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Havana no fio da navalha

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O indiciamento de Raúl Castro por um tribunal federal americano, três décadas após o abate de aviões civis americanos, dificilmente alterará o seu destino judicial. Aos 94 anos, protegido por um regime fechado e cercado pelo aparato de segurança que ajudou a construir, é improvável que o antigo ditador cubano acabe numa corte em Miami. Ainda assim, a decisão não pode ser reduzida a um gesto simbólico ou uma reparação tardia. Ela sugere que Washington passou a enxergar Cuba menos como um impasse histórico a ser administrado e mais como um regime vulnerável, pressionável e talvez transformável.

 

Essa mudança coincide com a crise mais aguda vivida pela ilha desde o colapso soviético. Hospitais operam sob escassez permanente. O transporte é errático. A dependência do petróleo venezuelano, durante anos um dos pilares silenciosos da sobrevivência cubana, tornou-se um passivo insustentável após a queda de Nicolás Maduro e o bloqueio promovido pela Casa Branca. O país importa cerca de 80% de seus alimentos e enfrenta dificuldade até para manter seu sistema elétrico – apagões de 20 horas são rotina.

 

A fábula da revolução igualitária foi há muito soterrada sob um sistema opaco, concentrado e predatório. O centro de gravidade da economia já não está no Partido Comunista propriamente dito, mas na Gaesa, conglomerado controlado pelas Forças Armadas que domina hotéis, portos, remessas, varejo, construção civil e parte expressiva das divisas da ilha. Enquanto a população convive com racionamentos e deterioração acelerada dos serviços públicos, uma oligarquia político-militar preserva acesso a dólares, importações e zonas protegidas da economia. Socialismo para o povo, capitalismo de compadrio para a nomenklatura.

 

A estratégia americana parece desenhada para atingir esse núcleo. As sanções recentes miram empresas ligadas à Gaesa. O bloqueio energético busca aprofundar o desgaste interno. A ajuda humanitária oferecida por Washington vem condicionada à distribuição pela Igreja Católica ou organizações independentes, contornando o Estado. Ao mesmo tempo, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de cubanos, dirige mensagens à população, descrevendo o Politburo como uma oligarquia que sequestrou os recursos nacionais. O tom é agressivo, mas coerente. Há uma tentativa de separar regime e sociedade.

 

A tática integra uma doutrina geopolítica. O governo Trump voltou a tratar o Caribe como área de interesse estratégico. A presença chinesa e russa aparece com frequência crescente nos discursos de Washington, assim como a preocupação com fluxos migratórios e instabilidade regional. O indiciamento de Castro se encaixa nesse ambiente de pressão hemisférica.

 

A comparação entre a Cuba castrista e a Venezuela chavista é incontornável, mas encontra limites importantes. O regime de Maduro convivia com facções rivais e estruturas paralelas de poder. Cuba preserva uma cadeia de comando mais compacta, um sistema de vigilância social muito mais antigo e uma dissidência esmigalhada por décadas de exílio, repressão e exaustão social. Não há resquícios de instituições democráticas, nem sequer um sucessor evidente, como Delcy Rodríguez em Caracas, capaz de conduzir uma abertura negociada.

Pressionar regimes autoritários costuma ser mais simples do que administrar sua ruína. A economia cubana se mostra cada vez menos sustentável. A legitimidade revolucionária se desintegrou há muito tempo. Mesmo assim, colapsos políticos raramente obedecem ao roteiro imaginado por quem os acelera. Eles podem produzir endurecimento repressivo, convulsões intestinas ou ondas migratórias difíceis de conter.

 

Durante décadas, Cuba permaneceu suspensa numa espécie de congelamento histórico: pobre, isolada, autoritária e surpreendentemente estável. Essa estabilidade foi devorada por dentro. A “Revolução” é só uma fachada em ruínas para um extrativismo voraz e autodestrutivo. Washington percebeu a fragilidade e decidiu testá-la. A longa disputa com o regime comunista parece se encaminhar para uma rodada final. Se Trump joga por uma transição negociada ou uma ruptura violenta, ninguém sabe – talvez nem ele mesmo.

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