Entre o PIB e o boleto vencido
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma recente pesquisa Meio/Ideia ofereceu ao Palácio do Planalto um retrato bem menos confortável do que a propaganda oficial lulopetista gostaria de admitir. No cenário estimulado de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40,4% das intenções de voto, ante 37% de Flávio Bolsonaro, diferença que configura empate técnico, dentro da margem de erro. Mas o dado politicamente mais eloquente está em outro lugar, que explica em grande medida a estagnação presidencial nas intenções de voto e a perda de musculatura de seu governo: a avaliação dos brasileiros sobre a economia do Brasil sob Lula e o PT.
A pesquisa revela um país em que a percepção econômica é perturbadoramente negativa. Quando perguntados sobre o custo de vida, 30% dizem que ele “aumentou muito” e 40,4% que “aumentou, mas não muito”. Ou seja, cerca de sete em cada dez brasileiros percebem piora, apesar do discurso triunfalista dos morubixabas petistas sobre as conquistas econômicas do atual mandato. No endividamento, o quadro é igualmente adverso: 40% afirmam que as dívidas estão maiores do que em 2025, enquanto apenas 13% dizem que diminuíram. Não por acaso, o próprio levantamento destaca o peso decisivo desses fatores na definição do voto.
Não é preciso muito esforço para compreender o efeito político dessa percepção. Donde se constata algo sério, conforme a análise do fundador do instituto responsável pela pesquisa, Maurício Moura: a sucessão de Lula não será decidida na variação oficial do PIB (tampouco, acrescentemos, nas apresentações em PowerPoint de ministros empenhados em provar que a economia vai bem). Será decidida, isto sim, nas mesas de cozinha, nas compras parceladas, nas faturas acumuladas e na sensação de que a renda acaba antes do mês.
Eis o ponto em que o lulopetismo volta a exibir seu defeito de fabricação: a crença de que a narrativa pode revogar a realidade. O governo insiste em celebrar índices agregados, como se o cidadão organizasse a vida por séries estatísticas, e não pelo próprio bolso. Pode haver crescimento formal, melhora pontual de indicadores ou números tecnicamente respeitáveis, como os índices relacionados ao crescimento da renda e à redução do desemprego. Nada disso, contudo, altera o fato de que, para milhões de brasileiros, a economia real é a do supermercado, do cartão de crédito e do aluguel. E essa economia desmente, todos os dias, o otimismo oficial. Quando o custo de vida sobe e o endividamento aperta, o eleitor não quer explicação. Quer alívio. E, se não o encontra, pune.
Os padrões recentes do endividamento ajudam a explicar por que o governo está vulnerável. Dados da CNC mostram que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, nível recorde. Quase 30% têm contas em atraso e mais de 12% não conseguem pagar o que devem. Entre os mais pobres, o endividamento supera 80%, e, em média, quase um terço da renda mensal já está comprometida com dívidas.
Diante disso, o governo reage como de costume. Procura culpados longe de si e fabrica soluções de curto prazo. Ora são fatores externos, ora são bancos, bets ou “bilionários”. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as tentativas de empurrar o problema adiante: crédito consignado ampliado, programas de renegociação, promessas de alívio imediato. Quando a realidade aperta, o lulopetismo improvisa um paliativo e adia o enfrentamento estrutural.,Esse é seu vício ideológico. O PT segue tratando sintomas como solução, apostando mais em expedientes táticos do que em reformas duradouras. Em vez de enfrentar o custo do crédito, a desordem fiscal e a baixa produtividade, opta por atalhos que produzem algum efeito momentâneo e nenhum resultado consistente. É a política econômica da anestesia. E anestesia, como se sabe, não cura, só adia a dor.
Por essa razão, a pesquisa tem um significado que vai além da fotografia eleitoral. Ela mostra que Lula segue competitivo, mas já não consegue converter a vantagem do cargo em sensação de bem-estar. Enquanto o governo fala do PIB, o eleitor olha o rotativo do cartão de crédito. E, assim, Lula prossegue habitando sua ficção estatística. E ficções, na política, costumam ruir quando encontram a dura realidade do próximo boleto vencido.

