Nova pesquisa indica desgaste de Flavio
Por Merval Pereira / O GLOBO
A diferença a favor de Lula fora da margem de erro evidenciada pela pesquisa Meio/Ideia já é um avanço para a candidatura do petista, apesar de continuar sendo quase um empate técnico. Mas é um indicativo de que a diferença está aumentando, o que é importante para Lula e preocupante para Flavio. Vai aumentando aos poucos, à medida que mais pessoas tomam conhecimento da conversa dele com Vorcaro, à medida que não se explica muita coisa do empréstimo que estava negociando. Ele tentava passar a ideia de político sério, maduro, mas a promessa de apoio integral, mesmo depois da prisão de Vorcaro, revela uma amizade mais próxima do que ele gostaria que soubessem. O assunto não acabou e a tendência é que vai piorar. A PF já aceitou retomar a delação premiada, sinal de que Vorcaro está disposto a revelar mais coisas. Pode ser que a delação atinja também seus adversários, mas de qualquer maneira, Flavio ganhou mais um problema para se desvencilhar.
Apesar de liderar em todos os cenários de primeiro e segundo turnos, Lula é o que tem a maior desaprovação, mas como a rejeição a Flavio também é grande, parece não atrapalhar muito. O que atrapalha o candidato é a exibição de corrupção, de negociações que não se explicam direito e que podem envolver o irmão Eduardo nos EUA, o produtor do filme que é um deputado do PL e foi ministro de Bolsonaro. Tudo isso marca a candidatura dele com esses problemas que são rejeitados pela opinião pública.
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Fiscais do Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Desde que o conflito entre EUA e Israel contra o Irã estourou, provocando forte elevação no preço global do petróleo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não perde nenhuma oportunidade de explorar a crise de forma desavergonhadamente eleitoreira.
Além da concessão de bilhões em subvenções “temporárias” à gasolina e ao diesel, que muito provavelmente serão esticadas o máximo possível, o Executivo agora conseguiu aprovar na Câmara um absurdo projeto de lei, o PL 1.625/2026, que manda para a cadeia donos de postos de combustíveis que elevarem preços “sem justa causa” ou “artificialmente”.
Aprovado de forma simbólica, isto é, sem chamada nominal dos deputados, o texto, que prevê multa e penas de dois a quatro anos para quem praticar “preços abusivos”, encontra-se agora no Senado, onde, pelo bem do País, espera-se que seja enterrado.
Em ritmo frenético de campanha, o governo tem uma intenção bastante clara: gerar imagens nas quais donos de postos “gananciosos” apareçam presos por alegadamente agirem contra os eleitores, majorando os preços dos combustíveis apesar dos subsídios generosamente concedidos pelo governo para “segurar” os preços em ano de eleição presidencial.
É bem verdade que Lula não é o primeiro a usar um conflito internacional como pretexto para interferir no mercado de gasolina em ano eleitoral. Em 2022, vexado pelo mau desempenho nas pesquisas eleitorais, o então presidente Jair Bolsonaro não só isentou combustíveis de tributos federais, como pressionou o Congresso a aprovar a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), prejudicando os Estados.
Mas Lula deu um passo além, ao buscar criminalizar a livre fixação de preços no Brasil, que é assegurada pela Constituição. Talvez os petistas, obcecados pelo controle de preços, estejam interessados em criar seu exército de “fiscais do Lula”, emulando os famigerados “fiscais do Sarney” – que, no embalo do congelamento do Plano Cruzado (1986), denunciavam donos de supermercados que ousavam reajustar suas mercadorias.
Como não pode impor o seu próprio Plano Cruzado, que deu no que deu, a gestão petista busca maneiras criativas de “congelar” os preços dos combustíveis.
Ainda em março, quando anunciou as primeiras medidas para conter a alta nos preços dos combustíveis, o governo baixou medida provisória com multas que variam de R$ 50 mil a R$ 500 milhões para postos de combustíveis que praticarem “aumentos abusivos”. Ato contínuo, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) intensificou as ações de fiscalização e autuação de distribuidoras.
Agora, com o projeto de lei que ameaça donos de postos, o governo tenta escalar sua cruzada eleitoreira, jogando os revendedores de combustíveis na vala comum dos “inimigos do Brasil”, que os petistas adoram denunciar.
Por fim, como a Petrobras parou de importar diesel, as distribuidoras que compram o produto diretamente do exterior, repassando o preço ao consumidor, podem ficar ainda mais receosas de fornecer diesel a um Brasil que pode criminalizá-las por acreditarem na liberdade de mercado.
A falsa paz
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Há sinais de que um acordo entre Estados Unidos e Irã pode estar próximo. O presidente americano, Donald Trump, fala em entendimento. Os mercados oscilam entre alívio e cautela. As monarquias do Golfo pressionam por estabilização. Depois de meses de guerra, inflação energética e sobressaltos nos mercados globais, a perspectiva de alguma normalidade voltou a exercer enorme atração política.
Nada disso é irracional. A guerra expôs vulnerabilidades profundas. O Estreito de Ormuz continua sendo o principal gargalo energético do planeta. Seguradoras elevaram prêmios, cadeias produtivas sofreram abalos e aliados americanos descobriram, mais uma vez, quão vulneráveis permanecem suas cidades, refinarias, portos e usinas. Tampouco há entusiasmo, nos Estados Unidos ou no Irã, por uma escalada militar sem horizonte claro. A prudência exige descartar as fantasias de vitória rápida que tantas vezes seduziram Washington na região. Ainda assim, a substância do acordo importa mais que seu anúncio.
Nas últimas semanas, os objetivos americanos foram encolhendo. No início da guerra, a retórica era de transformação estratégica do Oriente Médio, desintegração das capacidades iranianas e queda do regime. Hoje, as discussões giram em torno de cessar-fogo prolongado, reabertura de rotas marítimas, alívio gradual de sanções e novas rodadas de negociação. Isso talvez reflita realismo tardio. Guerras longas costumam estreitar grandes ambições. Mas existe um limite além do qual a recalibração perde o caráter de prudência e se aproxima da capitulação. Esse limite tem nome e sobrenome: bomba atômica.
Se havia uma justificativa plausível para a guerra, era impedir que um regime fundamentalista, patrocinador de terroristas e abertamente hostil ao Ocidente preservasse a capacidade de produzir um artefato nuclear. Mas nesse ponto o acordo em discussão permanece nebuloso. As informações disponíveis sugerem fórmulas provisórias: diluição parcial do urânio enriquecido, moratórias, inspeções futuras e mecanismos indefinidos de monitoramento. Em alguns cenários discutidos publicamente, o material enriquecido permaneceria sob controle iraniano.
Conhecimento nuclear não desaparece com comunicados diplomáticos. Centrifugadoras podem ser religadas. Estoques podem ser recompostos. Moratórias expiram. Instalações subterrâneas continuam existindo mesmo quando temporariamente inativas. Um acordo sério exigiria parâmetros claros e rigorosos sobre enriquecimento, fiscalização, armazenamento de material sensível e consequências automáticas para violações. Sem isso, a guerra terá produzido uma situação curiosa: meses de bombardeios, disrupção global e desgaste estratégico apenas para devolver o mundo a uma versão mais instável da crise anterior.
Ormuz torna essa perspectiva ainda mais perigosa. O Irã certamente não venceu o conflito, mas provou que possui meios para impor custos maiores do que sua força militar poderia causar. Bastaram ataques seletivos, ameaças intermitentes e incerteza contínua para impactar energia, transporte marítimo, inflação e expectativas financeiras ao redor do mundo. A capacidade de chantagem do regime por meio do estreito ganha outra dimensão estratégica caso preserve capacidade nuclear latente.
Não há solução simples. Retomar grandes operações militares comportaria riscos enormes. Uma campanha indefinida de bloqueios e escoltas navais consumiria recursos exorbitantes. A hipótese de guerra ampla contra um país de quase 93 milhões de habitantes permanece politicamente tóxica e estrategicamente incerta. O dilema americano é real.
Mas justamente por isso o acordo precisa enfrentar o núcleo do problema, e não apenas administrar seus sintomas imediatos. Reabrir Ormuz aliviará mercados. Suspender hostilidades reduzirá tensões regionais e, com sorte, produzirá algum espaço diplomático. Tudo isso tem valor. O que não faz sentido é chamar de “paz” uma trégua construída sobre ambiguidade nuclear. Enquanto a principal ameaça permanecer intacta, toda solução será fictícia.
Encerrar a guerra pode ser necessário. Encerrá-la preservando a possibilidade de um Irã nuclear seria outra coisa.
Câmara vilaniza os empresários
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A redução da jornada de trabalho e a revisão da escala 6x1 são temas legítimos numa sociedade que discute produtividade, qualidade de vida e transformação das relações laborais. O problema é que a Câmara dos Deputados decidiu conduzir esse debate de forma irresponsável, com retórica eleitoreira e demonização do setor produtivo, composto em sua maioria por micro e pequenas empresas, responsáveis por 7 em cada 10 vagas de emprego criadas no Brasil.
Esses valentes empreendedores brasileiros, a maioria dos quais gente comum com um sonho na cabeça, decidiram investir no País, a despeito da imensa carga tributária, do cipoal burocrático e da persistente insegurança jurídica. Por isso, deveriam ser mais bem tratados pelo Congresso. Mas os deputados, preocupados exclusivamente com as eleições, optaram pelo caminho da demagogia explícita e, em seus discursos, transformaram os empresários em insensíveis senhores de escravos, ignorando o que eles tinham a dizer sobre o assunto.
A sessão que aprovou a PEC do fim da escala 6x1 tornou isso explícito. O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) afirmou que a proposta acabaria com a “escravidão moderna do século 21”. O deputado Florentino Neto (PT-PI) declarou que a escala “escraviza”. O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) citou Joaquim Nabuco para defender que “não basta acabar com a escala 6x1, é preciso acabar com a exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores”. Em diversos momentos da discussão, empresários, grandes ou pequenos, foram retratados quase como inimigos morais da civilização.
É evidente que jornadas exaustivas precisam ser combatidas. O problema começa quando qualquer ponderação sobre custo, produtividade ou impacto econômico passa a ser tratada como defesa da exploração humana, sem levar em conta os desafios técnicos e econômicos num país de baixíssima produtividade.
Para ter uma ideia, a escala 6x1 ainda está presente em 53,2% dos empregos do transporte aéreo, em 52% dos serviços de alojamento, em 47,1% da alimentação e em 42,2% do comércio, segundo o Ministério do Trabalho. Hospitais, restaurantes, hotéis, supermercados e pequenos negócios não conseguem substituir jornadas e recalcular estruturas inteiras da noite para o dia. Ainda assim, a Câmara acelerou a tramitação e impôs um prazo de 60 dias, após a promulgação da PEC, para que empresas e trabalhadores renegociem acordos e convenções coletivas para adequação inicial à nova carga horária, o que certamente levará à judicialização. A PEC originalmente apresentada por Reginaldo Lopes (PT-MG) previa um período de adaptação de dez anos.
Formalmente, representantes empresariais participaram da tramitação, por meio de audiência específica com entidades patronais e manifestações de confederações empresariais. Mas, na prática, falaram para as paredes. Quase nada do que foi apresentado pelo setor produtivo parece ter surtido efeito concreto sobre o texto ou sobre o ritmo da tramitação.
A maioria das audiências públicas promovidas pela comissão especial foi dominada pelas centrais sindicais, por movimentos sociais e por representantes do governo, todos obviamente interessados na mágica de reduzir a jornada sem tocar em salários. Os estudos da Confederação Nacional da Indústria mereciam ao menos ser levados em conta. A entidade estima impacto anual entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões.
Nada disso significa que a escala 6x1 deva permanecer intocável. Mas reformas dessa magnitude exigem transição responsável, negociação séria e respeito às particularidades de cada atividade econômica.
O Congresso preferiu outro caminho: transformar empresários em vilões convenientes de uma campanha eleitoral disfarçada de avanço social. No plenário, falar em custo, produtividade ou prazo de adaptação virou quase confissão de insensibilidade moral. Brasília talvez ganhe aplausos com essa encenação. Quem produz, emprega e sustenta a economia brasileira ficará com a conta.
Lia defende Ciro de acusação de traição e diz que Cid deixa decisão do Senado na mão de Júnior Mano
A deputada estadual Lia Gomes (PSB) voltou a comentar as movimentações políticas envolvendo os irmãos: a possível busca de Cid Gomes (PSB) pela reeleição ao Senado e as declarações governistas contra Ciro Gomes (PSDB), pré-candidato ao Governo do Ceará pela oposição. Durante entrevista coletiva na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), nesta quarta-feira (27), a parlamentar foi questionada sobre as falas do senador Camilo Santana (PT) sobre o irmão, na live do PontoPoder, na terça-feira (26).
Na ocasião, o petista acusou Ciro de ter rompido com o grupo governista por “capricho e prepotência” e ter traído a então governadora Izolda Cela (PSB) para apoiar o ex-prefeito Roberto Cláudio (União), diante da disputa pelo Governo do Ceará em 2022, quando Elmano de Freitas (PT) foi eleito. Questionada sobre o ex-ministro ter sido chamado de traidor, Lia Gomes rebateu. “Eu acho que o Ciro traiu ninguém não”, enfatizou a parlamentar.
Reiterada a pergunta, Lia evitou dar continuidade ao assunto. “Só isso”, finalizou a deputada estadual. Lia Gomes tem reforçado “estar com Cid”, que vem enfatizando o compromisso com a reeleição de Elmano. Por outro lado, a política afirma que não tornará públicas as divergências com Ciro, mesmo diante da aliança dele com a oposição.
POSSÍVEL CANDIDATURA DE CID
Lia também comentou as articulações em torno de Cid Gomes (PSB). O senador se reuniu com deputados estaduais da bancada do PSB e outros aliados nessa terça-feira (26), em um restaurante em Fortaleza. Como relataram políticos do grupo de Cid, o encontro serviu para debater a composição partidária e formação das chapas do PSB, pensando nas metas para a eleição de deputados estaduais e federais.
Por outro lado, aliados voltaram a pedir que Cid Gomes dispute a reeleição. O senador se mostrou disposto a concorrer, mas tem tornado público o compromisso em lançar o deputado federal Júnior Mano (PSB) para a vaga, caso o PSB tenha esse espaço na chapa governista. Sobre o assunto, Lia Gomes disse que não participou da reunião por conta de uma agenda pessoal em São Paulo. Contudo, ela enfatizou o desejo do grupo, mesmo diante da posição de Cid.
“O pessoal do nosso grupo acha que o mandato do Cid, eu já disse isso reiteradas vezes, ele fortalece muito a nossa atuação como deputado, principalmente também no apoio que ele dá”, pontuou Lia. “Eu, inclusive, defendo que ele seja candidato”, acrescentou.
“Analisando friamente o que ele (Cid) disse, eu vejo que ele colocou a decisão aí na mão do Júnior Mano, né? Que ele disse que não, não vai voltar atrás, é um compromisso muito antigo que ele tem com o Júnior Mano. E eu acho que vai ficar aí essa possibilidade”
Por sua vez, o deputado Guilherme Bismarck participou da reunião com Cid. Em entrevista nesta quarta, o parlamentar disse que pessoas do grupo voltaram a pedir que o senador buscasse a reeleição, mas ele “mantém o discurso de que não precisa fazer essa liderança com mandato”. Mesmo assim, os pedidos podem mudar a situação.
“(Cid) fala que, de fato, estará sempre na vida pública e que na vida pública, às vezes, um sentimento coletivo ele é superior ao sentimento individual. Então assim, isso é analisado, isso tem que ser colocado, e ele colocou isso muito bem, mas que ele é um homem de palavra e que tem a sua palavra dada (com Júnior Mano)”, afirmou Bismarck.
EMBATE SOBRALENSE
Outro assunto da entrevista de Lia foi o embate com o deputado federal Moses Rodrigues (União) na semana passada. O conflito girou em torno da posição dos parlamentares sobre a Prefeitura de Sobral, comandada por Oscar Rodrigues, pai de Moses. Como mostrou o PontoPoder, Lia usou a tribuna para expor “abusos e desmandos” que estariam acontecendo em Sobral, ao apresentar denúncias que teria recebido contra a gestão Oscar, durante sessão da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) dessa quinta-feira (21),
Na postagem de parte do pronunciamento nas redes sociais, Lia recebeu a resposta de Moses Rodrigues em um comentário. “Pense em uma pessoa que tem inveja do Prefeito, vá trabalhar, gerar emprego, prestar serviço e pagar imposto, deixe de ser recalcada”, escreveu o deputado.
“Eu acho interessante, o Moses faz aquele típico para não responder às graves acusações que eu fiz, ele me desqualifica. E dizendo, enfim, coisas sobre a minha pessoa”, rebateu Lia Gomes, em entrevista nesta quarta. “São coisas que que ele não explica, resta a ele me desqualificar”, finalizou.
O confronto ainda ecoa a disputa pelo Executivo de Sobral. Adversário histórico dos Ferreira Gomes, Oscar Rodrigues foi responsável por derrotar o grupo de Lia na eleição de 2024, quando o atual prefeito ganhou a disputa contra a ex-governadora Izolda Cela (PSB).
Por sua vez, Lia tem mostrado desconforto com a aliança entre o Governo Elmano de Freitas (PT) e a família Rodrigues. Ela tem reiterado que não deve subir em palanque com o grupo adversário sobralense, mesmo que Cid esteja ciente da aproximação.
Militares acima de qualquer IR
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Senado resolveu dar um empurrãozinho em uma proposta que é pura desfaçatez: a isenção de Imposto de Renda (IR) para militares das Forças Armadas e forças auxiliares, independentemente de patente ou remuneração. A medida, que nasceu de uma sugestão popular, rapidamente encontrou padrinhos entusiasmados e virou projeto de lei formal.
É impressionante como algumas categorias se enxergam acima das demais, em uma espécie de elite apartada da sociedade brasileira, e acreditam ser merecedoras de privilégios negados ao restante da população. A ideia de que uma carreira pública deva ser dispensada de obrigações tributárias comuns apenas por considerar sua função mais relevante do que as demais não expressa reconhecimento institucional, mas uma visão de que o Brasil não é uma república, e sim um jantar onde alguns se sentam à mesa enquanto o resto da população lava a louça.
Senadores decidiram abrir espaço para discutir a criação de uma categoria blindada da tributação comum enquanto reformas estruturais seguem enterradas (da administrativa ao enfrentamento dos supersalários) e benefícios corporativos continuam encontrando caminho livre em Brasília. Certas pautas de limitado interesse público parecem percorrer os corredores do Congresso em marcha acelerada.
O parecer aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa sustenta que os militares merecem tratamento tributário diferenciado por exercerem uma carreira “singular”, com hierarquia, disciplina e restrições funcionais. O relator, o senador Hermes Klann (PL-SC), afirma que a isenção não configuraria privilégio, mas “reconhecimento institucional” à importância da categoria.
Se restrições funcionais bastassem para justificar privilégio tributário, não faltariam categorias aptas a reivindicar tratamento semelhante. Policiais, magistrados, diplomatas, garis, professores e médicos de emergência, para citar apenas alguns, também exercem funções essenciais e convivem com restrições. Nem por isso se cogita dispensá-los do dever básico de contribuir para o financiamento do Estado.
Os militares brasileiros já possuem um regime historicamente diferenciado. Ficaram de fora dos aspectos mais duros da reforma da Previdência aprovada em 2019, preservaram vantagens específicas e benefícios corporativos intocados há décadas. O histórico brasileiro mostra, aliás, que privilégios concedidos a determinadas carreiras raramente permanecem modestos, temporários ou fiscalmente sustentáveis.
Durante a sessão, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) sugeriu que, se mais brasileiros conhecessem a proposta, ela teria apoio ainda maior. Sugerimos à senadora que acompanhe as agruras dos brasileiros que pagam imposto, enfrentam filas em hospitais, escolas precárias e serviços públicos. Esses são os contribuintes que bancarão a isenção para os militares.
Discutir isenção ampla de IR para uma categoria específica revela uma inversão difícil de justificar, dentro de qualquer lógica republicana. O Senado deveria concentrar energia política em enfrentar desigualdades dentro do próprio Estado brasileiro, e não em aprofundá-las.

