Um prêmio à má-fé e à imprudência
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DF SP
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) acaba de apresentar um escandaloso projeto de lei que simplesmente subverte a natureza do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Se aprovada a aberração proposta pelo veterano representante de Alagoas, o FGC terá de cobrir integral e retroativamente, pasme o leitor, as aplicações feitas por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) e entidades de previdência complementar de Estados e municípios no Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado.
Coube ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, chamar a atenção para o risco não desprezível de o PL 2.502/2026 “provocar uma distorção sobre qual seja a finalidade do FGC”. Vindo de quem vem, o alerta deve ser ouvido com atenção.
O FGC foi concebido para proteger a poupança popular e evitar corridas bancárias em momentos de crise envolvendo instituições financeiras. É voltado ao varejo. Seu público-alvo são pequenos poupadores que, justamente por sua condição, não têm como avaliar riscos bancários altamente complexos. Daí por que o limite de cobertura do FGC seja de apenas R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
É evidente que o caso dos fundos de previdência de Estados e municípios que desperdiçaram rios de dinheiro no Banco Master é completamente diferente. Por quais motivos o sr. Calheiros não fez essa distinção óbvia, é um mistério que só ele pode desfazer. Ora, a administração dos RPPS está a cargo de gestores profissionais, não raro indicados por prefeitos e governadores. Ao chamar de “equívoco” os investimentos temerários que alguns deles fizeram no Banco Master, o senador alagoano zomba da inteligência e da boa-fé alheias.
O problema envolvendo os investimentos de ao menos 18 fundos previdenciários em papéis podres do Banco Master, como mostrou o Estadão/Broadcast à época da liquidação, nunca foi uma mera falha de avaliação de riscos. Na grande maioria dos casos, tratou-se de uma decisão politicamente consciente – e potencialmente mal-intencionada – de canalizar recursos públicos para uma instituição financeira que já era objeto de escrutínio do BC por suspeitas de gestão fraudulenta.
A dimensão do escândalo Master, por si só, atesta a gravidade da proposta de Renan Calheiros. Dados do Ministério da Previdência apontam que os fundos públicos aplicaram ao menos R$ 1,8 bilhão em papéis emitidos pelo banco de Daniel Vorcaro. Só o Rioprevidência concentrou cerca de R$ 1 bilhão em letras financeiras no Master. A Amprev, do Amapá, administrada por um aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), aplicou outros R$ 400 milhões. O Instituto de Previdência de Maceió, base política de Renan Calheiros, investiu R$ 97 milhões.
É preciso doses cavalares de ingenuidade para ver apenas “equívocos” nessa sucessão de investimentos temerários no Banco Master, como se fossem meros lapsos administrativos. Como ingênuo o senador Calheiros não é, só pode ser desfaçatez, para dizer o mínimo.
No dia 26 passado, ao deflagrar uma nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal apontou “vínculo próximo” e “alinhamento político” entre Cláudio Castro, ex-governador do Rio, e Daniel Vorcaro para usar o Rioprevidência como fonte de liquidez do Banco Master justamente quando a instituição enfrentava crescentes dificuldades para operar. Mais bem dito: tudo indica que fundos de previdência de servidores públicos foram usados como instrumento de socorro político-financeiro a um banco quebrado, sabe-se lá sob quais contrapartidas aos mandatários que, na prática, controlavam esses fundos. É essa engrenagem criminosa que Renan Calheiros quer premiar?
Ao fim e ao cabo, o projeto do senador alagoano socializa os enormes prejuízos causados pelos RPPS ao FGC em operações eivadas de vícios e fraudes. Em vez de exigir a apuração rigorosa dos gestores e governantes envolvidos nessas operações, Calheiros, malgrado enfatize que não pretende eximir ninguém de responsabilidade penal, tenta transferir ao sistema de proteção ao pequeno investidor todo o custo de decisões de investimento que jamais deveriam ter sido tomadas.
Se isso ocorrer, o FGC terá sido sacrificado sob o altar das conveniências políticas do momento. Cabe ao Senado impedir esse desvario.
O mordomo da Casa Branca
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O senador Flávio Bolsonaro empenhou-se em conseguir uma foto ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, com o objetivo de provar, aos que duvidam de sua candidatura no campo da direita, que é forte o bastante para ter acesso à Casa Branca, espécie de Meca dos reacionários de todo o mundo, mesmo sendo apenas um parlamentar brasileiro medíocre. Nesse sentido, pouco importa se o encontro durou um minuto ou uma hora, conforme diferentes versões. O que interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada mesmo por alguns dos mais fiéis adeptos do bolsonarismo, graças aos enroscos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente do País.
Dito isso, a imagem vale muito mais do que mil palavras. Fora os fanáticos seguidores de Jair Bolsonaro, ninguém consegue enxergar ali alguém que pretende ser chefe de Estado no Brasil. Pelo contrário: na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump. Tal comportamento é o exato oposto do que se espera de um presidente da República, que representa o Estado brasileiro nas relações internacionais e, por isso, deve ser sempre altivo.
Mas ali Flávio Bolsonaro não representava o Brasil e, caso seja eleito, continuará sem fazê-lo. O único propósito de Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai, hoje em prisão domiciliar em razão de uma tentativa de golpe de Estado. Por isso se comportou como um orgulhoso sabujo de Trump: para deixar claro que, uma vez presidente, colocará o Brasil a serviço do trumpismo. Coisas assim deveriam horrorizar os bolsonaristas que se dizem “patriotas”.
Mas o bolsonarismo que Flávio herdou do pai e que tenta manter, de maneira um tanto atabalhoada, não hesita em sacrificar os interesses brasileiros se isso representar a manutenção do poder do clã Bolsonaro. Ao lado de Flávio no encontro com Trump estava o irmão Eduardo, certamente o responsável pela visita. Deputado que perdeu o mandato por faltas, Eduardo, autoexilado no Texas, há tempos trabalha para envenenar as relações entre Brasil e EUA com o objetivo de fustigar Trump a intervir aqui em favor de Jair Bolsonaro.
Como se recorda, a traição dos Bolsonaros ao País funcionou num primeiro momento, quando Trump impôs draconianas tarifas comerciais ao Brasil como forma de pressionar o País a rever a condenação de Jair Bolsonaro. Depois, no entanto, o instinto transacional de Trump falou mais alto e ele percebeu que faria melhor negócio se dialogasse com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva – a quem chamou de presidente “dinâmico”. Mas esse revés não parece ter desanimado a família Bolsonaro, que continua empenhada em envergonhar e prejudicar o Brasil usando suas relações com a extrema direita americana para ter acesso a Trump e usar essa suposta proximidade com o presidente americano como trunfo eleitoral.
Todo esse esforço, contudo, resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo tipo de piada nas redes sociais. Não poderia ser diferente, considerando-se que nada a respeito desse encontro deve ser levado a sério, pois só serviu para dar um respiro a Flávio em meio ao escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. Se a campanha de Flávio tivesse produzido a imagem com inteligência artificial, ou se o aflito senador tivesse posado com um Trump de papelão, teria obtido o mesmo resultado e ainda pouparia o dinheiro da viagem a Washington.
Mas Flávio adicionou pilhéria à bazófia. Considerando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa que ele diga a respeito do encontro com Trump – ainda mais porque só temos a sua versão sobre a reunião. A julgar pelo que ele relatou aos jornalistas pouco depois do encontro, Flávio falou de tudo com o presidente americano, desde terras raras até crime organizado, passando por tarifas e a saúde do pai. E ainda deu dez minutos de lambuja para Trump comentar sobre as obras para o salão de baile na Casa Branca. Já a julgar pelo site da Casa Branca ou pelas redes sociais de Trump, que ignoraram o encontro, a coisa toda se resumiu mesmo à imagem embaraçosa de Flávio.
Hoje a lei permite uma jornada de trabalho de até 44 horas semanais Hoje a lei permite uma jornada de trabalho de até 44 horas semanais — Foto: Ana Branco / Agência O Globo/01/12/2022
Por Editorial / O GLOBO
Votações recentes na Câmara dos Deputados trarão, caso referendadas pelo Senado, aquilo que o ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, classifica como “retrocesso inimaginável” à legislação ambiental. Se os senadores ratificarem os projetos aprovados na semana passada, o Brasil pagará um preço alto — tanto do ponto de vista ambiental quanto de comércio exterior.
Um dos projetos altera a Lei de Crimes Ambientais para restringir o embargo de desmatamentos a partir de registros de satélites. “É um absurdo. Seria o mesmo que aprovar um projeto alterando a lei de trânsito para impedir multa por radar fotográfico”, afirma André Lima, secretário de controle do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Ainda que, na versão final, o texto tenha substituído a proibição pela exigência de aviso prévio ao produtor rural e prazo para sua defesa antes de qualquer embargo, persiste o absurdo. Enquanto esse processo segue lentamente, o desmatamento corre solto.
A mesma lei, já enviada para apreciação do Senado, vai além. Também protege o maquinário usado em garimpos e desmatamentos ilegais, impedindo que seja destruído no local em que é flagrado. A destruição é uma medida necessária para impedir que os criminosos reincidam. Se o equipamento permanece intacto, há incentivo a que voltem ao crime. De acordo com análise da Transparência Internacional, esse trecho da lei contraria resoluções aprovadas no ano passado pela Conferência dos Estados Partes da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção relativas a crimes ambientais.
Outro projeto aprovado na Câmara modifica a Lei da Vegetação Nativa com o objetivo de considerar áreas de vegetação não florestal como “consolidadas”, mesmo que não tenham começado a ser exploradas ou ocupadas. No Direito Ambiental, “área consolidada” é aquela onde há produção agrícola ou edificações. Uma das áreas mais afetadas será a Mata Atlântica, que recentemente tem registrado queda no desmatamento. Mas o projeto torna vulneráveis também amplas regiões do Cerrado e do Pantanal com vegetação nativa e rica biodiversidade. Uma terceira proposta rebaixa o nível de proteção de 40% de uma área florestal no Pará. É necessário que as regras de preservação sejam endurecidas, e não aliviadas de modo a favorecer o desmatamento.
Da mesma forma que a Lei de Licenciamento Ambiental aprovada meses atrás — que enfraqueceu a fiscalização ao adotar licenças autodeclaratórias e ao manter a multiplicidade de regulações estaduais —, o pacote antiambiental prejudicará o próprio agronegócio. Primeiro, porque o desmatamento contribui para mudanças climáticas que afetam o regime de chuvas e a lavoura. Segundo, porque o mercado internacional tem crescentemente recusado produtos vinculados ao desmatamento. O Senado, cumprindo seu papel constitucional de Casa revisora de decisões da Câmara, precisa barrar as novas leis. Do contrário, serão inevitáveis mais disputas judiciais.
Agentes em campo após satélites indicarem desmatamento no Amazonas — Foto: Divulgação/Ibama
Senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) usou as redes sociais para parabenizar presidente por entrevista no Jornal Nacional Senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) usou as redes sociais para parabenizar presidente por entrevista no Jornal Nacional — Foto: Cristiano Mar
Por Editorial / O GLOBO
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1, avança com rapidez no Congresso. O relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou parecer garantindo dois dias de folga e reduzindo a jornada máxima de 44 para 40 horas, mantendo o salário atual. A previsão é que a PEC seja votada em plenário nesta semana. A medida é eleitoreira, o debate tem sido raso, e os estragos para a economia e o mercado de trabalho serão enormes.
No texto, resultante de acordo entre o Palácio do Planalto e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a redução está dividida em duas etapas. Em 60 dias, a jornada cairá de 44 horas semanais para 42, já com dois dias de folga. Em 12 meses, haverá nova redução de duas horas, consolidando a escala 5x2. A transição de apenas 14 meses é curta demais. “Qualquer alteração dessa magnitude exige prazo adequado de transição para adaptação das empresas, especialmente em cenário de baixa produtividade da economia brasileira e elevados custos operacionais”, afirma em nota a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Ante a celeridade com que o tema tem sido tratado na Câmara, a esperança é o Senado ponderar os efeitos nefastos da mudança.
Em qualquer economia, a riqueza produzida resulta do número de horas trabalhadas multiplicado pela produtividade. É ilusório imaginar que se pode reduzir um desses fatores sem afetar negativamente a renda da população. Economias avançadas que diminuíram a jornada aumentaram muito a produtividade antes de gravar os ganhos de eficiência na legislação. No Brasil, os defensores da 6x1 se enganam imaginando haver atalho. Trata-se de evidente retrocesso.
Empresas grandes e lucrativas podem até absorver o impacto financeiro, afinal algo como dois terços dos trabalhadores já seguem a escala 5x2. O caso de micro e pequenas empresas que operam no limite é outro. É inevitável que demitam ou passem a contratar por fora, piorando as estatísticas de desemprego e informalidade. Não se trata de discutir se a PEC provocará estragos para as empresas e o mercado de trabalho. Isso é inevitável. A questão é o tamanho— e como minimizá-lo.
Como um erro parece levar a outros, Motta diz ter negociado medidas de compensação via Projeto de Lei. É o caso de gatilhos para favorecer contratações por parte dos microempreendedores individuais (MEIs). “Hoje, esses empreendedores só podem empregar um funcionário com carteira assinada. Queremos permitir que contratem mais, já que estamos reduzindo a jornada de trabalho”, disse. Outra possibilidade é reajustar o teto dos MEIs. Atualmente, a receita bruta anual permitida para enquadramento é de até R$ 81 mil. O Senado aprovou um aumento, e agora a Câmara analisa se eleva o teto.
Além da arrecadação menor em plena crise fiscal, isso significará perda de foco ainda maior do programa. “Quando foi criado, o MEI tinha como objetivo formalizar microempreendedores de baixa renda”, diz Fernando Veloso, diretor de pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social. Mas o MEI foi desvirtuado e hoje atrai quem tinha carteira assinada, tendência que se agravará com o teto maior. Como se vê, em vez de resolver os problemas existentes na economia brasileira — e eles não são poucos —, o Parlamento parece se esmerar em criar novos.
Hoje a lei permite uma jornada de trabalho de até 44 horas semanais — Foto: Ana Branco / Agência O Globo/01/12/2022
Encontro com Trump foi boa jogada política
Por Merval Pereira / O GLOBO
O encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump com certeza dá uma reforçada na imagem dele - tanto que os petistas estão inventando que a foto dos dois na Casa Branca é de Inteligência Artificial. Não é qualquer pessoa que tem acesso ao presidente americano. Foi uma boa jogada política - nada fundamental, mas o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral. O caso Vorcaro é o problema sério dele. Se não acontecer nada de novo, pode ser que seja superado, porque uma parte grande dos eleitores se manteve fiel e outros podem voltar. Mas se novos fatos mostrarem que o filme era apenas uma desculpa para pegar dinheiro do Vorcaro, complica muito. Acredito que pelo menos por agora ele neutralizou os efeitos negativos que surgiram inevitavelmente daquela conversa. Foi ruim porque é a voz dele. E também é inexplicável ele ter ido pessoalmente encontrar Vorcaro depois de ele ter saído da cadeia. Teremos talvez as delações do Vorcaro, que aparentemente se dispôs a falar mais, e as dos familiares, inclusive do pai. Quando os parentes são presos, acabam forçando uma delação mais aprofundada, na tentativa de salvá-los. . Interessante que uma das acusações que se fazia na Lava Jato era que prendiam a família para forçar o acusado a fazer a delação. É a mesma coisa que estão fazendo agora,
Senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) usou as redes sociais para parabenizar presidente por entrevista no Jornal Nacional — Foto: Cristiano Mariz /Agência O Globo
Papa apresenta credenciais políticas em encíclica sobre IA
Figura desconhecida até há pouco mais de um ano, Robert Prevost vai deixando a sombra do popular Francisco e afirmando uma identidade política como o papa Leão 14.
Após ensaiar um conflito aberto com Donald Trump devido às ofensivas armadas dos Estados Unidos, o primeiro pontífice americano apresentou suas credenciais. Na segunda-feira (25), publicou sua encíclica de estreia.
Tais documentos servem tanto como guia espiritual ao 1,4 bilhão de católicos no mundo quanto comentário moral acerca de temas prementes. Com sua "Magnifica Humanitas" ("Humanidade Magnífica", em latim), Leão 14 fez a segunda opção, e não sem simbolismo —a encíclica foi publicada no aniversário de 135 anos de uma famosa antecessora, "Rerum Novarum" ("Das Coisas Novas").
Naquele texto, Leão 13, predecessor de Prevost no uso do nome papal, dissecava desigualdades decorrentes da industrialização nascente. Abriu caminho para o que Pio 12 chamou de "doutrina social da Igreja" em 1950.
Com habilidade e um texto salpicado de citações eruditas e da cultura pop, com direito a "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg e "O Senhor dos Anéis" de J. R. R. Tolkien, Leão 14 resume o trajeto até a atual revolução tecnológica da inteligência artificial.
O papa aborda os riscos de um avanço desenfreado, a começar pela ameaça aos empregos e pela criação de monopólios, chegando a tons mais sombrios: "Nenhum algoritmo pode fazer a guerra moralmente aceitável".
Apesar disso, Leão 14 não adotou catastrofismo ou ludismo ante o que vê como um avanço inevitável da ciência. Pediu regulação, mas deixou suas reservas mais severas para proponentes da migração da consciência humana para máquinas.
Prevost trouxe ao lançamento do texto um dos cofundadores da Anthropic, uma das líderes do setor, que tem se estranhado com Trump. Se isso prova a abertura proposta, também arrisca dar uma chancela da Igreja aos monopolistas que denuncia.
"Magnifica Humanitas" foca na IA, mas tem um escopo amplo e histórico: num ponto, Leão 14 lamenta os 18 séculos em que o Vaticano não combateu a escravidão. "Por isso, em nome da Igreja, eu sinceramente peço perdão."
O embate com Trump, nunca nominado, permeia o texto. O papa defende o multilateralismo e afirma não existir guerra justa.
Após os mui políticos 26 anos do polonês João Paulo 2º na Santa Sé, o alemão Bento 16 (2005-13) só abordou temas espinhosos em 1 de suas 3 encíclicas. Francisco (2013-25) foi mais prolífico, dedicando 2 de seus 4 textos a atualidades. A urgência de Leão 14 sugere que ele seguirá os passos do antecessor argentino.
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