Deterioração a olhos vistos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Nas últimas duas décadas, o Congresso Nacional acumulou um poder que jamais teve desde a redemocratização. Controla uma parcela crescente do Orçamento da União, dita boa parte da pauta nacional e já não se limita a aprovar ou rejeitar propostas do Executivo. O problema é que esse protagonismo não fortaleceu o Parlamento. Pelo contrário: concentrou poder, enfraqueceu seus próprios freios e deteriorou a qualidade do processo legislativo.
Ao analisar esse processo, um estudo da Fundação FHC intitulado O fortalecimento do Legislativo no Brasil: contribuição para o aperfeiçoamento institucional do Congresso, que acaba de ser divulgado, faz uma constatação preocupante. Segundo o estudo, parcela importante desse fortalecimento ocorreu por vias informais. Ora, um Parlamento não pode funcionar à base de arranjos improvisados, regras flexíveis e decisões tomadas conforme a conveniência do momento. Quanto mais poder concentra, maior deveria ser sua obrigação de respeitar procedimentos claros, previsíveis e transparentes. O que se vê hoje é justamente o contrário.
Tome-se a banalização do regime de urgência para aprovação de projetos de lei, principalmente na Câmara dos Deputados. Transformar um mecanismo excepcional na principal porta de entrada das votações significa tratar o debate parlamentar como um incômodo a ser eliminado, e não como a essência da atividade legislativa. Não surpreende que esse ambiente favoreça também a proliferação dos chamados “jabutis”, dispositivos estranhos ao tema principal que passam despercebidos. Não é modernização do processo legislativo. É empobrecimento.
Essa distorção ganhou escala durante a gestão de Arthur Lira (PP-AL) na presidência da Câmara. Em 2024, a Câmara bateu recorde de requerimentos de urgência aprovados no primeiro semestre em mais de duas décadas. A chegada de Hugo Motta (Republicanos-PB) não interrompeu esse processo. A exceção continua sendo tratada como regra.
Há ainda outras camadas. O Colégio de Líderes, concebido para organizar de forma colegiada a pauta da Câmara, passou a operar numa zona cinzenta entre a formalidade e a informalidade, enquanto o presidente da Casa concentrou maior poder sobre a agenda legislativa. O plenário deixou de ser o espaço do convencimento. Passou, cada vez mais, a funcionar como cartório de decisões tomadas antecipadamente. O próprio estudo alerta para o “deslocamento da deliberação para arenas menos visíveis” e para a ampliação da discricionariedade na condução da agenda legislativa.
A manutenção das votações híbridas após o fim da pandemia também aprofundou essa lógica. O parlamentar pode registrar presença e votar a distância, mas legislar nunca foi apenas apertar um botão. Debate, negociação e convencimento exigem presença. Quando a exceção se institucionaliza, também se esvazia a deliberação.
O mesmo ocorreu com as emendas parlamentares. Ao ampliar seu controle sobre parcelas crescentes do Orçamento, o Congresso passou a decidir o destino de bilhões de reais por mecanismos que ainda convivem com baixa transparência, critérios pouco claros e sucessivos questionamentos judiciais. Não é por acaso que esse sistema se tornou alvo de investigações, decisões do Supremo Tribunal Federal e cobranças por maior rastreabilidade. Quem reivindica mais poder também precisa aceitar mais controle.
Nenhuma dessas distorções surgiu por acaso. Todas obedecem à mesma lógica de concentrar decisões em poucos atores, reduzir o debate público e flexibilizar regras sempre que elas se tornam inconvenientes. Como observa o estudo da Fundação FHC, “processos opacos ou excessivamente discricionários enfraquecem o Congresso enquanto instância representativa e reduzem a legitimidade social das decisões tomadas”. É exatamente esse o risco que hoje se impõe ao Parlamento.
Recuperar o papel das comissões, restringir o abuso das urgências, devolver transparência ao processo legislativo e restabelecer limites institucionais não significa enfraquecer o Congresso. Significa fortalecê-lo de verdade. Um Parlamento que concentra cada vez mais poder enquanto abandona os freios que deveriam discipliná-lo não se torna mais eficiente, mas sim mais arbitrário – e aberto à corrupção.
A conta de padaria do STF
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No primeiro dia de retomada dos trabalhos após o recesso, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu fazer populismo jurídico e anular, por unanimidade, o trecho da regulamentação da reforma tributária que limitava a isenção de impostos para compra de veículos a pessoas com deficiência mental de nível severo e com transtorno do espectro autista de nível moderado ou grave.
Proposta pelo Executivo e aprovada pelo Congresso, a Lei Complementar 214/2025 teve trechos questionados por ações diretas de inconstitucionalidade apresentadas por entidades de defesa de direitos das pessoas com deficiência. Para essas entidades, as restrições que a legislação estabeleceu eram discriminatórias e excluíam pessoas com grau de deficiência mental ou autismo mais leves.
Eis aí um caso clássico de rent-seeking, expressão que define a captura da renda nacional por grupos organizados sem que se produza riqueza. Há diversos exemplos disso no Brasil, desde a simples concessão de meia-entrada em cinemas e espetáculos até a oferta de crédito subsidiado a setores econômicos específicos. Tudo isso costuma ser justificado pelos beneficiários como justiça social ou como estímulo econômico necessário ao desenvolvimento, mas na prática funciona como transferência de renda dos mais pobres, que não vão ao cinema nem compram carros, para os mais ricos.
Diversos artigos da Constituição tratam das pessoas com deficiência, garantindo-lhes igualdade plena de direitos e proteção contra discriminação no trabalho, além de cotas de emprego no serviço público, assistência social e atendimento educacional adequado. A isenção de imposto para a compra de carros, contudo, não consta do texto constitucional.
Esse privilégio, ressalte-se, só é usufruído por quem tem renda mais elevada – a menos que consideremos que um veículo novo, com custo médio entre R$ 100 mil e R$ 120 mil, seja algo acessível aos mais pobres. Recorde-se que o rendimento médio mensal real da população, segundo o IBGE, não chega a R$ 3.500.
Nada disso foi levado em conta pelo STF. Para o relator, ministro Alexandre de Moraes, “a Constituição não estabeleceu diferença entre pessoas com deficiência leve, grave ou média”, de forma que a legislação foi “além do que poderia”.
Ora, uma coisa é defender os direitos fundamentais das pessoas com deficiência e protegê-las de todo tipo de discriminação. Outra, bem diferente, é tratar um benefício fiscal como um direito adquirido, o que a Constituição, evidentemente, não faz.
Como o ministro e seus colegas bem sabem, é para isto que existem as leis complementares: para disciplinar, detalhar e estabelecer regras sobre temas que o texto constitucional não esgotou. Foi exatamente o que fizeram o governo, ao propor a lei, e o Congresso, ao aprová-la, estabelecendo critérios para fruição do benefício e condicionando seu alcance a pessoas que enfrentam as maiores barreiras à sua inclusão social.
Não se trata de insensibilidade, mas de reconhecimento dos limites do Estado. A isenção de impostos para compra de automóveis por pessoas com deficiência deve custar R$ 1,6 bilhão neste ano – um dinheiro que certamente seria mais bem utilizado de maneira coletiva, por exemplo na adaptação de escolas para receber os autistas e em terapias e tratamentos para crianças com deficiência e suas famílias.
Para justificar seu voto, o ministro Alexandre de Moraes caprichou na conta de padaria. Afirmou que existem apenas 12,6 mil pessoas no nível 1 do espectro autista no País – com base em um levantamento do Mapa Autismo Brasil, que ouviu 23 mil pessoas e estimou que metade delas sejam nível 1, ainda que o Censo do IBGE tenha apontado que sejam 2,4 milhões, considerando todos os graus – e que, “se todas pedirem, a cada três anos, seriam 4 mil pessoas por ano”, razão pela qual “esse aumento não vai acabar com a indústria automobilística no País”. Ora, a isenção não prejudica em nada a indústria automobilística, que simplesmente repassa o custo dos impostos a seus veículos e não terá qualquer impacto em sua margem de lucro.
Quem será prejudicado será o conjunto da sociedade, que terá de pagar uma alíquota de imposto maior sobre valor agregado sobre todos os bens e serviços.
Fantasma da corrupção abala fase de calmaria de Lula
Por Vera Magalhães / O GLOBO
A proximidade do início para valer da campanha eleitoral interrompeu a calmaria que vinha reinando no quartel-general de Lula. O fantasma da corrupção, que já havia reaparecido com o caso Master, ganhou contornos mais assustadores com a entrada do assessor mais próximo ao presidente nas investigações.
Marco Aurélio Santana Ribeiro, que nunca viu problema em ser conhecido nacionalmente pela alcunha de Marcola, recebeu dinheiro de uma lobista que vem a ser amiga próxima de Lulinha, o filho do presidente conhecido de outros carnavais e casos rumorosos. A explicação dada por ele diante da eclosão do assunto — de que Lula e seu entorno já tinham conhecimento há alguns meses — é um clássico em casos do tipo: ele afirmou ter contraído um empréstimo junto a Roberta Luchsinger, a amiga de Lulinha, e pagado depois, tudo sem contrato.
Por que um servidor graduado recorre a um arranjo informal com uma personagem que já transitava por órgãos públicos em busca de acesso e de fechar negócios com o governo, ninguém explicou até aqui. É incrível que, depois de casos como mensalão, aloprados e petrolão, ainda que a Lava-Jato tenha sido desmontada depois, ninguém tenha se preocupado minimamente em criar um cordão sanitário no entorno mais próximo ao presidente no terceiro mandato de Lula.
Na campanha, Lula ensaiou o reconhecimento público de que algumas práticas de seus mandatos anteriores foram reprováveis e prometeu uma transparência que nunca chegou a entregar depois de vencer a eleição, mesmo em questões prosaicas, como o acesso a dados relativos a gastos dos palácios ou à agenda de autoridades.
A revogação da prática de sigilos abusivos adotados por Jair Bolsonaro em seus quatro anos também ficou na prancheta das promessas, e não foram poucas as vezes em que a gestão petista recorreu ao mesmo expediente que o Lula candidato rechaçava com veemência.
É impossível não detectar arrogância na maneira como o presidente e seu entorno mais próximo negligenciaram as denúncias de desvio de recursos no INSS, algo que obviamente tem alto poder corrosivo numa campanha eleitoral, dada a facilidade com que todas as faixas do eleitorado compreendem do que se trata algo tão grave como desvio de recursos de aposentadorias e pensões.
Se esse esquema envolve um filho do presidente, também ele já notório pela desenvoltura com que fez negócios com empresas com interesses no governo nos mandatos anteriores do pai, seria um motivo a mais para tomar providências internas.
Quando isso vai além, e esse ecossistema de lobby não só consegue acesso, como dá dinheiro ao braço direito do presidente, qual a providência? Tirá-lo do Planalto, mas não para afastá-lo ao menos preventivamente de toda e qualquer proximidade com Lula. Marcola ganhou assento na coordenação da campanha, o que não o tira do olho do furacão ao menos até que suas relações com Roberta sejam total e devidamente esclarecidas.
Com as novas revelações do caso do INSS e sua bifurcação em outros inquéritos, com extensão ainda desconhecida, Lula pode perder a vantagem obtida pelas sucessivas crises que abalaram a campanha de Flávio Bolsonaro desde que veio à tona seu pedido de milhões de dólares a Daniel Vorcaro, o controlador do Banco Master, para bancar a cinebiografia do pai.
O favoritismo recuperado nas pesquisas e outro fator secundário, mas revelador da pororoca de problemas dos Bolsonaros, a percepção no mercado e no setor produtivo de que o filho do ex-presidente era instável e foco permanente de confusão, se dissipam com a volta do entendimento de que o PT vira e mexe se vê às voltas com casos em que há sinais de corrupção.
Esse tema se soma, assim, àqueles que já se mostram centrais na campanha de 2026, como a crescente intromissão do governo norte-americano no pleito brasileiro. Com a nova agressão de Donald Trump, na forma da cassação do visto da embaixadora brasileira em Washington, o Planalto tentará virar a página do caso Lulinha-Marcola e martelar apenas na tecla da defesa da soberania nacional.
Fica mais difícil, ainda mais diante de uma máxima muito conhecida em Brasília em momentos como este: é impossível prever os próximos capítulos de casos com muitos braços que estão nas mãos de órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público, sob o comando de um STF cada vez mais dividido politicamente.
O discurso que Lula não fará
“Trump pretende dobrar o Brasil. Fracassará. Meu governo decidiu encarar o tarifaço como oportunidade de modernização econômica. Movemo-nos pelo interesse nacional, não pelo interesse eleitoral. Desisti do programa Brasil Soberano. Os setores tarifados abrangem, largamente, a ‘indústria Paulo Skaf’: empresas pouco competitivas, historicamente protegidas. Não receberão subsídios do governo. Concedê-los seria ampliar a dívida pública, pressionando ainda mais a taxa de juros. Não agiremos como seguradora de empresários, transferindo-lhes a renda do povo em nome do protecionismo.
Deixemos o protecionismo para Trump. Nosso caminho é o inverso: como fizeram Indonésia e Vietnã, baixaremos taxas alfandegárias para estimular a importação de bens de capital e insumos, impulsionando a modernização industrial.
Só exporta quem importa. A abertura de mercado proporcionará aumento e diversificação das exportações, além de produtos melhores e mais baratos aos consumidores. O Brasil é aliado dos Estados Unidos. Por isso ajudaremos Trump a alcançar seu objetivo, isolar os Estados Unidos do mundo. Queremos parcerias comerciais com Ásia, Europa e Canadá. A redução de tarifas de importação começa seletivamente. Exclui os Estados Unidos e beneficia concorrentes das empresas americanas no setor estratégico de máquinas e equipamentos.
— Temos que negociar! — falam por aqui os lobbies dos setores da lista de exceções.
Fingem não saber que tentamos negociar ao longo de meses. Trump queria submissão: o monopólio da exploração de nossas terras-raras e o fim do Pix, além de outras exigências abusivas. Não somos colônia.
As tarifas punitivas foram aplicadas sob pretextos falsos (o Brasil mantém déficit com os Estados Unidos) e injuriosos (repudiamos, aqui e no exterior, o trabalho forçado). O tarifaço tem motivações políticas e ideológicas. Negociação de verdade, só com reação. Temos cartas, ao contrário do que Trump imagina.
Não somos néscios. Ninguém imporá tarifas simétricas de importação. Seria um tiro no pé. Escolhemos a retaliação assimétrica calibrada. Por meio de impostos discriminatórios sobre exportações (apenas para os Estados Unidos), faremos os consumidores americanos pagarem mais pelo hambúrguer e pelo café. Vai doer neles, na hora das eleições ao Congresso.
A China ensinou ao mundo uma lição, ao ensaiar o controle de exportações de minérios críticos, impondo a negociação à Casa Branca. Não somos a China, mas os Estados Unidos não têm substitutos para nosso nióbio, essencial à produção de aços especiais para as indústrias aeronáutica e de defesa. Não descartamos proibir temporariamente as exportações para os Estados Unidos.
Embraer e Bombardier fornecem quase todos os aviões regionais usados nos Estados Unidos. Em aliança com o Canadá, abrimos a possibilidade de controlar as exportações dessas aeronaves. Que fique claro: seriam controles temporários, dirigidos exclusivamente aos Estados Unidos, que cessarão quando concluirmos um acordo comercial equânime.
Retaliação não sai de graça. Os setores excluídos do tarifaço são compostos por empresas modernas, altamente competitivas, com forte lastro financeiro. Mas a vida não se resume a lucros. Fazendo sua parte no esforço nacional, elas sofrerão perdas momentâneas. Contudo, mesmo antes de recuo dos Estados Unidos, acelerarão a diversificação de mercados já em curso, exportando para China, Japão, Sudeste da Ásia, Europa e Canadá. Ao longo dessa trajetória, o agro oferecerá alimentos mais baratos para um mercado interno em expansão.
A ideia é negociar, não escalar, mas tudo está sobre a mesa: tarifar serviços prestados por empresas americanas, taxar pesadamente as big techs, quebrar patentes farmacêuticas. Imagino que não seremos forçados a chegar a esses limites.
O governo do Brasil não desfralda bandeiras ideológicas. Queremos restaurar o intercâmbio comercial normal com os Estados Unidos. Soberania não é de esquerda ou de direita. Conclamamos a oposição a desviar-se da estrada da submissão a interesses estrangeiros, participando da resistência nacional ao ataque contra nossa economia. Não pedimos adesão. O voto popular está aí para deliberar sobre nossas divergências.”
Sociólogo e doutor em geografia humana / O GLOBO
Master: O pedido da PF que André Mendonça negou na operação sobre Cláudio CastroMaster: O pedido da PF que André Mendonça negou na operação sobre Cláudio Castro
Por Malu Gaspar / O GLOBO
Ao enviar ao Supremo Tribunal Federal (STF) a representação para a realização da oitava fase da Operação Compliance Zero, sobre as fraudes do Banco Master, a Polícia Federal (PF) solicitou ao ministro André Mendonça autorização para uma busca no escritório de advocacia que Cláudio Castro (PL) montou após deixar o governo do Rio de Janeiro.
Recorrendo a imagens de câmeras de segurança, os policiais mostraram que Castro saiu do escritório nos dias anteriores à operação, no final de maio.
A suspeita dos agentes é de que o ex-governador foi avisado sobre a iminência da operação e usou as bolsas para retirar do local documentos que estariam ligados ao caso Master. Mendonça, porém, alegou que a PF não conseguiu demonstrar que houve de fato uma tentativa de obstruir a Justiça ou mesmo comprovar o conteúdo das mochilas para justificar a medida.
Procurado pela equipe da coluna, Castro disse que pode sim ter saído do local levando e trazendo mochilas e caixas com papéis e objetos, já que fazia apenas um mês de sua saída do Palácio Guanabara, e ele ainda estava organizando o escritório.
Mas negou ter ficado sabendo que haveria uma nova operação sobre ele. “O que eu poderia estar querendo destruir, ainda mais tendo tomado [outra] busca dez dias antes? Tanto eu não desconfiava que fui ao cinema com meu filho e minha mulher na noite anterior ver o filme do Michael Jackson”, disse Castro.
O ex-governador também disse não ter conhecimento dos pedidos da PF. “Se o ministro tivesse autorizado, seria um escárnio jurídico”. Castro já havia sido alvo de outra operação policial 11 dias antes, relacionada a investigações ligadas ao Grupo Refit dentro de uma ação relatada por Alexandre de Moraes.
Na ocasião, foram realizadas buscas em seu apartamento na Barra da Tijuca, como parte da investigação das fraudes bilionárias da Refit, refinaria do empresário Ricardo Magro.
Na operação seguinte, ordenada por Mendonça, a PF bateu na porta de Castro pela segunda vez, desta vez na cobertura para a qual ele se mudou no mesmo prédio, em busca de informações sobre o esquema de propina que levou o Rioprevidência, fundo de pensão do estado, a investir quase R$ 3,7 bilhões no Banco Master.
O escritório, porém, permaneceu ileso. O ex-governador teve cinco celulares apreendidos pela Polícia Federal nas duas operações. Como mostrou a newsletter Jogo Político do GLOBO, um deles tinha 2 mil contatos salvos.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) — Foto: Luiz Silveira/STF e Guito Moreto/O Globo
Lula vira alvo de rivais, mas mantém na campanha assessor que pegou empréstimo de amiga de Lulinha
O presidente Lula (PT) virou alvo de seus principais adversários após a revelação de que um de seus assessores mais próximos recebeu recursos de uma empresária amiga de seu filho e investigada pela Polícia Federal, mas decidiu por enquanto mantê-lo na equipe de campanha, apesar do desgaste eleitoral.
Ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, afirmou ter obtido e depois quitado um empréstimo de R$ 249 mil com Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Lula disse a aliados que soube do caso há menos de duas semanas, depois de o assessor ter sido destacado para a equipe petista na eleição, e que está triste. Mas, segundo integrantes do núcleo da campanha, o presidente não deve tirá-lo do time —exceto se Marcola quiser.
A informação sobre pagamentos de Roberta ao assessor foi revelada pelo site Poder360. Marcola disse em nota nesta terça (4) que seus sigilos bancário e fiscal estão à disposição da Justiça.
"Faço isso para deixar claro e público que jamais houve nada além do empréstimo pessoal que obtive junto a ela, pago com a transferência bancária de R$ 249 mil –uma movimentação de natureza estritamente privada", declarou.
Assim como Roberta, Lulinha também é alvo de investigações da PF. Nos últimos dias, o STF (Supremo Tribunal Federal) abriu três inquéritos contra ele para investigar a suspeita de tráfico de influência. O último foi autorizado pelo ministro Flávio Dino, e os dois primeiros por André Mendonça —em um dos pedidos de apuração houve menção ao gabinete presidencial.
Marcola afirma que a transação com Roberta foi apenas um empréstimo pessoal, já quitado, e que não há ilegalidade na operação. Ele era chefe de gabinete do presidente da República até duas semanas atrás, quando saiu do cargo para entrar na equipe de campanha do petista.
Lula cobrou explicações de Marcola, que teria dito dispor de registros de pagamento para provar que a operação foi um empréstimo.
O assessor afirmou a aliados que o dinheiro serviu para uma questão familiar. Segundo a Folha apurou, Roberta teria repassado os valores em 2024, e Marcola, feito a quitação neste ano, depois de a empresária já ter virado alvo de investigação da PF.
Lula tem dito defender a investigação de todos os fatos e que, se a pessoa tiver culpa, que pague. Mas afirmou a aliados querer, na eleição, separar ações de aliados das dele, para que seja o eleitor decida com base nos atos do presidente, não de pessoas próximas.
O presidente também afirmou a aliados ter dito a Marcola que foi acusado de vários crimes e precisou provar inocência, e que o assessor deveria fazer o mesmo.
Roberta Luchsinger é sócia da RL Consultoria e Intermediações e, em maio, disse à PF que apresentou Lulinha para o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, antes da deflagração da Operação Sem Desconto.
A operação investiga um esquema que teria descontado mais de R$ 6 bilhões dos beneficiários do INSS de 2019 a 2024. O Careca do INSS é apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias. Em dezembro passado, Roberta foi alvo de buscas.
O grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome da oposição para a eleição presidencial, iniciou uma ofensiva nas redes para desgastar Lula.
"Mais um personagem petista no escândalo do roubo de aposentadorias, além do Careca do INSS, agora o lulismo também fabricou o Marcola do INSS, braço direito do Lula na Presidência da República", afirmou Flávio.
Entre os inquéritos de que Lulinha é alvo, um deles envolve a suspeita de tráfico de influência no Ministério da Saúde para obter autorização de comercialização de cannabis medicinal. O filho do presidente atua no ramo junto com Roberta.
Já no segundo inquérito, a PF busca entender se ele agiu junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência) para beneficiar um empresário e prospectar contratos.
A defesa de Lulinha disse, em nota, que ele "não tem relação direta ou indireta com qualquer tipo de irregularidade". Os advogados afirmaram ter "confiança plena na condução serena e equilibrada do ministro Flávio Dino", mas pediram providências contra "vazamentos reiterados, seletivos e criminosos".
Flávio Bolsonaro não foi o único opositor de Lula que criticou o presidente por causa das notícias dos últimos dias envolvendo tanto Marcola quanto o filho do chefe do governo.
O candidato do Novo a presidente da República, Romeu Zema, disse ser impressionante o fato de notícias relacionadas a Lula, segundo ele, terem "alguma coisa a ser investigada por suspeita de corrupção".
Em sabatina nesta terça, Ronaldo Caiado também comentou a notícia de que o ex-chefe de gabinete de Lula tomou um empréstimo de Roberta.
Segundo ele, a notícia demonstra que o escândalo se aproximou da "antessala do rei". "É algo que mostra ainda mais o envolvimento do governo com escândalos e com corrupção. Um envolvimento direto", afirmou.
O ex-deputado, ex-procurador da Lava Jato, e candidato a senador Deltan Dallagnol (Novo-PR), pediu que o STF investigue a operação financeira que envolveu o assessor do presidente.
Marcola já assessorava Lula havia quase sete anos quando o hoje presidente ganhou a eleição de 2022. Quando o petista estava preso, entre 2018 e 2019, era o assessor que levava recados de Lula a outros políticos. Uma vez no governo, o presidente escalou seu assessor como chefe de gabinete, sendo o principal responsável pela agenda presidencial.
Além disso, servia como um dos contatos de políticos que buscavam falar com o chefe do governo. Lula não tem telefone celular. Quem precisa falar com ele liga para Marcola ou para outra pessoa de um grupo reduzido que está sempre próximo do petista.

