'Trai a mãe, o pai e o irmão mais velho por nada', diz Eunício sobre Cid disputar o Senado
Escrito por Marcos Moreira / DIARIONRDESTE
O deputado federal Eunício Oliveira (MDB), pré-candidato ao Senado Federal, endereçou críticas ao senador Cid Gomes (PSB), que teve a pré-candidatura à reeleição pela chapa governista confirmada nesta semana. O parlamentar chegou a chamar Cid de “inconfiável” para a aliança.
Na manhã desta quinta-feira (16), Eunício foi questionado pelo PontoPodersobre as tratativas do MDB dentro da chapa governista, após a escolha de Cid para uma das vagas ter sido oficializada ao lado de líderes petistas, como o governador Elmano de Freitas (PT), o senador Camilo Santana (PT) e o presidente Lula (PT).
1 ano depois de 'guerra' de facções e expulsões de moradores, como está o distrito de Uiraponga
Local que foi chamado de 'cidade fantasma', o pequeno distrito de Uiraponga, em Morada Nova, interior do Ceará, tem se reinventado após ser assolado pela "guerra" entre facções criminosas. Há exatamente um ano, em julho do ano passado, moradores tiveram de deixar suas casas após um homicídio em praça pública, seguido de uma série de ameaças.
Desde o último dezembro, algumas famílias começaram a voltar, e, neste ano, o movimento de retorno aumentou, apesar de ainda haver muitas ruas vazias. O policiamento agora é 24 horas, pois há uma base da Polícia Militar e um destacamento da Corporação em construção, a ser inaugurado nos próximos dias, segundo a Prefeitura de Morada Nova.
Até julho do ano passado, cerca de 230 famílias moravam na sede do distrito e parte das pessoas deixou o local por conta das ameaças. Antes disso, já havia movimento de saída de Uiraponga por outros motivos, segundo o relato de moradores do vilarejo.
82é o número de famílias que já retornaram à Uiraponga
Nas últimas semanas, o povoado foi centro de um embate político, que começou como um problema de segurança pública. Durante a inauguração de novos equipamentos no distrito, a presença do governador Elmano de Freitas (PT) fez o deputado federal André Fernandes (PL) gravar um vídeo em Uiraponga na semana passada, mostrando ruas e casas vazias à noite, classificando o local como uma "cidade fantasma" e acusando o governo de contratar "atores".
O Diário do Nordeste foi ao local, a cerca de 189 quilômetros de Fortaleza, esteve presente durante a manhã, a tarde e o início da noite e conheceu o cotidiano de uma comunidade que há 1 ano sofre com as sequelas do conflito entre grupos armados, mas que tem se reerguido.
O que a reportagem viu foram idosas se exercitando na praça principal, crianças brincando, pessoas nas calçadas de casa conversando e bebendo no conhecido Bar do Cleto. É uma nova realidade, mais pacata, com menos moradores, mas há vida no distrito.
'Se for cidade fantasma eu sou um deles', diz moradora
A auxiliar de serviços gerais, Cíntia Paula Silva Oliveira, nascida e criada em Uiraponga, é uma das habitantes que voltou a morar no distrito, mas passou meses afastada com medo, após ameaças de facção. Ela já retornou em março, junto a outras famílias, e garante que o local não é uma cidade fantasma. "Se for fantasma, eu sou um deles, porque eu estou aqui desde março", disparou.
Cíntia pontua, porém, uma nova realidade: "Nos primeiros dias, a gente sentava na calçada e não via ninguém, mesmo, mas nunca deixou de ter morador. Antes eram poucos, você não via esse 'trânsito' de gente que vemos hoje, que é outra realidade".
A dona de um dos apenas dois mercadinhos existentes no vilarejo, que pediu para não ser identificada por questões de segurança, nunca deixou o distrito, mesmo com a situação de insegurança que se criou em julho de 2025.
O portão constantemente trancado foi a única 'segurança extra' da idosa, além de "Deus", segundo ela. O comércio nunca fechou, pois, segundo ela, "não tinha pra onde ir". Ela mora em Uiraponga com o marido e um dos filhos.
"Tudo que a gente tem é aqui, tudo que a gente fez, produziu, plantou e construiu é aqui. Como que a gente ia sair daqui de repente?", aponta.
Na contramão, há ainda quem ainda tenha medo de retornar, como a dona Mazé do Nascimento, que atualmente está na casa de uma familiar passando alguns dias: "O pessoal pergunta se eu vou voltar, eu não sei. Não vou dizer que não volto mais, porque eu nasci e me criei aqui. Mas eu não esqueço [a violência]. Agora não, sei não. Deus que sabe".
Recomeços
A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro, enfatizou que a localidade vive um processo de recomeço e esperança após o período de insegurança que causou o êxodo de moradores.



Em entrevista ao Diário do Nordeste, a prefeita rebateu críticas sobre a suposta omissão da prefeitura e afirmou que a administração municipal agiu "prontamente" para amparar as famílias que foram forçadas a deixar suas casas. Entre as medidas implementadas, Naiara Castro citou a concessão de aluguel social, distribuição de cestas básicas e o suporte contínuo por meio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).
Na área da educação e saúde, a estratégia foi garantir que o atendimento não fosse interrompido. "Nós criamos rotas escolares para que a gente não pudesse deixar esses alunos se espalharem. A gente queria que os alunos de Uiraponga ficassem juntos", afirmou.
"A verdade cabe em todo lugar", declarou Naiara pontuando que respeitou o sofrimento dos moradores e preferiu focar na busca por soluções junto ao governo estadual em vez de alimentar "palanques políticos".
Para a gestora, Uiraponga deve ser vista como uma potência cultural e econômica composta por cidadãos de bem que merecem ter sua dignidade e paz devolvidas.
Serviços essenciais retomados
Afetados pela crise de segurança pública que se instaurou no distrito, os serviços essenciais, como escolas e posto de saúde, também já foram retomados nos últimos meses. Atualmente, a Unidade Básica de Saúde dispõe de um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e um dentista.
À reportagem, uma funcionária relatou que o posto de saúde não chegou a "fechar". O movimento teria caído, por consequência do êxodo de moradores, mas os profissionais de saúde permaneceram assistindo à comunidade, tanto na sede do distrito quanto nas localidades rurais mais afastadas.
A Escola Francisco Galvão de Oliveira, que fechou as portas e transferiu alunos para uma instituição improvisada na sede de Morada Nova, voltou a receber alunos em 2026. A escola chegou a servir de base para policiais militares (PMs).
A Prefeitura de Morada chegou a decretar "situação anormal e emergencial" na localidade, devido ao agravamento da situação. Um decreto de agosto de 2025 autorizou o Município a tomar medidas excepcionais, como reorganizar o serviço público essencial.
O decreto permitiu:
- Reorganizar, especialmente, educação, saúde, transporte escolar, assistência social, limpeza urbana, abastecimento de água, iluminação e infraestrutura.
- Transferir temporariamente estudantes para escolas em localidades consideradas seguras.
- Alterar rotas e contratos do transporte escolar para atender à nova realidade.
- Remanejar atendimentos de saúde para outras unidades.
- Substituir ou transferir temporariamente profissionais que se recusem a atuar na região por questões de segurança.
- Ajustar contratos de serviços públicos essenciais mediante termos técnicos ou aditivos.
- Implementar ações humanitárias, incluindo transporte, apoio psicossocial e atendimento às famílias afetadas.
Guerra entre TCP x GDE causou insegurança
O deslocamento em massa da população se deu após integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) tomarem controle da região e ordenarem a expulsão de membros da Guardiões do Estado (GDE). O estopim, segundo relembram moradores, foi quando um homem foi executado a tiros na praça central do distrito.
Documentos aos quais o Diário do Nordeste obteve acesso apontam que foi instituída na região "uma violenta disputa territorial entre facções criminosas que resultou em um estado de terror generalizado, homicídios brutais e, de forma mais contundente, na expulsão forçada de dezenas de famílias, gerando um verdadeiro êxodo e a completa desarticulação da vida social e dos serviços públicos na comunidade".
Grupo liderado por José Witals da Silva Nazário, o 'Playboy', articulador do TCP, era quem ordenava os crimes em Uiraponga. Ele foi preso em São Paulo em 28 de julho de 2025. Os episódios fizeram a Polícia Militar passar a estar 24 horas na localidade, em uma força-tarefa para tentar devolver à população a sensação de segurança.
Desde julho de 2025, o distrito não registra homicídios
As informações mais recentes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) dão conta de que o distrito segue com policiamento fixo, o que foi comprovado pela reportagem no local. "A região conta com policiais militares lotados no Policiamento Ostensivo Geral (POG) e no Comando de Prevenção e Apoio às Comunidades (Copac) da Polícia Militar do Ceará (PMCE)", informou a pasta, em nota.
O distrito também conta com cinco câmeras de videomonitoramento e rondas de equipes do Batalhão Especializado em Policiamento do Interior (Bepi) e Comando de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio).
As ofensivas contra os criminosos que causaram dano e incitaram violência na região resultaram em 13 pessoas capturadas, conforme a SSPDS.
Créditos
Matheus Facundo, Repórter | Emerson Rodrigues, Supervisor de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Louise Dutra, Arte | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo
Homem é preso por suspeita de estuprar a própria mãe em Quiterianópolis, no Ceará
Escrito porRedação O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. / DIARIONORDESTE
Um homem de 54 anos foi preso em flagrante na quarta-feira (15), em Quiterianópolis, no interior do Ceará, suspeito de estuprar a própria mãe, uma idosa de 72 anos. O suspeito descumpriu medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha.
Naquele período, também foi registrado um boletim de ocorrência, cujo depoimento apontou crimes e a prática reiterada de violência por parte do suspeito.
Momento da prisão
Após diligências, policiais localizaram o homem na zona rural de Quiterianópolis e efetuaram a prisão em flagrante. Conforme a Polícia Civil, ele foi conduzido à Delegacia de Defesa da Mulher de Tauá, onde foi autuado pelos crimes de estupro e descumprimento de medida protetiva.
Suspeito com antecendentes criminais
Ainda segundo a corporação, o suspeito possui antecedentes criminais por tráfico de drogas, posse irregular de arma de fogo e tentativa de feminicídio. Após os procedimentos na delegacia, o homem foi encaminhado para uma unidade do sistema penitenciário, onde permanece à disposição da Justiça.
A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) orienta que informações que possam contribuir com investigações podem ser repassadas de forma anônima por meio do Disque-Denúncia 181, pelo WhatsApp (85) 3101-0181 ou pela plataforma e-Denúncia.
De acordo com a investigação, a vítima havia solicitado preteção em maio deste ano para impedir a aproximação do filho.
Para Janja, tudo é ‘misoginia’
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, afirmou em entrevista ao UOL que as críticas que sofre por supostamente gastar muito dinheiro público nas viagens oficiais são motivadas por “misoginia pura”. Donde se depreende que, por ser mulher, a sra. Janja acredita estar dispensada de dar explicações sobre seus gastos – escrutínio ao qual todos os integrantes do Estado brasileiro, independentemente do sexo, são submetidos. E a razão desse escrutínio é muito simples: trata-se do dinheiro de todos os contribuintes, inclusive milhões de mulheres que lutam diariamente para pagar suas contas e seus impostos.
Usar a acusação de “misoginia” como artimanha retórica para esquivar-se de perguntas incômodas chega a ser cruel com as muitas mulheres que cotidianamente sofrem preconceito pelo fato incontornável de serem mulheres. Não há dúvida de que a sra. Janja muitas vezes também é vítima desse preconceito, mas, no caso da cobrança de explicações sobre despesas pagas com dinheiro público, é obrigação da primeira-dama fornecê-las sem demora e com total transparência. A não ser que a sra. Janja se considere especial a ponto de não se sentir obrigada a dar satisfações sobre como gasta o dinheiro do contribuinte e de considerar preconceituoso quem as exige.
Aliás, parece ser este precisamente o caso: a sra. Janja se tem em tão alta conta que declarou, na mesma entrevista, que o Brasil nunca teve uma primeira-dama que “trabalha efetivamente” como ela – menosprezando a atuação, por exemplo, de Ruth Cardoso, que na Presidência do marido, Fernando Henrique Cardoso, idealizou o Comunidade Solidária, articulando Estado e sociedade no combate à pobreza. Segundo a sra. Janja, “a sociedade brasileira, de modo geral, e a imprensa também não estavam acostumadas com isso”, sugerindo que o Brasil é uma retrógrada sociedade patriarcal que não estava preparada para uma primeira-dama como ela e, por isso, não entende sua atuação.
Ora, se a sra. Janja estivesse realmente preocupada com a condição feminina, teria cobrado do marido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que procurasse nomear mais mulheres para o primeiro escalão – lembrando que hoje, dos 38 ministérios, apenas 8 são ocupados por mulheres. A esse respeito, contudo, a primeira-dama deu a resposta padrão dos petistas: a culpa é sempre dos outros – no caso, dos partidos da base governista que não indicam mulheres para os ministérios.
A mesma desculpa, contudo, não serve para as escolhas de Lula para os tribunais superiores. Até julho do ano passado, Lula havia indicado nove homens e apenas quatro mulheres. Para o Supremo Tribunal Federal, escolheu Cristiano Zanin e Flávio Dino e, na vaga seguinte, preferiu Jorge Messias. Ou seja, em três oportunidades, mesmo pressionado pela esquerda, não indicou nenhuma mulher. Com Dino na vaga de Rosa Weber, o STF ficou reduzido a uma única ministra.
Mas Lula, claro, não é “misógino”.
Era uma vez o teto salarial do funcionalismo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No Brasil, o teto salarial do funcionalismo continua existindo apenas porque ninguém teve coragem de suprimi-lo do texto da Constituição. Na prática, se transformou em obstáculo que os agentes do Estado se especializaram em contornar sempre que seus interesses entram em jogo. O drible dado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para liberar o pagamento de supersalários a servidores da Câmara, do Senado e da própria corte é apenas a mais recente demonstração dessa criatividade institucional instalada na República.
Na contramão do que se espera de um tribunal criado para zelar pela legalidade e pela responsabilidade do gasto público, a corte contrariou a posição de sua área técnica e abandonou o entendimento que ela própria vinha adotando sobre o tema.
Mas há uma diferença decisiva neste caso entre os demais penduricalhos e supersalários que pululam pelo País. Quando um órgão encarregado de fiscalizar o caixa da União passa a flexibilizar as regras justamente em benefício próprio e de seus principais interlocutores institucionais, o problema atinge a autoridade da própria instituição encarregada de fiscalizar o cumprimento das regras.
Até então, o próprio TCU entendia que a gratificação pelo exercício de função de chefia integrava a remuneração submetida ao teto constitucional, posição igualmente consolidada na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF). Mesmo assim, o plenário decidiu despudoradamente abandonar esse entendimento e criar uma exceção que, até então, não encontrava respaldo na interpretação adotada pelo próprio TCU nem pela jurisprudência consolidada do STF.
O julgamento atendeu a um pleito formulado pelos líderes do Congresso Nacional, beneficiou justamente servidores da Câmara, do Senado e do próprio TCU e foi conduzido por uma corte cuja composição mantém estreita ligação com o Parlamento. Dos atuais ministros, cinco chegaram ao tribunal após exercer mandatos parlamentares. Nada disso torna o julgamento ilegítimo por si só, mas decisões que favorecem quem as profere exigem um cuidado ainda maior para preservar aquilo que um tribunal de contas deve ter de mais valioso, que é a confiança pública em sua independência.
O tribunal existe para exigir responsabilidade fiscal, fiscalizar contas e apontar desvios na aplicação dos recursos públicos. Não pode, ao mesmo tempo, adotar para si uma interpretação mais flexível da Constituição sempre que os interesses de seus próprios servidores entram em discussão.
Nenhum órgão de controle conserva autoridade por muito tempo quando passa a exigir dos outros um rigor que já não aceita impor a si mesmo.
O precedente criado pela decisão talvez seja ainda mais preocupante do que seu impacto financeiro. Nenhuma carreira pública se considera comum. Todas elas encontrarão razões para afirmar que exercem funções singulares e, por isso, merecem tratamento diferenciado. Se cada categoria puder construir sua própria exceção ao teto constitucional, o limite deixará de ser uma regra geral para transformar-se em objeto permanente de negociação corporativa.
O teto constitucional existe porque o constituinte sabia que toda corporação tenderia, legitimamente, a defender seus próprios interesses. A função da Constituição foi impedir que esse impulso prevalecesse sobre o interesse público. Quanto mais exceções são abertas, menos força possui a regra. Ela vira apenas uma peça de ficção. Aos poucos, o teto deixa de limitar remunerações para se transformar em mera recomendação sujeita à criatividade jurídica de cada órgão.
É natural que servidores busquem melhores remunerações. Também é natural que sindicatos defendam seus filiados. O que não é natural é que o próprio tribunal encarregado de zelar pela legalidade do gasto público encontre meios de relativizar um dos principais limites impostos pela Constituição quando seus próprios interesses entram em jogo.
Quando até o fiscal passa a abrir exceções para si mesmo, o teto constitucional deixa de proteger a República e passa a depender da boa vontade daqueles que deveriam apenas cumpri-lo.
Muita política, pouca diplomacia
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O anúncio das tarifas americanas foi imediatamente absorvido pelo cenário eleitoral brasileiro. O presidente dos EUA, Donald Trump, e seu secretário de Estado, Marco Rubio, transformaram a política comercial em instrumento de coerção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva converteu a agressão em discurso de soberania. O senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente, tenta conciliar sua proximidade com Washington com o custo político de uma medida prejudicial ao País. Cada um joga o jogo que lhe parece mais conveniente. Enquanto isso, a diplomacia econômica brasileira ficou em segundo plano.
O novo tarifaço não surgiu de improviso. Foi o desfecho de uma investigação iniciada há um ano, acompanhada de consultas públicas, manifestações empresariais, audiências e negociações. Houve tempo para construir uma estratégia. O governo concentrou esforços em contestar as acusações americanas. Em muitos casos, tinha razão. Críticas ao Pix ou ao desmatamento são descabidas. Mas demonstrar que a outra parte está errada nunca foi suficiente para obter um acordo com Trump.
A Casa Branca utilizou a investigação comercial como instrumento de barganhas que pudesse anunciar como vitórias. Reino Unido, União Europeia, Japão, Índia e outros parceiros compreenderam essa lógica. Preservaram setores sensíveis, ofereceram contrapartidas selecionadas e conseguiram limitar os prejuízos.
O Brasil permaneceu na defensiva. Havia margem entre aceitar exigências inaceitáveis e esperar que os argumentos jurídicos prevalecessem. O etanol oferecia complementaridade entre as duas economias. A redução de certas tarifas e a modernização do sistema de patentes poderiam baratear tecnologia e insumos para as próprias empresas brasileiras. Nos minerais críticos, principal interesse estratégico de Washington diante da dependência da China, o governo poderia oferecer contrapropostas baseadas em investimento, processamento local, transferência tecnológica e contratos duradouros. Nenhuma dessas conversas exigia abandonar o Pix, tolerar ingerência no Judiciário ou entregar o controle de recursos minerais. Muitas coincidem com reformas que favoreceriam a produtividade da própria economia brasileira.
Essa agenda praticamente não apareceu, por três razões: 1) o governo confiou demais na consistência jurídica de suas respostas; 2) evitou enfrentar setores protegidos por barreiras que inclusive encarecem a produção brasileira; e 3) descobriu que discursos inflamados sobre soberania rendem mais votos do que tratativas discretas. A política eleitoral não só acompanhou o contencioso como restringiu as opções dos negociadores.
O resultado final mostra que a decisão não estava inteiramente fechada. A lista de produtos isentos mudou ao longo do processo. Categorias como o ferro-gusa recuperaram a isenção depois que empresas e importadores americanos provaram a inexistência de fornecedores alternativos. A disputa ocorreu produto por produto, estudo por estudo, empresa por empresa. Era um trabalho paciente, técnico e pouco visível – justamente o tipo de esforço que produz poucas manchetes e bons resultados.
Agora, o governo fala em “reciprocidade”, apoio a setores atingidos e contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC). São respostas compreensíveis, mas que mal administram o dano já causado. Há poucas razões para acreditar que uma retaliação faça Trump recuar. Os subsídios transferem aos contribuintes parte da conta. A OMC oferece legitimidade jurídica, mas pouco alívio.
O protecionismo de Trump é economicamente equivocado e politicamente oportunista. Isso tornava ainda maior a obrigação de o Brasil agir com antecedência, flexibilidade e conhecimento dos interesses em jogo. Ainda há espaço para buscar novas exceções, mobilizar empresas americanas e construir acordos sobre etanol, patentes ou minerais críticos. Mas essas oportunidades encolhem sempre que a política ocupa o espaço que deveria pertencer à negociação. Não basta defender boas razões. É preciso transformá-las em bons acordos. O governo já perdeu tempo demais. A eleição termina em outubro. O mercado americano, as necessidades brasileiras e as cadeias produtivas afetadas continuarão existindo muito depois dela.

