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Fim de tratado nuclear põe planeta em risco

Por  Editorial / O GLOBO

 

Expirou nesta quinta-feira o Novo Start, último de uma série de tratados entre os Estados Unidos e a Rússia estabelecendo limites a ogivas nucleares e criando mecanismos mútuos de monitoramento. Ciente de que Donald Trump e Vladimir Putin não renovariam o acordo, o Boletim dos Cientistas Atômicos, fundado em 1945 por Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer e outros integrantes do Projeto Manhattan, ajustou na semana passada o Relógio do Juízo Final. A métrica criada para avaliar quanto a humanidade está próxima de uma hecatombe nuclear nunca apresentou risco tão alto. No relógio metafórico, faltam 85 segundos para a meia-noite, o apocalipse.

 

Por décadas, os tratados de não proliferação funcionaram como planejado. Na análise dos riscos, a quantidade de armas é sempre determinante. Quanto maior, mais difícil manter o controle, evitar mal-entendidos, incidentes e guerras. Em 1986, havia 65 mil ogivas. Hoje são 12.500, e apenas 5.700 prontas para ser lançadas. Com a expiração do Novo Start e a relutância da China em participar de acordos que limitem o crescimento de seu arsenal, porém, o mundo pode estar prestes a testemunhar uma reviravolta na tendência de desarmamento. Uma corrida armamentista desenfreada eliminaria os avanços conquistados e traria um sem-número de novos problemas.

 

Estados Unidos e Rússia têm testado armamentos nucleares mais poderosos. Os americanos têm modernizado o arsenal, substituído mísseis e bombardeiros e aumentado a quantidade de ogivas em submarinos. Estudam também construir um novo sistema de radares e mísseis para proteger seu território, batizado Domo de Ouro. Os russos testaram recentemente o Poseidon, drone marinho construído para cruzar oceanos e provocar um tsunami radioativo capaz de destruir uma cidade. Nos planos militares russos estão ogivas nucleares no espaço. Não menos preocupante é a ameaça de Putin de usar armas nucleares táticas contra forças ucranianas.

 

Embora inferior ao americano e ao russo, o arsenal chinês é o que cresce mais rápido — pelas últimas estimativas, a China já tem 600 ogivas operacionais, ante 3.700 americanas e 4.309 russas. Os chineses testaram um míssil hipersônico capaz de lançar uma bomba em qualquer parte do mundo. Nesta quinta-feira em Pequim, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores exortou os Estados Unidos a retomar o diálogo com os russos para prorrogar o Novo Start. Nesse ponto, porém, Trump tem razão. Novos tratados não podem deixar a China de fora, e ela reluta em participar. Claro que Trump continua a ser o principal fator de instabilidade. A relação atribulada que estabeleceu com aliados levanta tantas dúvidas sobre sua disposição em protegê-los que muitos começaram a cogitar o desenvolvimento de suas próprias armas atômicas.

 

Quem não viveu a época em que um apocalipse nuclear era visto como iminente pode ter dificuldade em entender o risco. A ansiedade cotidiana estava refletida na filosofia, nos livros, nos filmes, nas artes plásticas e na música pop — de Albert Camus a Bob Dylan, de Stanley Kubrick a The Doors, de Andy Warhol a Secos & Molhados. Ao postergar a negociação de um novo acordo de não proliferação, os líderes das três maiores potências nucleares ameaçam trazer de volta um horror que parecia ter ficado no passado.

Carnaval precisa de regras para que todos possam se divertir sem tumultos

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

carnaval é, por tradição, um evento que celebra a alegria, a irreverência e o espírito livre. Tais características intrínsecas da maior festa popular do país não devem significar, porém, ausência de regras. Ao contrário. Em desfiles que costumam reunir milhares ou até milhões, é fundamental manter a ordem urbana. Não só para que os cortejos transcorram de forma organizada e segura, mas também para reduzir os transtornos inevitáveis aos que preferem manter distância da agitação nas ruas.

 

A Prefeitura de São Paulo anunciou o maior carnaval do país, com previsão de 627 blocos de rua. Mas tem recebido críticas pelo encerramento dos desfiles às 18h (com tolerância até 19h para dispersão dos foliões). É um horário em que, para muitos, a festa deveria estar apenas começando. “O maior carnaval que acaba às 18h não é o maior, é o mais curto”, disse Lira Alli, do Arrastão dos Blocos, grupo que reúne em torno de uma centena de agremiações. O governo alega que a limitação de horário tem o objetivo de permitir o início da limpeza das ruas.

 

Pode-se questionar se 18h é o horário mais adequado para encerrar os desfiles. A questão deveria ser discutida entre os representantes dos blocos e a prefeitura. Mas não há dúvida de que cabe ao governo municipal fixar regras para o bom funcionamento da festa. Quando o desfile acaba, começa outra jornada, que inclui retirada de estruturas, desmobilização de profissionais de apoio, limpeza das ruas e calçadas, além de outros serviços nem sempre à vista.

 

Há restrições também noutras cidades. No Rio, os megablocos têm horário para começar e terminar. Concentram-se às 7h, desfilam a partir das 8h e precisam parar até as 12h. O desrespeito às normas pode acarretar perda de autorização no ano seguinte. Blocos noturnos são proibidos. Mesmo assim, há os não oficiais ou “secretos”, organizados em cima da hora pelas redes sociais. São a exceção, não a regra.

 

Não há como planejar eventos que reúnem multidões sem estabelecer regras básicas. Nos anos 2000, os cortejos explodiram, tanto em número de foliões quanto de novos grupos. O caos era visível. A partir de 2009, a prefeitura passou a restringir o número de agremiações, controle que permanece até hoje. Dos mais de 800 blocos que pediram autorização para sair neste ano, pouco mais da metade obteve permissão. Os roteiros também foram alterados ao longo do tempo, de modo a causar menos interferência no trânsito e no sossego dos moradores.

 

Em qualquer cidade, para que o folião aproveite os blocos ao máximo, autoridades estaduais e municipais precisam montar uma estrutura gigantesca, que envolve polícia, guarda municipal, departamento de trânsito, fiscalização e limpeza urbana. Há uma legião de trabalhadores para a qual a festa começa bem antes e acaba bem depois das batucadas. Obviamente, tudo isso demanda planejamento e regras. O importante é que todos possam se divertir — tanto os que saem às ruas quanto os que preferem ficar em casa.

 

Dino age contra supersalários, e Congresso, a favor

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou nesta quinta-feira (5) uma decisão há muito cobrada por todos os que prezam a moralidade administrativa e se preocupam com as contas públicas: ele determinou que seja suspenso o pagamento dos chamados penduricalhos no âmbito dos três Poderes da República.

 

Dino listou entre os exemplos dessas benesses verbas como gratificações por acúmulo de processos, férias e funções, o auxílio-locomoção, o auxílio-combustível, o auxílio-educação e os afrontosos auxílio-peru e auxílio-panetone, estes distribuídos a servidores no fim do ano.

 

Tais verbas têm em comum o drible que dão nas regras que deveriam respeitar. Embora sejam recorrentes e terminem penduradas como complemento aos salários, elas costumam ser enquadradas como indenizatórias e, portanto, extraordinárias.

Há ao menos duas obscenidades na manobra. A primeira é que o valor, em boa parte dos casos, fica livre do Imposto de Renda. A segunda, ainda mais grave, é que esses recursos acabam sendo desconsiderados para fins de teto constitucional (o limite máximo da remuneração do funcionalismo, hoje fixado em R$ 46.366,19).

Para piorar, muitos desses contracheques são turbinados com base em reles canetadas burocráticas, quase sempre referendadas pelo Judiciário —não surpreende, pois carreiras do sistema de Justiça são as mais agraciadas com supersalários.

 

Esses atos administrativos são o principal alvo da decisão de Dino. Ele fixou prazo de 60 dias para que todos os órgãos revisem as verbas pagas e suspendam as que não se amparem em lei.

 

Faz sentido que ele restrinja o alcance disciplinador da decisão; do contrário, estaria invadindo a seara legislativa. Mas já se pode intuir uma consequência negativa: políticos inescrupulosos discutirão projetos de lei para institucionalizar o abuso salarial.

Por coincidência, nesta mesma semana e quase na surdina, o Congresso Nacional aprovou projetos que reajustam salários do Legislativo e criam penduricalhos para servidores da Câmara e do Senado. O impacto das medidas, que ainda não foram sancionadas, é de pelo menos R$ 650 milhões por ano.

Alison Souza, presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindilegis), não se pejou de dizer à Folha: "Estamos mimetizando o Judiciário e o Ministério Público".

Ou seja, os mesmos políticos que criticam o governo federal pela falta de zelo com as contas públicas agora cedem a interesses mesquinhos e, mirando os maus exemplos, ampliam o tamanho de um problema administrativo que se arrasta há muito tempo.

Agem, dessa forma, em sentido oposto ao verdadeiro interesse de um país com pouco dinheiro e muitas carências. O que se espera de deputados e senadores é que aprovem uma lei para reafirmar o teto constitucional, e não que ajudem a danificá-lo.

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Mesmo com desemprego em baixa, juros altos levam inadimplência a recordes

Felipe Gutierrez / FOLHA DE SP

 

 

Indicadores de endividamento e inadimplência compilados por diferentes birôs de risco terminaram o ano passado em nível recorde, apesar do desemprego em um patamar de baixa histórica.

De acordo com especialistas que acompanham esses números, os atrasos nos pagamentos de dívidas pioraram porque a Selic, a taxa de juros básica da economia, está em um ciclo de alta há um ano e meio, os prazos para quitar empréstimos encurtaram e os bancos passaram a cobrar mais pelo crédito.

Segundo a Serasa, havia 81,2 milhões de inadimplentes no fim de 2025, último dado disponível. É um aumento de 10,5% em relação a dezembro de 2024.

Os critérios para considerar uma pessoa inadimplente variam de acordo com a empresa. Para a Serasa, isso acontece a partir do momento em que o credor faz a notificação. Em alguns casos, as contas estão atrasadas há menos de 30 dias.

O número atual é um recorde, de acordo com Camila Abdelmalack, economista da Serasa. Ela afirma que, de forma indireta, o mercado de trabalho aquecido até colaborou com a alta de inadimplência: quando as contratações aumentaram, mais gente passou a poder financiar compras.

A taxa de desemprego do Brasil recuou a 5,1% no trimestre até dezembro de 2025, menor nível da série histórica iniciada em 2012, apontaram dados divulgados na sexta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Abdelmalack diz que a concessão de crédito crescia a mais de 10% em 2024. "Houve um momento em que a Selic estava em 10,5% (ou seja, estaria relativamente baixa), e isso favoreceu essa expansão; quando a taxa foi para 15%, a torneira foi fechada. Antes, era possível rolar a dívida em boas condições, mas isso ficou complicado."

A Equifax Boa Vista afirma que foi observado aumento de 7,2% no total de indivíduos negativados, e cerca de 59 milhões de CPFs estavam negativados no fim de 2025, ante cerca de 55 milhões no final de 2024.

O birô negativa um nome dez dias após receber uma notificação do credor de que a conta está em atraso, segundo Ricardo Leite Raposo, líder de Strategic Analytics.

Ele afirma que, apesar de um estoque muito alto de devedores negativados, a taxa de crescimento vem caindo nos últimos meses.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) observou uma alta de 2,3 pontos percentuais. Pelos dados da entidade, o nível de endividamento de dezembro de 2025 (78,9%) é o maior para o mês em toda a série histórica da pesquisa.

O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que o cenário de 2025 foi marcado pelo encarecimento do crédito com a Selic em 15% e pela cautela dos bancos, que encurtaram os prazos das operações.

De acordo com ele, o prazo médio em novembro de 2025 era de 58,6 meses, contra 60,9 meses no ano anterior

No crédito pessoal, que é muito demandado, o prazo encurtou de 71,24 para 67 meses.

Esses números impactaram as vendas no ano passado, segundo Bentes. "As vendas no comércio tiveram crescimento de cerca de 2%. Se os juros não estivessem tão em alta, seriam pelo menos 5%, e pode ter certeza que o comércio estaria comemorando."

O economista diz que a taxa básica teve que subir porque a política fiscal foi erodida.

Joelson Sampaio, professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que há repasses de alta da Selic para as taxas de juros livres (ou seja, linhas de empréstimo que não são direcionadas), o que faz com que a inadimplência aumente.

A alta da inadimplência, por sua vez, também implica um aumento das taxas pagas pelos tomadores de recursos, num ciclo que se retroalimenta, afirma.

De acordo com dados do Banco Central, ao longo do ano passado o spread (a diferença entre a taxa de juros que os intermediadores bancários emprestam e captam) subiu. Em dezembro de 2024, era de 17,5%, e em novembro de 2025, 20,9%.

Um alto endividamento compromete o consumo no futuro, diz Sampaio. Ainda assim, a expectativa do professor para este ano é de uma melhora impulsionada pela queda dos juros.

MONTANTE EM INADIMPLÊNCIA

Os dados do BC para inadimplência da pessoa física no sistema financeiro também mostram uma alta, mas é difícil fazer uma comparação por causa de uma mudança de regra que passou a vigorar neste ano.

Uma resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) mudou o conceito de inadimplência: antes era uma perda incorrida, e passou a ser uma perda esperada. Além disso, todos atrasos superiores a 90 dias passam a caracterizar crédito em inadimplência (antes, havia critérios mais flexíveis).

Como houve mudanças de critério, é difícil fazer comparações com dados anteriores a 2025.

Ao longo do ano, no entanto, o volume total de empréstimos em inadimplência subiu de 5,6%, em janeiro, para 6,9%, em dezembro, uma alta de 1,3 ponto percentual. Aqui trata-se do montante atrasado, diferentemente do que a Serasa e o Boa Vista medem, que é a quantidade de CPFs.

Luiz Fernando Castelli, gerente de Assuntos Econômicos da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), diz que parte significativa da alta ocorreu por causa da nova regra do CMN, que passou a permitir que as instituições financeiras fiquem com créditos sem pagar mais tempo em suas carteiras.

"De fato, temos visto algum aumento (da inadimplência) em 2025, mas não é tão expressivo como os dados do BC sugerem", ele afirma.

O especialista afirma que as instituições não estão super preocupadas com inadimplência, mas que o tema não foi totalmente ignorado. Ele cita que houve desaceleração em algumas linhas de crédito, como em veículos.

Em linhas como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, a situação toma outra proporções: um salto de 13% para 17,2% na primeira e de 55% para 64,7% na segunda.

Após 7 anos, águas do Orós e Castanhão devem voltar a Fortaleza para evitar desabastecimento

Escrito por Nícolas Paulino / DIARIONORDESTE
 
As águas do Castanhão e do Orós, maiores açudes do Ceará, devem retornar às torneiras da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) após 7 anos. A destinação emergencial foi definida nesta quarta-feira (4), durante reunião promovida pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), em Quixadá.
 

Segundo a Companhia, desde 2019, a RMF não depende de transferência hídrica do Castanhão para garantir seu abastecimento. Isso decorre dos bons aportes adquiridos das chuvas nos últimos anos, que garantiram reserva hídrica suficiente. Porém, o cenário de chuvas para este ano é incerto.

Na reunião, a vazão definida para o Castanhão foi de 16 m³/s (16 mil litros por segundo), sendo 6 m³/s (6 mil litros por segundo) destinada à Grande Fortaleza via transferência do Orós, com início em 23 de fevereiro. Porém, em caso de boas chuvas registradas na RMF, a data poderá ser adiada. 

Na prática, a água que chegará à Capital sairá das reservas do Orós - hoje com 70% do volume total acumulado -, passará pelo Rio Jaguaribe, chegará ao Castanhão e, dali, seguir pelo sistema de canais do Eixão das Águas até o Sistema Metropolitano.

A chamada operação emergencial leva em conta análises técnicas sobre a situação atual dos reservatórios, simulações de operação, projeções climáticas para 2026 e os resultados da liberação de água realizada em 2025. Hoje, os participantes deliberaram sobre as vazões a serem liberadas entre fevereiro e junho de 2026.

O período coincide com a quadra chuvosa no Ceará, que neste ano tem 40% de chances de ficar dentro, 40% abaixo ou 20% acima da normalidade, segundo o prognóstico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).

O debate envolveu os Comitês de Bacias Hidrográficas do Alto, Médio e Baixo Jaguaribe, Banabuiú e Salgado, que englobam instituições públicas, usuários de água e a sociedade civil, além de gestores e técnicos do Sistema de Recursos Hídricos.

O Castanhão acumula, atualmente, apenas 19,53% das reservas, considerado nível “crítico” (categoria que abrange até 30%).

A operação busca garantir o atendimento às demandas prioritárias, como o abastecimento humano, a irrigação e a perenização dos rios, considerando os volumes armazenados nos açudes e os usos múltiplos da água.

Após o período chuvoso, será realizada uma nova rodada de debates, por meio da Reunião de Alocação Negociada, quando serão discutidas as regras de operação dos reservatórios para o restante do ano de 2026 e se há necessidade de manutenção da medida.

Por que a medida é necessária?

A data limite de 23 de fevereiro prevista para a transferência de água é uma simulação da Cogerh para que o açude Pacoti, um dos principais abastecedores de Fortaleza, perca capacidade de mandar água para a Capital.

Funciona assim: o Sistema Integrado Metropolitano é formado por quatro açudes. Juntos,  Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião têm capacidade de 700 milhões de m³, mas atualmente, estão com volume de 339 milhões de m³, cerca de 47,8% do total.

O Pacoti é o maior deles é considerado o “coração do sistema”, segundo apresentação de Anatarino Torres, gerente de Operações da Cogerh. Porém, hoje, está com apenas 39% da capacidade.
Diagrama explicativo do Sistema Integrado Pacajus-Pacoti-Riachão-Gavião, exibindo as capacidades dos reservatórios, seus níveis percentuais, canais de interligação como o Canal do Ererê e Eixão das Águas, e a conexão com o Castanhão e o Rio Jaguaribe.
Legenda: Sistema Integrado Metropolitano envolve conexões entre os açudes Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião.
Foto: Divulgação/Cogerh.

A água, por gravidade, desce do Pacoti para o Riachão e, deste, para o Gavião - este último a “caixa d’água” de Fortaleza, que precisa estar sempre cheio. Porém, o nível do Pacoti está caindo todo dia, diante do consumo altíssimo da maior população do Estado.

Assim, sem chuvas intensas, há risco real de a água baixar ao nível que não consiga mais passar pelas tubulações, deixando os outros dois açudes também perderem volume. A simulação estimada pela Cogerh é que isso ocorra justamente no dia 23 de fevereiro.

Para evitar esse cenário, a Companhia explicou a necessidade de o açude Pacoti receber aporte de 6 mil litros por segundo, saindo do Castanhão pelo Eixão das Águas. O volume, partindo do Orós, foi aprovado pelos membros da reunião.

Vazões aprovadas para os açudes

Além do Castanhão, Orós e Banabuiú também tiveram aprovadas as operações de liberação de água dos  para o primeiro semestre de 2026:

Orós

O segundo maior do Estado, que passou 70 dias sangrando em 2025, é o que apresenta melhor situação entre os três: 70% de volume, conforme o Portal Hidrológico do Ceará, estando no nível “confortável”.

A vazão definida até junho foi de 8 mil litros por segundo, sendo 2 mil L/s para múltiplos usos em localidades nos municípios de Orós, Icó, Quixelô, Jaguaribe, Pereiro e Jaguaretama, e mais 6 mil L/s para o Açude Castanhão para atender a RMF

Banabuiú

O terceiro maior açude tem 27,49% do total - o último volume semelhante foi em abril de 2023. No mesmo período do ano passado, ele estava com 35,6%.

Para 2026, foi aprovada vazão de 900 L/s, sendo 150 L/s para captação direta no reservatório, 35 L/s para perenização do rio; 15 L/s para Sistemas de Abastecimento Rural e 700L/s para demais usos.

A liberação tem como objetivo atender ao trecho compreendido entre a tomada d’água do Banabuiú até o município de Morada Nova, numa extensão de 78 km. Para a alocação de 2026, já foram consideradas as demandas dos municípios de Banabuiú, Jaguaretama, Solonópole e Milhã, cuja oferta de água será reforçada pelo projeto Malha D’Água.

Recarga dos açudes pode ser difícil

Em tom cauteloso, o diretor de Operações da Cogerh, Tércio Tavares, afirmou que o momento exige decisões estratégicas diante do cenário de incerteza climática. Segundo ele, este é o primeiro ano, desde que assumiu a diretoria, que as chuvas não se mostram “generosas”, criando preocupação sobre a recarga dos principais açudes do Estado. 

Embora os 143 reservatórios monitorados ainda concentrem cerca de 40% da capacidade, Tavares destacou que a irregularidade das precipitações impõe a necessidade de preparação antecipada. 

“As condições poderiam estar melhores, mas não estão, e o próximo ano pode ser difícil”, avaliou o gestor, ao citar a transição de um cenário de similar a La Niña enfraquecida para a possibilidade de El Niño ao fim da quadra chuvosa de 2026.

Tavares ressaltou que a incerteza tem dificultado consensos nas discussões com os Comitês de Bacias, tornando o diálogo ainda mais essencial. 

Nesse contexto, a Cogerh tem buscado alternativas para reforçar os estoques hídricos, como a transposição de água do Projeto de Integração do São Francisco (PISF), apesar do alto custo operacional. 

A expectativa inicial era garantir uma vazão de 10 m³/s para o Açude Castanhão por cinco meses, mas “questões operacionais”, informou ele, reduziram o volume disponível para 2 m³/s, exigindo a reformulação dos cenários de operação. 

Para Tavares, a situação reforça a necessidade de uma gestão plurianual e de decisões racionais para enfrentar um ano que tende a ser desafiador em termos de disponibilidade hídrica.

 

acude SANGRANDO NO CE

Escola não é quartel

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Começaram no dia 2 de fevereiro passado as aulas nas cem primeiras escolas cívico-militares da rede estadual paulista de ensino. Idealizado para afagar a militância bolsonarista mais estridente, o projeto da gestão Tarcísio de Freitas, desde sua concepção até sua execução, enfrentou obstáculos: resistência de parte do Legislativo, ações na Justiça, cobranças do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e, não menos importante, o questionamento de especialistas em educação sobre a eficácia dessa política pública para alavancar os indicadores de educação. E nem nas primeiras horas de sua implementação a iniciativa conseguiu se desviar das controvérsias: nos colégios cívico-militares, os alunos precisam seguir rígidas regras sobre a própria aparência.

 

Nessas unidades frequentadas por 53 mil estudantes, estão proibidos boné, piercings e determinados cortes e cores de cabelo. Os meninos devem zelar por cortes de cabelo discretos, sem desenhos, e suas sobrancelhas não podem ter riscos. Já as meninas não podem usar roupas curtas e devem privilegiar penteados como tranças, coques e rabos de cavalo, em vez de deixar os cabelos soltos. Há ainda a obrigação de cantar o Hino Nacional, o que é louvável, e a bater continência, o que é questionável. E, como não há nenhuma evidência de que tais restrições e exigências garantam a disciplina entre os alunos, o respeito aos professores ou a melhoria do processo de ensino-aprendizagem, trata-se de um evidente exagero.

 

A ideia das escolas cívico-militares se sustenta na visão distorcida, própria dos saudosos do regime militar, de que os civis são incapazes de manter a disciplina e instilar valores como respeito aos professores e amor ao País nas escolas. Trata-se de um desdobramento, na área de educação, da concepção reacionária segundo a qual só os militares sabem o que é melhor para o Brasil e, sendo assim, devem tutelar a sociedade.

 

A educação, nas escolas públicas, é uma atribuição dos civis. Não se pode confundir com os colégios exclusivamente militares, que têm normas próprias e visam, como meta pedagógica, a “despertar a vocação para a carreira militar”, como se lê no Regulamento dos Colégios Militares. A simples presença de policiais militares atuando como bedéis em escolas públicas, sem qualquer formação pedagógica e com o objetivo genérico de manter a disciplina como se ali fosse um quartel, é, portanto, uma aberração.

 

A ideia da gestão Tarcísio é aumentar a disciplina: um ambiente mais disciplinado pode melhorar o aprendizado e, aprendendo mais, os alunos podem alcançar notas mais altas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Não à toa, o projeto visa a atender às unidades com os piores indicadores. Mas, diferentemente de uma escola militar, em que os pais matricularam seus filhos cientes das duras regras que serão impostas, nas escolas estaduais devem prevalecer os princípios constitucionais do pluralismo e da liberdade de pensar e de se expressar, que visam ao pleno desenvolvimento, ao preparo para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho. E nada disso tem relação com o corte de cabelo dos alunos.

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