Admirável mundo novo
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A primeira edição do festival São Paulo Innovation Week (SPIW) na capital paulista consagrou a vocação histórica de São Paulo como um centro irradiador de conhecimento e progresso. E não poderia haver outro jornal senão o Estadão para trazer a esta cidade, em parceria com a Base Eventos, um festival global de inovação que até agora ocorria apenas no Rio de Janeiro.
Ao longo de cinco dias, entre 13 e 17 de maio, o Mercado Livre Arena Pacaembu, a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e Centros Educacionais Unificados (CEUs) em bairros da periferia de São Paulo receberam acadêmicos, empresários, estudantes, artistas, lideranças sociais e representantes do poder público para discutir o futuro de um mundo transformado pelas novas tecnologias, em particular pela inteligência artificial.
Os números do SPIW comprovam que o evento foi um tremendo sucesso: 47 mil passaportes emitidos, mais de 80 mil visitantes, quase 2 mil palestrantes, centenas de startups e empresas expositoras, além de delegações estrangeiras vindas de dezenas de países. A relevância do festival, contudo, não se restringe a isso. O SPIW materializou a disposição de São Paulo de reafirmar seu papel como polo global de inovação. Como afirmou o CEO do Estadão, Erick Bretas, chegou a hora de esta cidade deixar de ser apenas o lugar “de onde se parte para pensar a inovação” para se tornar também o destino “para onde se vem”.
O maior mérito do SPIW foi mostrar que “inovação” é uma palavra vazia de sentido se não for entendida como experiência humana. A expansão das atividades para os CEUs de Heliópolis, Sapopemba, Cidade Ademar e Freguesia do Ó simboliza esse espírito. Ao envolver crianças e jovens em oficinas, debates e atividades ligadas ao conhecimento, o festival transmitiu a potente mensagem de que o desenvolvimento tecnológico tem de servir ao progresso humano e, principalmente, tem de estar ao alcance de todos os cidadãos.
Também por isso o SPIW encontrou neste jornal o seu par perfeito. Desde sua origem, em 1875, ainda como A Província de São Paulo, O Estado de S. Paulo nasceu sob o signo da modernidade, pregando a igualdade de todos perante a lei. Republicano e abolicionista quando o Brasil ainda vivia sob uma monarquia escravocrata, o Estadão compreendeu desde o início que o progresso da Nação depende fundamentalmente da circulação de ideias, do livre mercado, da valorização da educação e da ciência, do espírito crítico e da independência intelectual.
Ao longo de mais de um século e meio, o Estadão passou por sucessivas revoluções tecnológicas não raro como protagonista das inovações de seu tempo, sem jamais se apegar nostalgicamente ao passado. Adaptou-se das antigas oficinas gráficas às rotativas elétricas, incorporou a impressão colorida, ingressou no ambiente digital e reorganizou suas rotinas em tempo recorde quando entendeu que eram esses os movimentos necessários para seguir cumprindo sua missão de bem informar seus leitores.
Essa disposição para inovar não se limitou às técnicas de produção jornalística. O Estadão participou ativamente da construção da identidade intelectual do País. Este jornal foi decisivo, por exemplo, para a criação da Universidade de São Paulo (USP), a principal instituição acadêmica brasileira e um dos mais importantes centros de pesquisa científica e inovação do mundo. Portanto, trata-se de coerência. Só o jornal que ajudou a formar uma universidade do porte e da importância da USP poderia, agora, consolidar um festival internacional de inovação em sua própria cidade. A próxima edição do SPIW já está confirmada para maio de 2027.
Por fim, o êxito do festival indica que há um debate altamente qualificado sobre tecnologia no Brasil. Se puder ser resumido em um resultado, o SPIW mostrou que inovação é a resultante natural de um ambiente de livre circulação de ideias, liberdade de pensamento e expressão, divisão de conhecimento e confiança na capacidade humana de criar soluções para os desafios de nosso tempo.
São Paulo demonstrou estar pronta para assumir um protagonismo que sempre marcou sua história. E o Estadão, fiel à sua própria trajetória sesquicentenária, mostrou por que continua sendo parte indispensável da construção de um futuro mais auspicioso para o Brasil.
A petulância de Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Reportagens publicadas no fim de semana afirmam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia reenviar ao Senado a indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), após a histórica rejeição sofrida pelo advogado-geral da União no mês passado. Se isso realmente acontecer, Lula estará cometendo não apenas um erro político grave, mas demonstrando enorme dificuldade de aceitar os limites impostos pelo sistema de freios e contrapesos da Constituição.
No dia 29 de abril, o Senado rejeitou a indicação de Messias por 42 votos a 34, produzindo um fato sem precedentes desde o governo Floriano Peixoto, em 1894. Pela primeira vez em mais de um século, um presidente da República foi impedido de transformar automaticamente sua vontade pessoal em um ministro do Supremo. A decisão serviu para recolocar o Senado no papel que a Constituição lhe reserva: o de funcionar como filtro democrático das escolhas presidenciais para a mais alta corte do País.
A prerrogativa de indicar ministros do STF pertence ao presidente da República, mas não a de confirmar a indicação. O modelo constitucional brasileiro foi desenhado justamente para submeter essa escolha ao crivo do Senado, órgão eleito encarregado de verificar se o indicado reúne condições de ocupar um dos postos mais relevantes da República.
Ao flertar com a ideia de insistir em Messias, Lula transmite a impressão de enxergar a rejeição não como manifestação legítima de outro Poder, mas como uma espécie de insubordinação institucional a ser corrigida. O problema é que Lula parece tratar a derrota como um contratempo político reversível, e não como uma decisão legítima do Senado.
Como já dissemos outras vezes, Jorge Messias não reunia, e continua sem reunir, os atributos exigidos para integrar o STF: autoridade jurídica amplamente reconhecida, independência em relação ao governo, discrição institucional, respeito aos limites constitucionais da Corte e ausência de militância político-partidária. Messias jamais se destacou como um jurista cuja autoridade transcendesse fronteiras partidárias. Sua principal credencial sempre foi a proximidade política com Lula e o PT. Isso não mudou desde sua rejeição pelo Senado.
A insistência presidencial apenas reforçaria a percepção de que Lula enxerga vagas no Supremo como prêmios a quem lhe é leal. Messias tornou-se figura simbólica do petismo não por representar uma referência jurídica nacional, mas por sua fidelidade ao grupo político governante em momentos particularmente delicados. O problema é que o Supremo não existe para acomodar lealdades nem para saldar dívidas políticas de presidentes da República.
Há ainda, nessa possibilidade extremamente questionável, obstáculos regimentais relevantes à reapresentação imediata do nome. Uma norma interna do Senado impede que uma autoridade rejeitada seja novamente apreciada na mesma sessão legislativa para o mesmo cargo. Trata-se, porém, de regra interna corporis, passível de revisão ou flexibilização caso haja vontade política suficiente da Mesa Diretora e do presidente do Senado.
Isso apenas torna a hipótese ainda mais problemática, porque uma eventual manobra regimental deixaria de ser uma discussão meramente processual para se transformar numa operação política destinada a contornar uma rejeição institucional claríssima do Senado. Depois de barrar um nome considerado inadequado para o Supremo, o próprio Senado seria chamado a reinterpretar suas regras para viabilizar justamente aquilo que acabara de rejeitar. Sabe-se lá a troco de quê o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, permitiria isso – mas dá para imaginar.
A derrota de Messias deveria ter servido para induzir o presidente a recalibrar critérios. O País precisa de alguém com autoridade jurídica própria e independência real em relação ao Planalto. Insistir em Messias significaria apenas que, para Lula, a arquitetura institucional do País é meramente ornamental diante de seus desejos.
Alece aprova novos limites intermunicipais para 9 cidades do Ceará
Os deputados da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) aprovaram, nesta quinta-feira (14), o projeto de lei que atualiza os limites intermunicipais de nove cidades no interior do Estado. A iniciativa é de autoria da Mesa Diretora da Casa, sob a presidência de Romeu Aldigueri (PSB), e foi validada em regime de urgência.
A partir do PL 325/2026, os seguintes municípios cearenses passam a ter novos limites:
- Acopiara;
- Aiuaba;
- Arneiroz;
- Aracati;
- Ararendá;
- Catarina;
- Fortim;
- Ipaporanga;
- Saboeiro.
- Em síntese, o projeto de lei altera as linhas divisórias oficiais dessas cidades para oficializar a mudança de administração de algumas localidades, em contraponto ao atual mapA OFICIAL DAS AREAS EM QUESTÃO.
De acordo com a justificativa, a proposta passou pelo consentimento dos municípios envolvidos e leva em conta, além de questões técnicas, o sentimento de pertencimento das comunidades.
Nesse sentido, a cidade de Catarina, na região do Centro Sul do Ceará, foi a que mais “ganhou” localidades: 14, ao todo. Por sua vez, as comunidades saem do atual mapa dos municípios de Arneiroz, Acopiara, Saboeiro e Aiuaba.
ENTENDA OS NOVOS LIMITES MUNICIPAIS ENTRE AS CIDADES
Conforme o Projeto Atlas de Limites Municipais, os ajustes compatibilizam a representação legal dos limites das cidades à realidade administrativa historicamente exercida pelos municípios envolvidos.
Atualizações entre Catarina e Arneiroz
- Arneiroz passa a ter a localidade de Sítio Irajá;
- Catarina passa a ter a localidade de Sítio Bandeira, situada nas proximidades da sede urbana municipal.
Atualizações entre Catarina e Acopiara
- Catarina passa a ter o Sítio Marajó.
Atualizações entre Catarina, Saboeiro e Aiuaba
- Catarina assume oficialmente as localidades de Várzea do Calango; Malhada Funda; Barra das Queimadas; Carnaubinhas; Baixa Grande; Baixa Grande dos Andrés; Ponta do Serrote; Açude Novo; Areias; Sítio Manto; Segredo; Sítio Queimadas.
Atualizações entre Fortim e Aracati
- Fortim passa a ter a localidade de Mundo Novo, incluindo a Escola João Norberto;
- Aracati passa a ter a localidade de Preá, incluindo a Escola José de Souza.
Atualizações entre Ararendá e Ipaporanga
- Ipaporanga passa a ter a localidade de São Joaquim, incluindo a Escola Zeferino Alves de Almeida;
- Ararendá passa a ter as localidades Assentamento Vitória e Boa Vista, incluindo a Escola 03 de Dezembro.
Fonte: Comitê de Estudos de Limites e Divisas Territoriais - CELDITEC (LC Mourão) e Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará - IPECE (Cleyber Medeiros).
MAPA AJUSTADO
Conforme o PL 325/2026, o objetivo das atualizações é corrigir “inconsistências pontuais entre o mapeamento cartográfico vigente e a realidade territorial das localidades”, motivadas por imprecisões históricas ou falta de recursos técnicos à época das definições.
“A proposta busca refletir, de forma mais fiel, a configuração territorial existente, considerando a atuação administrativa historicamente exercida pelos Municípios envolvidos e o sentimento de pertencimento da população residente nas áreas objeto de ajuste, contribuindo para o adequado exercício da cidadania”As atualizações integram o Projeto Atlas de Limites Municipais, iniciativa conduzida de forma integrada pela Alece, pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Espírito protecionista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a vender produtos de origem animal a partir de setembro foi recebida “com surpresa” pelo Planalto. A confidência chama atenção menos pelo tom diplomático do que pelo que sugere sobre a forma como Brasília ainda enxerga o comércio internacional. Não havia muito de inesperado no episódio. As exigências sobre antimicrobianos eram conhecidas há anos. O próprio setor privado já trabalhava em protocolos de adaptação. E o acordo Mercosul-União Europeia inevitavelmente ampliaria o escrutínio regulatório sobre o agro sul-americano.
A Europa pratica, há muito tempo, uma forma sofisticada de protecionismo agrícola. Tarifas explícitas foram suplantadas por barreiras sanitárias, ambientais e técnicas. Resíduos químicos, rastreabilidade, regras climáticas, bem-estar animal, certificações e auditorias passaram a funcionar como instrumentos de filtragem comercial. O componente político é evidente. Agricultores europeus continuam entre os grupos mais protegidos e subsidiados do mundo. Países como França ou Polônia transformaram interesses setoriais em força de veto em Bruxelas. Mesmo embalado em roupagem ambiental ou sanitária, o impulso protecionista é indisfarçável.
Ainda assim, nossos parceiros no Mercosul, assim como México ou Colômbia, permanecem habilitados a exportar para o bloco. Não houve nenhuma “surpresa” em Buenos Aires ou Montevidéu.
O agronegócio brasileiro já opera em escala global. A Europa, embora menos relevante do que China ou EUA, tornou-se um mercado particularmente valioso pela sofisticação e pelo prêmio pago por qualidade. As vendas de carne brasileira ao bloco cresceram mais de 130% no ano passado. Nada disso sugere fragilidade produtiva. O problema apareceu na camada institucional.
O comércio internacional mudou mais rapidamente do que parte do Estado brasileiro parece ter percebido. Grandes mercados passaram a exportar seus padrões regulatórios junto com seus interesses econômicos. O debate já não se restringe à qualidade do produto. Envolve documentação, rastreabilidade, protocolos sanitários e capacidade de comprovação permanente. Em cadeias superiores de alimentos, qualidade sem certificação robusta vale cada vez menos.
Por isso a reação do governo importa tanto quanto o episódio em si. Comitês de crise e reuniões emergenciais podem dissipar a turbulência imediata. O risco está em tratar cada nova exigência como evento excepcional. O acordo Mercosul-UE tende a aprofundar a dinâmica protecionista, não suavizá-la. Quanto maior a presença brasileira nos mercados ricos, maior será a pressão regulatória sobre cadeias produtivas, sistemas de inspeção e mecanismos de rastreamento.
O Brasil tem razões legítimas para criticar o protecionismo europeu. Mas indignação não substitui preparação. O agro demonstrou capacidade extraordinária de produtividade, tecnologia e adaptação. O desafio é construir um aparato estatal capaz de acompanhar esse avanço. Mercados sofisticados compram produto, processo e prova ao mesmo tempo. É nessa fronteira que a competição internacional está sendo decidida.
O vexame das blusinhas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializou o vale-tudo na busca pela reeleição ao zerar o Imposto de Importação sobre bugigangas estrangeiras – sobretudo chinesas. Conhecida como “taxa das blusinhas”, a cobrança, que gerou tanta celeuma nos últimos três anos, foi revogada por meio de uma medida provisória assinada em cerimônia improvisada no Palácio do Planalto.
O evento em que a nova medida foi anunciada nem sequer estava na agenda presidencial, mas, segundo a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, tudo foi pensado “com calma e cuidado” pelo governo. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, por sua vez, disse que a revogação contribui para “melhorar o perfil da tributação brasileira”, como se uma medida puramente eleitoreira pudesse ter o efeito de uma reforma estrutural.
Mas quem se superou mesmo foi o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron. Segundo ele, “depois de três anos em que conseguimos combater o contrabando e regularizar o setor, nós podemos dar um passo adiante”. É isso mesmo: o contrabando no País, de acordo com Ceron, teria sido praticamente “eliminado” em razão da taxa das blusinhas. É sintomático que a perda da arrecadação com a suspensão do imposto, que garantiu R$ 1,78 bilhão somente nos quatro primeiros meses do ano e R$ 5 bilhões em 2025, não tenha sido sequer mencionada.
O governo petista simplesmente não consegue ser honesto a respeito da taxa das blusinhas. Primeiro, decidiu implantá-la unicamente com o objetivo de aumentar a arrecadação – mas a desculpa na época era de que se fazia necessário “equilibrar o jogo” no varejo brasileiro, como argumentou o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Agora, edulcora a decisão de suspender a taxa com argumentos que insultam a inteligência dos cidadãos brasileiros e que mal e porcamente escondem o caráter escandalosamente eleitoreiro da medida.
A indústria têxtil e o comércio varejista, claro, ficaram furiosos, e com toda a razão. As bugigangas chinesas jamais foram isentas de Imposto de Importação, mas o governo se abstinha de cobrá-lo quando os envios eram realizados entre pessoas físicas e o valor do produto era inferior a US$ 50. Tal brecha acabou por ser fartamente explorada por plataformas estrangeiras que se passavam por pessoas físicas, fracionavam as encomendas e inundavam o País com quinquilharias sem pagar impostos.
Não é uma questão de protecionismo comercial. Os produtos asiáticos, sobretudo chineses, já chegam ao País a preços abaixo dos praticados no mercado exatamente porque são subsidiados já na origem. Com a isenção do Imposto de Importação, passam a ter uma vantagem adicional diante de setores nacionais que geram empregos, pagam tributos e enfrentam condições mais que desfavoráveis para produzir e comercializar no País, a começar pelas altas taxas de juros. Na prática, o governo optou por subsidiar empresas estrangeiras em detrimento da indústria e do comércio locais, por puro interesse eleitoral. Melhor seria reduzir a carga tributária suportada pelas empresas brasileiras, de modo a melhorar a competitividade do produto nacional ante a inundação de blusinhas chinesas. Mas isso um governo petista, perdulário por natureza, jamais faria.
Lula, a bem da verdade, sempre manteve uma atitude pusilânime em relação ao tema. A cobrança da taxa das blusinhas poderia ter sido instituída por meio de medidas infralegais, mas veio por meio de um jabuti envergonhado no projeto de lei sobre o Programa Mover, de incentivos à indústria automotiva. Coube ao então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mobilizar os parlamentares pela aprovação da proposta, provavelmente à custa de muitas emendas ao Orçamento.
A mobilização recente da oposição para derrubar a taxa acrescenta insulto à injúria. Quando a medida que instaurou a cobrança tramitava no Congresso, ninguém trabalhou para derrubá-la, tanto que o texto passou por 380 votos a 26 na Câmara e por 67 votos a zero no Senado. E Lula, embora dissesse ser pessoalmente contra a cobrança, não vetou o texto à época.
Em resumo, nada do que está relacionado à tal taxa das blusinhas diz respeito aos interesses dos cidadãos brasileiros. Os únicos interesses atendidos são os dos políticos que só pensam em voto, e não no País.
O filme de terror de Flávio Bolsonaro
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.
Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.
Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.
De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.
Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.
Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.
O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.
Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.
Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?
Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia.

