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Resposta política, socorro a empresas e retaliação adiada: como o governo decidiu reagir ao novo tarifaço dos EUA

PorJeniffer Gularte Thaís Barcellos  Bruna LessaGeralda DocaBernardo Lima João Sorima Neto — Brasília e São Paulo / o globo

 

O governo reagiu ao novo tarifaço da gestão de Donald Trump de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA a partir do dia 22 com sete nomes do alto escalão refutando os argumentos apresentados pelos americanos. A reação coube ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, que classificou a medida como “injusta e descabida”, e ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou tratar-se de “interferência externa indevida”.

 

Durigan ainda informou que o governo vai socorrer as empresas afetadas, mas os dois baixaram o tom quanto a medidas de reciprocidade. O presidente Lula reagiu nas redes sociais, dizendo que "não há justificativa" para a decisão da Casa Branca. “Desde o primeiro momento, buscamos o diálogo e enfatizamos nossa disposição de negociar. Apontamos que não há justificativa para as tarifas anunciadas. Não vamos abrir mão de defender o nosso Pix, a nossa soberania e os produtores brasileiros”, afirmou Lula na publicação.

 

Nos cálculos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), a nova taxação afetará 18% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, com base em dados de 2024. Se for considerado o valor do ano passado, a participação dos setores atingidos recuaria a 15%, ou US$ 5,8 bilhões. A estratégia de resposta foi delineada na manhã de ontem. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o chanceler, Mauro Vieira, foi chamado por Lula e, no encontro, ficou acertado que não caberia ao presidente comentar as declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, subordinado de Trump.

 

Rubio bate, Vieira rebate

Na véspera, Rubio escreveu em uma rede social que Lula não negociou com os EUA em boa-fé e que o presidente colocou seu ego acima do fechamento de um acordo.

Em declaração no começo da tarde, Vieira criticou a qualidade da investigação que resultou na aplicação da sobretaxa, considerada sem base técnica, e a motivação política.

 

O chanceler classificou as declarações de Rubio como “inaceitáveis” e disse que ele atacou o presidente “de forma grosseira e arrogante”. O ministro salientou a disposição para o diálogo do governo brasileiro, com a realização, desde março de 2025, de mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.

— As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais, a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros — afirmou Vieira. — Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.

 

Vieira disse que as investigações no âmbito da Seção 301 do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) são procedimentos “unilaterais”.

O chanceler lembrou que, no ano passado, as tarifas para o Brasil foram elevadas de 10% para 50% após carta enviada por Trump a Lula, em julho passado, em razão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

— Expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro — afirmou, destacando ter sido nessa ocasião que foi dada a instrução ao USTR para iniciar a investigação.

Poucas horas depois, uma tropa de choque com sete nomes do alto escalão rebateu as justificativas dos EUA para a taxação e apresentou os próximos passos.

 

Participaram da entrevista o vice-presidente, o ministro da Fazenda, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o chanceler Mauro Vieira, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães. Eles destacaram que o Brasil se manteve à mesa de negociação para reverter ou atenuar a sobretaxa, mas que argumentos técnicos não foram considerados.

 

Reciprocidade 'no momento adequado'

Alckmin reforçou que o governo poderá usar a Lei da Reciprocidade, aprovada no ano passado. Ela dá poderes à Câmara de Comércio Exterior (Camex) do Mdic para suspender concessões comerciais e de investimento em resposta a países ou blocos econômicos que impactam negativamente a competitividade dos produtos nacionais.

— Temos uma Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, e o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la — afirmou.

Durigan também chamou a atenção para o tema:

— Levaremos a um grupo de ministros e ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade. O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso.

Tom nacionalista

Com ênfase na defesa de interesses nacionais, Durigan disse que o país não vai baixar a cabeça nem se dobrar a estrangeiros:

— A gente precisa colocar em pratos claros que se trata de uma interferência indevida. Essa interferência externa, seja ela política, econômica ou uma forma qualquer de constranger o Brasil, as famílias brasileiras, os empresários e os trabalhadores brasileiros — afirmou. — A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos não para atender a um secretário de Estado de outro país. Preciso dizer (que uma decisão) baseada em motivação falsa fere o senso mais básico do nosso patriotismo. Ainda mais quando a oposição usa isso no momento eleitoral sem considerar os interesses do nosso povo.

Pix seguirá gratuito, diz Galípolo

O presidente do Banco Central saiu em defesa do Pix, assegurando que o sistema de pagamento seguirá gratuito, seguro e instantâneo. Ele citou que os argumentos dos EUA não encontram respaldo na realidade e disse que o mercado de cartões cresceu 150% desde a criação do Pix, refutando que ele tenha prejudicado empresas americanas.

— A argumentação seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria a receita de caminhão-pipa — disse Galípolo. — O Pix foi benéfico para quem demanda e para quem oferta.

 

Proteger empregos

O titular da Fazenda afirmou que o governo já tem prontos os mecanismos para proteger empregos e empresas. A expectativa do governo é que o socorro a companhias afetadas pelo novo tarifaço seja menor do que iniciativas anteriores, lembrando que há mais exceções (leia mais na página 14). Durigan destacou que o aumento do socorro será feito com responsabilidade fiscal e que os compromissos fiscais definidos antes da guerra e do tarifaço serão cumpridos.

O programa, chamado de Brasil Soberano, deve limitar-se às linhas de crédito com juros subsidiados, ao contrário do plano lançado em agosto passado, em que houve diferimento de impostos e facilitação de compras públicas, entre outras medidas. O ministro disse esperar um volume mais modesto.

Elias Rosa, do Mdic, disse que as empresas poderão contar com a ajuda de diferentes formas e que o governo buscará diversificar as exportações:

— Os setores mais atingidos são basicamente madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados, açúcar. Esses setores poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes modos — afirmou, acrescentando que o governo seguirá à mesa de negociação.

O ministro do Meio Ambiente classificou os argumentos ambientais como “sem fundamento técnico” e sem base em “informações comprováveis”. Ele afirmou que o país reduziu o desmatamento na Amazônia em 50% nos três últimos anos e que isso foi apresentado em documentos e reuniões.

Segundo Capobianco, na sequência os EUA acusaram o Brasil de encher o mercado internacional de madeiras ilegais, prejudicando empresas americanas:

— Isso é absolutamente inverídico. Por dois motivos: o Brasil tem participação muito pequena no mercado internacional de madeira, apenas com 0,65%; segundo, porque nossa madeira não é a mesma produzida nos EUA. Todo parque industrial dos EUA se baseia em madeira de floresta temperada, essa madeira não compete com as madeiras de florestas tropicais, as chamadas madeiras de lei, que são para outros usos.

 

Normalidade, só sem Trump

O diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e embaixador do país em Genebra, Washington e Roma, diz que, analisando de forma realista, resta ao Brasil esperar a saída de Trump do governo:

— Quanto ao mercado dos EUA, penso realisticamente que será preciso esperar a era pós-Trump, não muito distante, para ter alguma esperança de um mínimo de normalização e de volta a relações comerciais mais estáveis.

Para ele, a vantagem do Brasil é ter diversificado os parceiros comerciais, o que diminuiu a dependência do mercado americano:

— Nossos principais mercados estão na Ásia (cerca de 50%), incluindo China, mas também Japão, Coreia do Sul, Malásia, Indonésia, Índia, que constituem a região mais dinâmica em crescimento econômico e demográfico.

Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor da BMJ, acredita que qualquer negociação só deve avançar no ano que vem. Na sua visão, o governo brasileiro deve seguir com foco nas eleições, enquanto os EUA tendem a dar preferência a discussões com outros países.

— As negociações vão continuar, mas vão ser longas. Não vai ser nada, talvez, para este ano. O Brasil vai ameaçar, os EUA vão ameaçar. Isso faz parte da própria negociação. E vão continuar durante algum tempo. Pode ter um aumento na lista de exceções, uma redução da tarifa. Lembrando que o Brasil não é prioridade para os EUA. Eles estão com várias negociações pendentes com a Europa, com a China, sem falar dos problemas geopolíticos.

 

O vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente Lula: reação coordenada

 

Filme sobre Bolsonaro dá mais destaque para Michelle do que para Flávio

Por Rafael Moraes Moura — Brasília / o globo

 

A dor de cabeça que “Dark Horse” causou à pré-campanha à Presidência da República de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é inversamente proporcional ao “espaço” que o longa-metragem reserva ao senador. Na produção norte-americana, que recria o atentado à faca contra Jair Bolsonaro e a sua vitória nas eleições de 2018, o personagem de Flávio é secundário, com pouquíssimos diálogos – diferentemente do espaço reservado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um papel muito mais relevante na trama.

 

Segundo a equipe da coluna apurou, integrantes do núcleo duro da campanha de Flávio fizeram questão de assistir a “Dark Horse” antes da estreia nos cinemas – prevista para ainda este ano, após as eleições – para avaliar os riscos de judicialização e de eventuais novos desgastes, já que o filme virou foco de crise no clã Bolsonaro, respingando nas intenções de voto.

Isso porque mensagens reveladas pelo site Intercept Brasil mostraram que o filho 01 de Jair Bolsonaro cobrou dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para financiar o longa-metragem, o que arrastou Flávio para o epicentro do escândalo e levantou preocupações de aliados sobre o timing do lançamento de “Dark Horse”.

 

Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura.

Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, o filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito. O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo.

 

Um rascunho do roteiro explora a relação de Bolsonaro e Michelle, com cenas do casamento dos dois, o parto da filha Laura e o apoio da mulher durante a campanha eleitoral de 2018. “As coisas que dizem sobre você... Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.”

Em outra cena, os personagens de Michelle, Flávio e Eduardo Bolsonaro conversam com o “doutor Tavares” nos corredores de um hospital após o atentado. “Deus está com ele, doutor”, afirma Michelle ao médico.

 

O uso de imagens reais ocorre no final do filme, com registros da posse presidencial em Brasília. No entorno de Flávio, a leitura é a de que as escolhas narrativas do roteiro, co-assinado por Mário Frias (PL-SP), e a estreia após as eleições afastariam os argumentos de que o filme pode promover a candidatura do senador à Presidência da República.

TSE já barrou filme sobre Bolsonaro

Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu o lançamento de um filme sobre Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais – no caso o documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, da produtora de vídeos de direita Brasil Paralelo, que seria exibido às vésperas do segundo turno.

 

A diferença é que, no caso de 2022, Jair Bolsonaro era candidato à reeleição e protagonista do documentário sobre o atentado à faca, enquanto agora quem vai disputar a corrida presidencial é seu filho.

 

O precedente de quatro anos atrás foi lembrado pelo grupo Prerrogativas e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), ambos aliados do presidente Lula, que acionaram em maio o TSE para pedir a abertura de uma investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, além de impedir o lançamento até o fim das eleições.

 

Mas o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, arquivou o caso por questões processuais no mês passado, alegando que os autores da ação não tinham legitimidade.

Elenco

Conforme revelou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para “Dark Horse”, em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2”. O filme só deve entrar em cartaz a partir de novembro, após o resultado das urnas, em uma tentativa de blindá-lo das polêmicas eleitorais e afastar risco de a estreia ser judicializada.

 

Um trailer oficial divulgado no mês passado indica o tom do filme, que está sendo vendido como uma espécie de thriller político ambientado durante as eleições presidenciais de 2018. No material de divulgação, Bolsonaro é chamado de “voz do povo” que “enfrentou o sistema”, “sistema que falhou em silenciá-lo”.

A maior parte das cenas reveladas envolve a recriação do episódio da facada que o então candidato do PL à Presidência sofreu em 6 de setembro de 2018 e a sua recuperação médica.

 

O elenco de “Dark Horse” é predominante estrangeiro, capitaneado pelo ator conservador Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro e ficou célebre nas telas por estrelar “A paixão de Cristo”, no papel de Jesus Cristo.

Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que tem no currículo participação nos seriados “Prison Break” e “The Good Doctor: O bom doutor”. A semelhança física entre Camile e Michelle chamou a atenção de quem conferiu “Dark Horse”.

 

Flávio, por sua vez, é interpretado pelo ator gaúcho Marcus Ornellas. Dos três, é o único brasileiro.

Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior – aqui no Brasil, a distribuidora Europa Filmes aposta em cópias dubladas.

Produtora nunca lançou nenhum filme

As polêmicas em torno de “Dark Horse” não se limitam ao enredo e ao seu financiamento. Conforme informou o blog, a produtora responsável pelo longa-metragem, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior.

 

Karina entrou no projeto do filme pelas mãos de Mario Frias. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes.

No dia 22 de junho, a Europa Filmes apresentou o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) na Agência Nacional de Cinema (Ancine) para “Dark Horse”, já esclarecendo que não se trata de um filme nacional.

Esta é a primeira de uma série de outras etapas burocráticas para viabilizar o lançamento da produção, que inclui a emissão do Certificado de Registro de Título pela própria Ancine e o recebimento da classificação indicativa no Ministério da Justiça.

Antes mesmo da Europa Filmes ter acionado a Ancine com o pedido de registro de “Dark Horse”, o filme já havia levado a agência a abrir em fevereiro deste ano um procedimento para verificar, entre outras questões, qual foi o papel efetivo da produtora Go Up na realização da cinebiografia sobre a carreira política de Bolsonaro.

 

Em ofícios enviados à Go Up em fevereiro e março deste ano – antes, portanto, de virem à tona as mensagens e áudios de Flávio cobrando financiamento de Daniel Vorcaro –, a Superintendência de Fiscalização da Ancine notificou a produtora a “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa da agência, em vigor desde 2008, que fixa as balizas para a produção de filmes estrangeiros no território nacional.

Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na Ancine, a quem caberá comunicar a agência e apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso teria ocorrido no caso de “Dark Horse”.

 

Após cobrar explicações da produtora Go Up Entertainment ao longo dos últimos cinco meses e não obter respostas, a Ancine decidiu agora mudar de estratégia e notificar a Europa Filmes, que pretende fazer a distribuição do longa no mercado nacional. Na prática, é como se, a partir de agora, a Europa Filmes fosse a “responsável legal” por “Dark Horse”.

“Em regra os processos de registros não se confundem com os de fiscalização. No entanto, no caso concreto, o filme é objeto de processo de apuração em curso na Superintendência de Fiscalização”, informou a Ancine.

 

“A apuração segue em curso, inclusive com diligências expedidas para solicitação de informações sobre as filmagens da obra no Brasil. Os processos de registro e fiscalização aguardam, no momento, a manifestação da empresa distribuidora. Por se tratar de processos em curso, a Ancine não antecipa conclusões sobre o mérito.”

 

O ator Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro no filme 'Dark Horse'O ator Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro no filme 'Dark Horse' — Foto: Reprodução

 

 

TCU atua como fiscal em causa própria

O Tribunal de Contas da União enfraqueceu uma das principais barreiras aos supersalários no serviço público. Por oito votos a um, decidiu excluir do teto constitucional gratificações pagas a servidores do TCU, da Câmara dos Deputados e do Senado que ocupam cargos de direção e chefia.

O órgão encarregado de fiscalizar o cumprimento da regra resolveu flexibilizá-la em benefício próprio e dos demais Poderes que deveria controlar.

A Constituição não estabeleceu o teto remuneratório, hoje de R$ 46.366,19, como uma referência simbólica. Sua finalidade é impedir que parcelas salariais, sob diferentes denominações, permitam remunerações acima do limite constitucional. Ao excluir gratificações dessa conta, o tribunal cria uma brecha incompatível com o espírito da norma.

A justificativa tampouco convence. Segundo os defensores da mudança, servidores deixam de assumir funções de chefia porque a gratificação acaba absorvida pelo teto. Ainda que a distorção exista, ela não autoriza uma exceção criada por decisão administrativa. Se a estrutura das carreiras exige revisão, cabe ao Congresso promovê-la por lei, e não ao órgão de controle reinterpretar a Constituição.

As circunstâncias do julgamento agravam o problema. Como revelou a Folha, líderes do Congresso atuaram para reverter o entendimento histórico do tribunal.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), telefonou diretamente a ministros do TCU para defender a alteração. A decisão veio poucos meses após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vetar dispositivos que ampliariam supersalários justamente no TCU, na Câmara e no Senado.

O que foi barrado pela via legislativa reaparece agora sob a forma de uma nova interpretação.

Também chama atenção o abandono irresponsável de uma jurisprudência consolidada. A área técnica do TCU defendeu o arquivamento do caso e lembrou que o Supremo Tribunal Federal (STF) e a própria corte sempre consideraram gratificações de função como parte da remuneração sujeita ao teto —o único voto vencido agora seguiu esse entendimento.

O precedente tende a estimular reivindicações semelhantes em outras carreiras, ampliando a erosão do limite constitucional.

Ainda mais grave, compromete a autoridade de um tribunal que exige rigor fiscal do Executivo, mas adota critério complacente quando estão em jogo os interesses de seus servidores e dos integrantes do Congresso. Fiscalizar a lei pressupõe, antes de tudo, disposição para cumpri-la.

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Contra o protecionismo, lá e cá

A imposição de sobretaxas adicionais de 25% pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras é desleal e ilógica, a começar pelo fato de o Brasil registrar déficit nas trocas com aquele país.

A ação se baseia na Seção 301 da legislação comercial americana. Na quarta-feira (15), o órgão responsável divulgou a versão definitiva da lista de mercadorias que escapam da nova alíquota.

Foram incluídos produtos como ferro-gusa, café solúvel, artigos de madeira, pescado, produtos químicos e fármacos destinados ao uso farmacêutico.

O alívio concedido foi modesto e direcionado principalmente a itens dos quais os produtores americanos dependem de fornecedores estrangeiros, sem possibilidade de substituição.

Os produtos isentos representam cerca de US$ 2,6 bilhões, equivalentes a 7% do fluxo bilateral, com mais da metade do valor concentrada no ferro-gusa.

A maior parte das linhas tarifárias, porém, continua sujeita aos 25%. Além disso, diversos produtos que ficaram de fora dessa listagem já enfrentam as tarifas da Seção 232, direcionadas a aço, alumínio e derivados, que permanecem inalteradas.

Consideradas todas as sobretaxas, a alíquota média efetiva aplicada às importações brasileiras nos EUA sobe de 1,3%, patamar anterior às medidas de Donald Trump, para cerca de 9,5%.

As explicações para impor o aumento —Pix, etanol, decisões judiciais, propriedade intelectual, corrupção e meio ambiente— funcionam mais como um repertório para legitimar barreiras do que como análise de práticas comerciais desiguais.

Essas alegações servem apenas como cobertura retórica para justificar a obsessão protecionista da Casa Branca.

No campo político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sai favorecido ao capitalizar a narrativa de resistência a pressões externas. Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, aparece em posição de lesa-pátria ou, no mínimo, de quem não conseguiu evitar o prejuízo provocado por ações de seu clã familiar.

Por outro lado, embora a gestão petista rejeite tarifas, adota o protecionismo. Nos últimos anos, mantiveram-se ou elevaram-se alíquotas em vários segmentos, com média nominal entre 10% e 12% e picos elevados em automóveis, eletrônicos e bens de capital.

O Brasil figura entre as economias mais fechadas do mundo ao fluxo de mercadorias estrangeiras. É preciso rever a política de abertura ao exterior como instrumento de expansão da produtividade e de redução de custos.

Manter proteções robustas em nome de setores que não amadurecem gera prejuízos na forma de baixa inovação, preços internos elevados e incapacidade de competir no cenário internacional.

A resposta adequada ao tarifaço americano não é o espelhamento de barreiras, mas a atualização da estratégia comercial brasileira, com foco em maior eficiência e integração global.

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Farol novo do Mucuripe está apagado há três meses e afeta pelo menos 2 mil pescadores

Escrito por Diego BarbosaeJoão Lima Neto / DIARIONORDESTE

 

Não é exagero dizer que o Vicente Pinzón tinha luz própria. A iluminação do farol novo do Mucuripe – como é chamado o equipamento localizado nesse bairro de Fortaleza – atendia a pescadores e outros trabalhadores do mar desde que foi instalado, em setembro de 2017. Após a queda de um raio na madrugada do último 27 de abril, durante forte chuva, a situação mudou: o sinal náutico foi atingido e apagado.

O impacto, conforme moradores do próprio lugar, é grande. Afeta, pelo menos, dois mil pescadores associados à Colônia de Pescadores Z-8, do próprio bairro. “O farol é ponto de referência pra gente”, situa Damião Costa Silva, 57, diretor da associação. “Se o sistema de energia dele não funcionar, a gente fica perdido”.

Desde que há escuridão, a saída, segundo ele, tem sido utilizar o sistema de GPS para traçar o plano de rota no oceano e, assim, seguir com trabalhos em alto-mar.

A tarefa, embora possível, continua desafiadora, tendo em vista a possibilidade de complicações inesperadas. “Se o GPS não funcionar ou se não houver bateria nem nada, o barco pode ficar à deriva. Para ele não ficar à deriva, teríamos que ter como base a referência da luz do farol”, ilustra.

“A falta da luz também faz diferença no bairro porque aqui à noite é escuro. Com a claridade, há mais pontos de visibilidade para o comércio, as famílias, a brincadeira das crianças… Se ele estiver claro, é uma visão; se estiver apagado, abre espaço para outras coisas. O bairro sempre foi bom, mas a escuridão provoca uma sensação estranha”.

A fala de Damião ressoa na percepção da artesã Mônica Ferreira. Foi a filha dela quem notou quando o sinal náutico apagou – o funcionamento dele acontece do anoitecer ao alvorecer do novo dia, ou seja, ao longo da noite e da madrugada.

“Desde que a gente soube, tentei ligar para a Marinha, mas não consegui. É uma coisa que a gente sente falta, a luz do farol”, conta.

Funcionamento do sinal náutico do farol acontecia do anoitecer ao alvorecer do novo dia.
Legenda: Funcionamento do sinal náutico do farol acontecia do anoitecer ao alvorecer do novo dia.
Foto: Fabiane de Paula.

Para se ter ideia, de acordo com Damião Costa, o raio de alcance do sinal abrange da praia do Caça e Pesca à Barra do Ceará. Não à toa, o desejo coletivo de resolução.

“O que a gente espera é que eles consigam consertar o mais rápido possível. Porque não é só o conserto, isso impacta na comunidade também. Fica aquele negócio parado, todo mundo quer saber. A linha de comércio necessita da energia que vem dele”, ressalta o diretor.

O que diz a Marinha do Brasil

Em nota, a Marinha do Brasil (MB) confirma que o Farol do Mucuripe, com aproximadamente 71 metros de altura, foi atingido diretamente por descargas atmosféricas durante forte chuva em Fortaleza na madrugada de 27 de abril. 

Damião Costa Silva, diretor da Colônia de Pescadores Z-8, no Vicente Pinzón.
Legenda: Damião Costa Silva, diretor da Colônia de Pescadores Z-8, no Vicente Pinzón.
Foto: Fabiane de Paula.

Conforme o texto, “apesar da atuação do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas, foram registrados curto-circuito e danos em equipamentos elétricos e eletrônicos, ocasionando o apagamento do sinal náutico”. Não há previsão de retomada do ponto de luz.

A alteração, sublinha, está sendo divulgada em avisos aos navegantes, conforme previsto na Norma de Auxílios à Navegação (Normam-601), e “equipes técnicas estão atuando para o restabelecimento do facho luminoso, sendo realizados todos os esforços para que o Farol do Mucuripe retorne à operação normal no menor prazo possível”.

Raio de alcance do sinal abrange da praia do Caça e Pesca à Barra do Ceará.
Legenda: Raio de alcance do sinal abrange da praia do Caça e Pesca à Barra do Ceará.
Foto: Fabiane de Paula.

Por fim, o órgão destaca que mantém escuta permanente do canal 16 (VHF), destinado ao Serviço Móvel Marítimo. O canal permite a comunicação entre embarcações e estações costeiras por meio de radiocomunicações, assim como dos telefones 185 e (85) 3133-5100, para a comunicação de emergências marítimas e fluviais.

História do Farol Novo do Mucuripe

Considerado o maior farol tradicional das Américas e o sexto maior do mundo, o Farol do Mucuripe – conhecido popularmente como Farol Novo do Mucuripe, nome amplamente utilizado no comércio do bairro, por sinal – foi inaugurado em 2017 e está localizado no bairro Vicente Pinzón. Foi construído em parceria público-privada entre a Marinha do Brasil e uma empresa particular.

Ele substituiu o antigo farol, que funcionava desde 1958, e tem como objetivo oferecer maior segurança para a navegação na costa cearense. Também favorece a ampliação da altura na construção de prédios no entorno. O investimento na edificação dele foi de R$ 5 milhões.

Sediado em um terreno da Marinha, possui sistema informatizado e elevador interno. Os prédios na área de alcance do facho de luz poderão ter limite de altura, no mínimo, 30% maior que o atual.

Isso ocorre porque a altura do farol limita a altura das construções na região. O equipamento difere de outro famoso farol da Capital, também no Grande Mucuripe.

À esquerda, o Farol Novo do Mucuripe; à esquerda, o farol originalmente construído em 1958.
Legenda: À esquerda, o Farol Novo do Mucuripe; à esquerda, o farol originalmente construído em 1958.
Foto: Fabiane de Paula/Ismael Soares.

Este encontra-se estampado na bandeira do Estado do Ceará e é tombado como patrimônio histórico e artístico do povo cearense. Fica no bairro Cais do Porto, e iluminava aproximadamente 24 km da costa litorânea, na zona portuária de Fortaleza, por onde diariamente as embarcações chegavam e partiam.

No século XIX, a edificação reinava absoluta, com possibilidade de ser avistada de vários pontos da cidade. Desde 1958, quando foi inutilizado como instrumento de navegação,o monumento passou por períodos de reformas e abandonos

Quando, na última década, quase teve fim, uma atuação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) deu novo contorno ao espaço e garantiu a permanência dele na paisagem da Capital.

A luta foi travada por moradores da comunidade do Serviluz e espelhou a resistência para a preservação de um símbolo tão forte para a cidade e o Estado como um todo.

União Progressista decide apoiar Roberto Cláudio como vice de Ciro Gomes, diz Capitão Wagner

Escrito por Marcos MoreiraeIgor Cavalcante / DIARIONORDESTE

 

O presidente estadual da federação União Progressista no Ceará, o ex-deputado federal Capitão Wagner, afirmou que o grupo decidiu apoiar o nome do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil) para compor, como candidato a vice-governador, a chapa encabeçada por Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo Governo do Ceará. Segundo ele, a definição encerra o impasse entre as direções estadual e nacional do União Brasil sobre a participação da legenda na chapa majoritária.

 

Além da vaga de vice, Wagner reafirmou que a federação manterá apoio à sua candidatura ao Senado e à do deputado estadual Alcides Fernandes (PL). A declaração foi feita nesta quarta-feira (15), durante mais uma edição do Café da Oposição, realizado na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

 

Ao comentar a decisão, Roberto Cláudio afirmou que a definição representa a pacificação interna da federação.

 

"Acabei de ouvir do Capitão essa grande novidade. É importante dizer que esse é o encaminhamento da União Progressista para a pré-candidatura à vice, agora já pacificado internamente", disse.

O ex-prefeito também atribuiu o acordo à articulação conduzida por Capitão Wagner junto às lideranças partidárias.

"Foi um passo muito importante articulado pelo Capitão, mas também legitimado pelos presidentes dos partidos, o deputado Moses Rodrigues, pelo União Brasil, e AJ Albuquerque, pelo PP"
Roberto Cláudio (União Brasil)
Ex-prefeito de Fortaleza

Decisão vai para avaliação nacional

Capitão Wagner disse que a definição foi construída após diálogo com os presidentes estaduais do União Brasil e do Progressistas, Moses Rodrigues e AJ Albuquerque, em reunião realizada na terça-feira (14).

Segundo ele, o entendimento foi de que Roberto Cláudio fortalece a composição da oposição, inclusive na montagem das chapas proporcionais.

"Eles se convenceram de que o melhor caminho seria o Roberto ir para a vice-governadoria. Ele colaborou muito na construção da chapa de deputados federais, indicando nomes que vão compor essa nominata"
Capitão Wagner
Presidente do União Brasil no Ceará

Para Wagner, a decisão tende a ser confirmada pela direção nacional da federação.

"Essa é uma decisão da União Progressista no Ceará que será levada à direção nacional. Mas, havendo consenso no Estado, dificilmente teremos qualquer problema a nível nacional. Que partido abriria mão de participar de uma chapa com grandes chances de vitória, tendo um candidato a senador e um candidato a vice-governador?", disse.

O ex-deputado também avaliou que a participação de Roberto Cláudio na chapa pode reforçar sua posição para futuras disputas eleitorais.

"O Ciro tem deixado muito claro que o Roberto é um nome que agrada para uma sucessão. Para a União Progressista, é muito bom tê-lo compondo essa chapa majoritária", concluiu.

Impasse resolvido

A definição representa uma mudança em relação ao cenário desenhado há pouco mais de um mês. Em junho, o presidente estadual do União Brasil, deputado federal Moses Rodrigues, defendia que Roberto Cláudio disputasse uma vaga na Câmara dos Deputados. 

Segundo ele, esse havia sido o compromisso firmado com as direções nacionais do União Brasil e do Progressistas durante as negociações para a criação da federação União Progressista.

Na ocasião, o próprio Roberto Cláudio admitiu ao PontoPoder que tinha o desejo de integrar a chapa majoritária de Ciro Gomes, mas afirmou que a decisão dependeria de diálogo com o partido e com os aliados.

 

ROBERTO CLAUDIO

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