Do tomate à carne, alta concentrada em itens do dia a dia intensifica percepção da inflação de alimentos captada por pesquisa
Por Mayra Castro e Esther Gama — Rio de Janeiro / O GLOBO
Depois de meses sob controle, os preços de alimentos voltaram a subir diante dos impactos da guerra no Oriente Médio, e chegaram ao maior nível do terceiro mandato do presidente Lula. A alta concentrada em itens básicos do cotidiano, como tomate, leite e carne potencializam a sensação que as pessoas têm sobre a inflação, conforme captou a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada hoje.
O levantamento mostrou que 72% dos entrevistados perceberam uma alta no preço dos alimentos no último mês. Entre as 2.004 pessoas que responderam à pesquisa, apenas 18% acham que os preços não variaram e 8% avaliam que caíram. Os 2% restantes não souberam ou não responderam. Esse cenário pode ser um dos fatores que explicam as dificuldades eleitorais do presidente Lula, que concorrerá a eleição em outubro, apontada pela pesquisa. O levantamento também mostrou um aumento na desaprovação do terceiro mandato de Lula, que chegou a 52%.
Os números do contexto econômico atual confirmam essa percepção dos entrevistados. A alimentação no domicílio subiu 1,94% nos resultados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, divulgado na última sexta. Esse percentual é bastante superior ao 0,23% de fevereiro e o maior desde abril de 2022, quando o índice oficial de inflação do país chegou a 2,59%.
Maior impacto na rotina
Entre as principais altas de março estão o tomate, a cebola, a batata-inglesa, o leite longa vida e as carnes. Esses produtos estão muito presentes na rotina dos brasileiros, e seus reajustes tendem a gerar maior incômodo na população em relação à inflação.
Vale ressaltar que nem no fim de 2024 os números eram tão elevados. Na época, a inflação estava tão pressionada que o presidente veio publicamente cobrar medidas dos varejistas para a contenção do preço dos alimentos.
Economistas apontam que, mesmo com as medidas para subsidiar combustíveis, o governo não conseguiu evitar as consequências do fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em retaliação aos ataques de EUA e Israel, que elevou a cotação internacional do petróleo, na inflação.
Frete é uma das razões para a alta
Ainda que o governo tente minimizar o impacto, o aumento dos combustíveis acelerou a inflação em março e segue pressionando preços em abril, na avaliação de varejistas e consumidores. O transporte rodoviário tem impacto sobre os outros setores, principalmente no de alimentos, muito dependente dos caminhões. O custo dos fertilizantes também sofre impacto do conflito no Oriente Médio
Os custos dos produtores e comerciantes acabam repassados aos consumidores nas feiras e supermercados. O feirante Victor Vinícius, de 27 anos, já sente um peso maior do frete nas suas contas. Ele diz que está pagando R$ 98 em uma caixa de maçã que antes era R$ 80, enquanto no supermercado o quilo está quase R$ 20. A fruta registrou queda no IPCA em março, mas, nas bancas, o preço está subindo neste mês.
— Aqui a gente vende por quantidade, mas quando você coloca tudo na ponta do lápis, vê que não tem muita diferença, está tudo caro da mesma forma. Os fornecedores falam que o motivo é o pagamento dos funcionários da roça e o combustível do transporte, mas isso reflete aqui, para a gente e para o consumidor — diz o feirante.
Inflação que pesa mais no bolso
Como a alta de alimentos é mais sensível ao bolso dos brasileiros, nas feiras, consumidores estão repensando a quantidade na hora de comprar alimentos e eventualmente fazendo substituições. É o caso de Thaisa Braga, de 37 anos, e Diego Rodrigues, de 40 anos, que fazem as compras semanais todas as quartas-feiras, em uma feira de Copacabana, na Zona Sul do Rio.

