TSE proíbe uso de igrejas como palanque eleitoral; especialistas analisam impactos para campanha
Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisou um caso envolvendo um culto realizado em 2024 na Igreja do Evangelho Quadrangular, em Votorantim, no interior de São Paulo. Durante o evento, lideranças religiosas afirmaram que a igreja estava “fechada” com determinados candidatos e defenderam um projeto para eleger vereadores. Pré-candidatos também foram chamados ao púlpito, receberam orações diante dos fiéis e fizeram discursos em meio a referências ao cenário eleitoral.
Além do culto, os ministros também analisaram um aumento de 34,10% no valor do aluguel pago pela Prefeitura de Votorantim à Igreja do Evangelho Quadrangular por um imóvel alugado pelo município para funcionamento da Escola de Música da cidade. Segundo o TSE, o reajuste foi concedido em pleno ano eleitoral e sem uma justificativa técnica considerada adequada pela Corte, o que ajudou a caracterizar abuso político e econômico no caso.
Com isso, o TSE manteve a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), que havia cassado os registros da prefeita de Votorantim, Fabíola Alves da Silva (PSDB), do vice Cesar Silva e do vereador Pastor Lilo (MDB). Para a Corte, houve uso da estrutura religiosa para promoção política de candidaturas, além de abuso de poder político e econômico.
O TSE reforçou então o entendimento sobre os limites do uso político de igrejas durante campanhas eleitorais, já mirando as eleições de 2026.
O alerta da Corte
Na decisão, o Tribunal também destacou que, mesmo sem pedido explícito de voto, o contexto do evento demonstrava promoção eleitoral, diante das manifestações públicas de apoio institucional aos candidatos e da utilização da estrutura religiosa como espaço de mobilização política.
Para o especialista em direito eleitoral Aurélio Lobão Lopes, o julgamento não representa exatamente uma novidade dentro da Justiça Eleitoral, mas a consolidação de um entendimento que já vinha sendo adotado pela Corte nos últimos anos.
“Na verdade, essa decisão é uma reafirmação do posicionamento que o TSE vem adotando já há bastante tempo”, afirmou.
Segundo ele, a Corte já havia tomado decisões semelhantes em eleições anteriores, mas o caso de Votorantim chamou atenção porque as manifestações ocorreram antes mesmo do período oficial de propaganda eleitoral.
“O que se ressalta de diferente da decisão do caso de Votorantim é o fato de que a menção a candidaturas num evento religioso ocorreu antes do período de propaganda eleitoral”, explicou.
Aurélio Lobão também destaca que a linha adotada pelo TSE e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) vem sendo justamente a de separar atos religiosos de atos político-eleitorais.
“Como já pacificado nas decisões do TSE e do próprio STF, a liberdade religiosa não é absoluta. O que se exige das igrejas e demais entidades confessionais é uma postura de não misturar os cultos e momentos religiosos com eventual reunião de organização político-eleitoral”, disse.
Fé e política
De acordo com os especialistas ouvidos pelo PontoPoder, o julgamento também ocorre no momento em que o eleitorado evangélico amplia espaço nas disputas eleitorais brasileiras e aumenta a influência de lideranças religiosas dentro da política.
Para o cientista político Lucas Zandona, professor da Estácio, a decisão do TSE funciona mais como um alerta para instituições religiosas do que como uma interferência na liberdade de culto.
“Eu não vejo a decisão do TSE como uma intervenção nas igrejas evangélicas, de forma nenhuma. O que eu vejo é um precedente e quase um alerta para as organizações religiosas que não utilizem a instituição religiosa para apoiar o candidato A, B ou C”, afirmou.
Segundo ele, existe diferença entre um integrante da igreja disputar eleições e a própria instituição religiosa assumir apoio político durante cultos.
Apesar do endurecimento do entendimento da Justiça Eleitoral, especialistas ressaltam que a decisão não impede a participação de candidatos em cultos ou eventos religiosos. O ponto central, segundo eles, é quando a instituição religiosa passa a assumir apoio político institucional dentro do ambiente religioso.
“Quando a igreja noticia que existem pastores ou membros candidatos, isso é um exercício regular de um direito. Agora, a partir do momento em que se diz que a igreja está fechada com A, B ou C, aí de fato é que configura o excesso”, explicou.
O especialista Lucas Zandona também avalia que o entendimento reforçado pelo TSE deve servir como parâmetro para diferentes segmentos religiosos, e não apenas para igrejas evangélicas.
“Esse alerta não se aplica apenas aos evangélicos. Vale para qualquer organização religiosa, independentemente da fé professada, para que não haja esse apoio institucional durante cultos ou eventos religiosos”, disse.
Reflexos para 2026
Para os especialistas da área eleitoral, a decisão do TSE tende a aumentar a cautela de partidos, pré-candidatos e lideranças religiosas durante eventos em igrejas nos próximos anos.
Na avaliação do especialista em direito eleitoral Aurélio Lobão Lopes, o entendimento da Corte deve funcionar como um “norteador de condutas futuras” para candidatos ligados a ambientes religiosos.
Isso porque a decisão acaba consolidando uma linha mais rígida da Justiça Eleitoral sobre o uso de cultos e estruturas religiosas em campanhas políticas.
“A decisão deve ser tida como um norteador de condutas futuras e quem buscar candidatar-se já ter ciência das limitações que o pleito exige quanto à utilização do ambiente confessional em prol de algum candidato”, afirmou.

Conta de luz mais cara: Aneel anuncia manutenção da bandeira amarela em junho
Escrito por Mariana Lemos / DIARIONORDESTE
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou, na noite desta sexta-feira (29), a manutenção da bandeira tarifária amarela no mês de junho. A conta de luz segue R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
Se uma família tem consumo de energia mensal de 300 kWh, a tarifa extra será de R$ 5,65.
Segundo a agência, a decisão foi tomada devido ao período seco no Brasil. Com a baixa geração de energia nas usinas hidrelétricas, são acionadas termelétricas, que têm custo mais elevado de produção.
A bandeira tarifária verde, que não reflete em acréscimos na conta de luz, vigorou de janeiro a abril deste ano. Em maio, a bandeira amarela foi acionada.
BANDEIRAS TARIFÁRIAS
Criado há mais de dez anos, o sistema de bandeiras tarifárias reflete os custos variáveis da geração de energia elétrica. As bandeiras indicam quanto está custando para o Sistema Interligado Nacional (SIN) gerar a energia usada em todo o Brasil.
A Aneel reforça que os consumidores avaliem os hábitos de consumo para evitar desperdícios e contribuir para a sustentabilidade do setor elétrico.
Há dois níveis acima da bandeira amarela, que têm acréscimos ainda maiores na conta de luz: bandeira vermelha patamar 1 e bandeira vermelha patamar 2.
Ao Fisco o que é do Fisco
Por Notas & Informações / Exclusivo para assinantes / O ESTADÃO DE SP
A Constituição protege a liberdade religiosa ao vedar impostos sobre “entidades religiosas e templos de qualquer culto, inclusive suas organizações assistenciais e beneficentes” (art. 150). É uma garantia civilizatória. O Estado não deve dispor do poder de sufocar uma crença por meio da tributação nem de favorecer uma religião em detrimento de outra. A liberdade de culto está resguardada. No entanto, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 5/23, aprovada recentemente pela Câmara e enviada ao Senado, trata de outra coisa.
Ao ampliar a imunidade tributária para bens e serviços destinados à “implantação”, “manutenção” e “funcionamento” de igrejas e entidades assistenciais vinculadas, o Parlamento extrapola o templo e alcança um universo de atividades cujo vínculo com o exercício da fé será frequentemente matéria de interpretação, disputa administrativa e judicialização.
Palavras como “implantação” e “funcionamento” parecem claras até que se tente aplicá-las a casos concretos. Onde termina a atividade religiosa e começam atividades econômicas de organizações cada vez mais complexas? Não é uma pergunta retórica. Algumas denominações administram emissoras de rádio e televisão, editoras, plataformas digitais, extensos patrimônios imobiliários e até bancos.
Ao longo da tramitação, foram abandonadas salvaguardas que poderiam conferir maior objetividade ao benefício. O resultado é uma regra mais abrangente e menos precisa. Não é difícil imaginar discussões futuras sobre a tributação de imóveis, veículos, equipamentos e outros bens cuja relação com o culto poderá ser defendida com maior ou menor plausibilidade. Quanto mais indistinta se torna a fronteira entre a atividade religiosa e a econômica, mais difícil se torna separar o templo dos vendilhões que o infestam.
A liberdade religiosa é um direito fundamental. Benefícios tributários são outra matéria. Quando determinadas entidades recebem tratamento privilegiado na aquisição de bens e serviços, a conta não desaparece, só é redistribuída.
Estimativas da equipe econômica indicam que a ampliação da imunidade poderá aumentar em cerca de meio ponto porcentual a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Essa espécie de dízimo compulsório pode parecer pouco. Não é. A alíquota do IVA brasileiro – estimada em torno de 28% – será uma das mais caras do mundo.
A PEC surge justamente quando o País tenta escapar dos vícios que transformaram seu sistema tributário num monumento à complexidade. Durante décadas, exceções foram se acumulando, sempre em nome dos objetivos mais nobres. Benefícios concebidos como temporários converteram-se em estruturas permanentes. Incentivos regionais, regimes especiais, benesses setoriais e desonerações foram sendo empilhados até produzir um modelo confuso, litigioso, regressivo e hostil à produtividade.
A reforma tributária nasceu do reconhecimento desse fracasso. O Brasil havia se tornado refém de um emaranhado de privilégios que favorecia grupos organizados e transferia custos para toda a sociedade.
Mesmo assim, a própria reforma não se furtou aos velhos pecadilhos. Regimes especiais multiplicaram-se em praticamente todos os setores. Cada exceção parecia razoável quando analisada isoladamente. O problema aparece quando todas passam a coexistir.
A PEC reproduz essa lógica. Invoca uma finalidade legítima – a proteção da atividade religiosa – para justificar a expansão contínua de benefícios tributários. O precedente importa tanto quanto o custo fiscal. Uma vez aberta a porta, outros grupos surgirão reivindicando tratamento semelhante, todos munidos de boas causas, argumentos respeitáveis e capacidade de lobby político.
Dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” continua sendo um bom princípio de prudência institucional. A Constituição já havia protegido o templo. A Câmara decidiu avançar além dele.
Num país que acaba de empreender um esforço histórico para reduzir exceções tributárias, a Câmara escolheu inscrever mais uma na própria Constituição. A liberdade religiosa sai ilesa. A igualdade perante a lei, nem tanto.
Um cenário desolador
Exclusivo para assinantes / O ESTADÃO DE SP
Fossem outros os tempos, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência já teria ido inapelavelmente a pique, torpedeada pelo escândalo do Banco Master. Afinal, na época em que a corrupção era considerada pelo eleitorado o pecado capital da política, seria inaceitável que um candidato fosse flagrado pedindo dinheiro ao protagonista do maior assalto ao mercado financeiro da história brasileira. Hoje, no entanto, a julgar pelas primeiras pesquisas de intenção de voto que mediram o impacto do caso Master na candidatura de Flávio, a corrupção é fator secundário quando se trata de tirar Luiz Inácio Lula da Silva e o PT do poder – e, para muitos eleitores, apenas Flávio é capaz disso.
Obviamente, trata-se de um cenário desolador. Quando o eleitor considera admissível que seu candidato seja corrupto, desde que derrote um presidente e um partido pelos quais nutre repulsa visceral, revela-se a indigência do debate político brasileiro hoje. Não importam mais nem a biografia nem as propostas de Flávio; o que interessa é somente sua capacidade de esconjurar o lulopetismo nas urnas. Parece evidente que disso não sairá um país melhor.
Mas o eleitorado é também pragmático, a seu modo. Recorde-se que o próprio Lula foi reeleito em 2006 a despeito do imenso escândalo do mensalão. Isso significa que os eleitores deixaram em segundo plano as denúncias cabeludas contra o PT porque queriam dar um novo mandato a Lula, àquela altura bastante identificado com o Bolsa Família e com a valorização do salário mínimo. O mensalão, portanto, não impediu que Lula quase levasse a eleição no primeiro turno (teve perto de 49% dos votos) e que atropelasse o então tucano Geraldo Alckmin no segundo turno com acachapantes 61% dos votos.
Pode-se concluir, com isso, que só a corrupção não parece ser suficiente para que o eleitorado em geral decida se o candidato afetado pelo escândalo merece ou não seu voto. É evidente que há eleitores mais radicais que votarão em Flávio mesmo que ele seja flagrado empurrando uma senhora idosa num bueiro, porque odeiam Lula com todas as forças e porque consideram que Jair Bolsonaro, o pai do senador, os libertou das amarras civilizatórias e morais. Mas talvez a maioria dos eleitores que não gostam do PT e que hoje declaram voto em Flávio possa mudar de ideia, a depender dos rumos da campanha eleitoral, o que significa que o retrato do momento pintado pelas pesquisas, ainda que indiquem pouco prejuízo do Master na campanha do senador, não autoriza cravar que o filho de Jair Bolsonaro manteve intactas suas chances de derrotar Lula.
E aqui entramos num ponto curioso da corrida eleitoral. A preços de hoje, Lula aumentou sensivelmente suas possibilidades de reeleição, não só em razão das traquinagens de Flávio, mas também porque o presidente decidiu bater o recorde mundial de medidas demagógicas com vistas a seduzir os eleitores. Ao mesmo tempo, em razão da crescente rejeição ao nome de Flávio, que já era considerável antes do escândalo do Master, pode-se especular, como fez o candidato Romeu Zema, que votar no senador no primeiro turno equivaleria a dar a vitória a Lula no segundo. Seria mais um desserviço da família Bolsonaro ao País.
Do ponto de vista de Jair Bolsonaro, porém, tudo isso é irrelevante. Ao ex-presidente não interessa que um candidato de direita que não seja Flávio vença a eleição, pois, se isso acontecer, o bolsonarismo voltará ao terreno baldio da baixa política, de onde nunca deveria ter saído. Por esse motivo, Flávio deverá manter sua candidatura até o fim.
Tudo isso pode mudar se os concorrentes de Flávio no campo da direita mostrarem alguma força nos próximos meses. O problema é que as opções realmente competitivas são escassas, praticamente inexistentes. Assim como Lula se reelegeu com relativa folga em 2006 porque a oposição não conseguiu se viabilizar mesmo com o escândalo do mensalão, Flávio Bolsonaro segue favorito para desafiar o petista no segundo turno mesmo com o escândalo do Master porque seus concorrentes são igualmente fracos. Flávio sem o sobrenome Bolsonaro é apenas um político medíocre, suspeito de corrupção e de relações com milicianos; com o sobrenome, é uma força política incontornável.
Queda na taxa de homicídios requer mais estudos
Por Editorial / O GLOBO
A nova edição do Atlas da Violência, elaborado por uma parceria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, traz uma notícia aparentemente auspiciosa: pelo quinto ano consecutivo, caiu a taxa de homicídios. Os 42.590 registrados em 2024, ou 20,1 por 100 mil habitantes, representaram queda de 7,4% ante 2023 e de quase 16% ante 2020. É verdade que isso não se reflete na percepção da população, que, influenciada por outros crimes, tem na segurança pública sua maior preocupação. Mesmo assim, é um dado significativo.
As causas da queda são múltiplas, despertam controvérsia e ainda precisam ser estudadas em detalhes. Parte resulta de políticas locais bem-sucedidas na segurança. Há também o efeito positivo da demografia, pois a violência se concentra entre os jovens, e a população tem envelhecido. Houve ainda, nesse período, arrefecimento na guerra entre facções criminosas, portanto menos mortes violentas. Por fim, o dado pode mascarar deficiências na qualidade das estatísticas, e a queda pode ser menor — ou nem sequer existir.
Essa ilusão estatística é corroborada pelo crescimento dos “homicídios ocultos”, casos em que não se consegue identificar se a morte foi causada por acidente, suicídio ou assassinato — eles são classificados como mortes violentas por causa indeterminada. De 2023 para 2024, aumentaram 88,6%, de 3.755 para 7.083. Ao aplicar uma metodologia para separar os eventos com maior probabilidade de ter sido assassinatos, o Ipea eleva a taxa de homicídios de 20,1 para 23,3 por 100 mil habitantes, crescimento de quase 16% que praticamente anula a queda.
Em contraste, a distribuição geográfica fortalece a tese da influência da guerra de facções nos números. Há tendência à concentração regional da violência à medida que as organizações criminosas tentam conquistar novos territórios, sobretudo no Nordeste e no Norte. Nos estados do Sul e do Sudeste, ao contrário, têm avançado entendimentos entre as facções. Há apaziguamento relativo nos homicídios, mas isso não é necessariamente bom, pois se dá com grupos ainda mais fortes, que se aproveitam de outros crimes.
Em 2020, os cinco estados com mais homicídios contribuíam com 27% das mortes. No levantamento mais recente, respondem por 33%. Apenas 99 municípios (1,8% do total) foram palco de 43,4% dos crimes de morte. Em 2022, concentração semelhante era alcançada em 165 cidades. Das dez mais violentas, quatro estão no Ceará e seis na Bahia. No ranking das menos violentas, sete são de São Paulo, duas de Santa Catarina e uma do Paraná. A geografia da violência pode ser explicada, diz o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, pela interiorização do crime e pelo surgimento de grupos locais sem organização comparável à das grandes facções, em geral de jovens que buscam se afirmar pela violência.
A análise atenta da pesquisa revela que os pesquisadores ainda têm muito trabalho a fazer para que a sociedade possa tirar as conclusões corretas dos números e adotar as políticas adequadas. Por ora, cabe ao Estado implementar ações mais eficazes de levantamento de dados, análise, planejamento e inteligência financeira, capazes de sufocar as organizações criminosas que respondem pela maior parte dos homicídios. Não será por meio de ações esporádicas para demonstrar força que o crime organizado será contido.
Policiais carregam corpo de suspeito morto durante operação na Ladeira dos Tabajaras, no Rio — Foto: Márcia Foletto/15/04/2025
Entrevista: divisão no país não é ideológica, mas explica 'paralisia na avaliação' de Lula, diz Jairo Nicolau
Caio Sartori— Rio de Janeiro / O GLOBO
Por Depois de “O Brasil dobrou à direita”, no qual analisa o triunfo eleitoral de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, o cientista político Jairo Nicolau, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), publica agora “O país dividido”, também pela editora Zahar. Trata-se de um diagnóstico das mudanças sociais, demográficas e políticas vivenciadas nacionalmente entre a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, e a última, em 2022. E elas são muitas.
Em entrevista ao GLOBO, Nicolau afirma que a economia é insuficiente, hoje, para medir se um presidente será ou não bem-sucedido. A divisão do país, diz, não é ideológica, mas produz repulsas intransigentes e dificulta a melhora na avaliação do petista.
Temas morais e a segurança ganharam protagonismo nos últimos anos. Eles podem suplantar o debate econômico ou ainda “é a economia, estúpido”, como diz a máxima política?
Essa frase é de 1992, quando o impacto da economia era muito evidente. Os estudos recentes são bem mais críticos. Obviamente a economia não pode ser desconsiderada, mas os dados mostram que ela passou a conviver com outros fatores relevantes. Em 2018, o país estava saindo de uma crise econômica, a economia ainda em baixa, e o tema não foi esse. Também não sei se foi tão central em 2022, foi mais a questão da gestão da pandemia. Agora, de novo, a economia está melhorando, mas isso não se traduz em apoio a Lula.
Então essa insuficiência da economia é a grande explicação para a avaliação ruim de Lula, mesmo com bons indicadores macroeconômicos?
Para mim, ainda é um enigma esse desajuste entre avaliação de governo e a economia, até considerando o apoio que Lula tem nas intenções de voto. Não faz muito sentido um presidente com avaliação baixa estar vencendo uma simulação de eleição no segundo turno. Tem algo que não fecha.
Não é o tal duelo de rejeições?
Não gosto da tese do duelo de rejeições, mas se criou uma divisão em duas grandes tribos que trouxeram temas para além da discussão da economia. O que as pesquisas mostram é que nenhum presidente, Bolsonaro ou Lula, consegue subir muito sua taxa de avaliação porque a rejeição do lado rival parece ter menos a ver com políticas públicas e mais com atributos pessoais. A diferença quando comparamos com eleições anteriores é esse filtro das questões culturais que dividem as pessoas em tribos. Não estou dizendo que a divisão é ideológica, mas ela existe. Para mim, é o que explica a paralisia da avaliação. Mesmo com mais dinheiro no contracheque, com a isenção do IR (Imposto de Renda) para quem ganha até R$ 5 mil, isso não moveu a avaliação de Lula. Outras questões passaram a rivalizar e até se sobrepor à economia, dependendo do caso.
Com base em tudo isso, sua tese no livro de que apenas parte da sociedade está polarizada não fica insustentável?
É importante separar. O que mostro, com dados, é que de fato houve em 2018 e 2022 duas viradas: uma polarização à direita, depois à esquerda. Desde 2022, a rejeição é recíproca: lulista abomina Bolsonaro, bolsonarista abomina Lula. Isso é uma dimensão da relação que as pessoas têm com seus políticos favoritos, mas não posso transformar isso numa disputa ideológica. Quando cruzo com outra variável, que é a de interesse por política, vejo que pouca gente é radicalizada e ativa na relação com a política, apenas 18%. Quando falamos em polarização, parece que todo mundo que não gosta de um ou de outro é alguém que acompanha política, que está perdendo amigos por isso. Mas isso é parte pequena do Brasil.
Por que, então, há uma resiliência tão grande da divisão entre Lula e família Bolsonaro nas pesquisas?
Porque as outras opções não aparecem de fato. Flávio virou abrigo para os eleitores que não gostam de Lula e do PT. Não tem um candidato natural, jovem, relevante. Se o Tarcísio de Freitas estivesse livre para ser candidato, talvez isso voltasse a existir. Outros governadores mais jovens e modernos, como Eduardo Leite e Ratinho, ficaram pelo caminho. Como a direita se organizou com muita força em torno de Bolsonaro e ninguém ocupou esse espaço, a rejeição a Flávio foi diminuindo diante da possibilidade de ser o único nome competitivo. Beneficiou-se da inércia. É a primeira eleição em que não há candidatos de centro. É Lula contra a direita.
Com base no diagnóstico das mudanças do país, quais clivagens são mais decisivas para entender o voto?
Em 2018, houve uma inflexão em relação às quatro eleições anteriores, nas quais o PT tinha sido vitorioso em praticamente todos os segmentos de idade, gênero, escolaridade, renda. Não existia um voto diferente entre homens e mulheres. Já Bolsonaro teve uma taxa muito menor entre as mulheres. Em 2022, essa divisão de gênero se aprofundou, com Bolsonaro conquistando forte apoio dos homens, e Lula, das mulheres. Chego a dizer no livro que a eleição do Lula se deve ao voto delas.
O senhor também dá bastante ênfase à mudança nos recortes por nível educacional.
Também começa a aparecer isso em 2018: a virada dos eleitores de ensino médio completo em direção a Bolsonaro, e os de ensino fundamental continuam o grande esteio de Lula e do PT. Tem ainda a dimensão racial, com divisão entre pretos e brancos, e de religião, sobretudo com a virada de evangélicos à direita. Começo a me perguntar se isso veio para ficar como algo mais fundo da política brasileira ou se é algo mais pessoal, pela presença de Bolsonaro e suas idiossincrasias. Com Flávio candidato, não imagino que mude.
Como as mudanças em 20 anos dificultaram a vida de Lula?
Há uma dificuldade clássica, já muito comentada, que é a virada dos evangélicos, porque se tornaram um grupo relevante da sociedade. Destaco de novo o segmento de ensino médio, os eleitores que não foram para a universidade, que em 2018 e 2022 deram uma rejeição muito forte ao PT. A hipótese mais plausível é de que são eleitores mais jovens, do sexo masculino e moradores de regiões metropolitanas. Daí podemos imaginar que talvez estejamos diante de fenômenos como empreendedorismo, desvalorização da CLT e do diploma aniversário. Lula ainda fala muito para o segmento de baixa renda, que está encolhendo demograficamente.
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