A Estação de Tratamento de Água do Guandu — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O GloboA Companhia Estadual de Água e Esgotos (Cedae) atendia 64 municípios do Rio de Janeiro antes da privatização de sua extensa área de saneamento. Depois da bem-sucedida venda, que tem atraído investimentos necessários ao setor em todo o estado, ela continuou responsável pela captação e fornecimento de água tratada às concessionárias privadas. Persistiram, contudo, os problemas financeiros, como revela a auditoria encomendada pelo novo presidente da empresa, o procurador do estado Rafael Rolim, nomeado pelo governador em exercício, Ricardo Couto.De acordo com reportagem do GLOBO, estão sob inspeção os contratos assinados nos 12 meses anteriores à posse, em 16 de abril. Desses contratos, os 230 com valor acima de R$ 1 milhão foram enviados à Controladoria Geral do Estado (CGE). Outros 150, envolvendo somas menores, estão sob inspeção na própria Cedae. A auditoria já descobriu gastos de R$ 1 bilhão acertados sem licitação, com pregões e atas de registro de preços para compras feitos fora da empresa. Ao redor de R$ 2,2 bilhões foram aplicados no mercado financeiro, entre eles R$ 200 milhões no insolvente Banco Master. A Cedae flexibilizou as regras de investimentos antes de comprar títulos do Master em 2023.A situação é ainda mais crítica porque, em razão de falhas flagrantes cometidas no edital de venda da área de saneamento — diversas informações sobre a cobertura dos serviços nos municípios fluminenses estavam incorretas —, a Cedae se viu forçada a reduzir em 24% o preço da água cobrado da concessionária privada Águas do Rio, por meio de um termo de conciliação. Com isso, a estimativa de prejuízo para 2027 está em R$ 387 milhões. A nova gestão determinou corte de 25% no orçamento de obras e serviços, além de redução de R$ 5 milhões anuais em gastos com funcionários comissionados e terceirizados.Em reunião com os funcionários, Rolim garantiu que as diretorias foram despolitizadas e que doravante a gestão será técnica. “Não quero perseguir ninguém. Quem fez, fez, daqui para a frente não faz mais. Se envolvam na companhia”, disse à equipe. A nova diretoria tem razão em examinar de perto os contratos da Cedae fechados nas administrações anteriores. Mas, se a auditoria revelar irregularidades ou infrações, não pode ser leniente com os envolvidos.A Cedae foi durante muito tempo um trunfo político a serviço do governador. As perdas na rede de abastecimento oscilavam entre 38% e 40%, ante taxas abaixo de 10% nos países avançados. Se houvesse administrações comprometidas com a busca por eficiência, isso não teria ocorrido. Os desmandos na Cedae reforçam o acerto do Marco Legal do Saneamento, criado para garantir a universalização dos serviços de água e esgoto por meio de investimentos privados e regulação robusta do Estado. A situação crítica da empresa revela um tipo de gestão que só acontece em estatais, vulneráveis a interesses políticos.