Parente não é suplente
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) deve colocar o irmão, Diego Torres, como suplente. No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP), que já teve a própria mãe como sua substituta, agora pretende lançar o irmão, Raimundo Nogueira, para a mesma função. A suplência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), também é consanguínea. Seu irmão Josiel Alcolumbre ocupa o posto de primeiro suplente. Todos os casos estão dentro da lei. Mas revelam uma excrescência da democracia brasileira: a transformação da suplência do Senado em um negócio de família.
Há ainda outros exemplos. Também pré-candidata ao Senado pelo DF, a deputada Bia Kicis (PL-DF) lançou o filho Samuel para sua suplência. Policial militar da reserva, o senador Styvenson Valentim (Podemos-RN) confirmou a irmã Anne Kelly para a função. No passado recente, a mulher do senador Eduardo Braga (MDB-AM), Sandra Braga, já foi sua suplente e chegou a assumir mandato no Senado Federal em 2015. A lista é grande.
O problema não é apenas a lei permitir esse arranjo. Nada obriga um candidato a transformar a suplência em assunto de família. É uma escolha. O pior é que a política brasileira transformou essa permissão em licença para distribuir mandatos entre parentes. O eleitor imagina estar escolhendo um senador, mas, como é obrigado a votar no pacote fechado, pode acabar representado pelo irmão, pela mãe, pelo filho ou pelo cônjuge do candidato em quem votou. Em nenhum outro cargo eletivo essa naturalização do parentesco é tão escancarada.
Imagine-se, por um instante, que ministros de Estado, governadores ou prefeitos anunciassem a intenção de deixar seus cargos para parentes. A justa indignação seria imediata. No Senado, porém, esse expediente foi incorporado à rotina política.
Os mesmos políticos que costumam defender rigor ético na administração pública, condenar privilégios e exigir respeito aos princípios da moralidade não enxergam qualquer constrangimento em reservar uma cadeira no Senado aos próprios parentes. A vida pública exige mais do que o estrito cumprimento da lei. Nem tudo o que é legal é compatível com a responsabilidade de representar milhões de eleitores.
O Congresso sabe, há anos, que esse modelo é indefensável. Em 2013, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição que proíbe a escolha de parentes como suplentes e reduz seu número de dois para um. Desde então, a matéria permanece convenientemente esquecida na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, parada juntamente com outras propostas similares.
Não faltam projetos. Falta vontade política para aprovar uma regra que atingiria justamente muitos dos parlamentares encarregados de votá-la.
A política brasileira já convive com dinastias familiares em excesso. Mandato não é herança, nem patrimônio de família. Quem trata uma cadeira no Senado como extensão da própria árvore genealógica pode até estar amparado pela lei, mas dificilmente honra o espírito republicano que deveria orientar a vida pública.
Sem perspectiva de juros baixos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Depois da confusão causada em junho, o Banco Central (BC) optou pela concisão ao reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano. Não houve surpresas em relação à decisão, que já era amplamente esperada pelo mercado financeiro, mas o curto comunicado divulgado após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ainda que não tenha sinalizado claramente quais serão os próximos passos a serem adotados, ao menos não abriu margem para contradições.
De fato, são tantas as incertezas que parece prudente deixar todas as possibilidades em aberto até a próxima reunião, em setembro. No exterior, a duração dos conflitos no Oriente Médio permanece uma incógnita. Já no mercado doméstico, há alguns sinais de que a economia perdeu força, a despeito de todas as medidas eleitoreiras que o governo Lula lançou nos últimos meses.
Sobre isso, o BC não dourou a pílula, ao reconhecer que os “desenvolvimentos da política fiscal” impactam a política monetária e os ativos financeiros e reforçam incertezas. Manteve, também, a menção a “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária”.
Entre os analistas, há quem veja motivos de sobra para continuar a reduzir a Selic, assim como há quem avalie que o espaço para cortar os juros se exauriu. O fato é que há uma grande diferença entre as projeções de inflação para o primeiro trimestre de 2028 – o chamado “horizonte relevante”, que guia as decisões do Copom. Para o BC, elas continuam em 3,2%; para o mercado financeiro, segundo a última edição do Boletim Focus, elas estão em 3,8%. De qualquer forma, ambas permanecem acima do centro da meta, de 3%.
O balanço de riscos que o BC avalia para tomar suas decisões também continua assimétrico, ou seja, com mais chances de a inflação subir do que cair. Além da guerra, das medidas do governo e das expectativas de inflação, permanecem os potenciais efeitos do Super El Niño na produtividade do agronegócio e as pressões do setor de serviços na inflação. Na outra ponta, figuram a desaceleração da economia no País e no exterior e a redução nos preços das commodities.
A ata da reunião, a ser divulgada na próxima semana, pode ajudar a dissipar algumas dúvidas sobre o cenário, mas é improvável que traga sinalizações mais explícitas sobre a visão do BC. Escaldado pelos ruídos da reunião anterior, o Copom parece decidido a incorporar o estilo lacônico que o banco central norte-americano adotou sob a direção de Kevin Warsh, que assumiu o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) em maio deste ano, sob as bênçãos do presidente dos EUA, Donald Trump.
Uma coisa é evitar se comprometer com decisões futuras sobre os juros, o que os bancos centrais têm todo o direito de fazer, sobretudo em momentos de tanta instabilidade. Outra, bem diferente, é tomar uma decisão em um sentido quando os dados indicam o oposto. O problema, nesse caso, não foi excesso de informação, mas falta de coerência, algo crucial para a credibilidade das instituições.
De um lado, a desaceleração da inflação nos últimos dois meses, por exemplo, está bastante relacionada às ações para conter os preços dos combustíveis e ao comportamento dos alimentos, que costuma recuar nessa época do ano. Do outro, as medidas para expandir o acesso ao crédito lançadas pelo governo mal começaram a fazer efeito, e o Executivo já cobrou que os bancos públicos abram o cofre e flexibilizem restrições para os encalacrados.
Se os juros cairão ou não em setembro, não se sabe, mas é certo que eles seguirão em nível muito elevado. Uma redução estrutural da Selic depende, necessariamente, de um duro ajuste fiscal, algo sobre o qual nem o presidente Lula nem os candidatos da oposição querem falar neste momento. Enquanto isso não ocorrer, as contas públicas permanecerão desequilibradas, a trajetória da dívida continuará com viés de alta e a inflação seguirá sob pressão, razão pela qual não há motivo para esperar taxas mais civilizadas.
Marcola é Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O sr. Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo “Marcola”, é um zé-ninguém que só existe como extensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem foi o mais próximo assessor no Palácio do Planalto e a quem devota lealdade canina. Por isso, as suspeitas que recaem sobre ele não podem ser tratadas como um problema circunscrito à esfera privada de um assessor qualquer. Marcola admitiu ter recebido, a título de “empréstimo”, R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista com interesses diretos junto ao governo federal e que tem relações com um dos suspeitos de liderar o esquema de assalto aos aposentados do INSS, o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Marcola é o segundo sujeito muito próximo de Lula a se ver envolvido em obscuros negócios com a sra. Luchsinger. O primeiro, como se sabe, é Fábio Luís Lula da Silva, vulgo “Lulinha”, o filho mais velho do presidente e que é amigão da lobista. Portanto, Lula não pode dizer simplesmente que não sabia de nada, terceirizando a responsabilidade a “aloprados” – termo que Lula usou na campanha eleitoral de 2006 ao se referir a petistas que tentaram comprar um dossiê contra seu adversário José Serra.
Como chefe de gabinete de Lula até poucas semanas atrás, Marcola controlava pessoalmente o acesso – inclusive físico – ao presidente. Consta que Lula nem sequer possui celular próprio, valendo-se inúmeras vezes do aparelho de seu assessor pessoal para se comunicar ou ser alcançado por interlocutores. Nada do que diz respeito a Lula, nem mesmo sua relação com parentes, amigos e políticos, passava ao largo do crivo de Marcola. E é justamente esse guardião das chaves de acesso ao poder maior da República que aparece agora enredado em uma investigação da Polícia Federal sobre as fraudes no INSS.
Convém explicar aos distintos leitores quem é essa figura. Formado em Ciências Sociais, Marcola passou por gabinetes na Assembleia Legislativa de São Paulo e na Câmara dos Deputados antes de se aproximar de Lula no Instituto Lula, há cerca de dez anos. Quando Lula foi preso, Marcola paralisou a própria vida para ir viver em Curitiba entre os apoiadores do petista que levantaram acampamento nos arredores da sede da Polícia Federal (PF) na capital paranaense. Foi ali que Marcola fortaleceu sua relação de intimidade com Lula na base da devoção religiosa.
Para defender o sabujo, Lula saiu-se com esta: “Quem nunca pediu um empréstimo para um amigo?”. De fato, ninguém está livre de passar por um aperto financeiro na vida, mas por que não recorrer a uma instituição bancária, como faz a esmagadora maioria dos cidadãos em dificuldade? Se o objetivo era recorrer a uma pessoa física, entre todos os 200 milhões de brasileiros disponíveis, por que Marcola escolheu como mutuante justamente uma notória lobista com interesse direto em acessar autoridades do governo federal para defender negócios de seus clientes – acesso este que passava pelo crivo do próprio mutuário?
Há boas razões para os cidadãos suspeitarem que o tal repasse não foi empréstimo coisa nenhuma. O jornal Valor revelou que a sra. Luchsinger chegou a pagar contas pessoais de Marcola como contrapartida à liberação de acesso da lobista ao ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Swedenberger Barbosa. Onde já se viu empréstimo em que o credor banca a vida cotidiana do devedor? E mais: Marcola só devolveu o dinheiro depois de ser avisado, pasme o leitor, de que suas conversas com a lobista haviam sido descobertas pela PF, no âmbito da investigação que corre contra ela por suspeita de participação nas fraudes do INSS. Quem o avisou? Essa pergunta tem de ser respondida por Lula e Marcola urgentemente.
Lula se jacta do fato de a PF ser independente em seu governo para investigar quem quer que seja, como se isso fosse concessão sua, não imperativo legal. Ora, que a PF investigue os fatos com absoluta isenção e rigor técnico é o mínimo que se espera. Mas Lula não pode se escudar nessa bravata, de resto ociosa, para se eximir da responsabilidade que lhe cabe nesse rolo por ter premiado a subserviência de um obscuro campista com a chave do Gabinete Pessoal da Presidência da República.
Suspeitas justificam investigar filho e ex-assessor de Lula
Por Editorial / O GLOBO
É preciso esclarecer a fundo as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que rondam o Palácio do Planalto. Elas envolvem personagens como o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o governo para atuar na coordenação da campanha à reeleição de Lula, depois se viu constrangido a deixar a própria campanha diante das denúncias.
Lulinha é alvo de três inquéritos, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal para apurar se ele favoreceu empresários interessados em negócios com órgãos públicos e se atuou em benefício próprio. Marco Aurélio é investigado por ter recebido dinheiro de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e parceira de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como chefe do esquema bilionário de fraudes que lesou aposentados. Embora os acusados neguem as acusações e apontem motivação política nas denúncias, são suspeitas graves demais para ser desprezadas.
Por mais que Lula queira se distanciar dos escândalos, as novas revelações o constrangem às vésperas da campanha eleitoral. Por envolverem figuras extremamente próximas a ele, demandam explicações rápidas e convincentes. As acusações contra Marco Aurélio agravam a crise instalada pelas investigações contra Lulinha, alvo de dois inquéritos autorizados pelo ministro André Mendonça e de um terceiro avalizado pelo ministro Flávio Dino. Marco Aurélio confirmou ter recebido o dinheiro de Roberta, como revelou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO. Alega ter sido um empréstimo pessoal e afirma ter devolvido R$ 249 mil a ela por meio de transferência bancária. As transações de Roberta estão no radar de várias investigações da Polícia Federal (PF) decorrentes das fraudes no INSS.
As investigações tentam esclarecer se Lulinha se aproveitava da proximidade com o poder para abrir as portas do Ministério da Saúde, da Dataprev e de outros órgãos públicos a empresários e lobistas como Antunes, preso pelas fraudes no INSS. Ele é apontado como interessado em firmar contratos com o governo para fornecer Cannabis medicinal ao SUS. De acordo com a PF, pagou viagem de Lulinha a Portugal para visitar uma fábrica de medicamentos. Roberta reconheceu ter apresentado Lulinha a Antunes e foi diversas vezes ao Palácio do Planalto, por vezes para encontros que não ficaram registrados em nenhuma agenda.
Lula tem repetido que não protegerá o filho e que as investigações demonstram a autonomia da PF. Mas é indisfarçável o mal-estar no entorno do presidente. É natural que aliados acusem objetivos políticos nas investigações. Mas os petistas fazem o mesmo quando escândalos abalam seus oponentes. Apurações da PF e decisões da Justiça não podem ficar condicionadas ao calendário eleitoral, especialmente quando tratam de suspeitas graves de tráfico de influência e corrupção dentro do governo. É preciso investigar. Se ficar comprovado algum crime, os responsáveis terão de responder de acordo com a letra da lei, independentemente de sobrenome ou relação política.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/04/08/2026
Mesmo com interferência estrangeira, disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro cheira a mofo
Por Malu Gaspar / O GLOBO
Pode-se dizer que a corrida presidencial começou para valer com a oficialização dos candidatos e suas chapas e com a definição do quinhão de tempo de TV e rádio de cada um. Como sempre, os discursos nas convenções, as escolhas de vices e a formação (ou não) de coligações movimentaram o noticiário. Olhando bem, porém, à exceção das tentativas de Argentina e Estados Unidos de se enfronhar no processo eleitoral, que ainda podem ter consequências, todo o resto cheira a mofo.
O tumulto na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), inaugurado com as revelações do caso “Dark Horse” e agravado pela briga pública com Michelle Bolsonaro, teve uma trégua com a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice. Os números da pesquisa Genial/Quaest divulgados ontem mostram que a relativa calmaria na campanha ajudou o candidato do PL a recuperar um pouco do terreno perdido para Lula.
Mas, se há uma certeza no mundo kardashiano dos Bolsonaros, é que logo teremos novas tretas para movimentar as redes sociais.
Lula, que concorre de novo com o mesmo vice, declarou, no palco da convenção em que foi confirmado candidato, que agora vai. No quarto mandato, ele vai ser “ousado”, “vai mudar coisa nesse país”, e “vai ter briga com emenda parlamentar”.
Nem ele mesmo acredita no que diz, mas isso não importa. De agora até o primeiro turno, jogará a bola para o lado e evitará tomar gol, enquanto sua verdadeira estratégia de campanha vai sendo executada a partir do Palácio do Planalto, com Desenrola 2.0, Gás do Povo e o impulso do Move Brasil, entre outros programas destinados a convencer o eleitor de que vale a pena mantê-lo no poder.
A ordem no comando da campanha é que Lula não vá a debates ou sabatinas promovidas pelos veículos da imprensa profissional. A prioridade na agenda é dos podcasts, em que ele costuma falar sem ser apertado e pode passar recados sem interferências.
Flávio, por sua vez, já decidiu que só vai aonde Lula for. Tudo isso favorece a manutenção do cenário de polarização Lula/Flávio, com pouca diferença entre os dois nas intenções de voto — a menos, é claro, que o imponderável venha a dar as caras.
A má notícia para ambos é que ele sempre aparece, e nesta semana fez uma visita a Lula. Três inquéritos foram abertos no Supremo Tribunal Federal para investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo seu filho Zero Um, Fábio Luís Lula da Silva, mais conhecido como Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete e coordenador de campanha, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Companheiro fiel de Lula desde antes da prisão, Marcola foi obrigado a admitir ter recebido R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista do “Careca do INSS” em Brasília (e, pelo visto, no Palácio do Planalto).
Que Lulinha tenha se envolvido em novos rolos depois de tudo o que já se documentou a respeito dele desde o caso Gamecorp, não chega a ser surpresa para quem o conhece. Ainda assim, segundo o que se ouve na campanha, o impacto de eventuais revelações sobre uma ligação entre ele e o escândalo do INSS já estava “precificado”. Num dos podcasts a que compareceu nos últimos dias, Lula recitou a frase já ensaiada:
“Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas. Se ele estiver certo, ele vai ter ajuda minha. Se ele fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei”.
O que não estava precificado era o envolvimento de Marcola no escândalo, e a saída dele da campanha não aplaca a ansiedade no entorno de Lula. Quem conhece a fundo a história dos rolos de Careca, Lulinha e Marcola no INSS aposta que vem mais coisa por aí. Até que ponto esse caso pode machucar o desempenho de Lula na corrida eleitoral, ainda é difícil dizer.
Ao mesmo tempo, ninguém que conheça bem a dinâmica de uma eleição duvida que Flávio fatalmente será alvejado por novas denúncias até o primeiro turno.
Numa disputa eleitoral tão apertada, cada jogada conta pontos e, como a criatividade do roteirista do Brasil é infinita, novos lances gerarão mais manchetes e podem, no limite, afetar o resultado final do pleito.
Com tanto agito, pode parecer contraditório dizer que a disputa deste ano cheira a mofo. Não é. O rumo que esta eleição tem tomado é o mesmo das anteriores: uma sequência infindável de tretas, denúncias e debates estéreis, em que os temas que realmente importam — do endividamento da população à segurança pública, passando pelo problema fiscal e pelas deficiências na educação — nunca são discutidos seriamente.
Entre tantas divergências, este é o único ponto comum entre os candidatos que têm voto: os dois estão se empenhando para atravessar a corrida sem submeter à população um projeto concreto de futuro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PL à presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ) — Foto: Brenno Carvalho/O Globo
O Interesse do Brasil sai derrotado na tensão diplomática
Diz-se que na guerra a primeira vítima é a verdade. Na tensão diplomática com os governos dos Estados Unidos e da Argentina, sai perdendo o interesse do Brasil.
A agenda eleitoral incentiva o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a desafiar a Casa Branca e a Casa Rosada, pois ele tende a ser favorecido na disputa pelo quarto mandato ao explorar o tema da "soberania nacional" diante do assédio de aliados estrangeiros de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
A estultice e a péssima assessoria de Donald Trump o empurram na direção ansiada pelo mandatário brasileiro. A novidade é que um esbirro do trumpismo na América do Sul, Javier Milei, juntou-se à fanfarronice. Lula, que já tinha o cabo eleitoral mais poderoso do planeta atuando a seu favor, ganhou de bônus um ventríloquo apatetado argentino.
EUA e Argentina ocupam, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares nas relações comerciais do Brasil. A soma de transações de compra e venda com esses dois países representa quase 20% da corrente de comércio. O intercâmbio com EUA e Argentina soma cerca de US$ 110 bilhões anuais, uma cadeia de valor e empregos importante demais para ser tratada com leviandade.
O interesse público brasileiro é preservar a relação comercial e diplomática secular e pacífica com as duas nações, para a qual Trump e Milei representam ruído episódico. O primeiro, a pouco mais de dois anos da porta da rua, não pode ser reeleito e não deixará herdeiros nem saudades na sociedade dos EUA, assolada pela inflação e pela insegurança causadas por suas histrionices de ditador de república de bananas.
Diante desse quadro, não faz sentido a atitude ginasiana do Itamaraty de negar visto a dois assessores do Departamento de Estado que viriam ao Brasil no fim de julho supostamente numa missão para detratar as urnas eletrônicas brasileiras. Qual seria o problema se os dois gringos baixassem aqui e repetissem as parvoíces do bolsonarismo sobre o sistema de votação? Seriam imediatamente rebatidos com fatos e ponto final.
Como disse o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, a urna eletrônica é um patrimônio da democracia brasileira, e o melhor modo de defendê-lo é expor à luz do sol todas as suas características técnicas e responder com transparência às indagações que surjam. Calar emissários das teorias da conspiração só fará disseminar a farsa de que o TSE tem algo a esconder sobre o tema.
A negativa aos enviados de Trump, porém, encaixa-se muito bem na lógica eleitoral do candidato petista à reeleição. Ela provocou o departamento comandado por Marco Rubio, o boçal que posa de vice-rei da América Latina, a reagir duas oitavas acima e cancelar o visto da embaixadora brasileira em Washington.
Ganha o candidato Lula, mas perde a Presidência da República do Brasil.

