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Congresso tem de dar autonomia financeira ao BC

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

O Congresso deveria pôr logo em pauta a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que dá ao Banco Central (BC) autonomia administrativa, orçamentária e financeira, fortalecendo sua capacidade de fiscalização. Depois de ajustes no texto em meio a resistências do governo, o relatório do senador Plínio Valério (PSDB-AM) deverá ser liberado nesta semana. A expectativa é que seja votado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado na semana que vem. É preciso dar celeridade ao trâmite.

A PEC busca equiparar o arcabouço legal do BC ao dos bancos centrais dos países mais avançados. Embora tenha autonomia para estabelecer a taxa de juros, a autoridade monetária não controla o próprio orçamento. A consequência, num cenário de escassez de recursos, tem sido o esvaziamento, numa autarquia conhecida pela competência dos quadros técnicos. Cada vez mais servidores se aposentam ou vão para a iniciativa privada. “Há dez anos, a fiscalização cuidava de 300 empresas, hoje elas passam de 3 mil”, afirma Valério. “Não há orçamento para isso.” Nos últimos dez anos, o BC perdeu quase um quarto de seu pessoal. Tem hoje 3 mil servidores, ante 23 mil nos Estados Unidos e 13 mil na Índia. “Desde a minha sabatina, venho tratando disso”, afirma Gabriel Galípolo, presidente do BC. “Pedi apoio de início, pedi ajuda e agora peço socorro.”

 

No Brasil um servidor acompanha até 30 instituições diferentes. De acordo com Galípolo, o uso de inteligência artificial permite aumentar a capacidade de supervisão, mas exige investimento em tecnologia própria. “São trilhões de reais em operações por dia no sistema financeiro”, diz ele. “Identificar fraudes apenas com análise manual é praticamente impossível.”

Há ainda confusão na gestão. O transporte de valores é feito em caminhões de 1982. Como o BC está submetido a dois orçamentos (monetário e fiscal), se um veículo quebra, a manutenção é paga por um, a compra de um novo pelo outro. A estrutura defasada se reflete no trabalho, num momento em que a autarquia se vê às voltas com a proliferação de fintechs, a infiltração do crime organizado no mercado formal e desafios como os expostos pelo escândalo do Banco Master. O objetivo principal da PEC, diz Valério, é dotar o BC de um orçamento próprio. Seria perfeitamente possível ao BC se financiar com os recursos que ele próprio gera, mas são apropriados pela União.

 

O caso Master demonstrou a importância de um BC independente e preparado. A autoridade monetária fez o que precisava fazer. Barrou a compra do Master pelo BRB depois de detectar inconsistências na operação, liquidou o banco de Daniel Vorcaro, promoveu auditoria interna, afastou dois funcionários suspeitos de corrupção e entregou o caso à Polícia Federal. Mas nem tudo pode ser detectado ou combatido a tempo sem os recursos necessários.

A sucessão de entraves enfrentada no Senado pela PEC sugere que o problema é menos técnico que político. O governo tem se mostrado contra a proposta e usado todo pretexto para miná-la. Ora, não é razoável que a autonomia financeira do BC fique refém das idiossincrasias do Planalto. Trata-se de questão estritamente administrativa. A instituição precisa ter funcionários, equipamentos e tecnologia à altura dos semelhantes mundo afora. Com um BC esvaziado, a fiscalização deixará a desejar. O caso Master mostra que não se pode baixar a guarda.

 

 

Os senadores que mais resistem a se encontrar com Messias na campanha para o STF

COLUNA DA MALU GASPAR COM vPor  Rafael Moraes Moura— Brasília / O GLOBO

 

Em campanha para ser confirmado no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Jorge Messias já se reuniu com mais de 70 dos 81 senadores que vão decidir, no plenário, se ele pode assumir a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentou em outubro. Mas um grupo de quatro parlamentares ainda resiste a se encontrar com o atual chefe da Advocacia-Geral da União (AGU). Segundo o mapeamento dos aliados de Messias, ainda falta conseguir audiências com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e com Sergio Moro (PL-PR), Eduardo Girão (Novo-CE) e Hamilton Mourão (Republicanos-RS), todos eles ferrenhos críticos à escolha de Lula, e que já indicaram nos bastidores ou publicamente a intenção de barrar as pretensões de Messias.

 

 

“Acho que Alcolumbre vai recebê-lo sim, no dia ou na véspera da sabatina”, afirmou ao blog um interlocutor do presidente do Senado que acompanha de perto as movimentações nos bastidores. “É um gesto, por cortesia, antes de o cara virar ministro.” Alcolumbre, assim como boa parte de seus colegas, preferia que Lula tivesse escolhido Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga de Messias. O presidente do Senado chegou a ameaçar uma votação-relâmpago de Messias ainda no final do ano passado, logo após o anúncio de sua escolha, em uma estratégia para evitar que o ministro da AGU tivesse tempo de fazer campanha entre os senadores. Temendo os riscos de rejeição, o presidente Lula decidiu travar o processo e só encaminhou oficialmente a confirmação da indicação no mês passado, quando o cenário já parecia mais favorável.

 

Membro da Igreja Batista, Messias precisa de pelo menos 41 votos favoráveis no plenário do Senado. Aliados do chefe da AGU garantem que, hoje, ele teria cerca de 48 votos “sim”, inclusive de legendas de oposição ao governo Lula e de parlamentares evangélicos, que reservadamente admitem que não vão “abandonar um irmão”.

 

Sinal de alerta

 

A votação apertada do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que foi reconduzido ao cargo em novembro do ano passado com apenas 45 votos favoráveis, no placar mais acirrado para o cargo desde a redemocratização, acendeu o sinal de alerta da base lulista das dificuldades que aguardavam Messias. Por isso, o ministro decidiu ir atrás de todos os senadores da Casa, inclusive aqueles que já avisaram que não vão apoiá-lo. “Ainda não me reuni com Messias, nem pretendo. Meu voto nele é não”, disse ao blog Mourão.

 

Áudio da Lava-Jato

O chefe da Advocacia-Geral da União ainda não conhece pessoalmente o ex-juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, autor de uma das decisões mais controversas da Lava-Jato que expuseram “Messias” (ou “Bessias”, como ficou conhecido) em praça pública, em março de 2016. Os dois estarão frente a frente na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, no próximo dia 29. Pré-candidato ao governo do Paraná, Moro é um dos que mais relutam a recebê-lo, apesar do esforço de aliados de Messias para aparar as arestas e diminuir a rejeição na Casa.

 

Na época do áudio, a operação vivia o seu auge e Messias era subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil. Diante do avanço do processo de impeachment e da erosão de sua base no Congresso, a então presidente Dilma Rousseff havia nomeado Lula como ministro da Casa Civil, em uma espécie de última cartada para salvar o governo. Na interceptação telefônica, Dilma diz a Lula que vai enviar a ele o “termo de posse”. “Seguinte: eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel, pra gente ter ele. E só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?”, afirmou Dilma.

 

A nomeação de Lula foi vista na época como uma tentativa desesperada de Dilma de colocar Lula na articulação política e afastar a ameaça de impeachment, além de garantir foro privilegiado ao petista, evitando que ele fosse preso em primeira instância por Moro. Mas acabou suspensa por decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF – que hoje trabalha a favor da aprovação de Messias. Integrantes da tropa de choque bolsonarista pretendem revisitar o episódio durante a sabatina para tentar constranger o chefe da AGU, a quem consideram um “homem de confiança de Lula” e “quadro ideológico do PT”.

Procurado pelo blog, Moro não se manifestou.

Liturgia

Em nota divulgada à imprensa, Messias afirmou que buscará o “diálogo franco e aberto com todos os 81 senadores, de forma respeitosa, transparente e propositiva”. Nesta quarta-feira, deve se encontrar nesta quarta-feira com o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), que já disse que a “oposição será oposição” na votação – e recomendou que o indicado de Lula buscasse votos na base aliada do governo petista.  “É da liturgia do cargo e respeito [receber o indicado], como devemos ter a qualquer um. Recebi com educação inclusive aqueles a quem disse ‘não’ [na votação] como o procurador-geral da República, Paulo Gonet”, afirmou Portinho.

 

Conforme informou o blog, em dezembro do ano passado, ele se reuniu com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a portas fechadas em um escritório de Brasília. Flávio já afirmou que a escolha de Lula foi “péssima” e que Messias possui um “perfil belicoso”, associado a “pautas da extrema-esquerda – mas mesmo assim teve uma rápida conversa com ele. Pelas regras atuais, caso seja aprovado pelo Senado, Messias poderá atuar no Supremo até 2055, quando completa 75 anos. Nos bastidores do Senado, o que se comenta é que é tempo demais para ter um “inimigo” no Supremo.

 

 

 

 

Carga tributária evidencia erro da política fiscal de Lula

Ao bater mais um recorde em 2025, como recém-divulgado pelo Tesouro Nacional, a carga tributária do país evidencia o erro básico da política fiscal do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No ano passado, União, estados e municípios arrecadaram em impostos, taxas e contribuições R$ 4,127 trilhões, equivalentes a 32,4% do Produto Interno Bruto. Dito de outra maneira, o Estado brasileiro consumiu perto de um terço da renda da população.

 

Essas cifras seriam ainda maiores se considerassem, como fazem outros trabalhos, encargos como as contribuições para o FGTS e o Sistema S, que somam 1,95% do PIB. De todo modo, os números do Tesouro dão boa ideia de como evolui a carga.

Antes deste governo petista, ela havia sido de 31,2% do PIB em 2022. Já seria digna de nota uma alta de 1,2 ponto percentual em apenas três anos, mas deve-se levar em conta, ainda, que o último ano de Jair Bolsonaro (PL) foi de arrecadação excepcional, graças à escalada dos preços do petróleo com a guerra da Ucrânia. Na série histórica iniciada em 2010, são mais comuns taxas oscilando em torno de 30% do PIB.

 

A política de Lula é claramente a principal responsável por esse aumento —nesse período, a receita dos tributos federais subiu de 20,6% para 21,6% do PIB. A despeito do avanço, a aposta de Brasília em mais arrecadação para reequilibrar as contas públicas se mostrou um fracasso previsível.

 

De 2022 para 2025, o resultado do Tesouro Nacional passou de superávit de 0,55% do produto (sem contar gastos com juros) para déficit de 0,46%. Ainda que a primeira cifra tenha sido favorecida por um calote parcial no pagamento de precatórios, a deterioração é clara. Se incluídas despesas financeiras, há uma disparada do rombo, de 4,45% para 7,59%.

 

A ofensiva tributária de Lula 3 incluiu medidas corretas, que reduziram privilégios injustificados de grupos influentes, mas também cobranças casuísticas e nefastas, como o aumento do IOF em 2025 —que encareceu o crédito bancário. Tudo somado, o esforço foi inútil diante de uma expansão insustentável dos gastos. Há limites econômicos e políticos para o aumento dos impostos. No primeiro caso, a carga brasileira já é excessiva para um país de renda média. Como mostra o relatório do Tesouro, a arrecadação média na América Latina fica pouco acima de 21% do PIB; mesmo em países ricos como Estados Unidos e Japão, o indicador não chega aos patamares daqui.

 

No segundo, os contribuintes naturalmente resistirão a arcar com mais sacrifícios enquanto se veem tantos episódios de desperdício e má gestão no setor público, dos supersalários no Judiciário ao rombo bilionário dos Correios, passando pela farra das emendas parlamentares. A carga pode e deve ser mais bem distribuída, com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo. Imaginar que será possível elevá-la indefinidamente, porém, é ilusão.

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A boia do FGTS

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Incumbido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva da missão de reduzir os elevados índices de endividamento da população, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo estuda permitir que os brasileiros utilizem recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater dívidas.Dados variados, sejam do Banco Central ou de entidades como a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), têm sistematicamente apontando para um quadro de comprometimento de renda, endividamento e inadimplência crescentes.

 

Mesmo num cenário de nível de emprego e rendimento médio do trabalho recordes, milhares de brasileiros têm tido dificuldade para chegar ao fim do mês ou pagar contas básicas. O governo, que esperava colher votos com a isenção de Imposto de Renda para trabalhadores formais que recebem até R$ 5 mil por mês, agora tenta encontrar, antes das eleições de outubro, meios de conter o endividamento que tortura a população.

 

A ideia é envolver o FGTS em um novo programa de renegociação de dívidas, menos de dois anos após o encerramento do Desenrola, que também tinha por objetivo salvar o brasileiro endividado. Como se vê, não deu certo. Não deixa de ser curioso que um governo que gasta demais e incentiva a população a fazer o mesmo, forçando o Banco Central a apertar a política monetária, cogite agora permitir que o brasileiro acesse seu sub-remunerado FGTS para quitar dívidas contraídas a juros altos.

 

As tentativas de instrumentalização do fundo, por sinal, não são de hoje. Desde que o governo Temer liberou, em 2017, o saque de contas inativas do FGTS para “reaquecer” a economia, não param de surgir ideias de utilização desses recursos para fins que nada têm a ver com a função para a qual eles foram concebidos. No ano passado, o governo Lula tentou negociar com os bancos um modelo de crédito consignado privado com garantia do FGTS. Caberia aos bancos cumprir um teto de juros, enquanto o trabalhador teria o “direito” de contrair dívidas usando os recursos que forçadamente acumula no fundo.

 

Como daquela vez a ideia não prosperou, o governo agora inverte o sinal. Sai o FGTS como garantia para a tomada de crédito e entra o FGTS como recurso para abatimento de dívida. Não será o FGTS que resolverá o grave problema do endividamento do brasileiro, que passa pelos juros altos, pelo custo de vida elevado e por questões ainda não plenamente compreendidas pelos especialistas, como potenciais efeitos colaterais do aumento da bancarização no Brasil.

 

Ademais, as finalidades do FGTS são: 1) constituir e preservar a reserva financeira do trabalho; e 2) fomentar investimentos em habitação, saneamento e infraestrutura para a melhoria da qualidade de vida da população. A primeira seria mais bem cumprida se o brasileiro pudesse dispor dos recursos do fundo como bem quisesse. Já a segunda vem sendo sacrificada por governos com baixa popularidade.

Master: Proposta de delação de Vorcaro terá ressarcimento a fundos de pensão

CO0LUNA DA MALU GASPAR / Por Rafael Moraes Moura e Malu Gaspar— Brasília e Rio / O GLOBO

 

Entre as muitas incertezas que rondam o acordo de colaboração premiada do executivo Daniel Vorcaro, desde a sua disposição de efetivamente ajudar nas investigações até as chances de incriminar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), pelo menos um ponto tem sido assegurado por diferentes atores que participam ativamente das negociações.  

 

É a disposição de Vorcaro em devolver valor suficiente para cobrir os rombos nas previdências estaduais e municipais. “A proposta dele vai incluir o ressarcimento de todos os fundos de pensão”, disse ao blog uma fonte a par das discussões ouvida em caráter reservado.

 

O time jurídico do ex-banqueiro pretende apresentar ainda nesta semana uma proposta de delação premiada em uma reunião conjunta com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

 

O valor total do rombo nesses fundos ainda não foi calculado, mas passa dos R$ 3 bilhões. De acordo com o Ministério da Previdência Social, pelo menos três Estados e 15 cidades do país investiram um total R$ 1,87 bilhão em letras financeiras emitidas pelo banco de Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Mas alguns fundos, como o Rioprevidência, também compraram outros tipos de papéis do banco. No caso do fundo fluminense, o aporte total foi de R$ 2,6 bilhões.

 

Depois do Rio, o maior aporte foi do fundo de pensão do Amapá, feudo eleitoral do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que aplicou R$ 400 milhões no Master. Já o Estado do Amazonas investiu R$ 50 milhões.

 

As letras financeiras são títulos de renda fixa de alto risco, pois não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ou seja: se o banco falhar no pagamento, declarar falência ou for liquidado pelo Banco Central — como aconteceu com o Master em novembro do ano passado —, o investidor fica sem ressarcimento do dinheiro aplicado. Como a proposta do dono do Master ainda não é conhecida, não se sabe exatamente quanto ele está disposto a entregar, e nem quanto os investigadores vão considerar razoável. 

O valor do ressarcimento e da multa a ser paga pelo ex-banqueiro em um acordo de colaboração premiada é um dos principais “nós” para se chegar a um acordo.

Ele, por sua vez, tem pressa em se acertar com os investigadores, porque teme que o dinheiro escondido nas contas secretas ao redor do mundo esteja sendo depenado.

 

Conexões estaduais

As investigações da Polícia Federal já mostraram que o esquema criminoso de Vorcaro tinha ampla capilaridade nacional.

Conforme informou o blog, as investigações sobre irregularidades na compra de quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Master pelo Rioprevidência, o fundo de pensão do estado do Rio, apontam uma rapidez atípica da cúpula do fundo para credenciar o banco de Vorcaro e liberar o primeiro aporte de R$ 100 milhões, em 2023.

 

Todo o processo durou menos de um mês e foi agilizado com a ajuda do então diretor-presidente, Deivis Marcon Antunes, preso pela Polícia Federal em fevereiro deste ano.

A injeção de dinheiro na instituição de Vorcaro ocorreu sem consulta ao comitê de investimentos, que só se reuniu em 30 de novembro de 2023 – um mês após a compra expressiva de letras financeiras.

 

No Amapá de Davi Alcolumbre, um roteiro parecido se repetiu.

O presidente afastado da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Lemos, e o conselheiro José Milton Gonçalves forçaram o comitê de investimentos do fundo de pensão a aprovar um aporte de R$ 100 milhões no Master, apesar da resistência dos outros conselheiros, preocupados com um parecer técnico da Caixa Econômica Federal que apontava o alto risco de solvência do banco.

 

Os dois foram indicados para os cargos com o apoio de Alcolumbre, que trabalha nos bastidores contra a instalação da CPI do Banco Master, temendo a abertura de uma nova frente de investigação em pleno ano eleitoral.

Copia e cola

Uma auditoria realizada pelo Ministério da Previdência Social sobre a compra de R$ 400 milhões em letras financeiras do Master pela Amprev concluiu que a autarquia e fundos de pensão de diferentes municípios brasileiros terceirizaram “indevidamente” a habilitação do Master para receber investimentos dos fundos.

 

De acordo com o documento sigiloso obtido pela equipe da coluna, em pelo menos três outras cidades de diferentes estados os documentos em que os órgãos avalizaram o Master eram idênticos.

 

Lula enfrenta cenário de 1º turno mais apertado desde eleição de 2002

São Paulo

O presidente Lula (PT) enfrenta, neste momento, o cenário de 1º turno mais apertado de todas as eleições em que saiu vencedor. Dados de pesquisas Datafolha, feitas a cerca de seis meses do pleito, nos anos de 2002, 2006 e 2022, mostram que a diferença do petista em relação ao seu principal opositor nunca foi tão estreita.

Em 2002, primeira vez em que Lula foi eleito presidente da República, o político tinha, em 9 de abril, uma diferença de dez pontos percentuais do segundo colocado, o tucano José Serra.

No pleito seguinte, quando se reelegeu, o petista estava, segundo pesquisa de junho, 17 pontos à frente de Geraldo Alckmin, então seu principal opositor pelo PSDB.

Quando voltou para concorrer em 2022, em cenário já marcado pela polarização com o bolsonarismo, o petista tinha 48% das intenções de voto em maio daquele ano, frente a 27% de Jair Bolsonaro.

Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (11) mostra o político com 39% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 35%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

"Esses dados são muito simbólicos porque mostram uma redução consistente da margem de liderança em comparação com os ciclos anteriores", analisa o cientista político Elias Tavares.

Segundo ele, o cenário é reflexo de um eleitorado mais dividido e um ambiente mais competitivo para o petista, que não conseguiu emplacar grandes marcas ou programas que o reconectassem com a população, como foi o "Fome Zero", de combate à insegurança alimentar, no início dos anos 2000.

"Em 2002, Lula vinha numa onda de mudança, com discurso novo e expectativa alta. Em 2006, mesmo com o desgaste do mensalão, ainda tinha uma liderança relativamente confortável. Em 2022, apesar da polarização, conseguiu sustentar uma vantagem consistente, muito também porque havia uma rejeição elevada ao Jair Bolsonaro, e o Lula soube ocupar esse espaço como principal contraponto a um governo que enfrentava insatisfação relevante naquele momento", analisa Tavares.

Segundo o especialista, a perda de folga obriga o pré-candidato, desgastado pelos longos anos na política, a "disputar o voto o tempo inteiro, sem margem para erro".

Pesa no cálculo também o fato de a oposição começar mais consolidada do que os adversários de anos anteriores, reflexo de uma "polarização mais imediata e com menos espaço para crescimento" para Lula, avalia Tavares.

Bruno Bolognesi, cientista político e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), também coloca na polarização parte da justificativa que gera cenário mais apertado para o petista, o que para o especialista torna o pleito imprevisível.

Nesse contexto, afirma, ganha peso a exploração do voto útil, usado no segundo turno pelo eleitor mais para evitar que o opositor vença o pleito do que para apoiar um candidato. "É uma eleição em que o voto útil deve imperar de novo, o que é comum em países polarizados como Brasil e Estados Unidos."

Lula e Flávio têm índices de rejeição similares. Segundo o último Datafolha, o petista tem 48% de rejeição, contra 46% de Flávio. Os ex-governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, têm 17% e 16% respectivamente, mas são menos conhecidos.

Em 2022, marcado também pela polarização entre Lula e o bolsonarismo, o petista tinha rejeição menor, de 33% a 40%, frente a uma variação de 51% a 55% de Jair Bolsonaro (PL), segundo pesquisas Datafolha de maio a outubro daquele ano.

Para Luis Gustavo Teixeira, doutor em ciência política e professor da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), o cenário mais apertado para Lula reflete um governo marcado pelo desgaste e desidratação, além da "dificuldade de articular com uma base social e eleitoral mais ampla, para além das fronteiras do petismo".

Ainda assim, há espaço para movimentação a seu favor ao longo da corrida eleitoral, avalia Teixeira, sobretudo pela falta de experiência de Flávio Bolsonaro em um cargo no Executivo. "Enfrentar um processo eleitoral não é fácil, basta lembrar, por exemplo, o desmaio de Flávio no debate eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro", diz Teixeira, para quem pode pesar também contra o pré-candidato o escrutínio relacionado a acusações de corrupção.

Flávio desmaiou durante um debate transmitido ao vivo na TV, em 2016, quando concorreu à Prefeitura do Rio. O vídeo foi recuperado nas redes sociais desde que o político anunciou ser pré-candidato à Presidência.

Também é preciso considerar, na comparação entre os pleitos analisados, o alto número de votos em branco e de indecisos, parcela que pode ser decisiva para definir o rumo das eleições, avalia Teixeira.

Para Antonio Lavareda, cientista político e sociólogo do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), o resultado da mais recente pesquisa aponta cenário em que Lula pode ser ultrapassado "caso a economia piore e a maré de escândalos ganhe maiores proporções".

Lavareda avalia que o maior problema do petista é no segundo turno, quando empata tecnicamente com os adversários em todos os cenários testados pelo Datafolha. Ele diz que Lula precisa de "uma gordura estatística de três ou quatro pontos de margem, por conta da abstenção diferenciada no seu caso, devido à concentração de seus votos na base da pirâmide social, onde está a maioria dos ausentes das urnas".

Para Luciana Chong, diretora-geral do Datafolha, a comparação entre as pesquisas aponta um cenário em que Lula tem menor vantagem mesmo sem dividir votos com outros nomes da esquerda. Ela compara com o quadro de 2002, que tinha mais candidatos considerados à época como alinhados ao campo, exemplo de Garotinho e Ciro Gomes.

No pleito atual, a dispersão está na direita, com Flávio, Caiado, Zema e outros políticos de menor expressão. "Vamos ter que observar o comportamento dos eleitores que hoje estão votando nos pré-candidatos de direita [fora Flávio Bolsonaro], que somados têm 13% das intenções de voto", afirma.

Já a favor de Lula pesaria o fato de ele estar na Presidência, uma vez que as pesquisas mostram que o candidato à reeleição tende a melhorar sua avaliação à medida que o pleito avança, diz Chong.

O resultado de abril de 2026 vem de pesquisa Datafolha feita com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 137 cidades, de terça (7) a quinta (9). Ela está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-03770/2026.

 

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