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Sobra informação, falta ação

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A uma plateia de oficiais, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), expôs a arquitetura do crime organizado que opera dentro e ao redor do Brasil, conforme recentemente reportou o Estadão.

 

Cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e pelo maior produtor de maconha, o Paraguai, o Brasil funciona como uma espécie de entreposto logístico de uma cadeia criminosa que movimenta, só no mercado interno, cerca de R$ 30 bilhões por ano. Some-se a isso outros R$ 50 bilhões advindos da exportação de cocaína. Segundo o general Costa, facções brasileiras de natureza mafiosa, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), mantêm relações estreitas com os principais cartéis daqueles países e com o Tren de Aragua, da Venezuela.

 

O general foi igualmente didático ao tratar de outra frente da “guerra híbrida” que o Brasil enfrenta: a ameaça cibernética. Só em 2025, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de invasão de sistemas brasileiros, muitas bem-sucedidas em razão da fragilidade de instituições públicas mal preparadas para lidar com o problema. O vazamento de 3,39 terabytes de dados da Dígitro Tecnologia, cujos sistemas de interceptação são usados por 90% das empresas de segurança do País, e a paralisação de serviços essenciais do governo federal em junho de 2025 provam que nossa vulnerabilidade não se circunscreve às fronteiras físicas nem ao tráfico de drogas.

 

Não é a primeira vez que o Estado brasileiro tem à disposição um diagnóstico detalhado da engrenagem criminosa que afronta sua própria autoridade e inferniza a vida de milhões de cidadãos. Relatórios de inteligência, CPIs, operações policiais e estudos acadêmicos já demonstraram o alcance territorial e o poder bélico e financeiro das organizações mafiosas consolidadas no País. Não falta informação. Falta ação inspirada por um senso de urgência nacional que una a sociedade contra inimigos comuns, independentemente das diferenças político-ideológicas que legitimamente dividem os cidadãos em uma democracia.

Basta observar o destino da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que, a despeito de suas lacunas, dota o Estado de instrumentos mais eficazes para o combate ao crime organizado. Meses depois de aprovada na Câmara, a PEC dormita nos escaninhos do Senado, à mercê dos interesses políticos do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), às turras com o Palácio do Planalto. Uma pauta que deveria ser prioridade republicana virou refém de uma rinha entre Poderes.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, não pode transformar a segurança pública em reles bandeira eleitoreira. Ele sabe que a violência urbana figura entre as maiores aflições dos brasileiros e ocupará papel central na campanha eleitoral deste ano, em que tentará a reeleição. Tratar do tema só quando lhe é conveniente, ou culpar governadores de oposição pelos fracassos da segurança pública, é tão irresponsável quanto a inércia do Senado.

 

O combate ao crime organizado precisa ser uma política de Estado, perene e protegida das ventanias da conjuntura política, não uma agenda condicionada às ondas de indignação popular e/ou aos ciclos eleitorais. Nenhuma nação se desenvolveu econômica, política e socialmente sob a sombra do crime organizado. Organizações como o PCC não são bandos quaisquer: são estruturas mafiosas que nasceram e prosperaram sob o beneplácito do mesmo Estado que tem o dever de destruí-las, como detentor do monopólio da violência.

 

O Brasil precisa enfrentar esse monstro que ajudou a criar por décadas de omissão e complacência, no melhor cenário, ou por corrupção de seus agentes, no pior. O próprio general fez questão de delimitar o papel das Forças Armadas: por força da Constituição, cabe a elas a defesa da soberania territorial, não a linha de frente do combate ao crime organizado – tarefa que recai sobre as polícias e os órgãos de segurança pública, estaduais e federais. Não há atalho nem substituto para a ação coordenada das forças públicas. Não existe organização criminosa maior nem mais poderosa do que o Estado. Passa da hora de agir.

Chega de cheque em branco

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou irregularidades em oito de cada dez emendas Pix fiscalizadas em repasses feitos por parlamentares entre 2020 e 2024. A maior auditoria já realizada sobre essa modalidade não deve ter surpreendido o ministro Flávio Dino, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das ações que discutem sua constitucionalidade. Desde que assumiu o caso, Dino tenta impor transparência e rastreabilidade a um modelo que parece ter sido feito sob medida para dificultar seu controle. O novo relatório do TCU, porém, demonstra que esse esforço chegou ao seu limite.

 

Instituídas pela Emenda Constitucional 105, de 2019, originária de proposta apresentada pela então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e relatada na Câmara por Aécio Neves (PSDB-MG), as chamadas emendas Pix passaram a permitir a transferência direta de recursos federais para Estados e municípios. Em sua concepção original, nem sequer exigiam a vinculação dos repasses a projetos específicos. Vendida como um mecanismo de desburocratização, a modalidade acabou transformando a simplificação dos procedimentos em simplificação do controle.

 

Os números mostram que o problema está longe de ser episódico. O TCU examinou 100 emendas Pix, que movimentaram R$ 198,1 milhões, e encontrou irregularidades em 82 delas, com indícios de prejuízo de R$ 49,1 milhões aos cofres públicos. Trata-se, porém, de apenas uma pequena parcela dos R$ 21 bilhões distribuídos por essa modalidade entre 2020 e 2024. Se a amostra refletir minimamente o padrão de execução das transferências especiais, o universo de recursos potencialmente comprometidos pode ser muito maior do que o já revelado pelas auditorias.

 

Não faltam exemplos concretos de como esse modelo tem servido de porta de entrada para irregularidades. Reportagem recente do Estadão mostrou que uma investigação da Polícia Federal identificou indícios de superfaturamento, conluio entre empresas ligadas a uma mesma família e obras fictícias financiadas com emendas Pix em municípios de Roraima. Em um dos casos, R$ 13 milhões destinados à construção de 300 casas populares resultaram na entrega de apenas uma unidade, ainda assim abandonada.

 

Até aqui, Flávio Dino optou por tentar disciplinar o instrumento. Impôs exigências de transparência, planos de trabalho, contas específicas e mecanismos de rastreabilidade para reduzir as fragilidades do sistema. O relatório do TCU desmonta essa aposta.

 

A auditoria identificou suspeitas de superfaturamento, fraude em licitações, pagamentos sem comprovação documental, desvio de finalidade e uso das contas das emendas como simples contas de passagem para dificultar o rastreamento do dinheiro. Há irregularidades justamente sobre as falhas de transparência e rastreabilidade que as decisões do Supremo buscavam corrigir.

 

Não é por falta de alerta. Em 2024, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao STF que declarasse a inconstitucionalidade das emendas Pix. Para a Procuradoria-Geral da República, o modelo viola princípios constitucionais ao permitir a transferência direta de recursos federais sem convênio, sem finalidade previamente definida e sem mecanismos adequados de fiscalização, comprometendo a responsabilidade na gestão do dinheiro público e esvaziando a competência fiscalizatória do próprio Tribunal de Contas da União.

 

O Supremo já testou o caminho da regulamentação, mas quando um mecanismo insiste em produzir os mesmos efeitos apesar de sucessivas tentativas de correção, o problema deixa de estar na sua execução e passa a residir em sua própria concepção. Assim como ocorreu com o orçamento secreto, cabe agora ao STF reconhecer que as emendas Pix ultrapassaram esse limite. Em vez de continuar tentando corrigir um modelo incompatível com os princípios constitucionais da publicidade, da impessoalidade e da legalidade, Flávio Dino deveria, sem mais delongas, conduzir a Corte à declaração de sua inconstitucionalidade.

Congresso tem de sair da letargia e criar regras para ‘penduricalhos’

Por Edfitorial / O GLOBO

 

O Congresso NacionalO Congresso Nacional — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

 

 

Cabe ao Congresso cumprir seu dever e impor regras transparentes e eficazes para a remuneração do funcionalismo público. Em março, o Supremo Tribunal Federal (STF) tentou disciplinar as verbas indenizatórias que inflam os salários da elite dos servidores, conhecidas como “penduricalhos”, mas nem as novas regras benevolentes estão sendo respeitadas. Prova disso é o Projeto de Lei (PL) enviado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao Parlamento pedindo reajuste de até 40% na gratificação para quem ocupa função de confiança na Corte. É papel dos congressistas, primeiro, barrar esse pleito descabido e, em seguida, criar regras amplas e sensatas para acabar com a farra dos penduricalhos. O encaminhamento do PL ocorreu na quarta-feira da semana passada, no mesmo dia em que o TCU, em desafio à decisão do Supremo, autorizou que salários e gratificações fossem considerados separadamente, permitindo remunerações extrateto. A manobra não é inédita. Em maio, mais de 600 juízes e desembargadores receberam vencimentos acima do limite. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo aprovou em abril adicional de 35% para conselheiros e procuradores em acúmulo de funções administrativas.

 

A busca desenfreada por benesses ocorre mesmo após o STF ter criado, por unanimidade, um novo teto. Ao definir que as verbas indenizatórias poderiam exceder em até 70% o valor estipulado como limite na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF), a Corte elevou o patamar máximo a R$ 78,9 mil até uma lei nacional aprovada pelo Congresso tratar do tema. Ainda em favor do funcionalismo, ressuscitou o quinquênio, os absurdos aumentos salariais automáticos a cada cinco anos.

 

Apesar da generosidade do Supremo, não faltaram protestos e ações questionando as decisões. Como demonstram as repetidas tentativas de burlar o novo regramento, a elite do funcionalismo, boa parte dela no Judiciário, não deve desistir dos supersalários. Tais privilégios são um despropósito. Ao custo estimado de quase 1,5% do PIB, a Justiça brasileira está entre as mais caras do mundo. Não há a menor justificativa para uma política salarial fora dos padrões. Não há registro de falta de procura por concursos públicos nem êxodo de mão de obra qualificada. Tudo se resume à captura do Estado por interesses corporativos. É, portanto, inadiável a entrada em ação dos congressistas.

 

A Constituição de 1988 determinou o salário de um ministro do STF como teto do funcionalismo e que as verbas indenizatórias seriam decididas posteriormente. Passou o tempo, e nada aconteceu. Foi nesse vácuo legislativo que houve a proliferação de “penduricalhos”. Uma Emenda Constitucional votada em 2024 estabeleceu que apenas verbas indenizatórias previstas em lei de caráter nacional e aprovadas pelo Congresso estariam fora do teto remuneratório. Porém, passado mais de um ano, essa lei ainda não foi editada. Não há mais por que protelar. É hora de sair da letargia.

 

 

 

Super El Niño será teste para queda de queimadas

Por 
Edfitorial / O GLOBO

Atualizado

São auspiciosos os resultados de estudo do MapBiomas mostrando que a área queimada no Brasil no ano passado foi de 12,7 milhões de hectares, valor correspondente a menos da metade do registrado em 2024 e 31% inferior à média histórica. Os números foram influenciados pela Amazônia, cuja extensão devastada pelo fogo despencou de 15,8 milhões de hectares em 2024 para 3,1 milhões em 2025, o menor patamar observado desde 1985, quando foi iniciada a medição. Por mais alentadores que sejam, os dados não dão motivo para relaxamento, pois a expectativa de um super El Niño neste ano deve servir de alerta.
Também é boa notícia a redução de áreas queimadas no Pantanal, que registrou a maior queda proporcional entre os biomas, com 121 mil hectares em 2025, a menor extensão já computada e uma diminuição de 86% em relação à média histórica. Em 2024, as cenas de animais calcinados e vegetação devastada pelos incêndios florestais numa região de grande biodiversidade comoveram o país. Na contramão dos números positivos, a Caatinga foi o único bioma a queimar mais no ano passado.

Chama a atenção que 47% de toda a área queimada estejam concentrados em três estados: Mato Grosso, Pará e Maranhão. Em nível municipal, 11% se estendem por 15 cidades, capitaneadas por Corumbá (MS) e São Félix do Xingu (PA). Essa concentração, num país de dimensões continentais, deveria favorecer o combate às queimadas.

Segundo os pesquisadores, a redução pode ser atribuída a uma série de fatores. Um dos mais importantes foi a questão climática, uma vez que o regime de chuvas entre 2024 e 2025 conseguiu conter as condições que favorecem a queima. Melhorias na governança também contribuíram. Em 2024, foram estabelecidos vários protocolos para prevenção e combate às chamas. A redução consistente no desmatamento também ajudou, diminuindo as fontes de ignição. Além disso, os estragos dos incêndios de 2024 levaram a uma pressão da sociedade para conter as queimadas.

A despeito dos bons números, sabe-se que os incêndios florestais costumam aumentar em anos de El Niño — e também em períodos subsequentes. Agências meteorológicas têm apontado probabilidade superior a 80% de o Brasil enfrentar um evento “muito forte”. Entre os efeitos esperados, estão secas severas no Norte. Longos períodos de estiagem costumam tornar a vegetação altamente vulnerável ao fogo, que na maior parte do casos é provocado pela ação humana. Quando as condições se deterioram, o controle fica mais difícil. O Brasil já viu esse filme várias vezes.

 

Incêndios florestais devastadores no Hemisfério Norte devem servir de exemplo. No Sul da Espanha, chamas incontroláveis mataram pelo menos 12 pessoas e produziram cenas de horror. No Canadá, a profusão de queimadas provocou nuvens gigantescas de fumaça que atingiram cidades dos Estados Unidos em plena Copa do Mundo. Não é improvável que fenômenos como esses se repitam no Brasil. Por isso é preciso se preparar desde já para enfrentá-los, mobilizando brigadas de incêndio, providenciando aeronaves de combate ao fogo, instruindo as populações, adaptando unidades de saúde, impedindo as queimadas em tempo real. Em 2024, o governo só começou a se mobilizar quando a fumaça dos incêndios cobriu Brasília. Espera-se que seja mais ágil agora.

Vorcaro falou com Sicário sobre ‘tomar medida urgente’ contra gestor que denunciou Master

Por Johanns Eller / coluna da Malu Gaspar / O GLOBO

 

A Polícia Federal (PF) encontrou evidências de que Daniel Vorcaro e seu comparsa Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado pelos investigadores como operador de uma milícia privada que atuava a mando do ex-banqueiro, monitoraram ilegalmente um empresário que denunciou irregularidades em negócios do Banco Master e travou com seu dono uma batalha judicial. A dupla também teve acesso a procedimentos policiais sigilosos.

 

Em um dos diálogos obtidos pela PF, de 2023, Vorcaro afirmou a Sicário que os dois teriam que “tomar uma medida URGENTE” contra Vladimir Timerman, fundador e gestor da Esh Capital. Acionista da Gafisa, Timerman acusou fundos ligados ao Master e ao empresário Nelson Tanure de manipular operações fraudulentas na companhia.

A denúncia do gestor deu origem a um inquérito da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra Tanure e Vorcaro e a uma queixa-crime por calúnia e difamação na Justiça na qual o Master e seu dono foram representados pela advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como revelamos no blog. Viviane fechou um contrato de R$ 129 milhões com a instituição e recebeu R$ 80 milhões antes de sua liquidação, segundo a Receita Federal.

 

Timerman acusou os dois de tentar ampliar indiretamente o controle de Tanure —, tido pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) como possível sócio oculto do Master —- sobre a Gafisa manipulando o mercado e ocultando conflitos de interesse. Tanure nega.

A ofensiva sobre Timerman foi detalhada em um relatório da Polícia Federal anexado aos autos da investigação que tramita no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça. O documento foi tornado público em junho por decisão do magistrado, que depois restaurou o sigilo do processo.

 

Em uma das conversas, Vorcaro encaminha a Sicário prints de uma publicação do gestor da Esh nas redes sociais em dezembro de 2023 alertando sobre um “bilionário conhecido por ter o toque de Midas” mas que, na verdade, seria “apenas mais um malandro” que oferecia taxas de retorno milagrosas em carteiras de crédito tendo como lastro fundos de investimento podres.

 

Entre as respostas, um usuário reagiu a Timerman: “Banco Master? Esse seria o meu chute. Eles estavam mega alocados em precatórios há uns tempos atrás emitindo uns CDBs malucos. Sei lá…”.

 

No mesmo dia, o investidor voltou à carga na rede social X: “No meio das minhas investigações tenho convicção de que encontrei o Jeffrey Epstein brasileiro… Tem que expor esse tipo de gente que acha que o fato de ter uns trocos na conta do banco pode fazer o que bem entender. E tem que colocar os aceclas [sic] no mesmo lugar. É cúmplice [sic]”, seguiu, alegando ainda ter a confirmação de nomes de mulheres abusadas.

Enfurecido, Vorcaro diz a Sicário que Timerman vinha tentando “extorqui-lo há tempos” e propõe como saída pressioná-lo chamando o gestor a prestar esclarecimentos sobre as acusações, embora não tenha mencionado o banqueiro e nem o Master nos posts.

 

Ainda segundo a PF, o então CEO do Master enviou ao comparsa no mesmo dia um despacho da Polícia Civil de São Paulo de agosto de 2023 (quatro meses antes) sobre o indiciamento de Timerman por extorsão em um processo movido por Tanure e seus advogados, bem como os autos de qualificação do gestor no inquérito e um processo da mesma natureza que tramitava no MPF.

Para os investigadores, a orientação para chamar o gestor para prestar esclarecimentos sugere que Vorcaro monitorava ações judiciais contra o desafeto:

 

“Tal circunstância evidencia que Daniel Bueno Vorcaro já tinha ciência do indiciamento e do regular andamento do procedimento policial, permitindo inferir que sua solicitação visava à oitiva de Vladimir no âmbito de investigação formalmente instaurada e em curso”.

Horas mais tarde, Sicário diz ao dono do Master que “A Turma” e “os meninos”, referência à milícia privada controlada por ele para atender aos interesses do banqueiro, estavam monitorando Timerman a todo o momento.

 

“Esse cara estamos monitorando 24h dele aqui [sic]”, escreveu Luiz Phillipi Mourão. “Estou confirmando os dados pra caso precise [sic] dominarmos e-mails e contas, e caso precise banir os números de WhatsApp e contas de Instagram, já está alinhado também”.

Dois dias depois, em 21 de dezembro, Sicário retorna com quatro consultas processuais sobre Vladimir Timeman com diversas informações sob sigilo de Justiça.

 

Em março de 2026, Sicário cometeu suicídio após ser preso pela PF em Minas Gerais. Integrante do grupo “A Turma”, ele recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro em troca dos serviços prestados ao banqueiro, que incluíam obtenção de processos sigilosos, intimidações a desafetos, monitoramento ilegal de pessoas – dentre jornalistas, funcionários do executivo e até o CEO do Itaú –, além do gerenciamento de um grupo de hackers.

Conhecido em Minas pela extensa ficha criminal, Sicário já foi indiciado por furto qualificado, estelionato, associação criminosa e falsificação de documentos e evasão de divisas, entre outros crimes.

Guerra prolongada

Os autos da Polícia Federal indicam que a guerra travada entre Daniel Vorcaro e Timerman se prolongou pelo menos até meados de 2024.

Em março daquele ano, Sicário acessou novas informações sigilosas sobre inquéritos da PF em curso através do cadastro de uma servidora do MPF em Brasília – os investigadores ainda não concluíram se por meio de acesso hacker ou cumplicidade da funcionária.

 

“Evidencia-se que, embora o processo estivesse inicialmente protegido por sigilo máximo, o acesso integral foi obtido em curto intervalo de tempo, sem que haja registro de justificativa formal para a mudança no nível de acesso. Esse cenário indica possível quebra dos protocolos de segurança da informação ou uso inadequado de prerrogativas funcionais”, destacaram os investidores.

Três meses depois, os dois foram intimados junto de Tanure e Maurício Quadrado, ex-sócio do Master, para depor à PF no âmbito do processo movido pelo gestor da Esh no caso Gafisa.

 

“De novo esse cara. Não tem condição isso. Esse débil mental toda hora trazendo problema”, escreveu o CEO do Master.

Sicário então iniciou uma nova busca processual para fustigar Timerman, mas alertou que os inquéritos da Polícia Federal estavam sob “sigilo máximo”, o que novamente demandaria tempo.

 

“Mandei dar carga total no cara. Enquanto ele não tiver preso não vai parar”, reclamou Vorcaro. 

O comparsa, então, mas disse que enviou “A Turma” para “irem lá de perto olhar isso” e, sob orientação do banqueiro, atua para puxar todos os processos que citem Tanure, Quadrado, Vorcaro, o pai do dono do Master, Henrique, e seu cunhado, Fabiano Zettel.

Dias depois, Luiz Phillipi Mourão volta com diversos documentos sigilosos e pergunta ao executivo: 

“Se tiver mais alguma informação pra complementar de algum nome, ou empresa ou pessoa que eu não saiba”. Em seguida acrescenta: “Me avise e me mande para puxar. Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá, só não sei até quando”.

No documento, a Polícia Federal aponta para a “atuação direta” de Vorcaro e Sicário “na condução de providências relacionadas a procedimentos policiais, bem como possível tentativa de direcionamento e controle da narrativa dos fatos”.

Procurada, a defesa de Vorcaro e Vladimir Timerman não retornaram até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.

 

Batalha contra Timerman

Por fim, Daniel Vorcaro perdeu a batalha judicial contra Vladimir Timerman na Justiça no caso Gafisa.

A queixa-crime apresentada pelo banqueiro contra o gestor da Esh Capital foi rejeitada primeiramente pela 14ª Vara Criminal de São Paulo por ausência de justa causa. Daniel Vorcaro e seu banco recorreram e o caso foi remetido à 2ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

 

Após um parecer da Procuradoria-Geral de Justiça pelo indeferimento do recurso, que citou a ausência de “provas suficientes de dolo específico de ofender”, o colegiado decidiu em 31 de outubro de 2025 pela sua rejeição.

Poucas semanas depois, a PF deflagrou a primeira etapa da Compliance Zero, quando Vorcaro e quatro integrantes da cúpula do Master foram presos preventivamente e o banco foi liquidado pelo Banco Central. Os embargos declaratórios foram julgados em dezembro passado, quando o processo foi encerrado em definitivo.

Até hoje, porém, Vorcaro ainda não pagou a dívida de R$ 5,6 mil referentes aos honorários de sucumbência e, por isso, é alvo de uma execução na Justiça de São Paulo, como informamos no blog.

Mais demagogia no Alemão

Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"/ folh DE SP

 

Em julho de 2011, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o teleférico do Morro do Alemão, no Rio, e arriscou: "O Complexo do Alemão tem tudo para se transformar num ponto turístico". Bingo.

 

Quatro anos depois Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, viajou no teleférico e pontificou: "Estou me sentindo numa estação de esqui". Um ano depois a geringonça foi desativada e desativada está. Madame Lagarde, uma pessoa discreta, nunca produziu outra batatada desse calibre.

 

De lá para cá, a comunidade voltou ao noticiário em outubro do ano passado, quando a polícia do Rio chacinou 117 pessoas no morro do Alemão. Se aquela comunidade pode vir a ser um ponto turístico, pode abrigar o Museu da Empulhação, um repositório de todas as presepadas prometidas por presidentes, governadores e prefeitos.

 

O Alemão já viu de tudo. Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Teleférico e Unidade de Polícia Pacificadora. Uma operação militar foi saudada como a tomada de Berlim em 1945, teve bandeira hasteada no topo do morro e resultou em nada. Um paspalho fantasiado de Rambo ilustrou a enganação do evento.

A iniciativa de maior alcance levada ao Alemão partiu do Judiciário, pelo Programa Solo Seguro. Em 2023, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 escrituras definitivas a moradores da comunidade facilitando-lhes a vida comercial. A proeza custou a impressão das escrituras, a ajuda dos cartórios e o trabalho de 17 pessoas, duas da Corregedoria, mais 15 da prefeitura. Ideia do então corregedor Luis Felipe Salomão.

A entrega dos documentos aconteceu com pouca fanfarra e muito trabalho.

 

O repórter Yuri Eiras informa que depois de ter torrado R$ 493 milhões de um PAC velho, torrarão mais R$ 210 milhões num PAC novo.O teleférico está parado, o comércio instalado no seu entorno fechou. Sua recuperação prevê elevadores e escadas rolantes. Uma das empresas encarregadas do serviço solicitou a prorrogação do prazo de entrega da obra pelo mais elementar dos motivos: falta de pagamento.

 

Nem todo o dinheiro foi para o ralo. Estão funcionando uma creche, o centro comercial, unidades de saúde, espaços para cursos e um cinema. Muita parolagem e pouco resultado.As comunidades do Rio não precisam ser transformadas em playgrounds de maganos entregando promessas que às vezes satisfazem só aos empreiteiros.

 

Um painel do Tribunal de Contas da União tabulado em abril de 2025 mostra que de 196 obras do PAC, 138 estavam paradas. Algumas delas foram recicladas e incluídas no novo PAC de Lula.

Noves fora o mercado de ilusões e propinas do governo Sérgio Cabral (2007-2014), o próprio projeto do teleférico desprezou a opinião dos moradores, mais interessados em descer do que em subir. O Museu da Empulhação poderia começar em torno de um núcleo que trataria só do Alemão. Expandindo-se, ganharia o nome de Museu do Ontem. Ele teria a virtude de manter vivas as promessas feitas com a plena certeza de que não serão cumpridas ou, refinando o diagnóstico, serão cumpridas enquanto intere$$arem aos empreiteiros.

 

 

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