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PT finge ser oposição ao culpar BC por erros do governo

Em ano de disputa eleitoral, o PT volta a se utilizar do artifício que tem sido uma de suas especialidades desde que chegou ao poder em 2002: posicionar-se como governo e oposição simultaneamente.

O partido ocupou o Palácio do Planalto por 16 dos últimos 23 anos, mas, quando interessa, tenta vender a ideia de que está na trincheira contra um poder alheio. Trata-se de culpar terceiros pelos problemas gerados por suas próprias escolhas.

A mais recente resolução do Diretório Nacional da sigla exemplifica essa postura.

 

O texto critica o Banco Central, acusado de atuar "contra o projeto eleito nas urnas", de aprofundar a "financeirização" da economia e de restringir investimentos públicos. Exige redução imediata da taxa Selic, hoje em elevadíssimos 15% ao ano, e revisão da meta de inflação de 3%, para "compatibilizá-la com crescimento econômico e geração de empregos".

A crença de que uma meta mais alta permitiria juros mais baixos é, no mínimo, pueril. Um objetivo frouxo tende a elevar as expectativas para o IPCA, exigindo política monetária talvez restritiva para conter preços. A medida, de todo modo, está ao alcance imediato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, também responsável pelas indicações da maioria dos diretores do BC.

A proposta do PT não passa de tolerar mais inflação —que pune sobretudo os mais pobres—em nome do crescimento econômico, ignorando o desastre produzido por essa estratégia sob a correligionária Dilma Rousseff.

A pressão sobre o BC não se limita à resolução. Embora o documento não peça explicitamente a revogação da autonomia da instituição, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), declarou que ela deve ser revista, tornando-se "relativa", não absoluta.

Soma-se a isso o balão de ensaio sobre uma possível indicação de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica da Fazenda, para a diretoria do BC.

Recomendado por seu chefeFernando Haddad, Mello tem conhecidas posições heterodoxas, e a mera menção a seu nome provocou reação negativa entre economistas e investidores, que veem risco de politização da autoridade monetária.

Os tão repudiados juros altos são motivados, principalmente, pelo expansionismo orçamentário do governo petista. O aumento persistente e temerário dos gastos públicos eleva a pressão sobre os preços e força o BC a manter a taxa de juros em patamar mais restritivo. Os próprios dirigentes da instituição escolhidos pelo Planalto o afirmam.

 

A suposta "financeirização", um conceito vago, decorre dessa escolha: para rolar uma dívida em alta contínua, o Tesouro Nacional oferece remunerações elevadas, beneficiando os famigerados rentistas. É irônico que Lula e seu partido, por tantos anos no comando da economia, tenham se tornado os maiores amigos de quem pode viver de emprestar dinheiro ao governo.

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Desaparecimento de crianças exige integração e empenho das autoridades

Por  Editorial / o globo

 

 

O desaparecimento de crianças e adolescentes alcança no Brasil proporções trágicas. A cada 22 minutos desaparece um menor de 17 anos, como revelou reportagem do GLOBO. Em 2015, foram registrados 32.490 casos, ou 90 por dia. Houve queda nos anos seguintes, mas, no ano passado, mesmo antes de os estados de São Paulo, Alagoas, Paraíba e Pernambuco enviarem seus dados, o total estava em 23.919 desaparecidos, ou 66 por dia — número 8,2% superior ao de 2024.

 

Para enfrentar a questão, o país não está na estaca zero. Existe o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD), com informações dos boletins de ocorrência, permitindo cruzar dados. Existe também uma mobilização nacional para a coleta de DNA, usado para elucidar casos mais antigos. Foi assim que, em 2024, houve 35 identificações de menores que haviam desaparecido. Mas esse caminho, embora promissor, tem sido insuficiente.

 

A tecnologia é de grande importância na busca por crianças desaparecidas. O Brasil começa a adotar o Alerta Amber, sistema eletrônico batizado em homenagem a uma menina de 9 anos sequestrada e assassinada no Texas em 1996. Ele reúne nome, descrição física, foto, descrição dos suspeitos de sequestro, veículo, placa, roupa que o menor vestia — tudo, enfim, que possa facilitar a identificação. Um centro nacional reúne o banco de dados de crianças desaparecidas. O sistema dispara alertas locais, regionais ou nacionais a diversos dispositivos, como celulares, redes sociais, TVs, rádios ou painéis em estradas. Há um número telefônico para os cidadãos entrarem em contato e acionarem a polícia. Tudo é feito com grande rapidez para que os sequestradores não tenham tempo de fugir e o menor não se afaste demais. O sistema visa a combater sequestros, mas também pode ser usado para localizar os menores que se perderam.

 

No Brasil, a adoção do Alerta Amber tem o apoio da Meta, dona das redes sociais mais usadas pela população (WhatsApp, Instagram e Facebook). As redes exibem fotos e descrições dos menores num raio de 160 quilômetros do local do desaparecimento. Todos os estados já aderiram, com exceção de São Paulo. Embora ainda seja preciso ampliar o alcance do alerta, ele é um primeiro passo.

 

Apenas uma medida, contudo, não mitigará a tragédia do desaparecimento de menores. A participação da rede de escolas públicas é outra forma eficaz de facilitar as buscas. A questão exige maior articulação entre organismos públicos de segurança nas três esferas de governo. Não só para localizar as vítimas, mas também para alertar as famílias sobre os riscos.

Escola falha no debate ambiental

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Desde que ganhou contornos mais evidentes e dramáticos, a crise climática deixou de ser um tema periférico para se infiltrar no vocabulário nacional. Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes devastadoras e recordes sucessivos de temperatura passaram a ocupar o noticiário, impulsionados pelo avanço da ciência e por uma cobertura jornalística mais atenta à dimensão estrutural do problema. Essa incorporação, no entanto, é desigual e incompleta. O fato de o tema ter ganhado centralidade no debate público não significa que tenha sido assimilado de forma homogênea pela sociedade – muito menos pelas novas gerações, grupo essencial, já que não há futuro possível se não for também construído, compreendido e valorizado por quem vai habitá-lo.

 

É esse descompasso que um estudo recém-divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social, ajuda a evidenciar. Ao ouvir cerca de 2,3 milhões de estudantes do ensino fundamental em todas as regiões do País, a pesquisa revela que temas ambientais e de sustentabilidade figuram entre os menos valorizados pelos próprios alunos quando questionados sobre o que consideram importante aprender na escola. Apenas um em cada dez estudantes menciona questões ambientais como relevantes para sua formação. Em outras palavras, nove em cada dez adolescentes passam pela escola sem perceber sentido, prioridade ou urgência no debate ambiental.

 

O dado causa estranheza. Em um país cada vez mais exposto a eventos climáticos extremos – da crise hídrica às enchentes, das queimadas ao colapso de ecossistemas –, seria razoável supor que a escola refletisse essa realidade. O estudo sugere, contudo, que a distância não está apenas entre os alunos e o tema, mas entre o currículo escolar e o mundo concreto. A sustentabilidade aparece, quando aparece, de forma abstrata ou episódica, dissociada da experiência cotidiana dos estudantes e das escolhas que moldam suas vidas.

 

Essa constatação ganha ainda mais força quando cotejada com outro dado recente, também do MEC, sobre as expectativas dos alunos em relação ao ensino. Segundo esse levantamento, os estudantes manifestam de forma clara o desejo por aulas que consigam articular teoria e prática, conectando conteúdos escolares a problemas reais e aplicações visíveis. Não se trata de rejeição ao conhecimento, mas de recusa a um aprendizado sem sentido. Os alunos querem compreender por que aprendem o que aprendem – e para quê.

 

A combinação dos dados desmonta uma interpretação conveniente, mas equivocada: a de que os jovens seriam indiferentes às questões ambientais. O problema não é falta de interesse, mas de mediação pedagógica eficaz. A escola falha ao não transformar a emergência climática em objeto de aprendizado significativo e transversal. Ao não relacionar clima, meio ambiente, economia, território e qualidade de vida, o ensino empurra a sustentabilidade para um lugar marginal, incapaz de disputar atenção com outros conteúdos.

 

O paradoxo é evidente. Nunca se discutiu tanto o clima no debate público e nas políticas públicas. Ainda assim, essa discussão chega às salas de aula de forma fragmentada e pouco inteligível para os estudantes. O resultado é uma geração que vive os efeitos da crise climática, mas não os reconhece como parte estruturante de sua formação escolar. A responsabilidade por esse descolamento não pode ser atribuída apenas aos professores. Ela recai sobre políticas curriculares excessivamente formais, sobre a fragilidade da formação docente continuada e sobre uma concepção de ensino que ainda separa o conhecimento escolar dos dilemas do mundo real.

 

Se a escola pretende formar cidadãos capazes de enfrentar os desafios do século 21, não pode tratar a emergência climática como nota de rodapé. Integrar sustentabilidade ao currículo não significa acrescentar mais um conteúdo, mas repensar métodos, linguagens e prioridades. Ignorar esse desafio é condenar a educação a falar cada vez menos com o tempo em que existe – e com o futuro que deveria ajudar a construir.

Eleitores endividados

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

“Herança maldita”, bradava o comissariado petista em novembro de 2022, durante a transição entre os governos de Jair Bolsonaro e o novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. À época, a caciquia do partido falava em “economia destruída”, alertava que o povo estava “passando fome” e denunciava o avanço do endividamento das famílias. O crédito caro, o rotativo do cartão e o uso crescente do consignado e dos empréstimos pessoais eram apresentados pelo PT como prova de que a economia se tornara hostil aos brasileiros. A promessa implícita era inequívoca: com a volta de Lula ao Palácio do Planalto, a renda cresceria, o aperto diminuiria e a normalidade econômica seria restaurada.

 

Três anos depois, os dados desmentem essa expectativa. A renda, de fato, cresceu, mas o aperto não deu trégua. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar muito próximo do recorde histórico registrado em julho de 2022. Trata-se de um indicador abrangente, que inclui financiamentos imobiliários e de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e cartão de crédito. Não é um desvio pontual, mas a consolidação de um quadro persistente de pressão sobre os orçamentos domésticos. E a evidência de que o triunfalismo lulopetista está longe de encontrar amparo na realidade.

 

O contraste com a narrativa oficial é evidente. O governo insiste em destacar indicadores positivos do mercado de trabalho, sobretudo a queda do desemprego e a recuperação da renda média. Esses avanços são reais, mas insuficientes para neutralizar o desconforto econômico percebido pela população. Dívidas elevadas, juros altos e crédito caro corroem o efeito prático da renda adicional e alimentam a sensação difusa de que a vida não está mais fácil.

 

As pesquisas de opinião captam esse descompasso. Levantamentos recentes, como os do Ideia e da Quaest, mostram que uma parcela expressiva dos brasileiros acredita que a economia piorou ou permaneceu estagnada, apesar do discurso autoelogioso do governo. A avaliação do desempenho econômico figura de forma recorrente entre os principais fatores de insatisfação. Custo de vida e insegurança financeira ancoram tais temores. Não por acaso, a aprovação do governo oscila em patamar mediano, distante do apoio que costuma sustentar projetos de reeleição.

 

Esse cenário expõe os limites da estratégia petista de terceirizar permanentemente a responsabilidade pelos problemas econômicos. Não é novidade. Entre 2002 e 2003, ao chegar à Presidência pela primeira vez, Lula também classificou como “herança maldita” a economia recebida de Fernando Henrique Cardoso – como se a gestão tucana, apesar de sucessivas crises internacionais, não tivesse pavimentado o caminho que permitiria o sucesso econômico do primeiro mandato petista.

Essa marotagem tem prazo de validade. Lula governa há tempo suficiente para que os resultados, positivos ou negativos, sejam atribuídos majoritariamente às escolhas de sua própria administração. Persistir na lógica da herança eterna soa cada vez menos convincente e mais como fuga de responsabilidade. Os números divulgados pelo Banco Central reiteram essa constatação.

 

O endividamento elevado vai além da estatística. Restringe o consumo, amplia a vulnerabilidade das famílias a choques econômicos e limita a eficácia de políticas baseadas quase exclusivamente em transferências de renda. Em ano pré-eleitoral, esse quadro se converte em risco político concreto para um presidente que aposta na memória afetiva de mandatos passados e na ideia de que sua presença no poder, por si só, melhora a vida do cidadão comum.

 

A economia tende a ser o eixo central da disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso. Se quiser evitar que a dívida das famílias se torne símbolo de frustração eleitoral, o Planalto precisará ir além da retórica e enfrentar o problema com seriedade. Até lá, os números do Banco Central seguirão lembrando que a economia real não se deixa moldar por slogans – e que a política da negação pode cobrar seu preço nas urnas.

Há palestras e pale$tra$

Elio Gaspari / Jornalista e escritor / O GLOBO
Liderando a bancada do Supremo Tribunal Federal (STF) que se opõe à pactuação de um código de conduta pela Corte, o ministro Alexandre de Moraes argumentou que “como o magistrado só pode dar aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras.” Será? Em julho de 2023, o ministro viu-se envolvido num lastimável episódio no aeroporto de Roma quando foi insultado por bolsonaristas. Na versão inicial, Moraes vinha de uma palestra na renomada Universidade de Siena. Instituição milenar, sua faculdade de Direito lustraria a biografia do magistrado, mas o repórter Eduardo Oinegue mostrou que a coisa não era bem assim.
 

O Fórum Internacional de Direito, patrono do evento, pertencia à empresa UniAlfa, controladora de uma faculdade de Direito de Goiânia, todas integrantes do Grupo José Alves, dono de um laboratório onde produzia a ivermectina, prima da cloroquina. O fórum onde Moraes falou reuniu-se antes na cidade espanhola de Valladolid. Dos 31 conferencistas arrolados pelos eventos, 20 eram brasileiros e 11 pertenciam aos quadros da UniAlfa.

 

Quem demonizou o quê? Em 2024, um ministro do Supremo recebia R$ 44 mil mensais. Era um bom dinheiro, acompanhado de uma invejável infraestrutura. Aquele ano foi o do esplendor das farofas de magistrados. Entre junho de 2023 e maio de 2024, os juízes estiveram presentes em ao menos 22 agendas internacionais. Quase todas no circuito Elizabeth Arden (Paris, Londres, Nova York e Roma.)

 

Quem demonizou as palestras foram os magistrados metidos em farofas demoníacas. Registre-se que os juízes não têm o monopólio dessas farofas, nem a anomalia é brasileira. O genial juiz Antonin Scalia, da Corte Suprema dos Estados Unidos, morreu em 2016 durante uma farofa. Em 2024 o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair — farofeiro cosmopolita — participou de um evento em Londres. Pagou pela sua presença o falecido Banco Master.

 

É impossível criar-se uma métrica para o valor de palestras. Mesmo assim, para servidores ativos do Estado e até mesmo para jornalistas, é razoável acreditar que uma palestra vale, no máximo, a quarta parte dos vencimentos mensais do bem-aventurado. Afinal, ele cobrará a remuneração de uma semana por um ou dois dias de trabalho. Pelo andar da carruagem, o código de conduta de Edson Fachin e Cármen Lúcia faz água. Quanto mais condutas condenáveis houver, maiores serão as dificuldades.

 

As palestras são a parte mais visível da erosão do Supremo, e não se consegue sequer que os magistrados informem quanto receberam ou de quem. Se tão pouco é tão difícil, mexer com exuberantes parentelas seria tarefa de Hércules. Pode-se torcer pelo código, mas pode-se também acompanhar cada passo do seu funeral, ou da sua diluição.

 

Haddad na frigideira

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, corre o risco de ser frito numa frigideira especial, a do êxito. Tendo sido um ministro que passou limpo pelo cargo, querem empurrá-lo candidato numa eleição majoritária. Disputou quatro eleições. Venceu a primeira como poste de Lula e levou a prefeitura de São Paulo. Perdeu a reeleição, foi para o sacrifício disputando a Presidência com Bolsonaro enquanto Lula estava na cadeia.

Disputou o governo de São Paulo contra o carioca Tarcísio de Freitas e foi batido.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e acredita em tudo o que o governo diz.

Lula contou que, a pedido do ex-ministro Guido Mantega, recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 deixando claro que qualquer solução para o Master deveria seguir os padrões técnicos do Banco Central.

Desse encontro participaram Lula, Mantega, Vorcaro e Gabriel Galípolo, então numa diretoria do Banco Central, mais outras duas testemunhas. Segundo o site Poder 360, Galípolo não contou esse encontro ao presidente do BC, Roberto Campos Neto.

A repórter Consuelo Dieguez revelou na revista Piauí que, em abril de 2025, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor de Crédito um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Banco Master. O FGC aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de R$ 11 bilhões, liberou R$ 5,7 bilhões.

Eremildo acredita em tudo isso, afinal, é um cretino.

Marco Buzzi está encrencado

O ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sempre foi mais conhecido por seu comportamento do que pela sua jurisprudência. Com a denúncia de que assediou a filha de um casal de hóspedes, de 18 anos, precisa de bons advogados.

 

Leitura útil

Antes de embarcar para Washington valeria a pena que Lula lesse as conversas de seus antecessores com os presidentes americanos.

São parecidas, com o brasileiro apresentando algum tipo de pleito.

O ponto fora da curva foi o encontro do general Emílio Médici com Richard Nixon. Medici só lhe fez uma insinuação, embutindo um pedido, a promoção a general do coronel Arthur Moura.

Descendente de açorianos, o coronel Moura falava um português impecável e transitava com rara facilidade, do porão ao Alto Comando.

Nixon atendeu o pedido, em termos claros: “Isto é uma ordem e não quero ouvir conversas de burocratas”.

Moura foi a general, e ficou no Brasil até 1975. Mais tarde, trabalhou na empreiteira Mendes Júnior.

Um diplomata que serviu a esse tempo na embaixada contou: “O verdadeiro orientador político da embaixada era o general Moura. Eu participei de reuniões que ele praticamente presidia”.

Moura era um protegido do general Vernon Walters, a quem conheceu como tenente. Em 1971, Walters foi o intérprete da conversa de Médici com Nixon e dias depois escreveu ao amigo:

“Arthur, a tua estrela está garantida”.

Pássaro no Post

Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o diário Washington Post, sua entrada no negócio foi saudada como uma redenção.

Bastaram três anos para que o encanto se quebrasse.

O jornal anunciou que demitirá um terço de seus funcionários. Sua redação, que tem cerca de 800 jornalistas, mandará embora 300.

O Post esteve nas mãos de um banqueiro, cujo genro era considerado um gênio, até que começou a ter um comportamento errático e meteu uma bala na cabeça.

O Post ficou para a herdeira Katharine Graham (1917-2001), uma simples viúva rica.

Foi com ela que o Post viveu seus dias de glória, com o escândalo do Watergate. Kay Graham foi tudo isso e também a mais requisitada figura da vida social no serpentário de Washington.

 

 

Samba-exaltação a Lula é nítida propaganda indevida

Dora Kramer Jornalista e comentarista de política / FOLHA DE SP

 

 

Não serão os 80 minutos de desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, no domingo de Carnaval, que garantirão a Luiz Lula Inácio da Silva (PT) um quarto mandato de presidente. O filme "Lula, o Filho do Brasil", de 2009, tampouco foi o responsável pela vitória com Dilma Rousseff no ano seguinte.

Os dois episódios, no entanto, escancaram o uso de manifestações culturais na construção de mitologias políticas com fins eleitorais. É velha conhecida a ideia do PT de obter hegemonia em todas as áreas da vida nacional.

Quem falou pela primeira vez sobre o plano de dominação foi José Genoino —prócer petista da época— no início de 2003. Ao longo daquele ano outras pessoas diriam o mesmo, com a impertinência dos vencedores.

De lá para cá, o Brasil passou por escândalos que resultaram no aperfeiçoamento dos instrumentos de controle de abusos de poder, mas o país segue desatento e algo leniente diante de desacatos quando cometidos no mais alto escalão.

Jair Bolsonaro (PL) precisou extrapolar e reincidir até perder o poder e a liberdade. Ainda assim, quase ganhou a reeleição e talvez não estivesse preso se tivesse enfrentado policiais, procuradores e juízes condescendentes.

Há no Brasil um sentimento difuso de que certas regalias são permitidas a presidentes, e há um certo pudor em apontá-las até que ultrapassem os limites devidos à reverência ao posto. Isso em nome do respeito à legitimidade conferida pelas urnas.

Prerrogativa que não fornece salvo-conduto a infrações ilimitadas. Nem a mentiras, como a que contou Lula na quinta-feira (5) em entrevista ao UOL.

Disse que só assumiria candidatura nos 45 dias regulamentares de campanha.

"Até lá, serei apenas presidente", afirmou em desinibida agressão às evidências do uso cotidiano do cargo na difusão da própria candidatura.

Lula afronta regras e consegue não ser admoestado devido à complacência que protege o mito. Mas não pode esconder o fato de que isso faz dele um transgressor do código de ética da vida real.

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