Tudo muda para permanecer igual na Venezuela
Há pouco mais de um mês, Donald Trump ordenou uma ação militar na Venezuela. O ditador Nicolás Maduro e sua mulher foram levados aos Estados Unidos, onde aguardam julgamento por crimes relacionados a narcotráfico e terrorismo. A incursão se pautou pela máxima de Lampedusa: mudou tudo para que tudo permanecesse como estava. O regime chavista, exceto pela supressão de Maduro e algumas outras alterações, segue praticamente intocado no poder.
Quem agora comanda o país é Delcy Rodríguez, a vice de Maduro. Os principais ministros, notadamente os responsáveis pelo controle das Forças Armadas que reprimiam adversários políticos, permanecem em seus postos.
É difícil afastar a hipótese de que a intervenção foi de algum modo encenada. Antes de despachar seus soldados, os americanos já teriam negociado com os auxiliares do caudilho, que entregariam a cabeça do líder em troca da permanência no poder, fazendo concessões menores. É nesse contexto que teriam surgido as recém-aprovadas mudanças na legislação relativa à exploração do petróleo e à soltura de parte dos presos políticos.
Pode-se até louvar o que seria certa prudência. Washington evitou uma aventura militar destrambelhada que poderia precipitar a Venezuela em guerra civil —e tudo o que sua população não precisa após décadas de ruína econômica, social e institucional é um conflito doméstico. Mas trata-se de uma cautela bastante específica e autointeressada.
Trump não hesitou em violar a soberania de um país nem em imolar a ordem global que tanto beneficiou os EUA nos últimos 80 anos. Ele só evitou criar um problema para si mesmo. As fracassadas intervenções no Afeganistão, no Iraque e na Líbia ainda estão na memória dos americanos.
O modelo de ingerência do republicano lhe permitiu posar de líder inconteste, que agora exerce controle sobre a produção de petróleo do detentor das maiores reservas do mundo. Não está claro, porém, se empresas americanas terão real interesse em investir num país cuja estabilidade ainda não está assegurada.
Outra ideia sacrificada nesse desenho de intervenção é a de que os EUA atuam pela liberdade. O americano nunca rezou por essa cartilha, mas restaurar a democracia na Venezuela (ou ao menos eliminar o regime chavista) era uma bandeira cara a parte do eleitorado mais à direita. No saldo da operação, Trump desmantelou a ordem internacional criada pelos próprios EUA, e o autoritarismo está longe do fim no país caribenho.
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