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Infiltração do crime organizado custa caro à economia fluminense

Por Editorial / O GLOBO

 

Polícia fechou fábrica que produzia notas falsas no Complexo da Maré, Zona Norte do RioPolícia fechou fábrica que produzia notas falsas no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio — Foto: Gabriel de Paiva/ Agência O Globo/05/08/2026

 

O avanço do crime organizado tem cobrado um preço alto do Rio: R$ 31,1 bilhões por ano, ou 2,3% do PIB, segundo o relatório “Custo Rio — O desafio da competitividade fluminense”, da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

O estudo divide o impacto sobre a economia estadual em dois blocos. O primeiro reúne custos diretos para as empresas, como gastos com segurança, seguro, logística ou gestão de risco, além da perda de produtividade e atratividade para novos investimentos. Esse bloco soma R$ 9,7 bilhões por ano, cerca de 0,7% do PIB estadual. O segundo bloco compreende os reflexos negativos dos negócios ilícitos sobre produção, circulação e venda das mercadorias provenientes de empresas que cumprem as leis.  

 

A Light estima que 30% de sua base de clientes vive em áreas sem acesso para cobrança. A Enel atribui às áreas de risco sob o controle de milícias e facções 62% das perdas. Adversidades desse tipo causam prejuízos de R$ 21,4 bilhões. “Mesmo o empresário que nunca teve uma carga roubada é afetado pelo aumento do custo do frete, pelo encarecimento dos seguros ou pela necessidade de contratar escolta armada para transportar mercadorias”, diz Isaque Ouverney, gerente de Infraestrutura da Firjan. A pesquisa constatou que dois em cada três empresários fluminenses consideram a segurança fator essencial na decisão de investir.

 

O avanço do crime organizado sobre mercados formais prejudica o crescimento, a geração de empregos, de renda e, em consequência, reduz o recolhimento de impostos, pressionando as despesas com segurança, educação e saúde. A degradação econômica e social cria terreno propício ao fortalecimento da criminalidade, fechando um círculo vicioso em espiral ascendente.

 

O Rio já vive aquilo que o promotor de Justiça Fabio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública, chama de “terceira onda” do crime organizado. Na primeira, as organizações criminosas exploravam drogas. Na segunda, passaram a fornecer produtos e serviços de forma ilegal, como TV por assinatura, internet, transporte ou gás. Agora, na terceira, operam como cartel territorial, buscando monopólio em atividades da economia formal, sem abrir mão das práticas criminosas. Os conglomerados do crime operam na fronteira entre o submundo e a legalidade.

 

No Complexo da Maré, já foram encontrados uma mineradora de criptoativos, um condomínio em construção pelo tráfico com 40 prédios e uma fábrica de falsificação de dinheiro. Milícias faturam R$ 4 milhões com gás e R$ 3 milhões com internet em Rio das Pedras, diz a polícia. Na região, uma plataforma de imóveis ilegais informou ter negociado R$ 10 milhões em um ano. “O criminoso mudou, e nem sempre o recurso usado para abrir uma empresa vem de fonte ilícita”, diz o secretário de Segurança, Victor Santos. “A Polícia Civil precisa mudar a forma de investigar: deixar de olhar apenas para o criminoso e passar a olhar o negócio dele.” O Rio não pode continuar a perder a corrida contra o crime.

Lula antecipa herança para filhos, e patrimônio cai 35%

Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO

 

A declaração de Luiz Inácio Lula da Silva apresentada à Justiça Eleitoral no último dia 7 mostrou uma redução de 35% no patrimônio do presidente da República quando comparada à de 2022. Segundo aliados, a diminuição no valor total dos bens – que caíram 35,6%, de R$ 7,4 milhões para R$ 4,8 milhões nesses quatro anos – se deve à decisão do chefe do Executivo de antecipar a herança dos filhos.

 

Aos 80 anos, Lula tem cinco filhos, dos quais quatro biológicos: Lurian Cordeiro, filha da relação com Miriam Cordeiro; Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha, alvo de três inquéritos no STF), Sandro Luís da Silva e Luís Cláudio, filhos do casamento com Marisa Letícia. O psicólogo Marcos Cláudio Lula da Silva, filho de Marisa Letícia com o primeiro marido, foi adotado pelo petista.

 

“Lula chamou os filhos e disse que queria deixá-los numa boa situação, sem dor de cabeça. O que ele podia fazer como pai, ele fez”, disse um interlocutor do presidente ouvido reservadamente pelo blog, lamentando o fato de Lulinha ser investigado por suspeita de tráfico de influência em negócios com o Careca do INSS.

 

Levando em conta a redução informada na declaração de renda, o valor que teria sido repartido entre os filhos do presidente poderia chegar a R$ 2,2 milhões.

 

A equipe da coluna apurou que essa antecipação da herança veio dos bens de Lula que estavam em seus planos Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), uma espécie de seguro semelhante à previdência privada.

 

Na declaração de 2022, Lula informou que tinha R$ 5,57 milhões em um único plano de VGBL, enquanto a declaração de 2026 consta dois planos, um do Bradesco (R$ 1,4 milhão) e outro do Brasilprev Seguros (R$ 1,9 milhão), que totalizam juntos R$ 3,3 milhões.

 

“Lula distribuiu igual para todo mundo para que os filhos pagassem despesas, considerando as dificuldades circunstanciais de alguns deles”, afirmou outro interlocutor do presidente da República que pediu para não ser identificado.

 

Esta não é a primeira vez que a antecipação da herança dos filhos de Lula vem à tona. Extratos bancários de Lulinha obtidos pela CPMI do INSS em março deste ano mostram que ele recebeu do pai R$ 721 mil entre julho de 2022 e dezembro de 2023.

 

Quando os números foram revelados pela imprensa, a defesa de Lulinha alegou que as transferências ligadas a Lula eram “adiantamento de legítima herança aos filhos do presidente”, devolução de custos pagos por Lulinha na época em que o pai esteve preso ou de empréstimos a LILS Palestras, empresa criada por Lula após o término do segundo mandato.

 

O relator da CPMI, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), pediu o indiciamento de Lulinha por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e tráfico de influência no esquema de desvio bilionário de aposentadorias do INSS.

 

Após uma articulação do governo nos bastidores, o relatório foi rejeitado. Gaspar vai disputar estas eleições na vaga de vice na chapa do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

Sucessão

Na avaliação do professor de direito trabalhista e previdenciário Flávio Batista, da Universidade de São Paulo (USP), não há vantagem tributária na decisão de Lula de antecipar a herança, já que o “imposto pago sobre doação é o mesmo pago sobre herança”.

 

“A vantagem é simplificar o procedimento de inventário e partilha que deve ser feito pelos herdeiros em processo judicial após a morte, e por vezes envolve conflitos familiares”, afirmou. “É puramente para organizar a própria sucessão, prevenir conflitos entre herdeiros e evitar um processo judicial e seus custos.”

 

De acordo com o professor de direito civil da FGV Direito Rio Gustavo Kloh, a movimentação de Lula é extremamente comum.

 

“É uma forma de possibilitar que desde logo os filhos venham a usufruir daquele patrimônio que seria deixado no futuro para eles como herança”, comentou.

“Uma coisa que acontece com frequência: às vezes um filho ou outro precisa do dinheiro, mas o outro não. Para o pai, é muito complicado adiantar para uns, e não para outros. Aí ele pega e adianta para todo mundo.”

 

A equipe da coluna pediu esclarecimentos à assessoria da campanha de Lula, que informou que a demanda deveria ser encaminhada à Secretaria de Comunicação Social (Secom).

A Secom, por sua vez, alegou que o assunto não diz respeito ao governo.

 

 

Partido político é negócio da China

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O sistema político-partidário brasileiro produz situações difíceis de explicar ao contribuinte. Por exemplo, ficamos sabendo há poucos dias que uma legenda sem representação no Congresso, sem prefeitos e governadores e que faz apenas figuração em disputas eleitorais recebe R$ 3,3 milhões de dinheiro público para financiar suas atividades irrelevantes. E só ficamos sabendo porque Rui Costa Pimenta, o dono da tal legenda, o Partido da Causa Operária (PCO), virou alvo de investigação da Polícia Federal sob suspeita de desvio dos recursos públicos que o partido recebe – o dinheiro teria circulado entre integrantes da própria sigla e seus familiares.

 

Fundado em 1995, o PCO, apesar de ter lançado centenas de candidatos ao longo das últimas três décadas, teve apenas uma vitória nas urnas, ao eleger um vereador, em 2004, no interior do Amazonas. Insistente, o sr. Rui Costa Pimenta disputa a Presidência da República pela quarta vez – e em todas as anteriores terminou na última colocação. Na mais recente, em 2014, obteve 0,01% dos votos válidos.

 

No entanto, nada disso impede o PCO de receber dinheiro do Fundo Eleitoral. Pela lei, 2% de toda a verba é dividida igualmente entre os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, independentemente do tamanho de suas bancadas. Como nos últimos anos esse bolo cresceu vertiginosamente, inflado pelo Congresso, até mesmo uma legenda sem representação parlamentar fica com alguns milhões de reais.

 

Esse financiamento público das campanhas foi criado em 2017, depois que o Supremo Tribunal Federal proibiu as doações empresariais. A intenção foi colocar um fim à captura do processo político pelo poder econômico. Desde então, porém, políticos transformaram o fundo em uma conta cada vez mais salgada para o contribuinte e com menos regras de controle. Do R$ 1,7 bilhão distribuído em 2018, chegamos a R$ 5 bilhões em 2026.

 

Tudo isso sob o argumento de que “a democracia custa caro”, na definição do deputado Vicente Cândido (PT-SP) ao apresentar seu relatório sobre a emenda constitucional que criou o financiamento público de campanhas. Ora, nada disso justifica que o contribuinte seja obrigado a bancar partidos com os quais não têm nenhuma afinidade, mas é exatamente o que acontece hoje. E é nesse festim que entram partidos como o PCO, uma empresa privada criada para sustentar seu dono. O pretexto de “defender um programa revolucionário e socialista”, que se lê no manifesto do partido, serve apenas como diversão. Na prática, o partido existe só para receber dinheiro público, rigidamente controlado pelo centralismo democrático do sr. Pimenta.

 

Quem abre uma firma precisa investir, pagar impostos, contratar funcionários e disputar mercado com a concorrência – e mesmo assim não sabe se terá algum lucro. Já quem abre um partido político – seja ele comunista revolucionário ou capitalista selvagem – não precisa nem ganhar eleição para garantir sua prosperidade. É um negócio da China.

Trump diz que é dono da América Latina

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O Departamento de Estado dos EUA acaba de prestar um serviço involuntário à franqueza. Em um vídeo sobre a Doutrina Monroe, descreve como aquela advertência contra a recolonização das Américas teria evoluído até se tornar uma “estrutura de domínio regional”. A peça celebra os EUA no palco global como “potência imperial”, alude à sua pretensão de soberania hemisférica e culmina na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. O presidente Donald Trump aparece como campeão dessa retórica, proclamando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”.

 

A honestidade é valiosa; a genealogia, fraudulenta. A doutrina lançada em 1823 pelo então presidente James Monroe (1817-1825), segundo a qual “a América” era “para os americanos”, buscava dissuadir impérios europeus de recolonizar as novas nações e ameaçar uma república ainda frágil. Dizia o que a Europa não deveria fazer. Não conferia a Washington o direito de administrar os vizinhos. O sucessor de Monroe, John Quincy Adams, defendeu a exclusão das potências externas, mas rejeitou que os EUA ocupassem seu lugar. O mandato para as intervenções americanas na região foi reivindicado só posteriormente, sobretudo por Richard Olney, secretário de Estado do governo de Grover Cleveland (1893-1897), e Theodore Roosevelt, presidente de 1901 a 1909. O vídeo do governo Trump, como lhe é habitual, distorce informações para sustentar que seu ponto de vista estaria inscrito na Doutrina Monroe original, o que não é verdade.

 

A manipulação histórica encobre uma oportunidade contemporânea. Depois de anos em que Washington tratou a América Latina como apêndice de crises migratórias e do narcotráfico, muitos governos latino-americanos desejam maior presença americana. A região guinou à direita e a cooperação pode oferecer inteligência e capacidade operacional a países acossados por facções criminosas. Nenhum desses sinais, porém, autoriza Trump a concluir que a região aceita tutela. A América Latina quer cooperar com os EUA, não pertencer a eles.

 

Parceiros podem ser pressionados e convencidos, mas conservam interesses próprios e espaço para divergir. Na relação de vassalagem projetada por Trump, Washington define quais governos, contratos e vínculos externos considera admissíveis, e a discordância vira insubordinação. Os EUA ainda dispõem de força excepcional para impor essa hierarquia. Capturaram Maduro, arrancaram concessões comerciais de vários países e afastaram empresas chinesas de ativos sensíveis. A coerção funciona sobretudo contra países muito dependentes. Mas os resultados imediatos dizem pouco sobre a solidez desses alinhamentos. Um governo pode ceder hoje e procurar amanhã outra fonte de crédito, outro mercado ou um seguro contra a próxima extorsão americana.

 

A China torna essa limitação visível. Pequim se enraizou na América do Sul comprando soja, carne, cobre e lítio, enquanto financiava obras que Washington não quis ou não conseguiu bancar. Mais de 30% das exportações brasileiras destinam-se hoje à China, relação que se aprofundou até sob Jair Bolsonaro, aliado ideológico de Trump. Governos conservadores – como o de Javier Milei, na Argentina – podem compartilhar as preocupações americanas e ainda se recusar a abandonar o mercado que sustenta seus produtores. O Brasil, por sua escala e recursos, pode negociar com ambas as potências sem aceitar alinhamento com nenhuma.

 

Isso não torna inofensiva toda presença chinesa. Controle de portos, redes de dados, telecomunicações ou instalações de uso dual criam riscos legítimos. Os EUA têm razões para disputar esses ativos e devem oferecer alternativas. O financiamento americano ao projeto de terras raras da Serra Verde, em Goiás, mostra como capital, tecnologia e segurança podem convergir em benefício recíproco. Ordens para que os vizinhos fechem a porta à China pouco valem sem opções capazes de competir com as ofertas chinesas.

 

Washington possui vantagens que Pequim dificilmente reproduzirá: proximidade, lastro financeiro, instituições democráticas, vínculos humanos e valores comuns construídos por gerações. Trump as dilapidará se medir influência pelo número de governos que obedecem sob ameaça.

Programa bom, candidato ruim

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O plano de governo apresentado pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, embora genérico, toca em temas relevantes, como redução da dívida pública, revisão de subsídios, transparência das emendas parlamentares e reforma do Judiciário. O grande problema do tal programa, portanto, não é sua qualidade, que com boa vontade pode ser chamado de razoável. O grande problema é quem se dispõe a implementá-lo.

 

Herdeiro dinástico do bolsonarismo, Flávio passou sete anos no Senado sem se destacar pela articulação política ou pela liderança – nem sequer em temas que lhe são caros, como a segurança pública. Conseguiu aprovar apenas dois projetos de sua autoria, nenhum convertido em lei.

 

O candidato que o plano apresenta em nada se parece com o senador que o País conhece. Ele é reformista, ao contrário de Flávio, que nunca liderou reformas relevantes. É um articulador político, diferentemente do senador, que não conseguiu fazer avançar nem suas próprias bandeiras. E se dispõe a enfrentar interesses e conduzir mudanças de grande porte, algo difícil de conciliar com a atuação de quem pouco fez para conter subsídios, exceções tributárias e outras distorções que agora promete combater.

 

O candidato que promete punir maiores de 14 anos que cometerem crimes graves é o mesmo que, em 2019, apresentou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) nessa direção e foi incapaz de garantir que o texto sequer saísse da Comissão de Constituição e Justiça. Nem o fato de seu pai ocupar a Presidência à época foi suficiente para transformar uma bandeira política em avanço legislativo.

 

Na economia, o programa promete uma nova regra fiscal voltada à redução da dívida, superávits primários e controle dos gastos discricionários dos Três Poderes. Mas Flávio não explica como pretende tirar essas iniciativas do papel. O documento não diz qual regra substituirá o atual arcabouço nem estabelece prazo para atingir o equilíbrio que promete. É fácil prometer responsabilidade fiscal numa plataforma eleitoral; mais difícil é dizer onde a tesoura vai cortar. E o histórico familiar tampouco ajuda: o governo Jair Bolsonaro patrocinou sucessivas exceções ao teto de gastos, inclusive para ampliar benefícios às vésperas da eleição de 2022.

 

Flávio promete ainda “corrigir” a reforma tributária. Depois de décadas de impasse, o País finalmente aprovou uma mudança capaz de simplificar um dos sistemas tributários mais disfuncionais do mundo e agora precisa implementá-la, não começar tudo de novo. O PL participou dessa construção e tinha força para combater suas exceções, se quisesse. Flávio, porém, reserva sua valentia para depois da batalha: promete reabrir no Planalto uma discussão que não liderou no Senado.

 

Há contradições incômodas, como a promessa de dar “mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas parlamentares”. Seria uma ótima ideia se não viesse do herdeiro político de um governo sob o qual o orçamento secreto prosperou como instrumento de negociação. O plano parece uma tentativa de corrigir problemas que o próprio bolsonarismo ajudou a criar.

 

É na política externa, porém, que a distância entre discurso e realidade chega perto da provocação. O plano promete a recuperação da relação com os Estados Unidos e afirma que soberania se conquista com “seriedade, não por bravata”. A família Bolsonaro esteve no centro da escalada política com Washington que desembocou no tarifaço contra produtos brasileiros. Agora, Flávio se apresenta como capaz de oferecer aos produtores a previsibilidade que o próprio bolsonarismo ajudou a destruir. Antes de vender pragmatismo diplomático, seria recomendável demonstrá-lo dentro de casa.

 

Plano de governo não é lista de desejos, e o próprio documento reconhece isso: “Um plano de governo não vale pelo que promete, mas pelo que consegue sustentar”. Flávio apresentou um programa para um presidente reformista, articulador e capaz de enfrentar interesses poderosos. Definitivamente, não é ele.

Justiça Eleitoral multa Chagas Vieira em R$ 30 mil por uso de IA em postagens contra Ciro Gomes

Escrito por Bruno Leite / DIARIONORDESTE

 

O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) condenou, nesta quarta-feira (12), o ex-secretário da Casa Civil do Governo do Ceará, Chagas Vieira (PDT), por publicar conteúdos manipulados digitalmente contra o candidato ao Executivo estadual Ciro Gomes (PSDB), em seus perfis no Instagram e no Facebook. A decisão determinou que o político pague R$ 30 mil de multa, em razão de duas postagens que foram impugnadas. Cabe recurso.

 

Cada uma das postagens que motivaram a condenação, segundo determinou o magistrado, custará ao ex-titular da Casa Civil R$ 15 mil. Foi determinada a remoção e a preservação de registros e dados de conteúdos relacionados com as publicações, pela empresa Facebook Serviços Online do Brasil, durante prazo legal, para eventual utilização em outras instâncias de apuração.

 

Do mesmo modo, Chagas Vieira não poderá republicar, impulsionar ou compartilhar o mesmo conteúdo sob pena de R$ 5 mil em caso de descumprimento. 

 

A sentença confirma uma ordem anterior que já havia determinado a retirada das postagens do ar, tornando definitiva a medida. Assim, foi indeferido o pedido de inversão do ônus da prova e o pleito de reconsideração da tutela de urgência, ambos apresentados pela defesa do candidado à suplência na chapa ao Senado de Luizianne Lins (PT).

 

Ao PontoPoder, Chagas afirmou que, "embora a decisão trate da inadequação das postagens", ele entende, "com todo respeito, que sejam críticas políticas comuns ao período eleitoral e devidamente admitidas pela liberdade de expressão".  "Por tal motivo, haverá a interposição de recurso e a matéria será levada a julgamento pelo Pleno do Tribunal", completou.

 

A reportagem também acionou a assessoria de imprensa da Meta (empresa responsável pelas plataformas Instagram e Facebook) e eventuais devolutivas serão adicionadas a esta matéria.

Os conteúdos alvo da ação

De acordo com o processo movido pela coligação Unir para Mudar o Ceará (composta pela Federação PSDB-Cidadania, Federação União Progressista e pelo Partido Liberal), Chagas Vieira, que atua como coordenador da campanha do governador Elmano, publicou em suas redes sociais dois conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial.

 

A primeira postagem, de 22 de julho, mostrava a imagem de Ciro Gomes com elementos gráficos de cubos de gelo e água escorrendo, acompanhada da frase "o candidato está derretendo!", associada à hashtag "CiroNaro".

 

A segunda, de 26 de julho, inseria o pré-candidato em uma foto ao lado do presidente da Argentina, Javier Milei, e de Flávio Bolsonaro em uma convenção do PL em São Paulo. Naquela data, Ciro Gomes cumpria agenda em Fortaleza, o que, segundo a decisão, buscava criar a "falsa impressão de aliança política inexistente".

Na sentença, o magistrado rejeitou o argumento da defesa de que as postagens seriam apenas humor ou sátira política. O juiz destacou que as peças não se identificavam como brincadeira e poderiam enganar o eleitor comum.

Deepfake e falta de rotulagem

Ao analisar o material, o juiz afirmou que as condutas se enquadram na proibição de uso de "deepfake" para prejudicar candidaturas.Segundo o texto da decisão "as publicações ora impugnadas não se apresentam como paródia manifesta", e o material "é apto, por sua composição visual coerente, a ser recebido pelo espectador médio das redes sociais como registro fidedigno de fatos que não ocorreram".

 

O magistrado concluiu que as postagens tentavam criar, de forma artificial, um estado de descrença no eleitorado. Ele pontuou que a liberdade de expressão não protege a "fabricação deliberada de fatos apresentados como verdadeiros com potencial de comprometer a formação livre e informada da vontade do eleitorado".

 

Outro ponto destacado foi a falta de avisos obrigatórios sobre o uso de inteligência artificial. O juiz ressaltou que "subsiste, de forma autônoma, a irregularidade quanto à ausência de rotulagem exigida", que obriga a inserção de informação clara de que o conteúdo foi manipulado por meio desse tipo de tecnologia.

 

 

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