Diretor-geral diz que PF no Rio sabia de operação e descartou participação
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta quarta-feira (29) que a equipe da corporação no Rio de Janeiro foi informada que haveria uma operação no Rio de Janeiro. No entanto, após analisar as características apresentadas no planejamento operacional, decidiu não participar por entender que não se tratava do tipo de atuação compatível com a PF.
A operação das polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro deixou ao menos 119 mortos, incluindo quatro policiais, sendo a mais letal do país.
A declaração foi dada após o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, falar à imprensa que o governo federal não havia sido avisado da operação no Rio.
Andrei, no entanto, acrescentou que a data da operação não foi comunicada à Polícia Federal.
"Houve um contato em nível operacional informando que haveria uma grande operação e se a Polícia Federal teria alguma possibilidade de atuação na sua área e dentro do seu papel. A nossa equipe do Rio de Janeiro, a partir da análise geral do planejamento, não teve detalhes do planejamento. Entendemos que não é o modo como a polícia atua, o modo de fazer operações", disse.
"O colega do Rio de Janeiro informou o seu contato operacional que a PF segue seu trabalho de investigação, de polícia judiciária, fazendo seu trabalho de inteligência, mas que aquela operação que era do estado, tinha mais de cem mandados para cumprir do estado do Rio de Janeiro, não teríamos atribuição legal para participar e, portanto, não fazia sentido nossa participação", acrescentou.
Durante a fala do diretor-geral da PF, Lewandowski o interrompeu e disse que a comunicação precisa ser feita pelos níveis superiores das autoridades.
"A comunicação entre governador de estado e governo federal tem que se dar ao nível de autoridades de hierarquias mais elevadas. Uma operação desse nível, porte, não pode ser acordada entre o segundo ou terceiro escalão. Se fosse uma operação que exigisse a interferência do governo federal, o presidente da República deveria ser avisado, o vice-presidente que estava respondendo, ou o ministro da Justiça e Segurança Pública ou o próprio diretor-geral da PF", disse.
A ação ocorreu enquanto Lula retornava de uma visita oficial ao continente asiático. O presidente ficou incomunicável durante as mais de 15 horas de viagem, só tomando contato com o que ocorria no Brasil ao aterrissar. A conversa desta quarta foi feita na residência oficial da Presidência, o Palácio da Alvorada, em Brasília.
Operação no Rio: os bastidores da reunião no Palácio do Planalto que discutiu a GLO
Por Bela Megale / O GLOBO
Policiais entrando na Vila Cruzeiro, na Penha, durante Operação Contenção — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
A decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi um dos temas tratados na reunião de emergência realizada no Palácio do Planalto nesta terça-feira (28), sobre a megaoperação da polícia do Rio de Janeiro na zona norte da cidade, que deixou 64 mortos. A ação mirou a facção criminosa Comando Vermelho e se tornou a mais letal da história do estado fluminense.
Segundo presentes na reunião, que durou cerca de duas horas, parte dos integrantes do governo — inclusive um ministro — defendeu a adoção da GLO pelo presidente Lula. Entre os argumentos usados para sustentar a necessidade da medida estava o de que existe uma “falência múltipla” dos órgãos de segurança no Rio de Janeiro. A medida abriria espaço para a atuação das Forças Armadas na área de segurança pública do estado.
Foi consenso, porém, que uma das principais condições para a decretação da GLO é o reconhecimento público, por parte do governador Cláudio Castro, da falta de condições do estado para controlar a segurança pública fluminense, além do pedido formal pela adoção da medida.
No início do ano, o governador do Rio chegou a pedir ao governo federal que cedesse blindados, mas nunca formalizou a solicitação da GLO. Na ocasião, a Advocacia-Geral da União (AGU) avaliou que a cessão dos blindados só poderia ocorrer por meio da decretação da medida. Lula já declarou ser contrário à sua adoção.
Entre os órgãos que se colocam contra a medida está a Polícia Federal, que participou da reunião no Palácio do Planalto. Também estavam presentes Geraldo Alckmin, enquanto presidente em exercício; os ministros da Casa Civil, Rui Costa; da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira; das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann; e da AGU, Jorge Messias; além de representantes dos ministérios da Justiça e da Defesa. O presidente Lula não estava presente porque voltava de viagem da Ásia e estava em voo.
Conforme reportagem do GLOBO, mesmo com o agravamento da crise de segurança no Rio, o Palácio do Planalto não vê, por ora, perspectiva de adoção da GLO.
Apesar do corte da Petrobras, consumidores não percebem redução nos preços dos postos de Fortaleza
Segundo observado pelo personal trainer Lucas Faustino, de 36 anos, que abastecia o carro em um dos postos, o preço do litro da gasolina reduziu poucos centavos em alguns postos de Fortaleza, mas nada muito significativo.
Quem também não percebeu variação no valor da gasolina foi o motorista de aplicativo Carlos Vinicius Cortez, 48, que preferiu abastecer o carro com etanol. Outro gerente de um dos postos, Dailton de Lima, também reforçou que não houve queda no preço da gasolina. "Esse mês todinho ficou em R$ 6,23", indica.
Litro de gasolina no Ceará poderia chegar a R$ 5,55
De acordo com cálculo realizado em matéria publicada pelo Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), caso a redução anunciada pela Petrobras fosse repassada inteiramente ao consumidor, o preço médio do litro da gasolina comum nos postos do Ceará poderia variar entre R$ 5,55 e R$ 6,65.
Esse resultado tem como base os dados mais recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que registrou o menor e maior preço do combustível no Estado como, respectivamente, R$ 5,63 e R$ 6,75.
As informações são referentes à semana de 12 a 18 de outubro, com levantamento feito em 111 postos cearenses.
Ainda segundo os dados, com a aplicação do desconto de 4,9% sobre a parcela da Petrobras na composição do combustível, o preço médio do litro da gasolina no Ceará poderia cair para R$ 6,18, já que a média indicada pela ANP no período em questão foi de R$ 6,27.
Entenda como é calculado o preço da gasolina.
Vale a pena abastecer com etanol?
De acordo com o consultor na área de gás e petróleo, Bruno Iughetti, somente "compensa abastecer com etanol quando o preço por litro for de até 70% do preço por litro de gasolina".
Assim, tomando como exemplo o preço de R$ 6,23 por litro de gasolina, o especialista indica que só será mais vantajoso abastecer com etanol se o preço for de até R$4,36 por litro.
Considerando os preços observados nos três postos visitados nessa segunda-feira (27) (R$ 4,88, R$ 4,69 e R$ 4,63), não é vantajoso abastecer com etanol, de acordo com Iughetti.
Quanto custa encher o tanque com gasolina atualmente em Fortaleza
Considerando o valor de R$ 6,23 para o litro da gasolina comum, encontrado nos três postos visitados pelo Diário do Nordeste nesta segunda-feira (27), uma pessoa precisa desembolsar cerca de R$ 280 para encher um tanque de 45 litros. Já no caso de um carro com tanque de 55 litros, o valor sobe para R$ 342,65.
Caso a redução no preço da gasolina fosse aplicada nos postos do Ceará, os consumidores poderiam economizar de R$ 3,60 a R$ 4,50 para encher um tanque de 45 litros. Já para um tanque de 55 litros, a economia seria entre R$ 4,40 e R$ 5,50.
Em entrevista ao Diário do Nordeste na última segunda-feira (20), o assessor de assuntos econômicos do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos-CE), Antônio José, salientou que o preço da gasolina é influenciado por uma série de fatores e que não é possível afirmar que a redução da Petrobras irá ocasionar baixa nos preços da gasolina no Ceará.
O Sindipostos-CE foi procurado para um novo posicionamento sobre os preços atuais da gasolina em Fortaleza, mas ainda não retornou os questionamentos. Em caso de novas informações, essa matéria será atualizada. 
Operação expõe limite estadual no combate ao crime
Por Editorial / O GLOBO
A resistência feroz que a polícia fluminense encontrou na operação desta terça-feira contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, é demonstração eloquente dos limites enfrentados pelos governos estaduais no combate às organizações criminosas. A ação reuniu 2,5 mil policiais e deixou ao menos 64 mortos, entre eles quatro policiais, 60 suspeitos, além de vários inocentes feridos. Diante da incursão, os criminosos ergueram barricadas, incendiaram veículos e fecharam vias essenciais paralisando a cidade. Usaram até drones com explosivos para intimidar a polícia.
O secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, reconheceu que o governo do estado não tem condição de enfrentar o tráfico. “Não dá para enfrentar sozinho”, afirmou. “É preciso que, sem ideologia, estado, União e município se sentem à mesa.” O governador Cláudio Castro cobrou “um trabalho de integração muito maior com as forças federais”. Ele disse que pediu apoio de blindados do Exército por três vezes e que os pedidos foram negados. O governo federal afirmou que não houve pedido de ajuda para a operação atual.
A milhares de quilômetros dali, o panorama não é diferente. A cidade colombiana de Leticia, na tríplice fronteira de Brasil, Colômbia e Peru, virou reduto do CV, hegemônico na região, como mostrou reportagem do GLOBO. É lá que a facção negocia com fornecedores a compra de droga, produzida em fazendas vizinhas. Como no Rio, autoridades locais admitem que, isoladamente, não têm como combater o crime. “A gente precisa que haja ação mais incisiva das forças federais, e falo das Forças Armadas mesmo, no combate ao tráfico de drogas”, diz o secretário de Segurança do Amazonas, coronel Marcus Vinicius de Almeida.
A incapacidade dos estados para enfrentar as organizações criminosas já deveria estar clara. Primeiro, porque as maiores, como CV e PCC, atuam em vários estados e até no exterior, dificultando as investigações. Segundo, porque em geral estão mais bem armadas que as forças locais — no Amazonas, policiais abortaram a abordagem de uma lancha ao ver uma arma capaz de derrubar pequenas aeronaves. Terceiro, porque dominam extensões significativas do território, onde as forças de segurança têm dificuldade para entrar.
Não há outra saída a não ser combatê-las, ou elas continuarão a estender seus domínios pela economia formal e até pelas instituições da República. Mas operações letais como a do Rio expõem a vida de policiais e inocentes, com poucos resultados práticos. Daí a necessidade de atuação mais efetiva do governo federal e de maior integração entre as forças de segurança, priorizando o uso de inteligência e tecnologia para asfixiar o crime financeiramente e planejar o foco das ações da polícia.
Executivo e Legislativo têm obrigação de se debruçar sobre o tema urgentemente. Não dá para adiar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que prevê participação do governo federal e articulação entre as diversas forças, nem a legislação antifacção que o governo deve entregar ao Congresso. Eventuais divergências precisam ser superadas. Projetos aprovados recentemente são positivos, mas não resolverão o problema. O Brasil precisa de medidas capazes de tornar o Estado mais organizado que o crime. Ou governos federal e estaduais se unem para enfrentar as organizações criminosas, ou todos sairão derrotados.
Operação das polícias do Rio nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/ 28/10/2025
O bunker eleitoral de Lula e o café servido pelo Planalto
Por Thiago Bronzatto / O GLOBO
O cafezinho servido no Palácio do Planalto tem sido usado como metáfora para ilustrar a estratégia do presidente Lula para 2026. Integrantes do governo costumam dizer que não adianta servir um expresso com pouco adoçante a quem gosta da bebida pura e aos que preferem uma dose extra de açúcar. O meio-termo desagradará aos dois extremos. Segundo essa lógica, não dá para atender ao mesmo tempo o público moderado e o radical. Por isso o plano do chefe do Executivo envolverá uma combinação de elevar o tom dos ataques ao statu quo, reforçando o coro do “nós contra eles”, com medidas que toquem no bolso da classe média.
Daqui até 2026, o Lula que deverá se lançar à reeleição se aproximará mais da figura política controversa de 1989, que emergiu atacando as elites, que do político pragmático de 2002, signatário da “Carta ao povo brasileiro” para tranquilizar o país. O discurso conciliatório na posse em 2023 e a promessa de unir a nação numa frente ampla de partidos de centro têm cedido terreno à retórica antissistema, alicerçada na retomada da popularidade e na dispersão de líderes da direita.
Lula deverá apostar cada vez mais em se conectar com a indignação dos eleitores, criticando a Faria Lima e antagonizando o Congresso. A ideia é hastear as bandeiras da redução da jornada de trabalho, da taxação das grandes fortunas e da tributação das bets. Se não conseguir emplacar essas pautas, a culpa será dos “outros que não deixaram”.
A lógica maniqueísta, que joga contra o futuro do país, será impulsionada tanto pelo bunker eleitoral montado no entorno do presidente quanto pela investida do PT na guerra digital contra a oposição. Além de contar com os conselhos do marqueteiro Sidônio Palmeira, mandachuva da comunicação do governo, Lula terá a seu lado o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), novo ministro da Secretaria-Geral, que recebeu a missão de mobilizar os movimentos sociais a favor das pautas do Planalto. O parlamentar fará dobradinha palaciana com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, ex-presidente do PT, que tem se tornado mais porta-voz da polarização do mandatário que articuladora política.
Alinhado com essa estratégia, o PT reestruturou seu braço de comunicação para aumentar o engajamento das brigas compradas pelo presidente. O partido montou uma equipe própria que atua em sintonia com um grupo de influenciadores digitais arregimentados para espalhar conteúdos de interesse de Lula, nutrindo o algoritmo da polarização política. Entre os assuntos designados pela legenda para propagar nas redes, está um organograma que, sem provas, associa o ex-mandatário Jair Bolsonaro ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, no escândalo de desvio de aposentadorias que ameaça o atual governo.
Além da retórica, o presidente aposta num combo de medidas eleitorais para reconquistar parte da classe média, segmento em que a gestão petista derrapa desde a recessão e o escândalo do petrolão que minaram o governo Dilma. A ideia é ampliar o alcance da imagem de Lula para além do “pai dos pobres”. Nesse terreno, são adubados a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e um novo modelo de crédito imobiliário para comprar a casa própria. Nas palavras de um auxiliar palaciano, as eleições de 2026 deverão ser vencidas ainda em 2025, fazendo a máquina pública girar a favor da reeleição do líder petista.
A cartilha seguida por Lula contraria a do Lula candidato em 2022, quando criticou o então presidente Jair Bolsonaro por ser radical e usar o Planalto a seu favor nas urnas:
— Temos um cidadão que está na Presidência e que está usando a máquina do governo para fazer campanha (…). Quando eu era presidente, a gente só saía para fazer campanha às seis da tarde — disse à época o líder petista , que agora ativa o modo eleitoral antes do fim do expediente.
*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em Brasília
'Excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro', afirma porta-voz da PM sobre confronto entre facções rivais na região da Pedreira e do Chapadão
Por O Globo —
Ao falar sobre a guerra entre bandidos dos complexos da Pedreira (Terceiro Comando Puro) e do Chapadão (Comando Vermelho), na Zona Norte da capital, nesta madrugada, que deixou dois moradores e dois suspeitos mortos, a porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Claudia Moraes afirmou que a situação "excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro". Em entrevista à Rádio CBN, a oficial defendeu uma integração com forças de segurança federais para tentar conter o a violência gerada pelo tráfico de drogas.
— Não interprete mal a minha fala. A Polícia Militar, as forças de segurança vêm trabalhando muito e duramente. A gente vem trabalhando todos os dias. O que eu estou deixando muito claro é que essa situação que estamos enfrentando nessa região, principalmente nesse confronto de facções criminosas, excede a capacidade do Estado do Rio de Janeiro — disse a tenente-coronel.
A oficial frisou que a PM está fazendo o seu trabalho diariamente, realizando apreensões de fuzis: — Ali é uma área onde a presença do policiamento vai desde buscar proteger a integridade física das pessoas até o combate a roubo de veículo, roubo de carga, roubo a transeunte. O roubo de veículo rapidamente pode evoluir para um latrocínio, a gente sabe disso. Essa questão da integração do estado com as forças federais... esses fuzis entram por algum lugar, a droga também não é fabricada aqui, ela chega aqui. A gente está combatendo o efeito, mas para trabalhar na causa é preciso de muito mais atores nesse contexto.
Claudia Moraes destacou que o 41º BP (Irajá) — responsável pelo policiamento no Chapadão e na Pedreira — é o que mais apreende fuzis no estado. Mas isso, afirmou, não é motivo de orgulho.
— A gente não se orgulha de um resultado desse porque se a gente está apreendendo muito é porque tem muito. Entram por fronteiras, por outras áreas. E tirar essas armas das mãos dos criminosos não é uma coisa simples. Não é uma questão de pedido de socorro. É um alerta para o país. O que acontece no Rio de Janeiro pode ser referência para outros estados. Para se ter uma ideia, esse ano em Pernambuco apreendeu 18 fuzis. Isso a gente apreende em uma semana no Rio de Janeiro — disse.
De acordo com a tenente-coronel, o policiamento segue reforçado na região do Chapadão e da Pedreira, com uma ocupação por tempo indeterminado nos acessos às comunidades.
Morte de refém
Claudia Moraes lamentou a morte de Marli Macedo dos Santos, de 60 anos, que teve a casa invadida por um traficante do CV que se perdeu. A idosa foi baleada na cabeça após bandidos do TCP metralharem a residência. Quando a PM chegou, negociou a rendição do criminoso e encontrou Marli já ferida. A oficial voltou a pedir integração das forças de segurança:
— O que aconteceu com a dona Marli é para a gente lamentar profundamente. É isso que os criminosos fazem, colocam a população como refém. Eles utilizam as Upas como pontos de vendas de drogas, utilizam a população, usam os serviços como uma espécie de escudo humano para se proteger e atuar livremente. Essa situação da invasão dessa casa, e a outra facção vai até lá para confrontar o criminoso, colocando essas pessoas em risco, e que culminou com a morte da moradora em sua residência, mostra como isso é complexo. Não é simples, não existe bala de prata, não existe solução única. A integração é o primeiro caminho, o primeiro passo. A gente não pode resolver da noite para o dia um cenário que se estabelece há mais de 40 anos.
A porta-voz destacou a proximidade da Pedreira e do Chapadão como fator que facilita esse cenário de guerra.
— O que a gente vê é isso: essa tentativa de domínio territorial. Ali naquela região você tem de um lado o Chapadão e, de outro, a Pedreira, cada um com uma facção. E é uma área muito próxima, então esses criminosos conseguem rapidamente acessar a área de um e do outro. A Polícia Militar faz o seu trabalho de policiamento ostensivo, mas é um cenário muito complexo e que a gente sempre diz o seguinte: a presença do fuzil, desses armamentos de guerra, de granadas não é uma questão banal, não é uma questão trivial. Esses equipamentos entram no Brasil. A gente precisa de um esforço grande para a gente conseguir enfrentar esse problema. Não será a Polícia Militar sozinha que vai resolver — afirmou.
UPA de Costa Barros
Sobre a reabertura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Costa Barros, que ficou fechada por cerca de um mês por questões relacionadas à segurança e foi reaberta na manhã desta segunda-feira, Claudia citou a necessidade da presença de policiamento em frente ao local: — A gente está com o desafio agora de reabertura da UPA onde a gente está com uma situação de ter que colocar um blindado na porta da UPA para ela funcionar. Isso não é um estado de normalidade.
Tiroteio levou pânico a moradores do Complexo da Pedreira — Foto: X/Reprodução
Sócio de ministro da Secom recebeu R$ 12 milhões de estatais para prestar serviços sob governo Lula
Por Aguirre Talento e Gustavo Côrtes / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA - A empresa de um sócio do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, recebeu R$ 12 milhões da execução de contratos de publicidade de duas estatais do governo Lula nos últimos dois anos, a Caixa Econômica Federal e a Embratur.
Procurado, o ministro disse que não interferiu em favor das contratações e que se afastou da gestão de suas empresas após assumir o cargo público (veja mais abaixo).
Os pagamentos foram feitos para a produtora Macaco Gordo, que pertence ao empresário Francisco Kertész, sócio de Sidônio em uma outra empresa: a M4 Comunicação e Propaganda — que depois mudou de nome para Nordx.
A M4 foi aberta no ano de 2022 para trabalhar na campanha eleitoral de Lula e, atualmente, sob o nome de Nordx, presta serviços para o diretório nacional do PT. Questionado, o empresário disse que a produtora foi escolhida em processos de concorrência por “adequação técnica” e pela oferta de menor preço.
Chico Kertész, como é conhecido, atualmente é sócio-administrador da agência Nordx. Sidônio ainda integra o quadro societário. Por ser ministro, porém, ele não pode mais ser sócio-administrador da empresa, função que também exercia quando a agência foi aberta.
A relação comercial entre Chico e Sidônio é anterior a essa empresa. A produtora Macaco Gordo presta serviços há diversos anos para a agência de publicidade de Sidônio, a Leiaute na execução dos contratos de publicidade do governo petista da Bahia, mas não trabalhava para o governo federal.
Com a vitória de Lula na disputa à Presidência da República, Sidônio passou a ser consultado em assuntos vinculados à imagem do governo. Em maio de 2024, por exemplo, quando o governo lançou campanha “Fé no Brasil”, Sidônio recebeu crédito de idealizador. Em janeiro deste ano, foi nomeado para a Secom da Presidência da República.
Chico também passou a frequentar eventos políticos em Brasília. Em 2025, com Sidônio já no posto de ministro, o dono da Macaco Gordo fez 13 visitas ao Palácio do Planalto entre janeiro e junho. Todas para se encontrar com Sidônio. Ao Estadão, Chico disse que os encontros foram “de cunho pessoal, sem que jamais tenha sido tratado das atividades da Macaco Gordo”.
Ele também é dono de uma rádio em Salvador, que tem uma linha de cobertura elogiosa a Lula e é ancorada por seu pai, o ex-prefeito de Salvador Mário Kertész.
No caso da Caixa, os pagamentos se intensificaram em 2025, após Sidônio ter se tornado ministro. A produtora do seu sócio foi a que recebeu os maiores valores para executar as peças publicitárias da estatal neste ano, em um total de R$ 4,3 milhões. Procurada, a Caixa diz que as contratações seguiram as normas legais (leia mais abaixo).
Os pagamentos das estatais ao sócio de Sidônio ocorrem de forma indireta. Assim como outros órgãos públicos, a Caixa e a Embratur mantêm contratos com agências responsáveis por criar campanhas publicitárias sob demanda, que foram contratadas por meio de licitação.
Quando esses serviços são executados, as agências subcontratam produtoras de vídeo, mas sem um processo licitatório formal. A partir de 2024, a Macaco Gordo foi contratada para produzir oito campanhas – seis delas do banco estatal e duas da empresa de turismo. Os dados foram obtidos pelo Estadão por meio da Lei de Acesso à Informação.
O órgão público não transfere o dinheiro diretamente para a produtora. Os valores são pagos às agências de publicidade, que ficam com o lucro correspondente e repassam parte dos recursos para as produtoras. Por isso, essas produtoras não aparecem nos portais do governo federal como empresas contratadas.
Não existe exigência de licitação para contratar essas produtoras. A agência de publicidade, porém, precisa fazer uma cotação de preços no mercado com no mínimo três diferentes propostas para justificar a contratação da mais barata. Esse procedimento não precisa seguir os parâmetros de transparência e publicidade definidos pela Lei das Licitações, já que a contratação não é feita diretamente pelo poder público. Mas, ao final da produção da campanha publicitária, o órgão público precisa dar sua aprovação ao processo.
Mesmo assim, nem sempre a regra dos orçamentos é cumprida. Os documentos obtidos pelo Estadão mostram que o maior pagamento recebido pela Macaco Gordo, para realizar uma campanha sobre renegociação de dívidas atrasadas para a Caixa, no valor de R$ 2,3 milhões, teve um aditamento com a dispensa na pesquisa de preços. A contratação foi em 2025.
A agência Calia, responsável pela campanha, fez uma cotação para produzir filmes publicitários de 30 segundos. A Macaco Gordo arrematou o serviço com uma proposta de R$ 1,6 milhão. Em seguida, a agência complementou o serviço contratado da Macaco Gordo e pediu a produção de outros filmes, que acrescentaram R$ 687 mil ao custo do contrato. Como justificativa, a Calia apresentou um documento dizendo que não iria realizar a cotação de preços porque se tratava apenas de um complemento.
Essa campanha, batizada de “Tudo em Dia Caixa”, incluiu a contratação do ator Paulo Vieira. Seu cachê foi pago à parte pela Caixa, mas os dados fornecidos pelo banco ao Estadão não incluíram esses valores.
“A produção de 01 FILME WEB REDUÇÃO DE 15′' referente a CAMPANHA CICLO CRÉDITO 2025 - ADIMPLÊNCIA - FASE 1 dispensa concorrência por se tratar de um serviço adicional ao anterior aprovado, conforme estratégia aprovada pelo cliente/agência”, diz um dos documentos. Questionada, a Calia negou irregularidades e afirmou que “o aditamento foi feito em razão de acréscimo quantitativo de objeto e período inicialmente contratado”.
No governo da Bahia, o Tribunal de Contas já apontou suspeitas de irregularidades no processo de escolha da Macaco Gordo para executar serviços da Leaiute, a agência de publicidade de Sidônio.
O tribunal entendeu que não havia detalhamento dos custos e suspeitou de um possível direcionamento à empresa. Com base nesses indícios, o Ministério Público da Bahia apresentou uma ação civil contra a agência de publicidade de Sidônio, que firmou um acordo para encerrar o processo e se comprometeu a implantar controles mais rígidos.
São João, afroturismo e Mega da Virada
A primeira campanha publicitária executada pela Macaco Gordo na Caixa sob o governo Lula foi sobre o concurso da Quina de São João, em junho de 2024. Foi concebida pela agência Binder e foi filmada na Bahia, em um cenário de festejo junino. A Macaco Gordo recebeu R$ 988 mil pelo trabalho.
Ainda naquele ano, também sob a agência Binder, a produtora fez as campanhas dos Poupançudos (personagens de desenho animado com dicas de educação financeira) e da Mega da Virada. A produtora recebeu, respectivamente, R$ 1,1 milhão e R$ 1,4 milhão pelos trabalhos.
Pela Embratur, a Macaco Gordo produziu uma campanha sobre afroturismo em 2024, concebida pela agência Calia, e filmada em pontos turísticos de Salvador e outras quatro localidades: Manaus, Rio de Janeiro, Fernando de Noronha e Recife. A produtora recebeu R$ 1,9 milhão pelo trabalho. A produtora também executou uma segunda campanha da Embratur em 2024 pela mesma agência, com o tema “projeto realidade virtual Sebrae”, por mais R$ 1,9 milhão.
A Calia ainda contratou a Macaco Gordo para uma campanha da Caixa sobre renegociação de dívidas atrasadas, em 2025, pagando R$ 2,3 milhões à produtora.
A agência Propeg executou mais duas campanhas com a Macaco Gordo pela Caixa neste ano: uma para a Lotofácil da Independência, com valor de R$ 1,5 milhão, e outra sobre o programa Minha Casa Minha Vida, de R$ 516 mil.
Em 2024, a Caixa registrou despesas de R$ 38 milhões com as produtoras responsáveis por suas campanhas publicitárias. Desse total, a Macaco Gordo faturou R$ 3,6 milhões. Neste ano, até o mês de setembro, a Caixa fez pagamentos de R$ 21 milhões às produtoras. A Macaco Gordo foi a que mais faturou: R$ 4,3 milhões, cerca de 20% do total.
As agências Binder e Calia afirmaram que a escolha da produtora foi feita em conformidade com a legislação, após cotação de preços no mercado. A Propeg não se manifestou.
Ministro afirma que ‘jamais’ indicou produtora de aliado
Questionado por meio da Secom, o ministro Sidônio Palmeira afirmou que “jamais” indicou a contratação da Macaco Gordo para campanhas publicitárias. O ministro, porém, não respondeu sobre as visitas do seu sócio, Chico Kertész, ao Palácio do Planalto.
“A escolha de qualquer fornecedor terceirizado, pelas agências licitadas, ocorre sem intervenção da Secom. O regramento em vigor obriga que as agências obtenham cotações de pelo menos três empresas capazes de prestar aquele serviço, de modo que a ofertante do menor preço o execute. No processo de aprovação das campanhas, compete à secretaria aprovar a linha conceitual e a alocação dos recursos nos diferentes veículos, à luz dos normativos de mídia técnica consolidados na legislação e nos acórdãos do Tribunal de Contas da União”, afirmou.
Na nota, a Secom ainda afirma que “jamais indicou ou endossou a escolha, pelas agências que prestam serviço à Embratur, à Caixa ou a qualquer outro órgão federal, de qualquer um dos fornecedores que tenham sido escolhidos”.
“Antes de assumir o cargo que hoje ocupa, o ministro Sidônio Palmeira afastou-se das funções de gestão e de administração das empresas em que já atuou, em absoluto respeito à legislação vigente e aos princípios éticos da alta administração federal. Desse modo, é descabido, infundado e mentiroso insinuar que tenha havido qualquer ingerência do ministro em favor de empresas ou indivíduos durante qualquer decisão de que ele tenha participado no âmbito do governo federal”.
Dono da Macaco Gordo diz que produtora foi escolhida por menor preço
O empresário Chico Kertész afirmou que sua produtora tem mais de 15 anos no mercado e foi escolhida por apresentar qualificação técnica e menores preços.
“A Macaco Gordo é uma produtora audiovisual que tem 15 anos de história e um portfólio com projetos realizados para mais de uma centena de clientes, como Natura, Britania, Perdigão, Multishow, Rede Globo, Rede Record, SBT e Ivete Sangalo, entre outros no mundo privado. Já no setor público, já prestamos serviços para as prefeituras de Salvador e do Rio de Janeiro e para os governos estaduais do Maranhão, do Pará e da Bahia. No caso dos projetos realizados para o governo federal, a produtora foi contratada por agências de publicidade que, conforme previsão contratual, devem terceirizar parte dos serviços pelos quais são responsáveis. Essa contratação decorre de concorrência interna, em que apresentamos orçamento e plano de trabalho, avaliados em razão da adequação técnica e da oferta do menor preço”, afirmou, em nota enviada ao Estadão.
O empresário também afirmou que disputou as cotações de preços “a convite das agências publicitárias”. “Em todos esses casos, ingressamos no processo de concorrência a convite das agências publicitárias, sem contato com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República ou com qualquer outro órgão da administração. Não houve, em nenhuma hipótese, engajamento de nenhum membro da Secom na apresentação, avaliação ou execução desses projetos junto às agências”, afirmou.
Caixa diz que seguiu critério de menor preço
A Caixa afirmou, em nota, que as contratações de serviços de produção publicitária realizadas pelas agências no âmbito dos contratos seguem os critérios estabelecidos pela legislação e pelas normas internas da estatal. Disse ainda que a escolha da Macaco Gordo foi aprovada pelo banco e se deu por critério de menor preço, mediante processo de cotação no qual foram coletados pelo menos três orçamentos no mercado. “Desde janeiro de 2023, a Caixa trabalhou com 41 produtoras de vídeo’.
“A Caixa esclarece que as contratações de serviços de produção publicitária realizadas pelas agências Propeg, Calia e Binder, no âmbito dos contratos vigentes com o banco, seguem os critérios estabelecidos pela legislação e pelas normas internas da instituição. A escolha da produtora Macaco Gordo para a produção de filmes publicitários ocorreu por meio de processo de cotação conduzido pelas agências de publicidade licitadas, conforme previsto contratualmente. A produtora foi selecionada por apresentar a proposta de menor preço entre, no mínimo, três orçamentos coletados no mercado. Desde janeiro de 2023, a Caixa trabalhou com 41 produtoras de vídeo. A Caixa aprovou os orçamentos apresentados pelas agências e autorizou a produção das campanhas por representarem a proposta de menor custo, em conformidade com os ritos legais e contratuais vigentes”, diz a nota.
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Embratur defende legalidade de concorrências
A Embratur afirmou, em nota, que realiza chamada pública e sessões públicas para a escolha das produtoras que executam as campanhas, com a entrega de proposta em envelope lacrado. Disse ainda que não houve interferência de Sidônio. “O processo de seleção da produtora é realizado pela agência de publicidade à frente da campanha”, disse.
Agências defendem regularidade da contratação
A agência Binder afirmou que a escolha da Macaco Gordo ocorreu “após processo de cotação de valores de mercado e por ter apresentado o menor valor dentre todas as propostas recebidas”. A agência Calia também disse que a escolha da produtora ocorreu após processos pelo critério de menor preço. A Propeg não se manifestou.
Lula dobra aposta no embate
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não engoliu a derrota da Medida Provisória (MP) que aumentava impostos na Câmara e vai dobrar a aposta no embate político. Desta vez, o Executivo vai segregar as propostas da MP em dois projetos de lei diferentes, deixando em um deles os trechos que ampliam a arrecadação e em outro aqueles que cortam gastos. De acordo com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a ideia é mesmo encurralar a oposição, que não terá o “pretexto de não votar o que eles reivindicam como agenda deles” – no caso, as medidas de contenção de despesas.
Ressentidos por terem entregado de bandeja uma bandeira eleitoral para Lula – a aprovação, por unanimidade, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o desconto para quem recebe até R$ 7.350 mensais e a taxação da alta renda –, Centrão e oposição aproveitaram a MP para impor uma derrota política ao governo com o discurso de que a sociedade não aguenta mais aumento de impostos.
Mais que rejeitar o aumento da carga tributária ou obrigar o governo a apresentar medidas efetivas de cortar gastos, o que a Câmara queria mesmo era travar o ímpeto de Lula de lançar programas eleitoreiros até o ano que vem. Sem a MP, nem a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) nem o Orçamento ficam de pé, um impasse que Lula precisa contornar.
Sabendo disso, o governo se esforçou muito para aprovar a MP e aceitou esvaziar sua capacidade de arrecadação, assentindo até mesmo com o fim da isenção das Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA). O fato de que nem essa concessão foi capaz de convencer a bancada ruralista a dar seu aval e a participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, nas articulações evidenciaram que a resistência não tinha nada a ver com o mérito da MP.
As propostas, agora, serão reempacotadas. As medidas para conter despesas e limitar o uso de créditos tributários serão apensadas ao texto que torna crime hediondo falsificar bebidas, cuja tramitação foi acelerada em razão da crise do metanol. Já as propostas para elevar a tributação das bets e das fintechs e de elevar o imposto sobre os Juros sobre Capital Próprio (JCP) estarão em outro projeto, ainda não definido.
É improvável chegar a uma economia de R$ 15 bilhões apenas com a inclusão do Pé-de-Meia no piso constitucional da Educação e mudanças no seguro-defeso, pago a pescadores no período da piracema, e no Atestmed, sistema que garante a concessão de auxílio-doença sem a necessidade de perícia presencial. Tampouco parece crível esperar arrecadar R$ 8,3 bilhões com a tributação de bets, fintechs e JCP quando ainda nem há uma estratégia para aprová-las.
O que há de mais concreto é o limite para uso de créditos tributários pelas empresas para compensar o pagamento de impostos, que deve render R$ 10 bilhões e já foi negociado com o setor. Como os deputados vão receber essas propostas é uma incógnita, mas o importante para o governo é manter o embate com os parlamentares e garantir que o Orçamento funcione no papel, para não ter de alterar a meta fiscal. Que o eleitor não se deixe enganar: nem o governo nem a Câmara estão realmente preocupados com as contas públicas.
Exceções destroem credibilidade do arcabouço fiscal
Por Editorial / O GLOBO
O Palácio do Planalto — Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo
Repetindo um comportamento contumaz, o Senado aprovou mais uma despesa que ficará fora da meta fiscal. O projeto tramitou de forma célere, com apoio maciço de governistas e oposicionistas. Permite destinar até R$ 5 bilhões a investimentos estratégicos do Ministério da Defesa sem se preocupar com o impacto nas contas públicas. Com mais essa manobra, até o fim do mandato, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá superado R$ 150 bilhões em exceções às regras do arcabouço fiscal (elas já passam de R$ 140 bilhões). Não é montante desprezível. Corresponde a 1,3% do PIB, ou ao valor previsto este ano para o Bolsa Família.
O investimento na Defesa pode até ser meritório, mas se soma a diversos outros gastos que, por mais necessários que sejam, nada têm de excepcional. Deveriam ser compensados com cortes de despesas. Em vez disso, contribuirão para aprofundar o buraco nas contas públicas. Sem qualquer constrangimento, a fila de exceções só aumenta. A primeira iniciativa foi adotada em dezembro de 2023, antes mesmo de o arcabouço entrar em vigor. Na época, o Supremo Tribunal Federal (STF) permitiu regularizar pagamentos de dívidas judiciais (precatórios) fora do limite de gastos e da meta fiscal até o fim de 2026. Como o Executivo antecipou o pagamento ainda em 2023, não houve exceção em 2024. Neste ano, porém, o gasto fora da meta será de cerca de R$ 40 bilhões. Para 2026, estão previstos R$ 57,8 bilhões.
A comoção nacional provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul serviu de pretexto para que o governo novamente sabotasse as próprias regras. Os gastos com a reconstrução do estado (R$ 29 bilhões) foram retirados da meta e do limite de despesas, assim como os recursos destinados a regiões castigadas por incêndios florestais (R$ 1,4 bilhão). Ainda no ano passado, foram autorizados como exceção R$ 5 bilhões de investimentos de estatais no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Neste ano, o ressarcimento a aposentados lesados por descontos fraudulentos também se somou à lista de exceções, depois de autorização do Supremo. Para que o governo pudesse ressarcir as vítimas da roubalheira, o Congresso aprovou crédito extraordinário de R$ 3,3 bilhões. Somente em 2025, o valor fora da meta já soma R$ 47,1 bilhões. Para o ano que vem, ainda podem entrar os gastos na Defesa e o socorro a empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump.
É lamentável que o governo crie regras de controle das contas — já demasiado frouxas —, depois lance mão de artimanhas para driblá-las. “Quando o governo lançou o projeto do arcabouço, a meta de resultado primário para 2025 era 0,5% do PIB. A gente obteve -0,5%”, diz o economista Marcos Mendes. “Para 2026, a expectativa era 1% do PIB. Agora é -0,6%. A dívida bruta prevista para 2026 era 77,3% do PIB. O mercado projeta 83,7%.”
As exceções contumazes só estimulam a crise fiscal, num governo que despreza a contenção de gastos. Não se questiona a destinação de recursos para calamidades ou situações atípicas, mas as despesas precisam seguir as regras pactuadas pelo governo. Ou então perde-se a credibilidade. Embora a despesa não seja computada, ela continua alimentando a dívida, minando a confiança no governo, pressionando os juros e prejudicando a atividade econômica. A conta da incúria fiscal sobra para todos os brasileiros.
Prefeitos que recebiam Bolsa Família tinham carros, terras e gados
Por Bernardo Mello / o globo
O cartão do Bolsa Família — Foto: Roberta Aline / MDS
Prefeitos e vice-prefeitos excluídos do Bolsa Família após terem tomado posse nos Executivos municipais neste ano apresentaram declarações de bens à Justiça Eleitoral, nas eleições de 2024, que já sugeriam um perfil não condizente com o do programa. Levantamento do GLOBO identificou gestores que tinham, em seu patrimônio declarado, itens como R$ 250 mil em “animais de grande porte”, propriedades rurais e veículos avaliados em R$ 90 mil. Em outro caso, uma candidata beneficiária do programa doou o equivalente a 70% do que havia recebido pelo Bolsa Família naquele ano para a própria campanha.
O Bolsa Família é voltado para pessoas cuja renda mensal é de até R$ 218, o que configura situação de pobreza. O cálculo leva em conta toda a remuneração, dividida pelo número de pessoas que compõem uma mesma “unidade familiar”: uma família de sete pessoas que tenha como renda total apenas um salário mínimo (R$ 1.518), por exemplo, se enquadra no programa.
O beneficiário do programa precisa manter atualizados os nomes de outras pessoas com as quais divide a residência. Em janeiro, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) suspendeu o benefício das famílias que tinham, em sua composição, algum candidato eleito em 2024, considerando que o salário de prefeito, vice ou vereador excede os parâmetros do programa.
Pente-fino
Ao todo, segundo o MDS, cerca de 1,1 mil vereadores, 19 vice-prefeitos e sete prefeitos foram excluídos. Os nomes dos candidatos afetados só vieram à tona, porém, em outubro, após um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) da agência Fiquem Sabendo, organização sem fins lucrativos especializada em transparência pública.
Os dados mostram que, em um terço (375) dos casos, o próprio eleito — 7 vices e 368 vereadores — era o beneficiário inscrito no programa. Uma delas é a vice-prefeita de Senhora dos Remédios (MG), Renata do Táxi (Solidariedade). Na campanha eleitoral, ela fez um Pix de R$ 5 mil em doação para a campanha de seu colega de chapa, o prefeito Gilberto do Mirante (PL). Até aquela altura, segundo dados do Portal da Transparência do governo federal, Renata havia recebido R$ 7,1 mil pelo Bolsa Família em 2024.
Procurada pelo GLOBO, a prefeitura não respondeu. Beneficiários do Bolsa Família não são proibidos de fazer doações para campanhas eleitorais, mas o governo federal exige que elas sejam compatíveis com seu perfil de renda. Em 2021, o governo publicou uma instrução normativa determinando o bloqueio do benefício para famílias que tivessem feito doação equivalente a meio salário mínimo (R$ 760) por pessoa ou mais. Em uma família de cinco pessoas, por exemplo, o teto para doação seria R$ 3,8 mil.
— Quando a pessoa é beneficiária e faz doação, entendeu-se já na eleição de 2020 que isso pode configurar um alerta em termos de fiscalização e controle. Esse é um indicador até mais relevante do que se a pessoa figura, por exemplo, com renda de prestadora de serviço em campanha — afirmou a advogada Izabelle Paes Omena, membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de São Paulo e sócia do escritório Callado, Petrin, Paes & Cezar Advogados.
Além de eleitos que eram beneficiários, há casos de prefeitos cujas esposas recebiam o benefício. Um deles é o de Cordeiros (BA), Devani Pereira (PDT): a primeira-dama Márcia Novais era beneficiária desde 2013 do Bolsa Família e recebeu, no ano passado, R$ 800 mensais do programa. Os repasses foram suspensos pelo governo federal em janeiro, após o início do mandato.
Devani, que adotou o lema “o vaqueiro virou prefeito” depois de se eleger, declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 1,2 milhão em bens no início da campanha eleitoral de 2024. A lista inclui “animais de grande porte” avaliados em R$ 250 mil — o que equivale, por exemplo, ao valor de 60 cabeças de boi —, seis propriedades rurais e R$ 20 mil em espécie.
Em vídeos recentes publicados nas redes sociais, o prefeito aparece em um local semelhante a um rancho, conduzindo dezenas de bois, vacas e cavalos. Procurados na quinta e na sexta-feira, o prefeito e a primeira-dama não responderam os contatos do GLOBO.
Especialista em direito previdenciário e também mestre em direito político e econômico, a advogada Camila Pellegrino afirmou que, diferentemente do que ocorre com benefícios previdenciários, a concessão do Bolsa Família não prevê análise dos bens da pessoa.
— É um programa eficiente para distribuição de renda, mas a gente sabe que fraudes existem e que algumas pessoas mentem ou omitem informações. Em geral, a fiscalização ocorre quando há denúncias, seja ao governo federal ou aos órgãos municipais e estaduais de assistência social, por exemplo — apontou.
Carro de R$ 89 mil
Outros casos envolvendo cônjuges beneficiárias do Bolsa Família ocorreram em Lontra (MG) e Cachoeirinha (TO). No município do Tocantins, o prefeito Sandrimar Alves (União) declarou R$ 165 mil em bens, incluindo um Toyota Corolla, modelo 2019, avaliado em R$ 89 mil pela tabela Fipe. Nas redes sociais, sua esposa, Elaine de Deus, se apresenta como contadora.
Já no município mineiro, o prefeito Wesley Construmendes (PSD) declarou ter um carro Hyundai HB20 e um caminhão Volkswagen, avaliado em R$ 93,4 mil, em seu nome. Antes de se eleger, ele se apresentava como empresário e comerciário. O nome usado na urna faz referência a uma empresa de construção civil, a Construmendes, que atua na região. Procuradas, ambas as prefeituras não retornaram os contatos.
Questionado sobre as declarações de bens dos candidatos, o Ministério do Desenvolvimento Social disse que “não utiliza esse tipo de informação como critério de elegibilidade ou permanência” no Bolsa Família. A pasta afirmou que, entre suas “ações de monitoramento e fiscalização”, buscou identificar “famílias que possuam membros eleitos para cargos na esfera municipal, estadual ou federal”.
Na avaliação do advogado Marcos Jorge, especialista em direito administrativo e eleitoral e coordenador do escritório Wilton Gomes, a Justiça Eleitoral tampouco pode “analisar os bens dos candidatos”. No entanto, pode compartilhar informações com outros órgãos do governo federal para “evitar que alguém esteja recebendo o benefício sem ter direito”.
— Não se trata de fazer caça às bruxas, mas de garantir legalidade e maior equilíbrio nas eleições. Se uma pessoa é beneficiária de programa social e fez doação, por exemplo, é importante averiguar se essa doação foi feita de forma regular — avaliou o advogado.

