A Faltar a debates é desrespeito ao eleitor
EDITORIAL DE O GLOBO
Os debates entre candidatos servem de guia ao eleitor antes de depositar o voto na urna. Postulantes aos mais altos cargos da República deveriam se empenhar em participar desses eventos para apresentar suas propostas e compará-las às dos adversários, sem receios de se expor a perguntas ou situações incômodas. Infelizmente não é o que se vê. São frustrantes os sinais dados até agora pelos candidatos à Presidência pelo PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas de intenção de voto.
Eles têm sido ambivalentes sobre a participação nos debates. Lula tem manifestado dúvidas. Na semana passada, disse que avaliará o “nível” antes do encontro. “Enquanto presidente, não vou para debate para ouvir bobagem”, afirmou ao podcast Inteligência Ltda. A decisão de Lula pode ter reflexo em Flávio. Estrategistas da campanha do senador têm dito que ele só comparecerá se confirmada a presença do presidente, informou o blog Malu Gaspar, no GLOBO. Representantes das duas campanhas já participaram de reuniões preparatórias sobre o primeiro debate, marcado para o dia 23, mas por ora a incerteza persiste.
Nenhum dos dois deveria evitar debater. Para o eleitor, há questões relevantes e urgentes a tratar, e seria péssimo o silêncio às vésperas do pleito. Uma delas é a dramática situação fiscal herdada pelo próximo ocupante do Palácio do Planalto, seja ele quem for. É fundamental que Lula e Flávio digam o que farão a respeito da pressão sobre os cofres públicos. Disso obviamente dependerão todas as políticas que pretendem implantar. Há visões diferentes sobre esse e outros assuntos que precisam ser confrontadas. É o caso de segurança pública, hoje a maior preocupação dos brasileiros, educação e saúde.
Os candidatos podem se sentir mais à vontade quando entrevistados por youtubers, podcasters ou influenciadores digitais, quase sempre de canais amigos que os tratam com deferência. Em geral, são entrevistas sob medida para alavancar as campanhas. Mas elas normalmente não têm espaço para o questionamento aprofundado e o contraditório, que caracterizam o jornalismo profissional, cujo compromisso não é produzir cortes atraentes para as redes sociais, mas honrar princípios editoriais transparentes regidos pelo interesse público. As campanhas têm direito a fazer propaganda que siga a legislação eleitoral, mas debate é outra coisa. Nele, o candidato é confrontado por jornalistas e demais candidatos sobre temas relevantes, para os quais exigem-se respostas concretas, e não firulas midiáticas.
Líderes nas pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio não deveriam fugir dos debates temendo perder apoio. A ausência dos dois, além de desrespeitar o eleitor, reduz o acesso a informações relevantes sobre propostas de governo e representa um retrocesso para a democracia. Apenas debates conduzidos pelo jornalismo profissional de forma equilibrada e com regras claras podem informar a sociedade de modo fidedigno e competente. Antes de se dirigirem à cabine de votação, os brasileiros têm o direito a saber detalhadamente o que os candidatos pensam e o que pretendem fazer sobre os problemas que afligem a população. Seria trágico se, por capricho desses candidatos, descobrissem em quem votaram só depois das eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro — Foto: Brenno Carvalho/11-5-2026 e 19-5-2026
Faltar a debates é desrespeito ao eleitor
EDITORIAL DE O GLOBO
Os debates entre candidatos servem de guia ao eleitor antes de depositar o voto na urna. Postulantes aos mais altos cargos da República deveriam se empenhar em participar desses eventos para apresentar suas propostas e compará-las às dos adversários, sem receios de se expor a perguntas ou situações incômodas. Infelizmente não é o que se vê. São frustrantes os sinais dados até agora pelos candidatos à Presidência pelo PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas de intenção de voto.
Eles têm sido ambivalentes sobre a participação nos debates. Lula tem manifestado dúvidas. Na semana passada, disse que avaliará o “nível” antes do encontro. “Enquanto presidente, não vou para debate para ouvir bobagem”, afirmou ao podcast Inteligência Ltda. A decisão de Lula pode ter reflexo em Flávio. Estrategistas da campanha do senador têm dito que ele só comparecerá se confirmada a presença do presidente, informou o blog Malu Gaspar, no GLOBO. Representantes das duas campanhas já participaram de reuniões preparatórias sobre o primeiro debate, marcado para o dia 23, mas por ora a incerteza persiste.
Nenhum dos dois deveria evitar debater. Para o eleitor, há questões relevantes e urgentes a tratar, e seria péssimo o silêncio às vésperas do pleito. Uma delas é a dramática situação fiscal herdada pelo próximo ocupante do Palácio do Planalto, seja ele quem for. É fundamental que Lula e Flávio digam o que farão a respeito da pressão sobre os cofres públicos. Disso obviamente dependerão todas as políticas que pretendem implantar. Há visões diferentes sobre esse e outros assuntos que precisam ser confrontadas. É o caso de segurança pública, hoje a maior preocupação dos brasileiros, educação e saúde.
Os candidatos podem se sentir mais à vontade quando entrevistados por youtubers, podcasters ou influenciadores digitais, quase sempre de canais amigos que os tratam com deferência. Em geral, são entrevistas sob medida para alavancar as campanhas. Mas elas normalmente não têm espaço para o questionamento aprofundado e o contraditório, que caracterizam o jornalismo profissional, cujo compromisso não é produzir cortes atraentes para as redes sociais, mas honrar princípios editoriais transparentes regidos pelo interesse público. As campanhas têm direito a fazer propaganda que siga a legislação eleitoral, mas debate é outra coisa. Nele, o candidato é confrontado por jornalistas e demais candidatos sobre temas relevantes, para os quais exigem-se respostas concretas, e não firulas midiáticas.
Líderes nas pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio não deveriam fugir dos debates temendo perder apoio. A ausência dos dois, além de desrespeitar o eleitor, reduz o acesso a informações relevantes sobre propostas de governo e representa um retrocesso para a democracia. Apenas debates conduzidos pelo jornalismo profissional de forma equilibrada e com regras claras podem informar a sociedade de modo fidedigno e competente. Antes de se dirigirem à cabine de votação, os brasileiros têm o direito a saber detalhadamente o que os candidatos pensam e o que pretendem fazer sobre os problemas que afligem a população. Seria trágico se, por capricho desses candidatos, descobrissem em quem votaram só depois das eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro — Foto: Brenno Carvalho/11-5-2026 e 19-5-2026
PF investiga pagamento de empresária amiga de Lulinha a ex-chefe de gabinete presidencial
Por Mariana Muniz — Brasília / O GLOBO
A Polícia Federal (PF) investiga uma transferência financeira feita pela empresária Roberta Luchsinger, apontada como lobista e amiga de Fábio Luís Lula da Silva, ao ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o cargo há duas semanas. Procurado, Marcola negou qualquer ilícito no pagamento. Ele diz que recebeu os valores, sem especificar quanto, na forma de um empréstimo, posteriormente quitado.
Roberta é investigada pela PF em casos que envolvem Lulinha, como é conhecido o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O primogênito do petista é alvo de três inquéritos abertos desde a semana passada por suspeita de cometer o crime de tráfico de influência.
O pagamento a Marcola foi revelado pelo Poder360 e confirmado pelo GLOBO. Oficialmente, o auxiliar de Lula deixou o cargo no Palácio do Planalto para dedicar-se à campanha à reeleição do petista. Procurada, a defesa de Roberta Luchsinger não se manifestou.
Lulinha é suspeito de ter atuado com Roberta junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete presidencial com o objetivo de ser beneficiado no ramo da cannabis medicinal.
Marcola: na campanha — Foto: Reprodução
Os sem-sem
EDITORIAL DE O GLOBO
A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação que dê ao brasileiro esperança de quatro anos iniciais de uma retomada do crescimento econômico e melhoria social. Nada de “50 anos em 5”, como o slogan de JK em 1955. Nada parecido com o Plano Real de 1994. Nada comparável à vitória de Lula em 2002, depois de três derrotas seguidas. Nessas e noutras ocasiões, a maioria votou com o olho no futuro imediato, com a sensação de que as coisas melhorariam. Agora, vota-se para impedir a continuação de Lula ou Bolsonaro.
O futuro está distante. Será preciso atravessar um próximo governo que não empolga ninguém para chegar a 2030, quando realmente as coisas poderão mudar pelo esgotamento dos modelos anteriores. Quando acabou o prazo do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, havia à espreita o ciclo de Lula. O próprio FH estava orgulhoso de passar a faixa presidencial a um líder operário que pela primeira vez subiria a rampa do Planalto. Não foi exatamente a reeleição que estragou a sucessão presidencial, mas a ambição de permanecer no poder. A Presidência de Dilma nasceu desse equívoco de Lula — ele achava que poderia manipulá-la à vontade. Foi surpreendido pela recusa dela de dar lugar a ele na própria sucessão, como estava tacitamente combinado.
Seguidos governos de vices que ascenderam ao estrelato — “Vice é um nada às vésperas de tudo”, já dizia Golbery — deram conta do recado. Sarney garantindo a democracia, Itamar abrindo caminho para o Plano Real, Temer elaborando a reforma previdenciária aprovada no governo Bolsonaro — todos acabaram transformando o cargo em jogo decisivo para a chapa presidencial. FH contou com a sorte para escolher Marco Maciel, que passou a ser modelo de vice. O país contou com a sorte de Collor ter escolhido Itamar, seu oposto. Temer mostrou-se mais capaz de governar que Dilma. Lula adotou, entre outras coisas, o modelo de FH com a escolha de José Alencar e Geraldo Alckmin, ambas com finalidade: Alencar representando o capital unido ao trabalho; Alckmin juntando a social-democracia à gestão de um ministério fundamental, da Indústria e Comércio, especialmente durante a crise que vivemos com o governo Trump.
Pois hoje temos vários candidatos sem vice, denotando não apenas a falta de acordo partidário, como o esvaziamento político do cargo. Vice não dá voto, mas dá prestígio, dá credibilidade, dá margem a acordos eleitorais. Entre os da direita, Flávio ampliou seu próprio prazo até 15 de agosto para tentar tirar uma coelha da cartola (quer uma vice mulher). Caiado teve de se contentar com o presidente de seu partido, Gilberto Kassab, chapa pura que denota fragilidade da candidatura. Zema ainda procura um sentido para sua candidatura. Renan Santos escolheu um militar para seu vice, ele que se define como uma mistura de Bukele, o ditador de El Salvador, com o argentino Milei, que não sabe se comportar em público.
Festa de Posse do Presidente Fernando Henrique Cardoso - Ao seu lado o vice-presidente Marco Maciel - Rolls Royce presidencial — Foto: Cezar Loureiro / Agência O Globo
O ambíguo acordo com o Hamas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente americano Donald Trump anunciou um acordo “histórico” entre seu Conselho da Paz e o Hamas, que prevê, em fases, o desarmamento do grupo terrorista, a retirada de Israel de Gaza e a transição para uma administração palestina apoiada por uma força internacional. A iniciativa tenta transformar o cessar-fogo em um caminho para o fim da guerra. Mas o termo que sustenta esse arranjo – “desarmamento” – abriga uma ambiguidade.
Desarmar pode significar recolher arsenais ou perder poder. As duas coisas não se confundem e dificilmente coincidirão por si sós. Fala-se em armazenamento supervisionado de armas e em fases condicionadas por verificação externa. Evita-se a linguagem de entrega definitiva ou eliminação. O processo depende de reciprocidade entre desarmamento do Hamas e retirada israelense, o que o transforma numa negociação contínua.
O ponto cego está no objeto que se pretende desarmar. O poder do Hamas nunca dependeu do volume ou do tipo de armamento. As chamadas “armas pesadas” já não definem sua capacidade de controle. Ela se apoia em coerção e redes organizacionais, sustentadas por uma infraestrutura difusa – como túneis – que preservam sua influência mesmo após concessões formais. Movimentos armados como o Hezbollah já demonstraram capacidade de ceder visibilidade institucional e manter poder nos bastidores.
Essa dissociação aparece na distância entre quem negocia e quem controla o terreno. A autoridade real segue nas mãos dos combatentes em Gaza, não dos representantes que discutem termos no exterior. Sem um deslocamento desse centro de poder, qualquer compromisso corre o risco de se dissolver no contato com a realidade.
A força internacional e a nova polícia palestina levarão meses para se tornar operacionais. Até lá, o controle cotidiano permanece inalterado. Esse descompasso cria um incentivo: ajustar-se ao processo, preservar capacidades essenciais e, se necessário, preparar alternativas para o caso de as fases finais não se concretizarem. O risco não é de descumprimento aberto, mas de adaptação silenciosa.
O desarmamento pressupõe que as armas sejam instrumentos contingentes. No caso do Hamas, elas são parte de uma identidade política construída em torno da “resistência” armada. Sem uma revisão dessa base – e de sua expressão ideológica e programática –, a entrega parcial de meios tende a produzir apenas uma suspensão do conflito, não sua transformação. A experiência da Organização para a Libertação da Palestina nos anos 1990 mostra que a mudança decisiva não foi apenas material, mas política.
Há mérito em organizar um roteiro e mobilizar atores regionais. Mas a mesma urgência que viabiliza compromissos também favorece zonas cinzentas. Marcos diplomáticos podem anteceder mudanças reais – e, por vezes, substituí-las.
A cautela israelense reflete essa leitura. A alternativa exclusivamente militar mostrou limites, mas isso não elimina o problema de fundo: sem uma autoridade palestina capaz de impor regras e sustentar legitimidade, a segurança permanece contingente. O risco, portanto, não está apenas no fracasso do acordo. Está em seu sucesso aparente.
O STF na república dos penduricalhos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em março passado, sob o desgaste de uma crise reputacional agravada pelo suposto envolvimento de alguns de seus ministros no escândalo do Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) anunciou limites para verbas pagas no Judiciário acima do teto constitucional. Passados três meses, diante da reação das corporações jurídicas, os ministros afrouxaram as restrições. Ou seja, o STF apenas “jogou para a plateia”, na opinião – compartilhada por este jornal – de Guilherme Cezar Coelho, fundador da República.org, ONG que se dedica a estudar modos de aperfeiçoar o serviço público, em entrevista ao Estadão.
Era um desfecho previsível. A decisão de março já preservava uma faixa generosa de pagamentos extraordinários e deixava intacta a engrenagem que os produz. Caberia aos órgãos do Judiciário aplicar uma contenção contrária a interesses consolidados dentro deles. O Conselho Nacional de Justiça logo abriu a primeira exceção. Sob a pressão das associações de magistrados, o Supremo recuou. A disciplina de ocasião cumprira sua finalidade: produziu muitas manchetes moralizantes e poucos efeitos práticos.
O método de construção de exceções segue intacto. Funciona assim: uma atividade comum é promovida a “acúmulo excepcional”; uma parcela remuneratória recebe o nome providencial de “indenização”; criada a vantagem, uma resolução pode fazê-la retroagir, enquanto valores acima do teto são guardados como crédito futuro; o órgão de controle a reconhece, uma decisão judicial a protege e outras carreiras invocam o precedente. Assim avança a espiral de “puxadinhos criados em benefício próprio” mencionados por Coelho.
A lei, nesse circuito, serve menos como limite do que como matéria-prima para fabricar privilégios. O STF interpreta o teto, escolhe suas exceções e julga contestações apresentadas por integrantes do mesmo sistema remuneratório. É árbitro e parte interessada. Suas decisões depois se espalham pelos tribunais e pelo Ministério Público.
Levantamento da República.org estima em quase R$ 20 bilhões por ano o custo dos supersalários. As carreiras jurídicas concentram parcela decisiva da conta e sua criatividade vocabular sai cara ao contribuinte.
O Brasil mantém dois regimes. No oficial, agentes públicos recebem subsídio submetido ao teto constitucional. No efetivo, licenças, gratificações, indenizações presumidas e retroativos inflam os contracheques muito além dele. O teto permanece solene na Constituição e ornamental na folha de pagamento. Essa arquitetura se sustenta no poder de criar, validar e julgar as próprias exceções.
Magistrados e procuradores exercem funções de alta responsabilidade, podem receber salários elevados e devem ser ressarcidos por despesas extraordinárias. Uma indenização legítima, porém, corresponde a gasto efetivo, eventual, razoável e comprovado. Benefícios ordinários não mudam de natureza ao receber um nome mais conveniente. Se o subsídio é insuficiente, sua revisão deve ocorrer às claras, pelo processo político regular.
O fracasso da autorregulação obriga Executivo e Congresso a retirar o sistema remuneratório do circuito corporativo. Uma lei nacional precisa submeter a remuneração total ao teto, admitindo fora dele apenas ressarcimentos reais. Também terá de impedir que vantagens inconstitucionais sobrevivam como dívidas intocáveis sob a forma de retroativos. Para que essas regras possam ser fiscalizadas, as folhas precisam seguir um padrão nacional e os pagamentos definidos por tribunais devem ficar sujeitos a controle externo efetivo – o que exige uma reforma dos conselhos, que hoje atuam como centrais sindicais.
O risco é que, sob pressão das corporações, o Congresso aprove uma lista extensa de parcelas extrateto e converta a reforma em legalização dos penduricalhos. Para eliminá-lo, a sociedade civil deve exigir critérios materiais rigorosos, sem os quais uma nova lei apenas trocará a gambiarra pela planta aprovada e dará acabamento ao regime paralelo.

