Prêmio aos golpistas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo dos EUA anunciou a criação de um fundo de US$ 1,776 bilhão para compensar supostas vítimas de “perseguição judicial” durante a gestão anterior, do democrata Joe Biden. Como tudo na administração de Donald Trump, o valor do fundo tem função simbólica: trata-se de uma alusão ao ano da Independência dos EUA, que completa 250 anos agora em julho.
Abastecido com recursos do Tesouro, o fundo pode resultar na transferência de recursos do contribuinte americano para aliados e apoiadores de Trump. Vândalos que depredaram o Capitólio no fatídico 6 de Janeiro estão entre os potenciais beneficiados pelo chamado Anti-Weaponization Fund.
Paralelamente, o Departamento de Justiça anunciou, de forma discreta (ou envergonhada), um acordo segundo o qual a Receita Federal dos EUA (IRS, na sigla em inglês) fica impedida “para sempre” de prosseguir com ações fiscais contra o presidente, sua família ou suas empresas. Trump pleiteava uma indenização de US$ 10 bilhões do IRS por suposto vazamento de informações.
É bastante provável que as duas medidas prejudiquem ainda mais a popularidade do republicano, que já se encontra no nível mais baixo de seus dois mandatos – apenas 37% dos americanos aprovam a gestão do republicano, segundo pesquisa do The New York Times/Siena.A popularidade baixa limita as chances dos republicanos de manterem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio de mandato, agendadas para novembro.
Não que Trump pareça se importar com isso. Ele acaba de dinamitar mais uma candidatura de um republicano que ousou discordar dele. Contrário às ações militares dos EUA na Venezuela e no Irã, o deputado pelo Kentucky Thomas Massie perdeu para o colega de partido Ed Gallrein a primária republicana para disputar a eleição de novembro. Gallrein recebeu endosso e apoio publicitário milionário de Trump, enquanto Massie, que também desagradou ao presidente por pressionar pela divulgação de arquivos relacionados a Jeffrey Epstein, foi taxado de “desleal”, “canalha” e “idiota”.
Não é de hoje que Trump humilha o próprio partido. Para o presidente, só é republicano digno do nome quem o apoia incondicionalmente. Trump esmaga qualquer um que ouse questioná-lo, mesmo que totalmente embasado na Constituição ou na racionalidade.
Quem se alinha incondicionalmente ao presidente também alinha-se a uma gestão que desagrada ao eleitor americano por ações como a guerra no Irã, que tem pesado cada vez mais no bolso do cidadão médio. Já quem contesta o presidente perde chance até de concorrer nas eleições parlamentares.
Desmoralizada pelas ações erráticas de Trump, a quem os republicanos definitivamente não conseguem controlar, a direita americana no momento parece contar com um único trunfo: a miséria do lado democrata, que até agora limitou-se a se apresentar como a antítese de Trump, sem propor aos eleitores uma visão que vá além desse embate. O resultado, por ora, é a apatia.

