Escárnio com o eleitor
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A articulação do PL para lançar Eduardo Bolsonaro ao Senado por São Paulo, ainda que como suplente, cristaliza uma distorção crescente na política brasileira: a perda de relevância do desempenho no exercício do mandato como critério para a vida pública. Se antes o cargo exigia presença, hoje parece bastar o sobrenome. Deputado federal mais votado do País em 2018, com 1,84 milhão de votos, Eduardo perdeu seu mandato ao deixar de comparecer às sessões e não cumprir as exigências regimentais do mandato, após se mudar para o exterior.
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, Eduardo não apresentou nenhum projeto de lei de autoria individual, participou de apenas 11 votações e fez um único discurso em plenário. Ainda assim, utilizou R$ 67.995 em cota parlamentar e R$ 1,5 milhão em verba de gabinete, segundo a Câmara dos Deputados.
Apesar disso, seu nome segue no centro das negociações políticas. O PL discute indicá-lo como suplente na chapa ao Senado encabeçada pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL), em composição vinculada ao projeto político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A própria viabilidade jurídica da candidatura ainda é analisada, diante do fato de Eduardo estar fora do País.
Não se trata apenas de um episódio individual. O que está em jogo é mais amplo: a progressiva dissociação entre mandato e responsabilidade. Durante muito tempo, ausência e baixo desempenho inviabilizavam candidaturas. Essa lógica, ao que tudo indica, deixou de operar.
O próprio campo político que sustenta a candidatura reconhece a contradição. Em fevereiro, ao comentar a hipótese de lançar o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL) fez uma pergunta singela: “Como é que a gente vai explicar para o eleitor que ele quer ser candidato se foi cassado por falta?”. A dúvida permanece válida. O que mudou foi a disposição de ignorá-la.
A condição de suplente, nesse contexto, pode funcionar como um atalho conveniente para contornar o constrangimento. Ao não encabeçar a chapa, dilui-se o custo político imediato da candidatura. Mas o expediente não altera a substância do problema e tampouco elimina seus efeitos. No Senado, suplentes assumem com frequência, sobretudo quando os titulares são chamados a ocupar cargos no Executivo. Em um eventual novo mandato de Tarcísio de Freitas, não seria improvável que o titular da chapa fosse deslocado para funções no governo, abrindo espaço justamente para quem hoje busca se acomodar na suplência.
Mesmo antes disso, porém, a presença de Eduardo na chapa já cumpre um papel eleitoral evidente. Seu nome, associado a um eleitorado altamente mobilizado, tende a funcionar como fator de atração de votos, independentemente de seu histórico recente no exercício do mandato.
Ao admitir como viável o retorno, ainda que indireto, de um político que não exerceu plenamente o mandato para o qual foi eleito, partidos contribuem para rebaixar os padrões mínimos de exigência. O problema, portanto, não se esgota na figura de Eduardo. Ele apenas explicita uma distorção mais ampla.
A desigualdade que começa antes do salário
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A divulgação do 5.º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho reafirma um diagnóstico conhecido, mas ainda mal compreendido em sua profundidade: mulheres seguem recebendo menos que homens no mercado de trabalho brasileiro e essa diferença resiste ao tempo. Hoje, elas ganham, em média, 21,3% a menos nas empresas com mais de cem empregados, proporção que não apenas se manteve desde 2023, como apresentou leve piora ao longo da série histórica.
O dado ganha relevo adicional quando confrontado com outro movimento simultâneo. No mesmo período, a presença feminina no mercado formal cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões de trabalhadoras. Entre mulheres negras, o avanço foi ainda mais expressivo, de 29%. Ou seja: o acesso melhora, mas a desigualdade persiste.
Essa aparente contradição indica que o problema não está apenas na porta de entrada, mas na trajetória. A literatura econômica já consolidou esse diagnóstico. Os estudos da economista Claudia Goldin, laureada com o Prêmio Nobel, mostram que a diferença salarial entre homens e mulheres não é uniforme ao longo da carreira: ela se amplia de forma significativa após a maternidade, quando as mulheres passam a assumir maior carga de responsabilidades domésticas e tendem a migrar para empregos com menor remuneração ou menor perspectiva de progressão.
A desigualdade, portanto, não decorre apenas de discriminação direta, embora ela exista, mas de um conjunto de incentivos e estruturas que penalizam trajetórias femininas em momentos específicos da vida. É um fenômeno dinâmico, que se aprofunda com o tempo.
Esse padrão se repete inclusive em instituições públicas que, em tese, deveriam liderar o enfrentamento do problema. Levantamento da Plataforma Justa mostra que, nos Ministérios Públicos (MPs) estaduais, mais da metade das promotoras de Justiça recebe, em média, menos do que homens no mesmo cargo em 15 dos 21 MPs analisados pela pesquisa. Em alguns casos, a diferença anual ultrapassa R$ 30 mil. No Ministério Público Federal, uma em cada três mulheres também recebe menos do que colegas homens na mesma função.
A distorção convive com outro dado igualmente revelador: a sub-representação feminina nos espaços de poder. As mulheres são menos de 20% no Congresso Nacional e estão ausentes de centenas de Câmaras Municipais. Nos próprios Ministérios Públicos, embora representem parcela relevante da base, são minoria nos postos de comando. Em mais de um século de existência do MPF, apenas uma mulher ocupou o cargo de procuradora-geral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu três oportunidades históricas de reduzir essa falha e atender a parte do seu eleitorado ao indicar três homens, durante seu terceiro mandato, para ocupar cadeiras no Supremo Tribunal Federal, com Cristiano Zanin, Flávio Dino e, mais recentemente, Jorge Messias.
Forma-se, assim, um círculo vicioso. As mulheres são mais afetadas por estruturas que limitam sua progressão profissional e, ao mesmo tempo, têm menor capacidade de influenciar as decisões que poderiam alterá-las. A desigualdade salarial, nesse sentido, não é apenas um problema de mercado, mas de poder.
O debate público frequentemente se concentra em soluções pontuais, muitas vezes reduzidas à dicotomia entre intervenção estatal e liberdade de mercado. Mas os dados sugerem que o desafio é mais complexo. Trata-se de corrigir distorções que se formam ao longo do tempo, em ambientes institucionais diversos, e que não desaparecem com o simples aumento da participação feminina no mercado de trabalho.
A persistência da desigualdade, mesmo diante de maior inclusão, indica que o País avançou no acesso, mas ainda não enfrentou os mecanismos que produzem a diferença. Ignorá-los é perpetuar um sistema em que o ponto de partida pode até se aproximar, mas a linha de chegada continua desigual.
Lula sofre derrota histórica
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Fez muito bem o Senado ao recusar a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Como já dissemos neste espaço, o advogado-geral da União não possuía notável saber jurídico, um dos mais importantes pré-requisitos constitucionais para vestir a toga no STF, e só foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque devota lealdade canina ao demiurgo petista. Mas é preocupante que o Senado tenha tomado tão grave decisão não em razão do óbvio despreparo do postulante, e sim porque algo não funcionou nas negociações entre Lula e os parlamentares, sobretudo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Messias pagou a conta de um governo com imensas dificuldades na articulação política e cada vez mais acuado diante da perspectiva de derrota de Lula na eleição. É preciso ter a real dimensão do fato histórico ocorrido na noite de ontem: Lula é o primeiro presidente a ter uma indicação ao STF rejeitada desde Floriano Peixoto, no final do século 19. De lá para cá, todos haviam sido aprovados pelo Senado, inclusive os mais escandalosamente despreparados, como Dias Toffoli, cujo “saber jurídico” era seu notório trabalho como advogado do PT e que levou bomba nos dois concursos que prestou para a magistratura. Perto dele, Messias é um Moreira Alves.
Por ora, a sociedade pode respirar aliviada por não ter sido vítima de um erro cujas consequências nefastas para o País seriam muitíssimo duradouras, considerando que o jovem Messias, se aprovado, ficaria no Supremo até meados deste século. Mas o alívio há de ser, a um só tempo, cauteloso e vigilante. O acerto do Senado não decorreu de um juízo rigoroso sobre a capacidade técnica de Messias, mas sim de um cálculo político rasteiro, que provavelmente ficará mais claro nos próximos dias.
A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, como se viu, mais uma vez esteve longe de cumprir sua finalidade. Não se discutiram com a seriedade devida as credenciais jurídicas de Messias, tampouco se exigiu dele a demonstração inequívoca dos atributos requeridos pela Lei Maior para ingresso na mais alta corte do País. O que se viu, ao contrário, foi a repetição de um teatro medíocre, esvaziado de espírito público, cujo desfecho acabou sendo definido, a bem da verdade, não no plenário, mas nos conchavos de gabinete.
A rejeição de Messias, ao que tudo indica, resultou da incapacidade do governo Lula de satisfazer as demandas do grupo político que ora comanda o Senado. No nível em que foram oferecidos pelo Palácio do Planalto, cargos em órgãos estratégicos da alta administração pública, emendas bilionárias e espaços de influência política parecem não ter bastado, o que prenuncia uma crise muito maior.
O episódio expõe a profunda deterioração das relações entre o Executivo e o Legislativo. A recusa inédita de um indicado ao STF não importa por si só, mas sobretudo como sintoma de uma turbulência institucional muito mais ampla, cujas consequências tendem a se estender para muito além das eleições de 2026. Ao impor uma derrota dessa magnitude ao presidente da República, o Senado sinaliza uma disposição de confronto que pode comprometer a governabilidade e tensionar ainda mais o já cambaleante equilíbrio entre os Poderes – incluindo, claro, o Judiciário.
Não assistimos, portanto, a um surto de zelo republicano por parte dos senhores senadores. Fosse o Senado mais cioso de seu papel constitucional e menos covarde, o Supremo certamente não estaria coalhado de ministros despreparados para o cargo e, consequentemente, não estaria imerso na pior crise de credibilidade de sua história. O que mudou desta vez foi apenas o desfecho da barganha que ainda rege as relações entre os Poderes, com o evidente enfraquecimento de Lula – e, por tabela, do próprio Supremo, cujos principais integrantes fizeram campanha por Messias. E tudo isso se dá debaixo de pesadas nuvens que anunciam tempestade.
Planalto avalia que ala do STF se juntou a Alcolumbre para derrotar Messias; leia bastidor
Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA – O Palácio do Planalto avalia que uma ala do Supremo Tribunal Federal (STF) se juntou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para barrar a entrada do advogado-geral da União, Jorge Messias, na Corte. O nome indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi rejeitado por 42 votos a 34 no Senado. O resultado não só aumenta a crise entre o Planalto e o Congresso como anima a oposição nas eleições contra Lula, que é candidato ao quarto mandato.
A avaliação sobre os motivos da derrota foi feita na noite desta quarta-feira, 29, durante reunião entre Lula, Messias e os ministros José Guimarães (Relações Institucionais) e José Múcio (Defesa), além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no Palácio da Alvorada.
Para o governo, o ministro do STF Alexandre de Moraes ajudou Alcolumbre na articulação contrária a Messias. Auxiliares de Lula também disseram, sob reserva, que o ministro Flávio Dino atuou para derrotar o advogado-geral da União. Tanto Moraes como Dino negam que tenham participado desse movimento. “Peça para apontarem um único senador que liguei ou falei”, disse Moraes, por intermédio de sua assessoria.
O diagnóstico do Planalto foi o de que, ao se aliar ao ministro do STF André Mendonça para conquistar votos de senadores bolsonaristas, Messias acabou comprando briga com o grupo que tem se posicionado contra as decisões do magistrado no tribunal.
Como mostrou o Estadão, se entrasse no STF, Messias poderia ser uma espécie de “fiel da balança” nas votações, inclusive sobre o código de ética proposto pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Nesse caso, a tendência seria uma mudança na correlação de forças do Supremo.
Lula disse na reunião no Alvorada que não indicará outro ministro para o STF. Está muito irritado com Alcolumbre e quer saber quem foram os “traidores” da base aliada que, na votação secreta, ficaram contra Messias, mesmo depois de o governo ter liberado o pagamento de emendas parlamentares e negociado cargos em agências reguladoras, além de vagas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A rejeição de Messias para o STF significou a mais fragorosa derrota do governo. Para ser aprovado, o advogado-geral da União precisava do apoio de 41 senadores. O próprio Alcolumbre, no entanto, atuou para impor o vexame ao Planalto. Não foi só: avisou a vários senadores que não pautará nenhuma eventual nova indicação para o STF antes das eleições.
A última vez que o Senado recusou um nome indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF foi há 132 anos, no governo de Floriano Peixoto. O ambiente conflagrado no Congresso ainda terá um novo capítulo nesta quinta-feira, 30, quando senadores e deputados devem derrubar o veto de Lula ao projeto de lei que reduz as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro. A sessão do Congresso será comandada por Alcolumbre.
A oposição já comemora a derrota do governo como a vitória do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à sucessão de Lula e seu principal desafiante até agora. Nos corredores do Congresso, o que mais se ouvia na noite desta quarta-feira eram frases como “o governo acabou”. Messias, por sua vez, disse que enfrentou durante cinco meses uma campanha de “desconstrução” e mentiras. “Nós sabemos quem promoveu tudo disso”, afirmou ele, numa referência a Alcolumbre. “O que acontece é que Davi deixou de atuar como líder do governo e trabalhou como presidente do Senado”, resumiu o senador Efraim Filho (PL-PB). “Houve um erro de avaliação e de estratégia do governo”.
Alcolumbre sempre quis emplacar o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), seu antecessor no cargo, na vaga do STF. A portas fechadas, dizia que o presidente havia assumido o compromisso de indicar Pacheco para a Corte. Além disso, considerava que a escolha de Pacheco por Lula seria uma retribuição a tudo que o que ele próprio fizera para conseguir votos a outros indicados do governo, como Dino para o STF e Paulo Gonet para a Procuradoria-Geral da República.
Desde que Lula anunciou a indicação de Messias, em novembro do ano passado, Alcolumbre mostrou inconformismo. E chegou a dizer que Lula veria, a partir de agora, o que era ter o presidente do Senado como inimigo.
Congressistas devem explicações sobre carona em jatinho
Por Editorial / O GLOBO
No dia 13 de abril de 2025, o jato com o prefixo PP-OIG, pertencente ao empresário Fernando Oliveira Lima, dono de empresas de apostas on-line conhecido como Fernandin OIG, decolou do São Paulo Catarina, aeroporto exclusivo de aviação executiva em São Roque (SP), a 68 quilômetros da capital paulista. O destino era a ilha caribenha de São Martinho. Fernandin postou imagens da viagem numa rede social, com passeios a bordo de embarcações de luxo pelas águas azuis do Caribe, piscina privativa, serviço de concierge e menu de frios, ostras e lagosta. Uma semana depois, no dia 20, por volta das 21 horas, o mesmo jatinho pousou de volta em São Roque.
Entre os passageiros estavam o proprietário da aeronave, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), os deputados Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), ambos líderes de seus partidos. Imagens da câmera de segurança do terminal mostram o piloto passando ao lado do detector de metais com um carrinho carregando cinco volumes, sem colocá-los na máquina de raios-X. Em relatório, a Polícia Federal (PF) confirmou que o auditor fiscal presente no local autorizou a liberação sem inspeção, como revelou o jornal Folha de S.Paulo. A pedido do Ministério Público, o inquérito foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde aguarda manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Como sabe todo cidadão brasileiro que viaja para o exterior, a cota de isenção para produtos comprados lá fora é de US$ 1 mil. Cada viajante pode ingressar no Brasil com o equivalente a US$ 10 mil em espécie, e todos estão sujeitos a inspeção de malas e pertences no aparelho de raios-X. A liberação em aeroporto de pouca circulação de passageiros, sem fila e com fiscal presente levanta suspeitas. Não existe lei que dê passe livre a congressistas nas alfândegas. O que entrou no país sem passar pela devida inspeção? Será que algumas das maiores autoridades do Congresso tiveram direito a tratamento especial?
Procurado, Motta afirmou ter cumprido “todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira”. Em nota, disse que aguardará a manifestação da PGR. Nogueira, que também já viajou para a Europa para assistir a corrida de Fórmula 1 em avião de Fernandin, não se manifestou.
Como também sabe todo cidadão brasileiro, empresários não têm o costume de oferecer carona a qualquer um em seus jatos executivos. Também não consta nenhum grau de parentesco entre os congressistas transportados ao Caribe e Fernandin, cuja empresa está associada à exploração de jogos não autorizados pela regulamentação das bets, como o popular “jogo do tigrinho”. Seu indiciamento foi pedido no relatório final da CPI das Bets em 2024 por exploração ilegal de jogos de azar. O relatório final, porém, foi rejeitado.
A repercussão do caso fez renascer no Congresso o debate a respeito da imposição de regras sobre caronas em jatinhos. Tal iniciativa é salutar e urgente. Os códigos de ética e conduta em vigor são vergonhosamente vagos sobre o tema. O mínimo a exigir é transparência em relação a caronas em voos. O ideal é seguir o exemplo dos Estados Unidos e proibir o transporte das autoridades em aeronaves particulares de lobistas. Ou alguém acredita que caronas em jatinhos saem de graça?
Como Alcolumbre e Flávio Bolsonaro derrubaram Messias e conseguiram impor derrota histórica a Lula
COLUNA DA MALU GASPAR Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO
A rejeição histórica do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) foi resultado de uma articulação que mobilizou integrantes da tropa de choque bolsonarista, capitaneados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ministro Alexandre de Moraes e, acima de tudo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que trabalhou até o último minuto para impor a derrota ao governo Lula.
Messias obteve apenas 34 votos favoráveis, sete a menos que os 41 exigidos pela Constituição. Ao todo, 42 senadores votaram contra, formando um placar que não era esperado nem pelos mais pessimistas aliados de Lula e que supera um precedente histórico: antes de Messias, apenas o governo Floriano Peixoto havia tido indicações para o STF rejeitadas, cinco ao todo, em 1894.
Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, Alcolumbre passou os últimos dias pedindo votos “não” e pressionando lideranças do Senado, principalmente do Centrão e os considerados “independentes”, passando o recado de que se perdessem a oportunidade de derrotar Messias, não adiantaria depois pedir para que ele colocasse em pauta um dos 97 pedidos de impeachment de ministros que ele mantém engavetados.
De acordo com fontes envolvidas nas conversas, o presidente do Senado não se comprometeu a pautar nenhum pedido de impeachment, mas foi bem sucedido ao convencer os senadores de que a derrubada do indicado de Lula seria um passo necessário para chegar lá.
“Ele ligou para vários senadores para pedir votos contra”, confidenciou um interlocutor de Alcolumbre. Um dos alvos de pressão foi o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), que anunciou publicamente apoio a Messias, mas foi cobrado a enquadrar a bancada – formada por sete senadores – e entregar o menor número possível de votos “sim”.
Conhecido por nunca atender o celular, o presidente do Senado passou o tempo todo ao telefone falando com parlamentares, em especial os que já estivessem na campanha contra Messias ou estivessem em dúvida. Nas conversas, repetia frases como “faça o seu papel que eu farei o meu” e terminava dizendo que “hoje será um dia histórico”.
Antes do anúncio oficial do placar, Alcolumbre sussurrou no ouvido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), em uma fala captada pelo microfone: “Acho que ele vai perder por oito”.
Um aliado de Bolsonaro disse ao blog que, um dia antes da sabatina, recebeu a seguinte mensagem de Alcolumbre sobre a votação: “Nós vamos derrotar ele”.
Fator Flávio
De acordo com os relatos, porém, a articulação de Alcolumbre contou com o esforço de Flávio Bolsonaro e de lideranças como o senador Rogério Marinho, que além de líder da oposição no Senado, é coordenador da campanha presidencial.
Nos últimos dias, Flávio se reuniu pelo menos duas vezes com grupos de senadores, além de ter feito conversas reservadas e reuniões fechadas com vários outros, especialmente os do Centrão.
Num café da manhã na terça-feira (28) com integrantes do bloco Vanguarda, formado por 18 senadores, o filho “zero um” de Jair Bolsonaro disse que uma eventual aprovação de Messias só iria politizar ainda mais o Supremo e classificou o chefe da AGU como um quadro ideológico do PT – alguém que seria sempre subordinado aos interesses do presidente Lula, mesmo após a nomeação.
Além disso, a derrubada de Messias abriria espaço para ele mesmo indicar o próximo ministro do Supremo caso vença as eleições de outubro, mudando o jogo de forças no tribunal e quem sabe até permitindo a revisão de sentenças e processos contra o bolsonarismo. Alinhado com esse discurso, aliados de Flávio, como Sergio Moro (PL-PR), aproveitaram suas falas na sabatina para dizer que o governo não deveria ter direito de indicar ministros em ano eleitoral.
Aliados de Flávio calculam que ele tenha conseguido virar inclusive votos do Centrão em outra reunião da qual participaram mais de 30 senadores, acenando com pesquisas de opinião que mostram a desconfiança recorde da população em relação ao Supremo e apontando para a “vontade popular” de que alguns ministros sofram impeachment.
A articulação foi arrematada por reuniões secretas entre Alcolumbre, Flávio e aliados, em que foi feito um pacto de silêncio. Nenhum deles devia abrir para ninguém os detalhes do que estava sendo discutido, nem que havia chances concretas de Messias ser rejeitado.
A ordem de manter o segredo foi distribuída aos integrantes da oposição, junto com a orientação de não fazerem nenhum discurso no plenário no momento da votação. A ideia era fazer tudo rápido, para não dar tempo aos senadores governistas de reagir quando ficasse claro que a derrota era iminente.
De fato, quando perceberam que poderiam perder, senadores como Eduardo Braga (MDB-AM) e Jaques Wagner começaram a cogitar pedir o adiamento da sessão. Mas acabaram concluindo que poderiam ganhar, ainda que com placar apertado, e preferiram bancar o risco.
Antes de Flávio entrar em campo contra Messias, a expectativa era a de que o ministro de Lula conseguisse pelo menos quatro votos de “traição” dentro do PL – especialmente de parlamentares evangélicos que poderiam atender o pedido do ministro do Supremo André Mendonça, um dos que mais trabalhou para ter o advogado-geral da União como colega.
De fato, quando perceberam que poderiam perder, senadores como Eduardo Braga (MDB-AM) e Jaques Wagner começaram a cogitar pedir o adiamento da sessão. Mas acabaram concluindo que poderiam ganhar, ainda que com placar apertado, e preferiram bancar o risco.
Antes de Flávio entrar em campo contra Messias, a expectativa era a de que o ministro de Lula conseguisse pelo menos quatro votos de “traição” dentro do PL – especialmente de parlamentares evangélicos que poderiam atender o pedido do ministro do Supremo André Mendonça, um dos que mais trabalhou para ter o advogado-geral da União como colega.
Entre aliados de Flávio e integrantes da tropa de choque bolsonarista no Senado, que apostam na bandeira anti-STF para conquistar a maioria da Casa nas próximas eleições, a votação de Messias foi encarada como uma oportunidade para o Senado “mostrar o mínimo de altivez”.
Lição
A postura nos bastidores contrasta com os recados enviados a integrantes da base lulista de que Alcolumbre não ajudaria, mas também não atrapalharia as pretensões de Messias.
“A verdade é que Alcolumbre sempre atuou contra Messias. Mas fazia jogo duplo”, definiu outro interlocutor do presidente do Senado, destacando que Alcolumbre sempre quis a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e ficou contrariado com a decisão de Lula de optar por Messias sem avisá-lo ou consultá-lo previamente.
Lição
A postura nos bastidores contrasta com os recados enviados a integrantes da base lulista de que Alcolumbre não ajudaria, mas também não atrapalharia as pretensões de Messias.
“A verdade é que Alcolumbre sempre atuou contra Messias. Mas fazia jogo duplo”, definiu outro interlocutor do presidente do Senado, destacando que Alcolumbre sempre quis a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e ficou contrariado com a decisão de Lula de optar por Messias sem avisá-lo ou consultá-lo previamente.
Na avaliação de outro aliado do presidente do Senado, Alcolumbre quis dar uma lição a Lula ao articular pela derrota de Messias no plenário. “É para mostrar que as coisas não andam nem funcionam sem o apoio dele”, afirmou.
Correlação de forças
A indicação de Messias também contrariou os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que preferiam a escolha de Pacheco, que atua na órbita dos dois e é considerado um magistrado de perfil mais político, com mais habilidade na relação com o Parlamento em um momento em que se multiplicam no Congresso os pedidos de impeachment contra integrantes do STF.
Messias, por outro lado, era encarado pela dupla como um potencial aliado de Mendonça, relator do caso Master no STF. Num momento em que a Corte está mergulhada numa crise de credibilidade sem precedentes, a chegada de um novo ministro altera a correlação de forças e pode fazer a diferença em julgamentos que dividam o plenário.
Mas tudo isso não adiantou, em uma votação realizada a menos de seis meses da eleição, com as pesquisas mostrando Lula e Flávio tecnicamente empatados em um eventual segundo turno – e o índice de desconfiança do STF alcançando patamares recordes.
“O Senado vocaliza o sentimento da sociedade brasileira com essa interferência e a falta de sintonia entre o que quer a sociedade e a maneira como se comportam alguns ministros. É um recado ao próprio governo federal”, disse o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN).
“Estamos no meio de um processo pré-eleitoral e de uma crise moral das instituições, em especial do Judiciário, que está sob o foco dessas investigações. Então, é razoável que aguardemos o desfecho das eleições e quem ganhar as eleições, com a legitimidade do voto, tenha a possibilidade de fazer a indicação.”
Antes do resultado no plenário, um ministro do primeiro escalão do governo Lula assim resumiu a via-crúcis do chefe da AGU: “Messias está sendo julgado por crimes que não cometeu”.

