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Uma agenda para o Brasil real

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O País se avizinha de uma campanha eleitoral que, ao que tudo indica, será marcada pela irracionalidade e pela indigência programática. Para suprir um vazio que, primordialmente, deveria ser preenchido pelos candidatos à Presidência da República, o Estadão acaba de lançar o projeto “Brasil Adiante”, uma série de encontros que, pelos próximos três meses, reunirá economistas, cientistas políticos, juristas, empresários e lideranças da sociedade civil para discutir soluções concretas para os principais problemas nacionais. Ao final do projeto, as propostas serão entregues ao presidente eleito.

 

Há décadas, o País convive com baixo crescimento econômico, produtividade medíocre, desafios crônicos na educação básica, incapacidade de enfrentar o crime organizado e um sistema político capturado por interesses fisiológicos. Some-se a tudo isso a gravíssima crise por que passam o Judiciário e o Ministério Público, insaciáveis na conquista de privilégios corporativos, e em particular o Supremo Tribunal Federal, alvo da desconfiança de nada menos do que 60% da população, segundo uma pesquisa AtlasIntel/Estadão publicada em março.

 

A despeito da gravidade do quadro nacional, quase todos esses problemas têm passado ao largo das preocupações dos principais pré-candidatos à Presidência da República, sobretudo do incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e seu mais forte desafiante até o momento, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ambos não fazem outra coisa senão estimular a guerra de rejeições de soma zero que só os beneficia, e a mais ninguém.

 

Há anos, o debate público tornou-se refém de uma disputa estéril na qual tudo se reduz à sobrevivência eleitoral do lulismo e do bolsonarismo, como se o destino de mais de 200 milhões de brasileiros fosse mero dano colateral nessa guerra entre as duas maiores facções políticas da atual quadra histórica.

Mas, enquanto os principais presidenciáveis estimulam os instintos primitivos de seus aduladores, a sociedade civil demonstra compreender melhor a encruzilhada em que o País se encontra. É precisamente nesse ponto que o “Brasil Adiante” se insere. Se Lula, Flávio Bolsonaro e outros ainda não disseram a que vieram, a sociedade civil, por meio de suas instituições, entre as quais este jornal se insere, fará sua parte e oferecerá aos eleitores uma visão de país.

 

O “Brasil Adiante” parte da premissa de que nossos problemas comuns não seguem sem solução por falta de diagnósticos. Ao contrário. Como afirmou o diretor de Jornalismo do Grupo Estado, Eurípedes Alcântara, “o Brasil está saturado de alertas e diagnósticos, o que falta são saídas viáveis”. Portanto, o mérito do projeto do Estadão, sob curadoria do executivo Fábio Barbosa, será justamente documentar um conjunto de propostas – executáveis nos primeiros dois anos do próximo governo – formulado por algumas das mais bem preparadas cabeças do Brasil em suas áreas de atuação.

 

Organizado em torno de três grandes eixos – estabilidade institucional e fundamentos do crescimento; capital humano e coesão social; e produtividade, infraestrutura e sustentabilidade –, o documento será a materialização de um esforço coletivo que lança luz sobre a mais nobre função do jornalismo profissional: servir ao interesse público e estimular a construção de consensos mínimos entre os cidadãos capazes de recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento político, social e econômico.

 

Por fim, mas não menos importante, merece destaque a preocupação do projeto “Brasil Adiante” em discutir não só as medidas que o País precisa tomar para crescer, mas também os entraves políticos à implementação. “O debate também precisa versar sobre como levar as sugestões adiante sabendo que haverá uma reação negativa”, disse Barbosa. Esse ponto é fundamental. O Brasil é uma usina de boas ideias que não raro morrem soterradas por uma burocracia kafkiana, pela falta de consensos partidários mínimos ou por cálculo eleitoral de curtíssimo prazo.

 

O “Brasil Adiante” mostrará que ainda existe vida inteligente fora da polarização política e que há, sobretudo, brasileiros genuinamente comprometidos com a democracia e o progresso do País. A ver o que o presidente eleito fará com o valoroso material que terá às mãos.

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