por um lado, ele desviava a atenção do público matando o pobre para parecer que a polícia dele trabalhava, ele fazia uma série de acordos com criminosos engenheiros e muito poderosos para se perpetuar no poder e para perpetuar o crime no poder.

 Então, o uso da violência é uma forma de manter o caos e manter a população dependente, achando que a guerra (contra o crime) é uma solução e dependente dos senhores da guerra. E o caos, para esses caras, gera poder e dinheiro.

Essas pessoas que têm discurso de guerra, muitas vezes são os principais aliados do crime, são eles que são os parceiros de bandidos, muitas vezes. Desconstruir esse estereótipo, prestar atenção nesse equívoco, que há tantos anos existe, é importante na hora de votar.

 

 

Partidos custam bilhões por prestação de mau serviço

Dora Kramer / Jornalista e comentarista de política / FOLHA DE SP

 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou na semana passada os dados sobre a divisão do dinheiro do fundo eleitoral, e isso não traz notícia nova.

Os números são conhecidos, mas a divulgação repõe na agenda o tema desse tipo de financiamento adotado desde a eleição de 2018. Oportunidade para renovar questionamentos sobre como partidos se tornaram sorvedouros de dinheiro público sem que, em contrapartida, prestem bons serviços ao país que os contrata.

A velha história: o representado é obrigado a votar, mas os representantes não se obrigam a cumprir seus deveres e ainda legislam em causa própria. Por exemplo, anistiando infrações das agremiações, ampliando o uso do fundo partidário e afrouxando normas como a Lei da Ficha Limpa. Aos números graúdos: R$ 4,9 bilhões para as campanhas, R$ 1,3 bilhão para as despesas habituais dos partidos e R$ 61 bilhões reservados para as emendas parlamentares no Orçamento da União de 2026. As emendas entram nessa conta porque funcionam como financiamento paralelo de campanhas.

 

O serviço prestado justifica essa dinheirama toda? A julgar pela pesquisa do Poder Data divulgada há alguns dias, a população não está nada satisfeita com o que paga aos partidos. Só 10% avaliam positivamente o trabalho da Câmara dos Deputados e 15% avalizam o desempenho do Senado.

Enquanto nas eleições para presidente, governadores e prefeitos as avaliações de desempenho podem impactar diretamente nas intenções de voto, no Legislativo há uma dispersão nas escolhas. É com isso que contam os pretendentes a congressistas. Apostam justamente na ausência de conexão entre o que está sendo pago pela sociedade e o que é de fato entregue pelos eleitos no curso dos respectivos mandatos exercidos longe do olho dos donos dos votos.

O sistema distrital de votação, no qual há ligação direta entre representantes e representados, seria o início de mudança na correlação de forças. Mas, para isso, seria necessária a reforma política, a respeito da qual muito se fala e nada se faz.

 

Fundo eleitoral: União envia R$ 4,9 bi ao TSE; veja a divisão entre partidos

 
 
 
 
 
 
 
 

Na última segunda-feira (1º), a União, por meio do Tesouro Nacional, depositou na conta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a bagatela de R$ 4,9 bilhões. O depósito cumpre exigência legal e é relativo ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o chamado "fundão eleitoral". É recurso do bolso do contribuinte que vai para os partidos políticos bancarem os seus candidatos na eleição de 2026.

 

Quando foi instituído, em 2017, o fundão tinha o objetivo de substituir o dinheiro das empresas, proibido naquele ano pelo Supremo, por uma fonte pública e fiscalizável.

 

A promessa era sanear as campanhas. Desde então, o instrumento virou a principal fonte de custeio eleitoral do país e não parou de crescer.

 

Detalhe: os valores atuais, quase R$ 5 bilhões, fazem deste o maior fundão eleitoral da história, bancado pelo contribuinte.
 

Excesso de dinheiro público

Os números denunciam a escalada. O governo propôs R$ 1 bilhão para 2026. O Congresso multiplicou a cifra por cinco. Entretanto, o discurso da austeridade segue intacto nos mesmos plenários. Somada ao Fundo Partidário, estimado em R$ 1,4 bilhão, a cifra revela o que poucos brasileiros sabem: os partidos devem receber neste ano R$ 6,3 bilhões em dinheiro público.

R$ 6,3 bilhões É a quantia em dinheiro público que os partidos devem receber em 2026
 
 
 
  

Quem leva a maior fatiaA divisão não é igualitária. A lei garante que não seja. Quase metade do fundo é repartida pelo número de cadeiras na Câmara. 

A divisão oficial do fundo será divulgada no próximo dia 16 de junho, conforme a previsão legal. Entretanto, de acordo com um estudo divulgado pela Fundação 1º de Maio, ligada ao partido Solidariedade, o Partido Liberal (PL) deve liderar com R$ 886,7 milhões, quase 18% do total. Ele só perde o posto com a soma de União Brasil e PP, que formam agora a Federação União Progressista: R$ 953 milhões.

 

O PT (PT) aparece em seguida, com R$ 619,7 milhões. Como o partido integra uma federação com PCdoB e PV, o valor a ser recebido salta para R$ 720 milhões.

 

A lista segue com PSD (R$ 420 mi), MDB (R$ 404 mi), Republicanos (R$ 343 mi) e Podemos (R$ 236 mi).

Conta nas coligações cearenses

Levando em conta as pré-candidaturas já lançadas no Ceará, Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) têm, com folga, as maiores reuniões de partidos com recursos a receber.

Os maiores partidos que anunciaram apoio a Ciro — a Federação União-PP, o PL, o PSDB e o Cidadania — somam R$ 2,04 bilhões. Aliados de Elmano, Federação PT-PCdoB-PV, PSD, PSB, MDB e Republicanos somam, em âmbito nacional, R$ 2,03 bilhões.

 

Apesar dos números elevados, os recursos que serão destinados aos palanques estaduais serão definidos em Brasília, pois cabe à direção nacional dos partidos o direcionamento dos valores.

 

Escrito por
Inácio Aguiar O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

  / DIARIONORDESTE

 

 
 
 
 

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