Do tomate à carne, alta concentrada em itens do dia a dia intensifica percepção da inflação de alimentos captada por pesquisa
Por Mayra Castro e Esther Gama — Rio de Janeiro / O GLOBO
Depois de meses sob controle, os preços de alimentos voltaram a subir diante dos impactos da guerra no Oriente Médio, e chegaram ao maior nível do terceiro mandato do presidente Lula. A alta concentrada em itens básicos do cotidiano, como tomate, leite e carne potencializam a sensação que as pessoas têm sobre a inflação, conforme captou a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada hoje.
O levantamento mostrou que 72% dos entrevistados perceberam uma alta no preço dos alimentos no último mês. Entre as 2.004 pessoas que responderam à pesquisa, apenas 18% acham que os preços não variaram e 8% avaliam que caíram. Os 2% restantes não souberam ou não responderam. Esse cenário pode ser um dos fatores que explicam as dificuldades eleitorais do presidente Lula, que concorrerá a eleição em outubro, apontada pela pesquisa. O levantamento também mostrou um aumento na desaprovação do terceiro mandato de Lula, que chegou a 52%.
Os números do contexto econômico atual confirmam essa percepção dos entrevistados. A alimentação no domicílio subiu 1,94% nos resultados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, divulgado na última sexta. Esse percentual é bastante superior ao 0,23% de fevereiro e o maior desde abril de 2022, quando o índice oficial de inflação do país chegou a 2,59%.
Maior impacto na rotina
Entre as principais altas de março estão o tomate, a cebola, a batata-inglesa, o leite longa vida e as carnes. Esses produtos estão muito presentes na rotina dos brasileiros, e seus reajustes tendem a gerar maior incômodo na população em relação à inflação.
Vale ressaltar que nem no fim de 2024 os números eram tão elevados. Na época, a inflação estava tão pressionada que o presidente veio publicamente cobrar medidas dos varejistas para a contenção do preço dos alimentos.
Economistas apontam que, mesmo com as medidas para subsidiar combustíveis, o governo não conseguiu evitar as consequências do fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em retaliação aos ataques de EUA e Israel, que elevou a cotação internacional do petróleo, na inflação.
Frete é uma das razões para a alta
Ainda que o governo tente minimizar o impacto, o aumento dos combustíveis acelerou a inflação em março e segue pressionando preços em abril, na avaliação de varejistas e consumidores. O transporte rodoviário tem impacto sobre os outros setores, principalmente no de alimentos, muito dependente dos caminhões. O custo dos fertilizantes também sofre impacto do conflito no Oriente Médio
Os custos dos produtores e comerciantes acabam repassados aos consumidores nas feiras e supermercados. O feirante Victor Vinícius, de 27 anos, já sente um peso maior do frete nas suas contas. Ele diz que está pagando R$ 98 em uma caixa de maçã que antes era R$ 80, enquanto no supermercado o quilo está quase R$ 20. A fruta registrou queda no IPCA em março, mas, nas bancas, o preço está subindo neste mês.
— Aqui a gente vende por quantidade, mas quando você coloca tudo na ponta do lápis, vê que não tem muita diferença, está tudo caro da mesma forma. Os fornecedores falam que o motivo é o pagamento dos funcionários da roça e o combustível do transporte, mas isso reflete aqui, para a gente e para o consumidor — diz o feirante.
Inflação que pesa mais no bolso
Como a alta de alimentos é mais sensível ao bolso dos brasileiros, nas feiras, consumidores estão repensando a quantidade na hora de comprar alimentos e eventualmente fazendo substituições. É o caso de Thaisa Braga, de 37 anos, e Diego Rodrigues, de 40 anos, que fazem as compras semanais todas as quartas-feiras, em uma feira de Copacabana, na Zona Sul do Rio.
Sem competição, Brasil seguirá na retaguarda da indústria global
Por Editorial / O GLOBO
O Brasil fechou 2025 na vexatória 64ª posição entre 83 países no ranking global que mede o ritmo de expansão da atividade industrial, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) a partir de dados da agência da ONU para promoção do desenvolvimento da indústria. Foi a pior colocação desde 2022, quando o país ocupou o 71º lugar. O resultado não surpreende. Como a indústria local cresce abaixo da média global, o Brasil tem lugar quase cativo na metade de baixo da lista.
Empresários do setor culpam os juros altos pela queda recente no ranking. É verdade que o endividamento inibe o consumo, e o custo do dinheiro penaliza o financiamento ao capital de giro. Mas também é verdade que, além desses fatores conjunturais, a indústria brasileira enfrenta problemas estruturais faz tempo. A manufatura nos países mais avançados se baseia nos ramos de alta tecnologia, onde estão os maiores investimentos em automação, digitalização e sustentabilidade. No Brasil, esses segmentos mais dinâmicos não chegam a um terço da indústria, ante quase 50% nos países avançados.
Historicamente, a indústria brasileira investe pouco no desenvolvimento de novas tecnologias e apresenta baixa taxa de adoção de tecnologias desenvolvidas fora do país. Por aqui sempre prevaleceu a estratégia de manter tarifas alfandegárias nas alturas para proteger um parque industrial obsoleto. As barreiras podem ter motivado muitos estrangeiros interessados em explorar o mercado interno a se instalar no Brasil, mas também serviram de empecilho a que o país conectasse a produção local às cadeias globais de suprimentos.
Não surpreende que os 25 países mais pobres sejam os que adotam as tarifas mais altas, o dobro da taxa observada em economias de alta renda, segundo relatório recente do Banco Mundial. Economias de renda média-alta são pródigas em subsídios que elevam custos para praticamente todas as demais empresas e se perpetuam como distorção e ineficiência no mercado. Um agravante no caso brasileiro foi a manutenção por décadas de uma estrutura tributária bizantina. Decisões de investimentos eram tomadas levando em conta vantagens nos impostos, não a eficiência da produção.
É possível que, nos próximos anos, uma nova dinâmica ajude a transformar a realidade da indústria brasileira. A implantação da reforma tributária promete no mínimo reduzir as distorções. E o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia criará um ambiente mais propício ao aumento da competitividade. O Brasil tem de intensificar os esforços para abrir mais a economia à competição internacional. O nível baixo de concorrência garante a sobrevivência dos piores e limita o crescimento dos melhores. Claro que uma política fiscal responsável que ajude a baixar os juros também é fundamental. Mas, sem competição para valer, o Brasil seguirá na retaguarda do ranking da indústria global.

Mais uma volta no torniquete orçamentário
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Câmara aprovou, em primeiro turno, a PEC que cria um piso para a assistência social. O texto obriga União, Estados e municípios a destinar ao menos 1% da receita corrente líquida ao setor. A votação foi ampla, quase sem resistência. Ao mesmo tempo, o debate público é dominado por alertas sobre a falta de espaço no Orçamento e o risco de paralisia fiscal. As duas coisas avançam juntas.
Em ano eleitoral, esse mutirão dos deputados em prol do “social” não é novidade. Diante de demandas legítimas – assistência, saúde, educação –, a resposta padrão do sistema político é transformá-las em obrigação permanente de gasto. Em vez de disputar prioridades dentro do Orçamento, prefere-se retirá-las da disputa. A despesa já não é objeto de negociações e escolhas sujeitas a revisão periódica – é gravada na Constituição.
Vinculações à receita e mecanismos de indexação operam de formas distintas, mas produzem efeitos semelhantes: elevam a despesa por força própria. No primeiro caso, o gasto acompanha a arrecadação; no segundo, responde a indexadores como o salário mínimo. Em ambos, reduz-se o espaço de decisão e consolida-se o Orçamento num conjunto de compromissos automáticos.
Cerca de 92% das despesas primárias já estão comprometidas. Sobra menos de um décimo do Orçamento para tudo o que depende de decisão de governo – do investimento em infraestrutura ao custeio da máquina pública. Para 2026, as projeções apontam para quase R$ 2,9 trilhões em despesas obrigatórias, ante pouco mais de R$ 200 bilhões de gastos discricionários.
A tendência é de aperto adicional. Uma parcela relevante dessas despesas cresce acima da inflação, impulsionada por indexações e vinculações à receita. Segundo estudo dos economistas Samuel Pessôa e Fábio Serrano, do BTG Pactual, mantidas as regras atuais, o crescimento automático do gasto pode adicionar perto de R$ 1,4 trilhão às despesas públicas na próxima década. Mesmo períodos de maior arrecadação não produzem alívio duradouro. O aumento de receita tende a ser acompanhado por aumento do gasto.
Só na União, estima-se que a nova PEC traria um impacto de R$ 16 bilhões por ano após implementação gradual. Estados e municípios também serão pressionados. Pouco mais de mil cidades – em geral pequenas – terão de elevar significativamente seus gastos, sem transição, o que pode comprometer o equilíbrio fiscal local e ampliar a dependência de transferências federais.
Tudo isso significa mais investimentos adiados ou reduzidos. Programas encolhem e despesas básicas disputam espaço escasso. O chamado gasto discricionário inclui desde obras de infraestrutura até o funcionamento de universidades, hospitais e políticas públicas essenciais, como em ciência e tecnologia, por exemplo. Quanto mais a margem se estreita, menos o governo governa. Um estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara prevê que, sem mudanças, já a partir de 2027 os gastos obrigatórios tenderão a ocupar todo o espaço disponível.
Os candidatos continuam a distribuir promessas nos palanques, as eleições continuam a ignorar projetos e prioridades, e a capacidade de implementá-los encolhe. A execução orçamentária passa a depender menos de planejamento e mais de acomodação. A negociação política se desloca para a disputa por parcelas cada vez menores de recursos livres, frequentemente fragmentadas e de baixo impacto.
Ainda assim, os parlamentares seguem forjando novas obrigações. A cada legislatura, pavimenta-se um novo piso. Raramente se discute o conjunto. Quase nunca se revisam compromissos anteriores. O diagnóstico do engessamento é amplamente conhecido, mas não altera o comportamento que o produz. Medidas que ampliam despesas permanentes avançam com rapidez; iniciativas que exigem contenção ou reavaliação enfrentam resistência difusa e acabam postergadas.
A nova PEC insere-se nesse processo. Isoladamente, pode parecer modesta. No conjunto, reforça uma trajetória de engessamento. O Estado segue ampliando compromissos permanentes sem impor a si mesmo limites equivalentes. Os pisos vão sendo justapostos no Orçamento. O teto fica em segundo plano. Quanto mais se acumulam as boas intenções, mais se multiplicam os maus resultados.
300 anos de Fortaleza: revoltas que marcaram a história da capital
Desenvolvida a partir de um forte militar holandês às margens do Riacho Pajeú, Fortaleza carrega, desde a origem, uma relação direta com disputas e conflitos. Situada em posição estratégica no litoral, a cidade cresceu não apenas sob o signo da expansão urbana, mas também marcada por episódios de tensão que transformaram ruas em trincheiras, fecharam o comércio às pressas e colocaram multidões frente a frente com forças militares no Centro. Ao longo dos séculos, revoltas, levantes populares e confrontos expuseram disputas de poder, tensões sociais e momentos de ruptura política — seja no período imperial, seja durante a ditadura militar.
Na semana em que celebra seus 300 anos, o Diário do Nordeste publica uma série de reportagens multimídia que ajudam a entender como a capital cearense chegou aos três séculos de existência, das disputas políticas aos marcos econômicos, das mudanças urbanas às memórias afetivas que atravessam gerações. Nesta matéria, o PontoPoder relembra alguns dos principais conflitos que moldaram a história da capital cearense.
Confederação do Equador (1824)
Gestada em Pernambuco, a Confederação do Equador eclodiu em 1824 como um movimento que pretendia emancipar os estados nordestinos diante da centralização do poder por Dom Pedro I e da influência portuguesa no País. Ainda com a Revolução Pernambucana fresca na memória popular, a mobilização de 1824 rapidamente se espalhou pelo Nordeste — e, com a mesma velocidade, foi reprimida pelas forças monarquistas. Nos dois movimentos, o Ceará teve polos de adesão, inclusive na Capital. Em meados daquele ano, as ruas de Fortaleza passaram a ter manifestações com centenas de apoiadores da Confederação.
Na esteira dessa revolta, a cúpula do movimento destituiu o presidente da província e elegeu Tristão Gonçalves de Alencar Araripe como novo governante. A mudança, no entanto, durou pouco. Em outubro, o Império enviou reforço militar para a Capital e a repressão passou a ser mais violenta, com perseguições e torturas. O próprio Tristão Gonçalves foi capturado e morto no Interior. Entre abril e maio de 1825, um dos espaços mais tradicionais e centrais de Fortaleza virou cenário da extrema violência do Império. Os líderes do movimento republicano, Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina, Padre Mororó e Pessoa Anta, foram executados no Passeio Público. No fim daquele século, o local foi renomeado para Praça dos Mártires, em homenagem aos revolucionários.
Revolta urbana contra a oligarquia Accioly (1912)
Fortaleza viveu, em janeiro de 1912, um dos episódios mais violentos de sua história política. A revolta teve como estopim uma eleição marcada por denúncias de fraude e pelo descontentamento com a oligarquia de Nogueira Accioly, um ciclo político de clientelismo, nepotismo, autoritarismo e corrupção. A tensão explodiu após a repressão militar a uma passeata — composta, em grande parte, por crianças — no dia 21 de janeiro. Relatos da época indicam que a cavalaria avançou sobre os manifestantes, provocando feridos e mortes. Os pais das vítimas responderam disparando indistintamente contra os agentes públicos. A reação foi imediata. Entre os dias 21 e 24, ruas e praças de Fortaleza se transformaram em cenários de confronto, com tiroteios, incêndios, barricadas e ataques a prédios públicos.
A Delegacia Fiscal e a Cadeia Pública foram alvos dos revoltosos. O comércio fechou, o transporte foi paralisado e a cidade mergulhou em um clima de guerra. Estima-se que o Governo tinha cerca de mil soldados, mas eles permaneceram em seus redutos. À medida que os dias avançavam, os militares começaram a se ver com fome e sede. O movimento só arrefeceu após a renúncia de Accioly, que deixou o Palácio da Luz, então sede do governo, e seguiu às pressas para o Rio de Janeiro. Nas eleições seguintes, o candidato oposicionista Franco Rabelo foi eleito no Ceará.

Revolta dos bondes (1925)
Em 1913, começou a circular por Fortaleza o primeiro bonde elétrico. A novidade causou alvoroço na população, que queria experimentar o equipamento. A operação dos bondes era comandado pela companhia inglesa “Ceará Tramway, Light and Power”, que não tinha concorrentes. Pouco mais de 10 anos após a inauguração, as críticas se avolumavam. Havia queixas de superlotação, sujeira, falta de conforto, exposição dos passageiros à chuva e até interrupções no fornecimento de eletricidade, que comprometiam a circulação dos bondes.

Em 1925, a Light and Power anunciou uma série de medidas, entre elas a elevação das tarifas e mudanças no sistema de transporte — como a divisão dos veículos em 1ª e 2ª classe e alterações nos horários —, o que deflagrou uma revolta popular. Em setembro de 1925, estudantes iniciaram protestos que rapidamente ganharam adesão popular. A Praça do Ferreira virou o principal palco das manifestações. Bondes foram invadidos, depredados e interrompidos. A polícia reagiu com prisões, mas os protestos continuaram nos dias seguintes, com paralisação do comércio e suspensão de aulas. A revolta foi contida, mas escancarou o descontentamento da população com os serviços urbanos e com a falta de regulação sobre empresas estrangeiras.
Quebra-quebra contra estrangeiros (1942)
Em plena Segunda Guerra Mundial, a Alemanha afundou, em meados de agosto de 1942, cinco navios brasileiros em um intervalo de dois dias. O episódio provocou a morte de 600 tripulantes. O caso reforçou uma insatisfação já crescente na população de rejeição a estrangeiros. No dia 18 de agosto, o movimento foi deflagrado com protestos que partiram da Faculdade de Direito da UFC em direção à Praça do Ferreira.

O movimento rapidamente se espalhou pelo Centro, com ataques a estabelecimentos associados a estrangeiros — especialmente alemães e italianos. Lojas, padarias, cafés e armazéns foram depredados. Durante os atos, manifestantes gritavam palavras de ordem contra Adolf Hitler.
Foram alvos das depredações:
- as lojas Pernambucanas, da família alemã Lundgren;
- a Fábrica Italiana, do espanhol Rudezindo Nocelo Feijó (entrou na mira por causa do nome);
- a Padaria Italiana, da família italiana Rattacaso;
- o Café Íris, do italiano Francisco Orlando Laprovítera;
- os Armazéns, do italiano Alexandre Papaleo;
- a Casa Veneza, sapataria do italiano Francesco di ngelo;
- a loja A Formosa Cearense, a Tinturaria Italiana, a Tinturaria Modelo e a Casa de Confecções 3 Oitos, todas da família italiana Marino;
- a Casa Cunto, alfaiataria e sapataria da família italiana Cunto;
- o Jardim Japonês, da família Fujita.
Naquele momento, o Brasil ainda não havia declarado guerra à Alemanha e à Itália, o que ocorreu em 22 de agosto de 1942.
Guerra das Castanheiras (1968)
Nos anos 1960, impulsionada pela expansão industrial, Fortaleza concentrava um grande contingente de trabalhadores pobres, especialmente mulheres empregadas na indústria de beneficiamento da castanha. Nesse contexto, a cidade funcionava como um polo de mão de obra precarizada, marcada por baixos salários, condições insalubres e forte desigualdade urbana. Foi nesse cenário que centenas de operárias da fábrica Companhia Industrial de Óleos do Nordeste (Cione), conhecidas como “castanheiras”, deflagraram uma greve exigindo aumento salarial, melhores condições de trabalho e o fim das punições às trabalhadoras mobilizadas.
O movimento teve início de forma espontânea, com a paralisação das atividades, e rapidamente evoluiu para formas mais organizadas de ação, como piquetes, enfrentamentos com a direção da fábrica e mobilizações fora do espaço industrial. As operárias ocuparam ruas, dialogaram com estudantes e outros trabalhadores e buscaram apoio em sindicatos e organizações políticas, transformando uma reivindicação inicialmente econômica em uma mobilização com maior alcance social e político. A reação patronal e estatal também marcou o desenrolar do movimento. Houve tentativas de repressão direta dentro da fábrica, além da posterior intervenção sobre o sindicato e ação dos órgãos de repressão do regime.
O saneamento além da Sabesp
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Consolidada a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o governo Tarcísio de Freitas passou, acertadamente, a dar maatenção aos municípios paulistas que não são atendidos pela empresa. A grandiosidade da Sabesp pode até enganar: mas a companhia, por maior que seja, não é onipresente. Hoje, atende a 371 das 645 cidades do Estado, o que indica que há um enorme mercado ainda a ser explorado.
São nada menos do que 274 municípios fora da área de atuação da Sabesp e que agora estão no foco da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. O plano da pasta comandada por Natália Resende é lançar em breve uma consulta pública para a concessão do saneamento básico de um bloco formado por 149 cidades, que poderá ser subdividido em até quatro contratos.
Assim como fez no processo de desestatização da Sabesp, os gestores paulistas vão colocar a pasta com o projeto debaixo do braço e percorrer o mundo, em roadshows, para anunciar a iniciativa e atrair investidores estrangeiros. E os investidores nacionais – o que inclui a Sabesp – também já terão a chance de analisar a proposta por aqui.
Não há dúvidas de que esses municípios se tornarão economicamente ainda mais atrativos: há demanda, haverá oferta e, com as cidades agrupadas, haverá mais otimização e sinergia de investimentos e também de custos.
E o capital privado será fundamental para garantir que um serviço tão essencial chegue às casas dos paulistas. Isso porque o Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado em 2020, impôs metas muito ambiciosas para o setor no curto prazo. Segundo a lei, até 2033, 99% da população deverá ser atendida com água potável e 90% ter o esgoto coletado e tratado.
Pode parecer que tudo vai bem em São Paulo, mas não vai. Segundo estimativas do governo estadual, se as cidades paulistas mantiverem o atual ritmo de investimento em saneamento básico, o patamar de cobertura exigido pelo Marco Legal do Saneamento Básico somente será atingido daqui a 30 anos. Isso atesta a incapacidade da administração pública de gerir grandes negócios e realizar investimentos. A burocracia e a morosidade do setor público em nada vão ajudar os municípios paulistas a alcançar tais metas – ao contrário, só vão atrapalhar.
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, não à toa, aposta no programa Universaliza SP. E seus números impressionam: são previstos R$ 24 bilhões de investimentos logo nos primeiros anos de concessão, a fim de assegurar a universalização do fornecimento de água e da coleta e do tratamento de esgoto. Ao todo, serão R$ 51 bilhões de investimentos até 2060.
O volume de recursos necessários para levar o saneamento básico aos paulistas é vultoso. Não dá para esperar pela boa vontade política dos governantes de turno, que, não raro, não veem potencial de voto nessas obras, que são caras e ficam escondidas debaixo da terra. Mas o Estado de São Paulo tem pressa: enfrentar tamanho problema exige eficiência, agilidade e competência, algo que a iniciativa privada pode oferecer.
Entre o PIB e o boleto vencido
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma recente pesquisa Meio/Ideia ofereceu ao Palácio do Planalto um retrato bem menos confortável do que a propaganda oficial lulopetista gostaria de admitir. No cenário estimulado de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40,4% das intenções de voto, ante 37% de Flávio Bolsonaro, diferença que configura empate técnico, dentro da margem de erro. Mas o dado politicamente mais eloquente está em outro lugar, que explica em grande medida a estagnação presidencial nas intenções de voto e a perda de musculatura de seu governo: a avaliação dos brasileiros sobre a economia do Brasil sob Lula e o PT.
A pesquisa revela um país em que a percepção econômica é perturbadoramente negativa. Quando perguntados sobre o custo de vida, 30% dizem que ele “aumentou muito” e 40,4% que “aumentou, mas não muito”. Ou seja, cerca de sete em cada dez brasileiros percebem piora, apesar do discurso triunfalista dos morubixabas petistas sobre as conquistas econômicas do atual mandato. No endividamento, o quadro é igualmente adverso: 40% afirmam que as dívidas estão maiores do que em 2025, enquanto apenas 13% dizem que diminuíram. Não por acaso, o próprio levantamento destaca o peso decisivo desses fatores na definição do voto.
Não é preciso muito esforço para compreender o efeito político dessa percepção. Donde se constata algo sério, conforme a análise do fundador do instituto responsável pela pesquisa, Maurício Moura: a sucessão de Lula não será decidida na variação oficial do PIB (tampouco, acrescentemos, nas apresentações em PowerPoint de ministros empenhados em provar que a economia vai bem). Será decidida, isto sim, nas mesas de cozinha, nas compras parceladas, nas faturas acumuladas e na sensação de que a renda acaba antes do mês.
Eis o ponto em que o lulopetismo volta a exibir seu defeito de fabricação: a crença de que a narrativa pode revogar a realidade. O governo insiste em celebrar índices agregados, como se o cidadão organizasse a vida por séries estatísticas, e não pelo próprio bolso. Pode haver crescimento formal, melhora pontual de indicadores ou números tecnicamente respeitáveis, como os índices relacionados ao crescimento da renda e à redução do desemprego. Nada disso, contudo, altera o fato de que, para milhões de brasileiros, a economia real é a do supermercado, do cartão de crédito e do aluguel. E essa economia desmente, todos os dias, o otimismo oficial. Quando o custo de vida sobe e o endividamento aperta, o eleitor não quer explicação. Quer alívio. E, se não o encontra, pune.
Os padrões recentes do endividamento ajudam a explicar por que o governo está vulnerável. Dados da CNC mostram que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, nível recorde. Quase 30% têm contas em atraso e mais de 12% não conseguem pagar o que devem. Entre os mais pobres, o endividamento supera 80%, e, em média, quase um terço da renda mensal já está comprometida com dívidas.
Diante disso, o governo reage como de costume. Procura culpados longe de si e fabrica soluções de curto prazo. Ora são fatores externos, ora são bancos, bets ou “bilionários”. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as tentativas de empurrar o problema adiante: crédito consignado ampliado, programas de renegociação, promessas de alívio imediato. Quando a realidade aperta, o lulopetismo improvisa um paliativo e adia o enfrentamento estrutural.,Esse é seu vício ideológico. O PT segue tratando sintomas como solução, apostando mais em expedientes táticos do que em reformas duradouras. Em vez de enfrentar o custo do crédito, a desordem fiscal e a baixa produtividade, opta por atalhos que produzem algum efeito momentâneo e nenhum resultado consistente. É a política econômica da anestesia. E anestesia, como se sabe, não cura, só adia a dor.
Por essa razão, a pesquisa tem um significado que vai além da fotografia eleitoral. Ela mostra que Lula segue competitivo, mas já não consegue converter a vantagem do cargo em sensação de bem-estar. Enquanto o governo fala do PIB, o eleitor olha o rotativo do cartão de crédito. E, assim, Lula prossegue habitando sua ficção estatística. E ficções, na política, costumam ruir quando encontram a dura realidade do próximo boleto vencido.

