Derrotar juro alto é desafio comparável ao do Plano Real
EDITORIAL DE O GLOBO
Quatro em cinco famílias brasileiras relatam ter dívidas a vencer. A proporção é inédita. O endividamento tem crescido em todas as faixas de renda. Pelas projeções da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o problema deverá continuar avançando, apesar de o Banco Central (BC) ter reduzido juros na última reunião do Comitê de Política Monetária. Com a taxa básica em 14,75% ao ano, o país continua com um dos maiores juros reais do mundo — quase 10%, descontada a inflação. O Brasil é uma anomalia quando se trata do preço do dinheiro.
É difícil para as famílias pagar suas dívidas. Empresas também vivem reclamando do juro alto, e são frequentes os programas de refinanciamento do crédito. Tal situação deveria provocar no Executivo e no Legislativo reflexão profunda. É preciso encarar a questão com a mesma seriedade com que a inflação foi combatida na época do Plano Real. No início dos anos 90, o índice mensal ultrapassava 80%. Em 30 dias, o poder de compra dos salários era reduzido quase à metade. Para quem tinha passado a vida com reajustes diários, parecia normal. Não era. Tratava-se de aberração. O mesmo pode ser dito sobre o patamar atual dos juros.
O problema tem várias causas, nenhuma delas intratável. A primeira — e mais importante — é o desequilíbrio das contas públicas. Ainda que o risco de calote seja baixo, quanto maior o endividamento público, mais alto é o retorno exigido pelos investidores para comprar títulos emitidos pelo governo. Nesse quesito, o histórico do governo Luiz Inácio Lula da Silva é vergonhoso. Quando Lula assumiu, a dívida bruta equivalia a 73,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje está em 79%, e a previsão é de 86% já no ano que vem. Há ainda um segundo efeito nefasto do desequilíbrio das contas públicas. Ao elevar o gasto, o governo aquece a demanda, pressiona a inflação e força o BC a aumentar ainda mais a taxa básica, a Selic.
A segunda causa é o excesso de crédito dirigido. Linhas especiais para determinados setores, via programas do governo, fazem com que 43% do mercado de crédito fique imune, de forma parcial ou completa, às variações da Selic. Em razão disso, quando o BC é forçado a aumentá-la, o nível precisa ser bem mais alto para ter o impacto desejado na oferta de crédito.
A terceira causa é a insegurança jurídica. Contratos firmados dentro da lei nem sempre são garantidos pelos tribunais. Muitos juízes tendem a favorecer uma das partes em detrimento do pactuado. Não faltam exemplos. Na década passada, contratos de financiamento de veículos foram desconsiderados para beneficiar inadimplentes. Onde faltam garantias para recuperar ativos, a saída para quem empresta é aumentar os juros de todos.
Por fim, a poupança é baixa, reduzindo a oferta de dinheiro e aumentando seu custo. Falta também mais competição no mercado bancário, apesar de a expansão recente das fintechs e de o compartilhamento de dados de clientes via Open Finance terem contribuído para reduzir as taxas em alguns segmentos. Ainda há muito a avançar. Alguns problemas têm solução mais rápida, outros no longo prazo. Porém todos devem ser tratados com a mesma urgência para que o país deixe de conviver com uma aberração que inibe o crescimento da economia e corrói os recursos de todos os brasileiros.
O eterno retorno das greves de servidores de universidades
Funcionários da Universidade de São Paulo estão em greve —de novo. Nos últimos 20 anos, ocorreram 9 paralisações de servidores ou professores da USP, de acordo com levantamento do site Poder360. A última, em 2023, durou 42 dias.
O fenômeno é comum nas universidades públicas e indica que o modelo de financiamento é insustentável. No momento, servidores de 53 universidades e institutos federais estão em greve.
Os funcionários da USP entraram em greve em 14 de abril, em reação a um acréscimo de R$ 4.500 no salário mensal de docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão.
Trata-se da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Grace), proposta pela reitoria e aprovada pelo Conselho Universitário no final de março.
Em comunicado, o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) diz: "Não podemos aceitar R$ 4.500 para eles e nada para nós". Estudantes também não aceitaram. Até terça (20), discentes de 15 faculdades haviam aderido à greve.
O sindicato pede reajuste fixo de R$ 1.200 nos salários, além de recomposição integral das perdas calculadas pela inflação desde 2012 (14,5%). Por sua vez, os alunos reivindicam melhores condições de permanência estudantil, com aumento no valor de bolsas, e reclamam da má qualidade dos restaurantes universitários.
A USP fez uma proposta: o mesmo montante anual destinado à Grace (R$ 238,4 milhões) seria dividido pelos servidores, o que daria cerca de R$ 1.600 mensais. O Sintusp avaliará nesta quarta (21).
O orçamento da USP oriundo do Tesouro Estadual em 2026 é de R$ 9,4 bilhões, sendo que 84,2% (R$ 7,9 bilhões) vão para pagamento de pessoal, alta de 5,6% ante 2025. No ano passado, a fatia dessa rubrica foi de 82%.
Já a verba para bolsas e auxílios da Política de Permanência e Formação Estudantil subiu 6% entre 2024 e 2025 e 4% em 2026, chegando a R$ 215 milhões.
Não à toa, ao aprovar a Grace, o Conselho Universitário também alterou normas internas relacionadas ao controle de despesas com pessoal, flexibilizando critérios que limitam pagamentos.
Tal pressão orçamentária se espraia pelas universidades públicas. Mesmo assim, por corporativismo e ideologia, a comunidade acadêmica reluta em revisar o modelo de financiamento, contemplando a contribuição privada, inclusive de alunos.
Sem mudar essa chave, gastos continuarão a subir, investimentos, a cair, e mais greves virão.
Do bônus ao ônus demográfico
Realizado com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava. Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente captada, infelizmente, pelas políticas públicas.
Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.
O fenômeno resulta de progressos da sociedade: maior expectativa de vida, graças a avanços na saúde, e queda da taxa de fecundidade, por acesso a métodos contraceptivos, participação da mulher no mercado de trabalho e maior investimento na educação de cada filho. Mas também impõem-se desafios, especialmente para os países que não conseguiram tornar-se ricos.
O Brasil perdeu a oportunidade de fazê-lo nos anos do chamado bônus demográfico —vale dizer, de maior expansão e proporção da população em idade produtiva, entre 15 e 59 anos. A depender do critério adotado, essa vantagem econômica já se esgotou ou está em franco declínio.
De acordo com os cálculos do IBGE, crianças e adolescentes até 14 anos e idosos acima dos 60 —o que se convenciona chamar de população dependente— somaram 36% da população total no ano passado. Esse grupo cresceu 0,9% em relação a 2024, ante apenas 0,1% do contingente em idade ativa. Na década de 2040, dependentes serão mais de 50%
O ônus mais óbvio desse processo se dá na Previdência Social e há muito está em curso. O sistema passou a ser deficitário nos anos 1990, mas só em 2019 foi aprovada uma reforma ampla, com fixação de idades mínimas para as aposentadorias. Pior, boa parte da economia esperada foi comprometida com a volta da política de reajustes de benefícios acima da inflação.
Também a saúde pública tende a ficar sobrecarregada e terá de se aparelhar para o avanço de doenças e condições associadas à velhice; em contrapartida, a educação básica já lida com um número declinante de alunos. No entanto, as normas de financiamento das duas áreas ainda não levam em conta tais diferenças.
Em artigo publicado na Folha, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves rejeita visões catastrofistas para a transformação populacional. Para ele, as dificuldades podem ser compensadas por ganhos de produtividade, por meio de investimentos em educação, saúde, ciência e infraestrutura; os idosos, ademais, poderão viver com mais bem-estar e integração ao mercado de trabalho.
Seja como for, fato é que o debate de tais questões está atrasado no Brasil. Em particular, incentivos à produtividade como abertura da economia e privatizações parecem longe do radar de governantes e legisladores em Brasília.
Prisão de MCs revela como crime usa celebridades
Por Editorial / O GLOBO
Sob suspeita de lavagem de dinheiro para o crime organizado, os MCs Ryan SP, Poze do Rodo e influenciadores digitais foram presos na quarta-feira pela Polícia Federal (PF). Segundo as investigações, o grupo usava um sistema estruturado para ocultar e dissimular recursos, que incluía operações financeiras no Brasil e no exterior, transporte de moeda em espécie e transações com ativos digitais. A PF estima que os acusados tenham movimentado mais de R$ 1,6 bilhão em 24 meses, montante ilícito oriundo de tráfico, bets irregulares e rifas ilegais. São denúncias graves.
Nomes conhecidos do funk nacional, Ryan SP e Poze do Rodo têm enfrentado problemas recorrentes com a polícia. Em maio do ano passado, Ryan foi detido depois de fazer manobras perigosas com um carro de luxo em Piracicaba. Pagou multa de R$ 1 milhão para compensar os danos. Um ano antes, fora flagrado por câmeras de segurança agredindo a namorada. Poze do Rodo tem estado na mira da polícia fluminense sob acusação de apologia ao crime em letras e postagens e de ligação com o Comando Vermelho. Chegou a ser preso em maio do ano passado.
Não só no Brasil artistas são acusados de envolvimento com o narcotráfico. Nos Estados Unidos, o rapper Fetty Wap, autor de “Trap Queen”, foi condenado a seis anos de prisão por tráfico de drogas em 2023. Era acusado também de romantizar o tráfico em suas músicas. Em 2024, Young Thug foi condenado por posse de drogas e ligação com a gangue Bloods, suspeita de tráfico, assassinato e roubo de veículos. Rod Wave foi preso em 2025 no mesmo dia de sua primeira indicação ao Grammy, sob acusação de posse de substâncias controladas e porte de arma de fogo. Foi solto após pagar fiança.
Em todos esses casos, costuma haver acusações de glamourização do crime no trabalho artístico, ou mesmo de estímulo à violência. Mas apenas letras controversas ou provocativas não podem justificar censura ou punição. A liberdade de expressão precisa ser assegurada, e é comum que figuras de relevo na cultura popular adotem em seu trabalho postura considerada agressiva ou ofensiva. Por isso é essencial ressaltar que os artistas não foram presos pelo que cantaram, mas pelo que fizeram. E as acusações não podem ser minimizadas. O combate ao crime organizado é hoje um dos maiores desafios do país.
Ao menos 64 organizações criminosas atuam no Brasil. O dinheiro delas é lavado muitas vezes com a cumplicidade de figuras conhecidas. A visibilidade dos funkeiros permite movimentar grandes quantias sem despertar suspeitas nos sistemas de vigilância financeira. “Eles são muito úteis e facilmente recrutáveis”, afirma Marcelo Maceiras, delegado regional de Polícia Judiciária. Investigadores suspeitam que verbas de publicidade e bilheteria de shows eram infladas para ocultar o dinheiro do crime organizado.
Cabe à PF apresentar à Justiça provas consistentes que corroborem as acusações de lavagem de dinheiro. Diferentemente de opiniões sobre o que cantam ou usam, tais crimes não dependem de interpretações. Movimentações de grandes somas precisam ser explicadas de forma convincente. Independentemente da fama, das plateias cativas ou da legião de seguidores nas redes sociais, se comprovadas as acusações, eles precisarão acertar as contas com a Justiça. Exatamente como aconteceu com os rappers americanos que se envolveram com traficantes.
As faculdades municipais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma reportagem do Estadão sobre cursos de Medicina oferecidos em instituições municipais revelou um cenário aterrador. Foram colhidos dos alunos relatos de alta rotatividade de docentes e, não raro, de falta de professores. E, quando há docentes, não há garantia de aprendizagem: muitos professores não são qualificados para o cargo. Disciplinas essenciais para a formação médica, como Biologia Celular e Molecular e Cardiologia, são negligenciadas. Nas bibliotecas, há prateleiras vazias, sem livros. Nos laboratórios, faltam microscópios. E muitas instituições atuam sem hospital-escola. O resultado não poderia ser outro: de oito cursos avaliados no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), sete tiraram notas 1 ou 2 – ou seja, as piores possíveis.
Essas instituições foram criadas por municípios antes da promulgação da Constituição de 1988, são classificadas como públicas ou de natureza especial, podem cobrar mensalidade e gozam de uma série de vantagens, como benefícios fiscais e tributários. Diferentemente das universidades federais e particulares, participaram do Enamed voluntariamente, haja vista que não estão submetidas à fiscalização do Ministério da Educação (MEC) nem obedecem aos critérios do edital do Mais Médicos que estabelece um número mínimo de leitos para atividades práticas. E, assim como as universidades estaduais, as municipais são reguladas pelos Conselhos Estaduais de Educação (CEEs), o que, a depender do Estado, pode indicar um apagão regulatório.
Conforme informou a repórter Paula Ferreira, que visitou uma das universidades mal avaliadas, a situação é ainda mais grave porque essas instituições não restringem a sua atuação aos limites dos municípios em que foram criadas. Ou seja, fundadas para estimular a formação superior em cidades desassistidas por universidades quando as regras eram bem diferentes das atuais, hoje viraram um bom negócio. A Universidade de Rio Verde (UniRV), por exemplo, tem cursos de Medicina em Rio Verde, Aparecida de Goiânia, Formosa, Goianésia e Luziânia, em Goiás. Já o Centro Universitário de Mineiros oferece Medicina, além de Mineiros, em Trindade, também em Goiás. Não parece que o interesse público seja o critério definidor da expansão.
Tal modelo entrou na mira das faculdades privadas, que veem na atuação das municipais uma espécie de concorrência desleal: as mensalidades, em torno de R$ 6 mil, são bem mais baixas do que as de uma instituição particular, onde as mensalidades podem passar de R$ 10 mil. Não à toa, uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questiona a expansão das universidades municipais. Faz bem o MEC, por sua vez, em analisar a propositura de um projeto legislativo que lhe permita atuar em relação a essas faculdades. Claro que a falta de qualidade não é regra: há instituições municipais, inclusive em São Paulo, como a Faculdade de Medicina de Jundiaí, que são exemplos de boa formação médica. Mas, com ou sem qualidade, todas as escolas de Medicina devem estar submetidas a critérios rígidos de avaliação, sem exceção.
Nem todo mundo ‘tem seu preço’, mas Vorcaro sabia farejar quem tem e vende a própria honra
Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP
Quando se olha a foto de Paulo Henrique Costa, a pergunta que vem à cabeça é imediata: como um homem de 49 anos, com mulher e filhos, bem-sucedido, que chegou a presidente do BRB, o banco estatal de Brasília, joga fora tudo isso, honra, biografia, liberdade, a própria vida e o futuro da família, por dinheiro?
O onipresente Daniel Vorcaro, que agiu desde o início do Master comprando poderosos, sabia que “nem todo mundo tem seu preço” e farejava quem era mais suscetível a vender a própria honra. A de Costa, por exemplo, custou a ele seis imóveis, no valor extraordinário de R$ 146,6 milhões, mas é bem provável que já estivesse à venda quando assumiu o BRB, em janeiro de 2019, por escolha pessoal do então governador Ibaneis Rocha.
Há alguns anos, os guardanapos de um restaurante nos Jardins, em São Paulo, me chamaram a atenção, porque eram uma propaganda do BRB. Por que o banco estatal de Brasília financiava restaurantes paulistanos? Se a PGR, a PF e a Polícia Civil do DF ampliarem as investigações, ainda vem muita coisa contra o BRB de Ibaneis e Costa por aí.
Sim, Vorcaro tinha “faro” para identificar e ir direto a quem era suscetível a vender a própria honra e até calculava os valores caso a caso, R$ 130 milhões para cá, R$ 146 milhões para lá, resorts, festanças e garotas de programa, em troca, por exemplo, dos R$ 12,2 bilhões que o BRB despejou em carteiras fraudulentas do Master.
“A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir (...), dou muito valor ao alinhamento pessoal e acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil”, desmanchou-se Costa em mensagens para Vorcaro, em que deixou evidente que Ibaneis sabia de tudo: “O governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”.
Para embolar governadores, presidentes e diretores de bancos públicos, ministros do STF, políticos à esquerda e à direita, fundos de pensão, agências e blogs, Vorcaro não contava “só” com o Sicário, cangaceiro da quadrilha, mas também com Augusto Lima, ex-sócio muito bem relacionado, que “caçava alvos fáceis”, e Daniel Lopes Monteiro, advogado e engenhoso operador do esquema.
Com a prisão de Paulo Henrique Costa e de Daniel Monteiro nesta quinta-feira, 16, o tempo corre contra Vorcaro, a quem só resta uma saída, a delação premiada. Se Lima, Costa e Monteiro se anteciparem, citando nomes, detalhes e provas reluzentes, o que sobra para o próprio Vorcaro? De delator, ele passará a delatado. Mesmo com tudo o que já sabemos, falta muito ainda a explodir.


