A liturgia esquecida do Judiciário
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A festa organizada para celebrar a posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) expôs um problema recorrente da cúpula do Judiciário brasileiro: a incapacidade de compreender que a autoridade de um magistrado depende não apenas de sua independência real, mas também da aparência pública dessa independência.
Não se trata de patrulhar confraternizações privadas nem moralizar o consumo de bebidas e charutos. O ponto central é institucional. Magistrados não exercem função política tradicional. Diferentemente de presidentes, governadores e parlamentares, juízes não retiram legitimidade do voto popular. Sua força deriva da confiança coletiva de que atuam com imparcialidade, discrição e distância dos interesses que orbitam o poder.
É justamente por isso que a magistratura exige cautelas incompatíveis com ambientes de excessiva proximidade social entre juízes, advogados, empresários, políticos e personagens diretamente interessados em decisões judiciais. No caso da festa promovida após a posse de Nunes Marques, a confraternização reuniu ministros de tribunais superiores, lideranças partidárias, advogados influentes, empresários e celebridades num ambiente organizado em torno de um cargo público estratégico: a presidência da corte responsável por conduzir as eleições de 2026. Organizado pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), o evento teve ingressos de R$ 800 e contou com shows de Jorge Aragão, Dudu Nobre e Ivo Meirelles, além da presença de políticos como o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).
O problema não reside necessariamente no conteúdo das conversas travadas durante o evento. Não é preciso presumir pedidos ou favorecimentos para reconhecer o dano institucional produzido por situações dessa natureza. No Judiciário, a mera aparência de proximidade indevida já corrói a credibilidade da instituição. A suspeição nasce quando magistrados parecem acessíveis a grupos que poderão ter interesses submetidos à apreciação dos tribunais.
A Lei Orgânica e o Código de Ética da Magistratura insistem em princípios como independência, prudência, decoro e preservação da confiança pública. Não por acaso. Juízes precisam compreender que sua conduta social jamais é inteiramente privada. Quanto mais elevada a função exercida, maior o dever de reserva institucional.
Nada disso significa exigir isolamento monástico da magistratura. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do TSE evidentemente têm direito à vida social e a celebrações pessoais. O problema surge quando eventos ligados diretamente ao exercício do cargo passam a funcionar como espaços de confraternização entre autoridades públicas, grupos politicamente interessados e figuras influentes do meio jurídico.
Também não se trata de episódio isolado. Nos últimos anos, festas semelhantes acompanharam posses de presidentes do STF. Na posse de Dias Toffoli, em 2018, o ministro cantou Legião Urbana numa confraternização organizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que cobrou R$ 250 dos participantes. Em 2023, Luís Roberto Barroso subiu ao palco ao lado de Diogo Nogueira numa festa também organizada pela AMB, com ingressos de R$ 500. O fato de a prática ter se tornado comum, contudo, não a torna menos problemática. Apenas demonstra como parte do Judiciário brasileiro foi naturalizando comportamentos incompatíveis com a liturgia de funções cuja autoridade depende fundamentalmente da confiança pública.
Nesse aspecto, chama atenção o contraste com ministros que preferiram exercer suas funções sob maior discrição. Ou seja, a exposição pública é uma escolha. A credibilidade do Judiciário não se deteriora apenas em grandes escândalos. Ela também se desgasta lentamente quando ministros passam a agir como se a aparência de independência fosse mero detalhe protocolar. Para juízes, a preservação dessa imagem não é ornamento moral. É parte essencial da própria autoridade institucional. Esse cuidado deveria ser permanente e inegociável.
A tempestade perfeita do agro
Por Notas & Informações O ESTADÃO DE SP
O próximo Plano Safra talvez seja o mais desafiador da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República. Não apenas pelos limites fiscais do governo ou pela dificuldade de reduzir os juros num ambiente ainda pressionado pela inflação, mas porque o programa será lançado num momento particularmente delicado para a relação entre o Palácio do Planalto e o agronegócio, uma das peças mais valiosas no xadrez das disputas eleitorais brasileiras.
Historicamente refratário ao PT, o agro voltou a ganhar peso ainda maior na eleição deste ano. Lula aparece em cenário apertado nas pesquisas e precisa reduzir resistências em setores produtivos relevantes se quiser ampliar suas chances de reeleição. Do outro lado, havia quase como fato consumado o alinhamento do agronegócio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), movimento que ajudaria a consolidar um palanque robusto da direita no campo.
Mas as turbulências recentes, após a revelação do pedido de dinheiro feito por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro, embaralharam esse cenário e abriram espaço para uma disputa mais fragmentada pelo apoio do setor, inclusive com o avanço das articulações em torno da candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). A Frente Parlamentar da Agropecuária deve anunciar em breve seu apoio formal a uma candidatura presidencial e há sinais de que o alinhamento automático do setor à direita bolsonarista já não é tão líquido quanto parecia meses atrás.
É nesse momento que Lula chega ao Plano Safra. E chega diante de um setor que descreve o momento atual como uma “tempestade perfeita”. A expressão foi repetida pela ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS), pelo presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), e até pelo novo ministro da Agricultura, André de Paula. Os motivos são conhecidos: juros elevados, crédito caro e escasso, alta do custo dos insumos, diesel e frete pressionados, preços mais baixos das commodities, dificuldades no seguro rural e um nível crescente de endividamento dos produtores. Os números ajudam a dimensionar o problema. Dados da Serasa Experian mostram que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% em relação ao ano anterior e o maior volume da série histórica iniciada em 2021. A inadimplência rural também avançou. No terceiro trimestre do ano passado, 8,3% da população do campo estava inadimplente.
A renegociação das dívidas rurais, por isso, passou a ser tratada pelo próprio governo como condição para o funcionamento do próximo plano, previsto para julho. Em entrevista ao Estadão, André de Paula reconheceu que, “sem uma atenção especial ao endividamento, teremos menos produtores que podem se habilitar ao Plano Safra”. O diagnóstico parece correto, mas a dúvida é se o governo resistirá à tentação de recorrer justamente às fórmulas que ajudaram a ampliar esse ambiente de endividamento.
O governo Lula vem recorrendo, cada vez mais, a políticas de expansão de crédito e estímulos artificiais para tentar sustentar atividade econômica, consumo e popularidade. Foi assim com novas etapas do Desenrola, com linhas subsidiadas e com sucessivas iniciativas para facilitar empréstimos. O efeito político imediato dessas medidas costuma ser sedutor. O econômico, no entanto, habitualmente aparece mais adiante, na forma de maior pressão fiscal, inflação e aumento do custo do dinheiro.
No agro, esse risco é ainda maior. Um Plano Safra robusto será inevitável. De pouco adiantará um programa bilionário se parcela crescente dos produtores já estiver fora do mercado de crédito ou sem capacidade de assumir novos financiamentos. O desafio está justamente em evitar que uma resposta emergencial a uma crise conjuntural se transforme em novo ciclo de alavancagem excessiva, empurrando produtores já fragilizados para uma situação ainda mais delicada no médio prazo. Crédito rural não pode virar anestesia eleitoral.
O desafio de Lula será precisamente evitar que a tentativa de reconstruir pontes políticas com o agronegócio produza, adiante, uma conta ainda mais cara para o próprio setor que pretende seduzir.
Lula x Congresso
Regimes presidencialistas permitem que o Executivo e o Legislativo sejam controlados por forças divergentes, ou mesmo antagônicas —um fator em potencial de instabilidade que o parlamentarismo procura evitar, sem tampouco garantir um sistema de governo imune a impasses políticos.
Hoje, no Brasil, há um presidente de esquerda e um Congresso Nacional sob comando de partidos mais alinhados à centro-direita e à direita, ainda que não prezem pela consistência programática e ideológica. Para 70% dos brasileiros aptos a votar, a relação entre o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Parlamento é mais de confronto que de colaboração, segundo pesquisa do Datafolha.
O levantamento foi feito em um momento de tensão política mais elevada, a poucos meses das eleições, com um escândalo financeiro e de corrupção em curso e pouco depois da rejeição pelo Senado de uma indicação de Lula para o Supremo Tribunal Federal (STF) —pela primeira vez desde 1894.
Se considerado todo o terceiro mandato do líder petista, a relação com o Congresso é, sem dúvida, mais difícil do que em outros tempos, porém não se observa um antagonismo agudo a ponto de impedir a governabilidade.
Se Jair Bolsonaro (PL) tentou governar sem alianças partidárias e só recorreu ao centrão quando se viu sob risco de deposição, Lula repetiu o modelo de coalizão petista —no qual o partido reserva para si os postos mais importantes e atrai apoios de outros setores com a oferta de cargos e verbas de ministérios secundários e empresas estatais.
Esse arranjo era mais eficiente no passado, ainda que tenha degenerado em escândalos como o mensalão e o petrolão. Atualmente, nem o petista desfruta da vasta popularidade de outrora nem os parlamentares dependem mais de favores do Executivo para que suas emendas ao Orçamento sejam executadas.
Ainda assim, aprovou-se uma reforma histórica, a tributária, e o governo pôde tocar grande parte de sua agenda, incluindo muitos dos aumentos de impostos propostos pela Fazenda. Houve propostas rejeitadas ou negociadas e modificadas, o que é normal e desejável numa democracia.
Isso não significa, claro, que tudo funcione à perfeição. A multiplicação de emendas parlamentares de execução obrigatória, em particular, é uma anomalia que ao mesmo tempo avilta o Orçamento e distorce o equilíbrio entre os Poderes, também abalado por abusos do Supremo. No campo político, a polarização dificulta acordos, mas não deixa de ser uma escolha do eleitorado.
Delação de Daniel Vorcaro não pode ser seletiva
Por Editorial / O GLOBO
É compreensível que a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro venha cercada de expectativas. Afinal, Vorcaro está no centro do escândalo do Banco Master, liquidado no ano passado pelo Banco Central (BC) depois da descoberta de um esquema bilionário de fraudes — e é conhecido pelas relações com altas figuras da República e pelo acesso aos gabinetes do poder em Brasília. Não há dúvida de que sua colaboração com a Justiça pode dar contribuição inestimável às investigações. Mas é fundamental que ele realmente esteja disposto a falar tudo o que sabe e a fornecer provas do que disser.
Por isso causa estranheza que a proposta apresentada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) omita fatos da maior importância trazidos à tona nos últimos dias. É o caso das provas levantadas pela operação da PF que teve como alvo o senador Ciro Nogueira (PP-PI). De acordo com a PF, Vorcaro pagava a Ciro mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil, custeava viagens internacionais dele e foi o artífice de um projeto de que se beneficiaria (o aumento da garantia do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão). A proposta de delação de Vorcaro tampouco faz menção ao pedido do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro para que o banqueiro financiasse um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, em transações cercadas de suspeitas. Não faz sentido Vorcaro oferecer na delação menos do que já se sabe.
As colaborações premiadas têm sido eficazes para desvendar crimes complexos, identificar autores e recuperar valores desviados. Embora isoladamente não sirvam como prova judicial, costumam oferecer subsídios valiosos a investigações. Na Operação Lava-Jato, expuseram as vísceras da corrupção nas mais altas esferas. É verdade que, posteriormente, condenações foram anuladas por erros na condução dos processos. Mas isso não tira o mérito dos acordos, que serviram para iluminar os subterrâneos da relação do Estado com as grandes empreiteiras.
No assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, as delações premiadas dos executores expuseram os mandantes, que permaneciam blindados por agentes do Estado. Mais recentemente, a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, foi fundamental para guiar a PF pelos labirintos da trama golpista, levando à condenação do ex-presidente, de ex-ministros e de militares de alta patente.
Já se sabe muito sobre Vorcaro. Mas, dada sua incrível generosidade com poderosos de todas as estirpes, é certo que ainda há muito a descobrir. A todo momento, o escândalo do Master ganha novos desdobramentos (no último, a PF prendeu o pai de Daniel, Henrique Vorcaro, acusado de integrar uma estrutura paralela para monitorar e intimidar adversários). É improvável que cessem, enquanto houver celulares e computadores a vasculhar.
Por tudo isso, além das propostas de ressarcimento, Vorcaro terá de indicar o caminho de seu dinheiro no Brasil e no exterior. Se insistir em atuar na retranca, escondendo informações relevantes, é pouco provável que convença Supremo Tribunal federal, PGR e PF a fechar um acordo de colaboração. Para obter benefícios da lei, como redução de pena ou mudança de regime, Vorcaro deve entregar o que sabe. Não pode fazer uma delação anêmica ou seletiva, apenas com o objetivo de beneficiar-se.
Daniel Vorcaro é levado para a prisão — Foto: Reprodução TV Globo
Disputa inglória
Por Merval Pereira / O GLOBO
O sucesso — no sentido de superação, não de vitória — da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República não depende mais dele, nem mesmo do seu pai, mas dos outros segredos que porventura tenha e que quase certamente surgirão no decorrer das investigações da Polícia Federal (PF) e do que mais terá a contar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em sua delação premiada. Difícil acreditar que nada de novo surja, sobretudo porque Flávio perdeu a credibilidade junto aos seus por ter escondido a relação com Vorcaro. O que mais terá escondido?
Os diversos recados que Vorcaro já recebeu mostram-lhe que não tem chance de enganar os investigadores do Ministério Público e da PF. A reação dos bolsonaristas, revelada pelos trackings e que deverá ser confirmada nas próximas pesquisas de opinião, mostra que sua candidatura, já pesada pelas diversas acusações, tornou-se mais pesada ainda e pode perder apoio para outros candidatos do campo da direita. Se houver essa tendência, estará ferida. Não mortalmente, mas a direita chegará enfraquecida ao segundo turno, pois dificilmente a família Bolsonaro o deixará à margem para apoiar outro candidato.
De qualquer maneira, o candidato de direita que chegar ao segundo turno terá competitividade contra Lula, pois o antipetismo continua forte. Se não houver novidades negativas no caminho de Flávio, ele poderá recuperar o apoio dos antipetistas num segundo turno. Sempre é bom lembrar que, mesmo com todos os problemas do mensalão, Lula reelegeu-se em 2006. O eleitorado pregou-lhe um susto no primeiro turno, dando ao governador paulista Geraldo Alckmim 40% dos votos, meta que nenhum outro candidato do PSDB até então tinha atingido. Mas Alckmim, hoje vice de Lula, não teve fôlego para ampliar o eleitorado tucano e terminou o segundo turno com aproximadamente o mesmo índice do primeiro.
Hoje, com a política polarizada como nunca se viu, difícil achar que eleitores dispostos até agora a votar em Flávio mudariam sua escolha para Lula. Os centristas, que podem mudar de voto, terão mais uma vez à disposição a promessa de Lula de um governo de união nacional. Mas terão também candidaturas de direita, como a dos ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado, não atingidos pelo desgaste da família Bolsonaro.
Assim como Flávio prometia ser um Bolsonaro civilizado, também não há garantia de que o quarto governo de Lula será mais ao centro. Mas não há dúvida de que o quadro mudou a partir dos diálogos de Flávio com Vorcaro revelados. O financiamento do tal filme não teria nada demais, não fosse o montante do dinheiro, valor fora da curva para produções nacionais, e a declaração de apoio incondicional que o senador deu ao então banqueiro, mesmo na véspera de ele ser preso tentando fugir do país.
As investigações, ou a delação de Vorcaro, poderão informar para onde foi tanto dinheiro, e qual a motivação dele para além do filme. Não há indicações de que o país se livrará tão cedo da disputa entre direita e esquerda, mas, a depender da argúcia dos candidatos de direita independentes, poderemos ter um campo aberto para a distensão política que os diferencie dos extremismos que vêm dominando o debate. Talvez o eleitorado esteja esperando um discurso mais focado no futuro que no passado. Talvez a oferta de propostas supere o mal-estar que a política atual provoca devido à polarização, não de ideias, mas de pessoas.
São dois líderes populares que, a seu jeito, se aproveitam da rejeição de cada um para vencer uma batalha personalista que não leva em conta o desenvolvimento do país, mas o benefício de seu grupo político. Há anos estamos no dilema de escolher o candidato menos ruim, em vez de projetos. Talvez essa luta autofágica permita aos que não estão nela encontrar um caminho alternativo.
Flavio Bolsonaro na CPI do 8 de janeiro — Foto: Reprodução/YouTube
O direito do paciente
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Estatuto do Paciente, em vigor no Brasil desde o dia 7 de abril passado, traz uma série de direitos e garantias a quem necessita de cuidados médicos. E entre as novidades da recente legislação está um instrumento jurídico chamado “diretiva antecipada de vontade”, ou DAV. Trata-se de um documento que assegura ao paciente a realização de seus desejos previamente manifestados por escrito, numa bem-vinda valorização do princípio da autonomia da vontade.
O paciente poderá decidir sobre que tipo de tratamento aceita ser submetido, ou não, no caso do acometimento de uma doença grave, irreversível ou em estágio terminal que venha a lhe deixar inconsciente num leito hospitalar. Não à toa, o instrumento, que pode ser registrado em cartório, também é chamado de “testamento vital”. Agora, o desejo prévio do paciente ganhou status de direito garantido em lei, que, segundo o artigo 20 do Estatuto do Paciente, deverá ser respeitado por todos – ou seja, pela família e pelos profissionais de saúde.
A recente previsão legal da DAV garante, na prática, mais segurança jurídica ao paciente, à família e ao médico. Esse instrumento já existia no Brasil, mas de uma forma bastante precária. Desde 2012, uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) disciplina o testamento vital no País, mas, como não tinha força de lei, parentes e médicos não raro ignoravam os desejos previamente manifestados pelos pacientes. Assim, o Estatuto do Paciente também deu fim a uma arbitrariedade.
Enquanto assegura a autonomia da vontade do paciente e aumenta a segurança jurídica com o reconhecimento legal da diretiva antecipada de vontade, o Estatuto do Paciente também dirime o drama da família e atenua os conflitos éticos dos profissionais de saúde. Agora a família não precisará mais carregar o peso de uma tomada de decisão, seja escolhendo, seja descartando um tratamento inútil que apenas prolonga a vida do ente querido. E, se for da vontade do paciente, o médico poderá deixar de fazer manobras de ressuscitação, de mantê-lo ligado a um respirador ou de alimentá-lo por via venosa.
A diretiva antecipada de vontade, cabe ponderar, não é um instrumento obrigatório. Ou seja, o paciente que não manifestar previamente suas vontades em relação aos cuidados médicos que gostaria de receber estará sujeito às decisões de sua família e do profissional de saúde responsável por seu tratamento médico. Mas, sem dúvida, o reconhecimento legal da DAV é um importante marco jurídico para quem previamente decide sobre seu próprio destino.
O Estatuto do Paciente tão somente reafirma o direito à liberdade de quem, porventura, venha a ficar acamado e incomunicável. O direito da família e do médico não é limitado. É o direito de escolha do paciente, desde que previamente manifestado, que não será mais violado. Não é pouca coisa: é a certeza de que a autonomia da vontade será respeitada, garantindo ao paciente conforto no sofrimento e dignidade diante da morte.

