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Previdência perde 56% de arrecadação com benefícios fiscais e sonegação

Eduardo Cucolo / FOLHA DE SP

 

Mais da metade do valor que poderia ser arrecadado pela Previdência Social é perdido por meio de benefícios tributários, sonegação, inadimplência e litígios, de acordo com estudo elaborado por três auditores da Receita Federal.

 

A cada R$ 100 que poderiam ser arrecadados, apenas R$ 44 são de fato recolhidos. Imunidades constitucionais, regimes especiais, como o MEI (Microempreendedor Individual), e demais tratamentos especiais previstos na legislação correspondem a R$ 28 que deixam de entrar nos cofres do governo. A sonegação responde por R$ 22, enquanto as contestações de cobrança e valores lançados, mas não recolhidos, representam R$ 6.

"A fragilidade do financiamento da Seguridade não pode ser atribuída exclusivamente à evasão fiscal", afirmam os autores. "Parte significativa das lacunas decorre de escolhas institucionais incorporadas ao próprio desenho legal do sistema."

 

Com a redução dessas lacunas seria possível redistribuir a carga sobre os demais contribuintes e reduzir o déficit da Previdência Social, que superou a marca de R$ 320 bilhões em 2025 (2,6% do PIB).

O trabalho "Quem Financia a Previdência Social? Evidências Setoriais e Distributivas das Lacunas Tributárias no Brasil" foi elaborado pelos auditores Marcelo de Sousa Silva, Juliana Lemos Martins Casagrande e Guilherme Dal Pizzol, que fazem parte da Equipe Tax Gap da Receita Federal. "Tax Gap" é a expressão utilizada para identificar a lacuna na arrecadação devido aos fatores listados.

 

MERCADO DE TRABALHO EM TRANSFORMAÇÃO

Segundo os autores, a previdência brasileira é sustentada principalmente pelo trabalho formal de renda intermediária. Entre os mais pobres, a arrecadação é prejudicada pela informalidade.

 

Os extratos de maior renda, por outro lado, são os mais beneficiados pelas exceções legais que abrem espaço para a pejotização, muitas vezes com o uso do MEI ou de um CNPJ do Simples Nacional para reduzir a carga tributária.

 

Um incentivo para a informalidade e a pejotização citado no estudo é a tributação do emprego formal com alíquota de 28,5% a 37%, considerando apenas encargos previdenciários. A carga pode chegar a 77,7%, somados também impostos e outras contribuições sobre a folha de salários.

 

Os auditores destacam que a previdência depende de um mercado de trabalho baseado no emprego assalariado formal. Nas últimas décadas, essa base foi corroída por fatores como expansão do trabalho por plataformas digitais, terceirização, pejotização e a difusão de regimes tributários especiais, como o MEI e o Simples.

 

MICROEMPREENDEDOR

O MEI, regime cuja ampliação está em discussão, é apontado como uma das principais fontes de corrosão da arrecadação previdenciária.

Para os pesquisadores, o MEI exerce importante papel como instrumento de formalização de pequenos empreendedores e trabalhadores de baixa renda. Por outro lado, o regime também é utilizado por profissionais que deixam relações tradicionais de emprego para prestar serviços como pessoas jurídicas.

Eles afirmam que essa transformação não deve ser interpretada como irregularidade ou evasão fiscal, mas como uma resposta aos diferentes incentivos entre os diversos regimes tributários previstos na legislação.

 

Estudo do Banco Mundial com base em dados de 2019, citado pelos auditores, identificou que 51% dos registros como microempreendedores são feitos por trabalhadores que antes estavam no mercado formal, ou seja, que eram contratados como empregados celetistas. Cerca de um terço era composto por trabalhadores provenientes da informalidade.

 

PERDA POR SETOR

O trabalho também traz uma análise sobre 20 atividades e mostra que os setores de educação e saúde concentram elevado "gap de política", o que pode ser traduzido em amplos benefícios fiscais, devido à existência de muitas entidades imunes.

 

Indústria, comércio, serviços financeiros e os setores de informação e comunicação, por outro lado, estão entre aqueles em que a arrecadação efetiva mais se aproxima do potencial sob a legislação vigente.

 

Serviços domésticos e novamente educação e saúde estão entre os mais atingidos pela informalidade e sonegação. Uma hipótese citada por um dos autores é a existência de empresas privadas nos dois setores que sonegam para poder concorrer com as filantrópicas.

 

Uma terceira parte do estudo faz o mesmo recorte por faixa de renda e aponta que a alíquota efetiva média das contribuições previdenciárias é mais elevada nos estratos intermediários de renda. Ela cai abruptamente entre os 5% mais ricos, onde predomina a pejotização.

 

Os dados mostram que a redução da carga efetiva nos estratos superiores não se explica por evasão. "Ao contrário do gap de conformidade nas faixas inferiores, aqui a lacuna decorre predominantemente de
escolhas institucionais previstas na legislação", dizem os autores.

SUSTENTABILIDADE DA PREVIDÊNCIA

Diante dos dados, os especialistas propõem algumas frentes de discussão. Primeiro, o aprofundamento da avaliação de regimes diferenciados diante de seus efeitos fiscais e distributivos. Neste momento, o Congresso Nacional avalia justamente o contrário, a ampliação do MEI e do Simples.

 

Eles também apontam a necessidade de discussões sobre a interação entre mercado de trabalho e estrutura contributiva, a progressividade do sistema e as formas de financiamento da Seguridade.

 

LEGADO

Para evitar distorções na construção da metodologia, os auditores utilizaram informações das Contas Nacionais do IBGE e registros do fisco para 2019, o último ano antes da pandemia.

 

As próximas etapas do trabalho envolvem ampliação da série histórica até 2025, aumento do detalhamento setorial, estimativas por regime previdenciário e estudo específico sobre o MEI.

 

À Folha os pesquisadores afirmam que o principal legado deste primeiro estudo não é apenas estimar um indicador para 2019, mas estabelecer uma metodologia estatística que permitirá acompanhar, ao longo do tempo, a evolução das lacunas tributárias previdenciárias e subsidiar o debate público com evidências empíricas.

"Mais do que estimar perdas de arrecadação, o estudo inaugura uma forma de compreender o financiamento da Previdência Social brasileira, oferecendo evidências capazes de qualificar o debate sobre sua sustentabilidade e subsidiar futuras políticas públicas."

O trabalho é parte da Revista de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal de 2026. O acesso público ao documento está temporariamente bloqueado devido às restrições de divulgação de informações da legislação eleitoral. Também está entre os contemplados com o 1º Prêmio de Políticas Públicas de Previdência Social.

 

À Folha, Marcelo de Sousa Silva, um dos autores, afirma que o estudo representa a primeira etapa de um projeto mais amplo, a divulgação do Tax Gap Previdenciário pela Receita, um relatório oficial da Receita nos moldes dos já publicados sobre tributos sobre consumo (PIS/Cofins) e lucro das empresas (IRPJ/CSLL).

Trump ensaia mais uma guerra sem fim para os EUA

A inépcia de Donald Trump na condução de sua guerra contra o Irã ganhou um novo capítulo na semana que passou, quando o presidente americano declarou encerrada a trégua que havia estabelecido com Teerã em 17 de junho.

Depois de enlouquecer os aliados da Otan numa cúpula em que alternou insultos e afagos, o republicano ordenou novos ataques de maior escala contra a teocracia na quarta-feira (8).

O motivo foi o fracasso do memorando de entendimento com o Irã, que, na prática, abria uma avenida para que o adversário se fortalecesse a partir do controle do estreito de Hormuz.

A debacle se concretizou em três ataques iranianos a petroleiros que passavam pela região, canal de escoamento de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, antes da guerra iniciada por Trump e o israelense Binyamin Netanyahu no fim de fevereiro.

Restou aos EUA voltar à carga, com retaliação do Irã contra alvos americanos no golfo Pérsico. Após uma pausa na sexta (10), o padrão se manteve no fim de semana. O conflito ainda está longe de uma guerra ampla como antes, mas não deixa de indicar algo danoso para Trump.

Desde a campanha eleitoral de 2016, a retórica trumpista pregava o desengajamento dos EUA daquilo que chamava de guerras infinitas e inúteis. Com os desastres do Iraque e do Afeganistão em mente, o republicano fustigou o envolvimento em conflitos. No poder, não foi bem assim, mas apenas na sua volta à Casa Branca em 2025 o presidente embarcou no militarismo desabrido.

Trump fracassou nos seus objetivos maximalistas de mudança de regime e anulação da ameaça convencional e nuclear dos aiatolás, ainda que tenha degradado bastante as capacidades futuras e a articulação regional de Teerã.

O memorando de junho previa 60 dias de cessar-fogo e negociações sobre a bomba atômica iraniana. Houve pouco avanço e muitas concessões.

Suspeitando das intenções americanas, os iranianos resolveram assegurar seu maior achado estratégico no conflito: o poder de manipular o mercado internacional de energia por meio de simples ataques com lanchas e drones no estreito, a ser transformado em praça de pedágio.

A dinâmica de ataques pontuais de lado a lado sugere guerra continuada, tudo o que o Trump de 2016 prometia combater. O preço será conhecido nas eleições legislativas de novembro.

Enquanto isso, o Oriente Médio é redesenhado com um novo e mais agressivo papel do Irã, o fortalecimento do belicismo israelense e a maior influência da Turquia. O preço do petróleo vive na montanha-russa, e o Fundo Monetário Internacional calcula perdas para o crescimento econômico do planeta.

Adensa-se a incerteza global. A China mede perdas e muitos ganhos com a barafunda, a Europa se rearma e a Rússia ameaça escalar sua guerra na Ucrânia.

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Um alívio pontual na inflação

 

 

O IPCA de junho, com alta de apenas 0,16%, bem abaixo da expectativa mediana de 0,31% do mercado, foi o primeiro alívio em meses para a trajetória da inflação brasileira, mesmo que pontual.

 

O índice acumulado em 12 meses recuou para 4,64%, ante 4,72% em maio, ainda acima do teto oficial de 4,5%. Mesmo diante de incertezas externas, como a volatilidade dos preços do petróleo, pode haver algum espaço para o Banco Central continuar a reduzir os juros de forma cautelosa.

 

A melhora foi disseminada, abarcando produtos voláteis, como alimentos, bens industriais e serviços. A média anual das cinco medidas de núcleo de inflação mais usadas pelo BC e por analistas —que buscam medir a dinâmica de preços mais estrutural— passou de 4,64% para 4,43%.

Mesmo assim, segmentos que refletem pressões internas de demanda mantêm ritmo preocupante. O conjunto dos serviços ainda acumula alta próxima de 5,9% em 12 meses.

 

O cenário permanece cercado de riscos, ademais. A continuidade das tensões no Oriente Médio pode reverter a recente queda nos preços do petróleo e reacender pressões de custos.

 

O fenômeno climático El Niño, com probabilidade elevada de assumir forma severa no segundo semestre deste 2026 e se prolongar até 2027, ameaça a produção de alimentos. A corrida eleitoral e as indefinições sobre a política econômica após o pleito de outubro dificultam as projeções.

Nos últimos meses, as expectativas de inflação se elevaram de forma persistente, impulsionadas pelo encarecimento do petróleo e de seus derivados —e também pelo expansionismo orçamentário do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que neste ano eleitoral já criou despesas e operações de crédito que somam ao menos R$ 180 bilhões.

 

A injeção de recursos no curto prazo sustenta o consumo, mas pressiona a inflação e, consequentemente, a política monetária, na forma de juros altos.

 

Contudo, diante de limites fiscais evidentes, evidenciados pelo acelerado crescimento da dívida pública, os estímulos tendem a se reduzir nos próximos meses e, muito provavelmente, em 2027. O aperto financeiro provocado pela taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano, deve ganhar força sobre as contas de famílias e empresas.

 

O alívio da inflação em junho não é, por si só, um ponto de virada. Diante da perspectiva de arrefecimento da demanda doméstica, porém, deve permitir que o Banco Central prossiga com reduções graduais dos seus juros, a depender do panorama global.

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Expansão do crime organizado cria desafio institucional para Amazônia

Por Editorial / O GLOBO

 

A expansão do crime organizado na Amazônia deixou de ser apenas um problema de segurança pública. A infiltração nas instituições locais faz imperar a governança do crime, impulsionada pelo peso do narcotráfico na economia. A cocaína ocupou o sexto lugar entre as mercadorias mais importantes da região em 2024, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Considerando apenas a droga apreendida, movimentou US$ 703,7 milhões. Tomando como base a projeção (otimista) de que isso representa 10% do total, o FBSP calcula que transitaram pela Amazônia carregamentos de cocaína no valor de US$ 7 bilhões. A soja movimentou US$ 20,34 bilhões no mesmo período. A cocaína ainda está à frente de cereais e farinhas, carnes, fibras e têxteis, além do ouro.

 

As organizações criminosas têm à disposição a imensa malha de rios, áreas ermas para abrir pistas clandestinas e estradas pouco vigiadas para escoar a cocaína importada dos vizinhos Colômbia, Peru e Bolívia, maiores produtores mundiais da droga. O lucro do tráfico financia garimpo ilegal, grilagem de terra e extração clandestina de madeira. Pelo menos 17 facções criminosas atuam na Amazônia, entre elas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), em alianças com grupos locais. O estudo conclui que, dos 772 municípios da região, 170 — onde vive 23% da população local— estão sob “extrema exposição” ao crime organizado. São cidades como as capitais Macapá (AP) e Boa Vista (RR), dependentes de dinheiro público e cercadas de garimpos onde atuam facções criminosas. O estudo estima que 51,5% do PIB da Amazônia esteja em municípios com “alta” ou “extrema” exposição ao crime organizado.

 

Dois fatos ocorridos em 2016 ampliaram o garimpo ilegal na Amazônia e a conversão da região em rota fundamental do narcotráfico, diz outro estudo, de 2023. O primeiro foi o acordo de paz assinado pela Colômbia com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias colombianas (Farc). Nem todos os 13 mil combatentes aderiram ao acordo. Muitos continuaram na floresta, no controle de áreas de cultivo de coca, atuando no tráfico e em garimpos.

 

Naquele mesmo ano, a Venezuela, sob a ditadura de Nicolás Maduro, abriu 112 mil km² à exploração mineral. Organizações criminosas aproveitaram para se infiltrar no Arco de Mineração do Orinoco. No lado colombiano da fronteira, os dissidentes das Farc e outros grupos de guerrilha, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), aumentaram a presença criminosa.

 

Tal quadro justifica uma política de Estado ampla e integrada para proteger a Amazônia do crime organizado, com participação efetiva de países vizinhos. O Brasil não tem como enfrentar o problema sem pelo menos trocar informações com Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela. A pressão americana ao passar a tratar CV e PCC como organizações terroristas cria uma oportunidade para ampliar essa colaboração.

 

Pista clandestina de pouso na Terra Yanomami inutilizada pelas forças de segurançaPista clandestina de pouso na Terra Yanomami inutilizada pelas forças de segurança — Foto: Divulgação

Elucidação de homicídios é frustrante no Brasil

Por Editorial / O GLOBO

 

É decepcionante a constatação de que apenas quatro em cada dez homicídios dolosos cometidos entre 2023 e o fim de 2024 (ou 39%) tenham sido esclarecidos, de acordo com a última edição do relatório “Onde mora a impunidade?”, do Instituto Sou da Paz. O dado resulta de extensa pesquisa junto aos Ministérios Públicos e Tribunais de Justiça estaduais, realizada desde 2017. A média nacional de elucidação de homicídios tem se mantido na faixa entre 30% e 40%. É muito pouco para um país que enfrenta grave crise de segurança pública, com a atuação crescente de facções criminosas por todo o território nacional.

 

Só em 2024 houve 42.590 assassinatos, segundo o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mas apenas 13% dos 670.792 presidiários cumpriam penas por homicídio naquele ano, reflexo do baixo índice de elucidação do crime. Mais de dois terços (71%) dos delitos que geraram processos e condenações se dividiam entre os crimes contra o patrimônio (40%) — furto, roubo e extorsão — e aqueles relacionados a drogas (31%).

 

O Instituto Sou da Paz tem enfrentado dificuldades até para levantar dados confiáveis sobre a investigação dos assassinatos, condição indispensável para a implementação de políticas públicas eficazes. Na primeira edição da pesquisa apresentando o índice de solução de casos de homicídios, apenas seis estados enviaram informações. Com o tempo, o total dos que enviam os dados passou a girar em torno de 17, número insuficiente para obter um quadro fidedigno de todo o Brasil.

 

Esse número já permite, porém, identificar grandes variações entre as taxas de resolução dos crimes. Nem sempre a eficiência na investigação tem relação com o patamar de desenvolvimento local. No último relatório, Brasília e Rondônia aparecem com os melhores índices, respectivamente de 96% e 92%. Em São Paulo, a elucidação ficou em 31%, perto da média nacional. Na outra ponta, estão Bahia (13%) e Rio de Janeiro (23%), estados que enfrentam crises crônicas de segurança. Tais indicadores atestam que o poder público nos dois estados não tem conseguido desvendar crimes e punir seus autores, corroborando as suspeitas de infiltração das organizações criminosas nas corporações policiais.

 

A indigência do país no esclarecimento de crimes graves e na condenação dos culpados fica evidente na comparação com índices de outros países. A elucidação de homicídios está em 61% nos Estados Unidos, de acordo com o FBI, e em 92% em 35 países da Europa Ocidental, segundo a ONU. As lições externas demonstram que, para as investigações identificarem os responsáveis pelos crimes, é fundamental o trabalho policial técnico de inteligência. Ele é dificultado pela corrupção e pela infiltração do crime organizado nas instituições. A pesquisa do Instituto Sou da Paz expõe o fracasso do Estado na proteção da população. Ela não pode ficar na gaveta ou servir apenas para debates acadêmicos. Deve inspirar uma reação à altura de políticos e governantes.

 

Policiais carregam corpo de suspeito na Ladeira dos Tabajaras, no RioPoliciais carregam corpo de suspeito na Ladeira dos Tabajaras, no Rio — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo/15/04/2025

 

 

O fator inédito da eleição em SP que explica temor do PT sobre Tarcísio eleito no 1º turno

COLUNA DA MALU GASPAR/ Por Johanns Eller / O GLOBO

 

Salvo por uma reviravolta às vésperas das convenções partidárias, a eleição para governador em São Paulo em outubro será inédita. Apenas dois candidatos de legendas expressivas disputarão o cargo: o incumbente Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-prefeito da capital Fernando Haddad (PT). Conhecido pela profusão de lideranças, o estado sempre contou com três e até quatro candidaturas competitivas no primeiro turno desde a retomada do voto direto para o cargo, em 1982.

 

O quadro tem relação direta com o temor do PT e do entorno de Haddad com uma eventual vitória de Tarcísio já na primeira rodada, o que deixaria a campanha do presidente Lula bastante vulnerável em um possível embate contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, com o governador reeleito disponível para mergulhar na campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro.

 

Além de Haddad e Tarcísio, concorrerão ao Palácio dos Bandeirantes os nanicos Carlos Machado (PCB), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP). São partidos sem representação no Congresso Nacional e tempo de TV e rádio. Por lei, não recebem recursos do fundo eleitoral e, além disso, as emissoras não são obrigadas a convidá-los para os debates.

 

Na prática, a configuração da eleição estadual representa uma antecipação do segundo turno. Para o atual governador, basta receber 50% dos votos válidos mais um para ser reeleito com a vantagem de estar no controle da máquina pública e o apoio da maior parte dos prefeitos. O estado é o maior colégio eleitoral do país, com cerca de 34 milhões de pessoas aptas a votar – ou 22% do eleitorado nacional.

 

Na pesquisa Datafolha divulgada no último dia 5, Tarcísio marcou 46% das intenções de voto contra 30% do petista. Descartados os votos nulos e brancos, o pré-candidato do Republicanos chegaria a 52% dos votos válidos.

 

Vera Lúcia marcou 5%, seguida de Machado e Vivian, com 4% cada. Porém, os três não pontuaram na pesquisa espontânea, quando nenhum candidato é apresentado ao entrevistado – neste recorte, Tarcísio teve 21% das menções e Haddad, 8%. Historicamente, as intenções de voto em candidatos nanicos na pesquisa estimulada acabam dispersas entre as candidaturas de partidos maiores e com projeção no Congresso e no horário eleitoral.

 

Embora não admita publicamente, a campanha do PT contava com a candidatura ao governo de Kim Kataguiri (Missão), liderança do Movimento Brasil Livre (MBL) cujo eleitorado também se enquadra no campo da direita. Mas o deputado federal desistiu da empreitada e disputará a reeleição. Em menor grau, também havia expectativa em torno da federação PSDB-Cidadania na figura de Paulo Serra, que concorrerá a uma vaga na Câmara.

 

Os dois pontuaram 5% cada na última pesquisa Datafolha que os incluiu na relação de pré-candidatos, divulgada em março passado. Enquanto Kataguiri e o Missão se manterão neutros na corrida, a tendência é que Serra e os tucanos apoiem Tarcísio.

 

Em 2022, São Paulo foi determinante para o retorno de Lula ao Palácio do Planalto pela margem mais apertada da história, quando o petista venceu o então presidente Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos.

 

Embora derrotado por Bolsonaro a nível estadual, tanto o petista quanto Haddad venceram na capital, cidade mais populosa do país, e em cidades da região metropolitana como Diadema, Osasco, Francisco Morato, Itapecerica da Serra e São Bernardo do Campo, entre outras.

 

A título de comparação, Bolsonaro derrotou Haddad na disputa presidencial de 2018 em 631 dos 645 municípios paulistas, incluindo a capital. Na ocasião, o então candidato do PSL teve 55,1% dos votos válidos nacionalmente contra 44,9% do petista.

 

É esse pano de fundo que tem assombrado aliados próximos de Haddad a menos de um mês para o prazo limite para as convenções partidárias. O xadrez de São Paulo tende a ser novamente determinante para o desfecho nacional e, diante da indefinição sobre o palanque petista em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, ganha ainda mais importância na estratégia do PT.

 

Histórico

 

O duelo antecipado entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad já no primeiro turno não encontra paralelo no histórico paulista. Nos últimos 44 anos, sempre houve pelo menos um candidato viável além dos dois primeiros colocados, mesmo antes do segundo turno ser instituído pela Constituição de 1988.

 

O padrão se manteve mesmo quando o PSDB, que comandou São Paulo entre 1995 e 2023, tinha predomínio absoluto sobre a política paulista. Além disso, outras candidaturas periféricas, mas com votações medianas, ajudaram a forçar uma definição na segunda etapa.

 

Na eleição mais recente, a de 2022, Tarcísio e Haddad também se enfrentaram e levaram a eleição para o segundo turno. Na primeira etapa, superaram o então governador, Rodrigo Garcia (PSDB), Vinicius Poit (Novo) e Elvis Cezar (PDT), além de vários outros nanicos. O padrão se repete nas últimas quatro décadas.

 

Em 1982, quando Franco Montoro (PMDB) foi eleito derrotando Reynaldo de Barros (PDS), a dupla enfrentou outros dois candidatos de peso: Lula (PT) e o ex-presidente Jânio Quadros (PTB). Já em 1986, Orestes Quércia (PMDB) venceu a disputa e superou Antônio Ermínio de Moraes (PTB), mas Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT) também tiveram resultado expressivo.

 

Na primeira eleição a ter a previsão legal de segundo turno, em 1990, Luiz Antônio Fleury (PMDB) derrotou Maluf em uma votação apertada. Na primeira rodada, porém, os dois enfrentaram rivais fortes: Mário Covas (PSDB) e Plínio de Arruda Sampaio (PT).

 

Quatro anos depois, Covas levou a disputa no segundo turno contra Francisco Rossi (PDT), mas antes enfrentaram José Dirceu (PT) e Barros Munhoz (PMDB). Em 1998, o tucano foi reeleito contra Maluf. No primeiro turno, a dupla contou com três rivais de peso: Marta Suplicy (PT), Rossi e o ex-governador Quércia.

 

Já em 2002, Geraldo Alckmin (PSDB) bateu José Genoíno (PT). Maluf ficou de fora do segundo turno com mais de 20% dos votos válidos seguido de um pelotão que somava quase 1,4 milhão de eleitores: Carlos Apolinário (PGT), Lamartine Posella (PMDB), Carlos Pitolli (PSB) e Antônio Cabrera (PTB).

 

Na eleição seguinte, o tucano José Serra foi eleito em primeiro turno. Apesar disso, Aloizio Mercadante (PT) teve quase 7 milhões de votos, enquanto o ex-governador Quércia, Plínio de Arruda Sampaio e Apolinário somaram quase 2 milhões de eleitores.

 

Em 2010, outra disputa decidida já na primeira rodada, Alckmin voltou ao Bandeirantes, mas enfrentou quatro candidatos com votação expressiva: Mercadante, Celso Russomanno (PP), Paulo Skaf (PSB) e Fábio Feldmann (PV). O governador foi reeleito em 2014 no primeiro turno contra dois rivais também muito votados: Skaf (agora no PMDB) e Alexandre Padilha (PT).

 

Com a onda ultraconservadora que levou à eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018, São Paulo teve o segundo turno mais apertado da história. João Doria (PSDB) superou Márcio França (PSB) por apenas 741 mil votos.

 

Antes, enfrentaram Skaf, Luiz Marinho e uma fila de candidatos do Novo, PDT, PSOL, DC e PRTB que somaram quase 3 milhões de votos.

 

Como se vê, a batalha para que Haddad force um segundo turno contra Tarcísio no comando do Palácio dos Bandeirantes será duríssima.

 

O pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), à esq., e o incumbente, Tarcísio de Freitas (Republicanos)O pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), à esq., e o incumbente, Tarcísio de Freitas (Republicanos) — Foto: Brenno Carvalho/O Globo

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