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Universidade sem censura

A polarização político-ideológica impactou de modo nefasto os princípios fundamentais que regem o ensino superior, por vezes criando um ambiente intelectual sufocado por práticas persecutórias. Como reação necessária, professores e pesquisadores lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica —que já tem mais de mil assinaturas.

Interditos se dão seja por meio de notas de repúdio e campanhas em redes sociais contra docentes, pesquisadores e alunos, seja por meio de boicote a aulas, cancelamento de eventos e intimidação de palestrantes.

Exemplos não faltam. Pesquisa da Universidade Federal Fluminense compilou mais de cem casos nos últimos anos, entre eles o abaixo-assinado de estudantes da USP contra o retorno da professora Janaina Paschoal.

Em 2022, candidatos do Novo foram impedidos de dar palestra na Unicamp; no ano seguinte, ativistas e pesquisadores declararam Richard Miskolci, professor da Unifesp, persona non grata por sua crítica ao conceito de cisgeneridade; em 2024, a UnB cancelou o curso do professor Jorge Gordin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, após protestos antissionitas do alunado.

Trata-se de condutas inaceitáveis no ambiente acadêmico. Afinal, o respeito a ideias divergentes, à liberdade de expressão e ao debate racional, baseado em dados e critérios técnicos, é condição essencial da produção de conhecimento. A universidade é, por natureza, antiautoritária.

Por isso, o manifesto demanda o comprometimento com três pilares. Primeiro, a neutralidade institucional: "universidades devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas". Já a liberdade acadêmica exige "uma cultura organizacional pró-dissenso" que impeça perseguição e interdição de professores, pesquisadores e alunos por suas opiniões.

Por fim, o pluralismo advoga a expansão dos currículos para que abarquem obras de referência de campos diversos em disputa, como liberalismo, conservadorismo e progressismo.

Pesquisa do Instituto Sivis de 2025 mostra que 48% dos universitários evitam emitir opinião sobre assuntos polêmicos, principalmente sobre política, enquanto outra realizada pela USP e pela UFBA no mesmo ano aponta que 61% dos professores já evitaram certos temas por medo de sanção moral, política ou jurídica.

Universidades precisam conter o autoritarismo que estimula tal autocensura. Só assim poderão cumprir sua missão institucional e garantir legitimidade.

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Fim da 'taxa das blusinhas' é ponta do iceberg eleitoreiro

Por si só, a tal "taxa das blusinhas" tem impacto modesto na receita do governo e na economia, embora afete uma quantidade expressiva de consumidores. Sua revogação, porém, é uma amostra de como o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está disposto a sacrificar a prudência e a coerência administrativa em nome da corrida eleitoral.

A tributação de importações de pequeno valor, em especial provenientes da China, era uma demanda de varejistas nacionais que foi rapidamente encampada pela Fazenda petista, ansiosa por medidas capazes de elevar a arrecadação —e tentar, inutilmente, conter o déficit orçamentário impulsionado pela escalada contínua do gasto público.

É verdade que houve idas e vindas até a adoção da norma, pois Lula percebeu que haveria riscos para sua popularidade. No entanto, o presidente da República sancionou a norma —um imposto de 20% sobre importações até US$ 50, antes isentas— em junho de 2024, quando ela foi incluída pelo Congresso em mais um projeto do Executivo para auxílio à indústria automobilística.

Se o líder petista tomou a providência a contragosto, auxiliares importantes ficaram satisfeitos. O vice, Geraldo Alckmin, que ocupou também a pasta do Desenvolvimento, defendeu a proteção a empresas nacionais; o ex-ministro Fernando Haddad, da Fazenda, apontou a importância de evitar fraudes e contrabando —e a arrecadação federal ganhou cerca de R$ 5 bilhões anuais.

A decisão de revogar a taxa após menos de dois anos de vigência seria mais facilmente defendida por um governo preocupado em abrir a economia à competição externa, ou que não tivesse um déficit fiscal projetado em quase R$ 60 bilhões neste ano, sem contar gastos com juros.

Trata-se apenas, porém, de uma ponta de iceberg na ofensiva eleitoreira de Lula. Há apenas cinco dias, um levantamento da Folha apontou R$ 143,7 bilhões em benesses promovidas neste ano, entre gastos orçamentários e linhas de crédito.

De lá para cá, já se anunciaram R$ 11 bilhões para um novo plano de segurança pública, o fim da "taxa das blusinhas" e, nesta quarta-feira (13), mais subsídio para os combustíveis —desta vez, uma medida provisória para conter os preços da gasolina. Articula-se ainda no Congresso Nacional uma aprovação açodada da redução da jornada de trabalho.

Se, mesmo com esse ritmo frenético de uso da máquina pública, Lula permanece com baixos níveis de aprovação popular nas pesquisas de opinião, pode-se temer pelo que ainda virá nos quase cinco meses que restam até a abertura das urnas.

Recorde-se que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) chegou ao extremo de decretar um estado de emergência, aprovado com apoio da direita à esquerda, para viabilizar alta geral de gastos ao arrepio das leis fiscais e eleitorais. A polarização política, como se vê, vai incentivando heranças amargas para os governos seguintes.

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A volta de Ciro: por que o Ceará virou teste decisivo na carreira do ex-presidenciável

Escrito por Inácio Aguiar / DIARIONORDESTE
 
Em conversa por telefone, nesta segunda (11), Ciro Gomes comunicou o óbvio ao presidente nacional do PSDB, Aécio Neves: não disputará a Presidência da República. A decisão, que não surpreendeu a ninguém, encerra um período de especulações sobre o chamado ao Planalto e confirma o que o contexto da política cearense já desenhava: a disputa ao governo do Estado neste ano caminha para ser um teste de sobrevivência política para o veterano. 
 

Há dois desfechos antagônicos em teste na jornada de Ciro de volta às disputas estaduais: uma vitória dará fôlego político. Uma derrota dificilmente não sela o fim da sua carreira política. 

O retorno ao ponto de partida 

Desde a derrota nas urnas em 2022, quando obteve cerca de 3% dos votos no primeiro turno, Ciro acumulou reveses que fragilizaram sua posição no cenário nacional. Além do desempenho irrelevante nas urnas, o ex-presidenciável viu ruir o grupo político que construíra no Ceará. Nem a relação até então inabalável com o irmão Cid Gomes resistiu.  

Em 2024, escapou o último reduto relevante sob sua liderança: José Sarto, então filiado ao PDT, perdeu a reeleição em Fortaleza, ainda no primeiro turno.  

A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.

A filiação ao PSDB, sigla pela qual governou o Ceará nos anos 90, foi uma tentativa de se reapresentar ao eleitorado como o gestor técnico que um dia foi e que, na narrativa que tenta construir desde meados do ano passado, faz falta ao estado diante dos problemas de segurança pública e economia enfrentados na atual gestão petista.

 O PL, que abriga as lideranças alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, está praticamente certo no palanque estadual do tucano. Para um político que construiu sua trajetória como alternativa tanto ao PT quanto à direita bolsonarista, aceitar esse flanco é uma contradição que precisará ser explicada ao eleitorado. 

Os desfechos antagônicos 

O que está em jogo em 2026 para Ciro vai além de uma disputa pelo Palácio da Abolição. Na prática, é um teste decisivo sobre sua própria relevância política.  

Uma vitória no Ceará o mantém vivo como nome projetável para 2030. Uma derrota expressiva, após uma aliança que desafia sua própria base, pode representar o encerramento definitivo da carreira dele.  

 

(Atualizado às 08:33)
CIRO

 

PF investiga esquema de fraudes em contratações públicas em Pindoretama e Ibiapina, no CE

Escrito por Redação / DIARIONORDESTE
 

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira (12), a "Operação Papel em Branco", que investiga um suposto esquema de fraudes em contratações públicas envolvendo serviços de papelaria nos municípios de Pindoretama e Ibiapina, no Ceará.

Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em Fortaleza e Pindoretama, por determinação da Justiça Federal. A ação conta com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU).

Segundo a PF, a investigação apura possíveis irregularidades em dispensas de licitação realizadas por secretarias municipais, além de indícios de desvio de recursos públicos federais.

Durante a operação, os agentes buscam apreender documentos, aparelhos eletrônicos e outros materiais que possam auxiliar na identificação dos envolvidos e na análise da destinação do dinheiro público repassado aos municípios investigados.

Empresas movimentavam valores acima da capacidade operacional

As investigações começaram após um órgão de controle financeiro apontar movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade operacional de empresas que participaram das contratações públicas. Também há suspeitas de repasses indevidos a agentes públicos.

De acordo com a Polícia Federal, os investigados poderão responder por crimes como corrupção, fraude em licitações e lavagem de dinheiro.

O material apreendido será analisado e as investigações seguem em andamento.

Limites para a inteligência artificial nas escolas

O avanço da inteligência artificial forçou sistemas de ensino em todo o mundo a se adaptarem a essa tecnologia. Reveladora desse movimento é a inclusão da disciplina letramento midiático e em inteligência artificial na próxima edição do Pisa, exame internacional de desempenho escolar, em 2029.

No Brasil, uma resolução de 2025 do Conselho Nacional de Educação tornou a educação digital e midiática obrigatória a partir deste ano. Na segunda (11), o órgão estabeleceu diretrizes para o uso de IA nos ensinos básico e superior por meio da aprovação de um parecer prévio —que ainda passará por consulta pública.

O CNE faz uma diferenciação necessária entre as formas de uso. Quanto mais a IA se aproxima de avaliar, vigiar ou decidir o destino do aluno, maior o risco.

No nível de baixo risco, ela serve de apoio administrativo e pedagógico, como em organização de materiais, acessibilidade, revisão de textos sem atribuição de nota e planejamento de aulas.

No risco moderado, a IA interage com alunos, mas não toma decisões automáticas relevantes, casos de tutores virtuais, feedback formativo e apoio à escrita.

O alto risco se dá quando é possível afetar diretamente notas, aprovação ou direitos dos alunos, como em correção automática de provas, monitoramento biométrico e perfilização de alunos com base em comportamento, desempenho e frequência.

Por último está o risco excessivo, único nível proibido: decisões automáticas sobre aprovação ou expulsão, perfilização para punição e vigilância emocional.

Todos os outros níveis, apesar de permitidos, precisam seguir exigências específicas, que incluem transparência, segurança da informação, restrição de uso de dados, revisão humana, avaliação de impacto, direito de contestação e supervisão contínua.

O parecer também inclui a IA no currículo para que alunos compreendam o funcionamento da ferramenta por meio de análise crítica que identifique limites, fragilidades e periculosidade.

Para lidar com as desigualdades entre redes de ensino, indica-se a necessidade de ampliar a inclusão digital, com adaptação a especificidades locais e regime de cooperação federativa.

Segundo a TIC Educação de 2025, pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, só 54% dos professores tiveram formação sobre ferramentas digitais. Assim, ainda é preciso expandir a capacitação da categoria.

No geral, o parecer é bem-vindo, já que promove a tecnologia sem descuidar da integridade do ensino e dos direitos dos alunos.

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Plano de última hora para a segurança pública

Não é por falta de planos nacionais que a segurança pública brasileira vai mal. A depender do critério utilizado, pode-se contar uma dezena deles desde 2000, quando o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) inaugurou a série com o seu PNSP.

Só neste seu terceiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já lançou o esquecido Programa de Ação na Segurança (PAS), em 2023, e o Brasil Contra o Crime Organizado, que veio à luz nesta terça-feira (12). Entre um e outro, também mandou ao Congresso uma proposta de emenda constitucional voltada ao setor e um projeto, alterado e convertido em lei, para o combate às facções.

Decerto a mais recente iniciativa —anunciada a poucos meses das eleições para Presidência da República, Congresso Nacional, governos e assembleias estaduais— não será a mais promissora da lista. Mas ao menos Lula terá providências a elencar nos debates que travará com adversários à direita que farão da segurança sua bandeira.

O tema, sem dúvida, é de alta relevância para o eleitorado. Em pesquisa feita pelo Datafolha em dezembro de 2025, 16% dos entrevistados apontaram a segurança como o principal problema do país, percentual só superado pela saúde (20%).

Em março deste ano, 41% afirmaram notar a presença do crime organizado no bairro onde vivem, e similares 40% disseram ter sido vítimas de algum crime nos últimos 12 meses.

Para seu novo plano, a administração petista promete R$ 1 bilhão do Orçamento federal e mais R$ 10 bilhões em empréstimos do BNDES aos governos estaduais —valores que não chegam a impressionar perto dos R$ 143,7 bilhões em benesses já prometidas neste ano eleitoral.

Os quatro eixos principais para a aplicação dos recursos são corretos: combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, qualificação das investigações de crimes graves e fortalecimento do sistema prisional. Mas não é por prioridades erradas que os planos para o setor têm sido pouco eficazes.

Há problemas de continuidade de um governo para outro e de coordenação entre as ações da administração federal e dos estados. Tais deficiências são agravadas por divergências ideológicas entre Lula e os governadores, em grande parte de linha conservadora. Não à toa, a PEC da Segurança está parada no Senado.

A direita pode ter captado melhor os anseios do eleitorado nessa seara, mas segue presa a um ideário populista que combina aumento de penas e operações espetaculosas, não raro letais. A vertente bolsonarista piora a receita com liberação de armas, corporativismo policial e defesa da temerária equiparação de facções a grupos terroristas.

Resta esperar que o flagelo imposto por PCC, CV e congêneres a comunidades inteiras, além de sua infiltração crescente no poder público e na economia, por fim leve à superação desses obstáculos políticos e federativos.

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