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Governo tenta acelerar liberação de emendas para conter animosidade no Congresso contra MP de Haddad

Por  e  — Brasília / O GLOBO

 

 

O Palácio do Planalto trabalha para finalizar os cálculos das emendas parlamentares que serão pagas até o fim desta semana para conter reação negativa do Congresso ao pacote fiscal do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Nesta quarta-feira, por exemplo, o União Brasil e PP anunciaram que vão rejeitar as medidas da Fazenda se não houver corte de gastos, as duas legendas têm 109 deputados e quatro ministérios no governo Lula.

 

Integrantes do governo dizem que só nesta quarta-feira foram pagos R$ 250 milhões em emendas de 2025. Há um entendimento que as críticas às medidas da Fazenda são, em parte, consequência, de demora na liberação de pagamentos em razão do atraso na aprovação do Orçamento e da burocracia da máquina federal.

 

Tem sido relatadas também reclamações em relação ao travamento de emendas no Ministério da Saúde. Por causa disso, o governo tem tentado acelerar a liberação dos recursos. Integrantes da equipe de articulação política também entraram em campo para conversar com líderes.

 

No Planalto, há uma expectativa de que a medida provisória elabora pelo Ministério da Fazenda e publicada ontem será aceita porque do contrário a conta chegará para todos com novos contingenciamentos e bloqueios exigidos pelas regras do arcabouço fiscal que atingirão também as emendas.

 

— Entre a aprovação, sanção e o início de execução das emendas, nós temos um processo a cumprir, principalmente depois das decisões do Supremo Tribunal Federal, do ministro Flávio Dino. Tivemos que adaptar todos os sistemas e tem o processamento das emendas. Demora um tempo mais. Mas os prazos de processamento dado aos ministérios encerraram na sexta-feira. Então, nós já estamos fazendo o empenho dessas emendas e já vamos começar a pagar a partir deste final de semana — disse a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmannm nesta quarta.

 

O governo admite mudança de clima da reunião de Haddad no domingo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) , e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e líderes da base aliada para o sentimento do Congresso desta quarta.

 

Participantes da reunião, porém, dizem que, ao fim, em sua fala para imprensa, Haddad só anunciou medidas que tinham recebido o aval das lideranças do Congresso.

 

No domingo, o encontro acabou com anúncio de alinhamento para apresentação das medidas. Na conversa com os congressistas, Haddad anunciou que a MP vai afetar investimentos que hoje são isentos de Imposto de Renda (IR), como Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). O ministro argumentou que esses títulos continuarão a ser incentivados, com uma alíquota de 5%.

Agora, de acordo com parlamentares ouvidos pelo GLOBO, a taxação de títulos de renda fixa, que hoje são isentos de impostos, como forma de compensação para o tamanho do aumento ser reduzido, é o maior entrave.

 

Uma ala do governo vê aumento da pressão sobre deputados dos setores que serão atingidos pelas alíquotas enquanto os parlamentares subiram o tom para aceleração no pagamento de emendas por parte do governo. A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que as medidas apresentadas por Haddad são correções "justas e necessárias":

 

— (No domingo) Era um espírito de construção realmente. Eu acho que se sentiram muito pressionados por alguns setores. De fato, o mercado acaba fazendo muita pressão em cima disso, quando você fala em tributação sobre o sistema financeiro. Nós temos que ter coragem de enfrentar esse debate — disse a ministra.

MP de Haddad deve contar com medida para restringir compensações tributárias fraudulentas

Adriana Fernandes / FOLHA DE SP

 

A MP (medida provisória) que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai editar com medidas alternativas ao decreto de alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) deve contar com mecanismo para que a Receita Federal consiga cobrar de forma mais rápida as compensações tributárias fraudulentas.

Hoje, em situações desse tipo, o Fisco precisa entrar em litígio com as empresas para tentar cobrar os débitos que de fato não foram pagos. Por meio da compensação tributária, as empresas pagam tributos devidos com créditos tributários que têm a receber.

A medida deve incluir no texto da MP os casos em que a compensação não será aceita pela Receita Federal. Um técnico do Ministério da Fazenda explicou à Folha que a medida visa coibir os casos em que a empresa utiliza, por exemplo, um crédito de um benefício tributário dado ao leite para compensar um crédito na construção civil. Uma das possibilidades é impor uma penalidade.

O powerpoint apresentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na reunião de domingo à noite com a cúpula do Congresso para discutir medidas fiscais, incluiu na lista de propostas uma ação de aperfeiçoamento das regras de compensação de créditos tributários para evitar compensação abusiva.

A medida, porém, acabou não sendo debatida durante a reunião que durou quase cinco horas na residência oficial do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Tampouco foi citada por Hadadd nas entrevistas que concedeu após a reunião.

Segundo relatos da reunião de domingo, nenhuma liderança se interessou pelo tema, concentrando os debates no encontro em críticas ao decreto do IOF, medidas para reduzir em um terço do alcance da alta do imposto e as propostas para garantir o cumprimento da meta fiscal de déficit zero desde ano.

Na manhã do dia seguinte, com vazamento do documento de Haddad para agentes do mercado e escritórios de advocacia, cresceu a preocupação de que o governo restringiria o uso de créditos.

As empresas aguardam o texto legal para identificar o alcance da medida. O temor é ser mais uma medida que possivelmente impacta o fluxo de caixa.

Esforço para diminuir filas no SUS

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Uma portaria do Ministério da Saúde, publicada na segunda (9), declarou situação de urgência em saúde pública em razão das longas filas de espera no SUS. A ação, à primeira vista extremada, é condição para que seja executada a medida provisória 1.301, de 30 de maio, que cria o programa Agora Tem Especialistas.

Isso porque a MP altera a lei que regulou o SUS em 1990, ao permitir que a União contrate serviços em estados e municípios só em situações de urgência devido a grande tempo de espera na rede. Tal exceção é necessária, já que o sistema se baseia na autonomia das unidades federativas.

Tamanho esforço de reordenamento legal já indica a importância do Agora Tem Especialistas para Luiz Inácio Lula da Silva. O programa de redução de filas é a grande aposta do petista para criar de fato uma marca no setor.

Na verdade, reformulação do programa, dado que o anterior, instituído em abril de 2024 por Nísia Trindade, não agradou ao presidente porque estaria demorando para apresentar resultados —o que contribuiu para a queda da ministra em fevereiro.

Agora, o Ministério da Saúde também pode contratar clínicas e hospitais privados tanto diretamente quanto por meio de abatimentos de dívidas com a União ou de descontos dos valores dos serviços prestados em futuras cobranças de impostos.

Parcerias público-privadas em saúde não são novidade e contribuem, assim como em outros setores, para eficiência em gestão. Nesse sentido, é sensata a declaração do ministro da Saúde, Alexandre Padilhaem entrevista para a Folha: "Quem está esperando o atendimento especializado não quer saber se ele vai ser atendido num hospital estatal ou privado. Ele quer ser atendido".

Como a maioria dos especialistas atua no setor privado, parcerias são capazes, em tese, de ampliar o acesso da população de baixa renda a esses profissionais.

O programa também prevê ações para alcançar regiões distantes dos grandes centros, como realização de mutirões com uso de carretas, a abertura de edital para 500 vagas no Mais Médicos Especialistas e oferta de 3.000 bolsas de residência médica.

No caso dos mutirões, é preciso cuidado extra, dados os problemas vistos em ações recentes do tipo no país para realizar cirurgias de catarata.

Resta acompanhar a execução do programa, e o compromisso assumido na MP, de que o governo divulgará relatórios de avaliações e promoverá transparência ativa dos dados, é fundamental para o escrutínio da sociedade.

 

‘Ou se faz alguma coisa, ou o País vai parar’, diz Salto, sobre as contas do governo

Por Cristiane Barbieri / O ESTADÃO DE SP

 

Para o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, especialista em contas públicas, o anúncio das medidas fiscais feito na noite de domingo foi uma evolução que pode amenizar a crise fiscal, caso seja levado adiante. O ponto alto das medidas, em sua opinião, foi trazer de volta à mesa a revisão dos gastos tributários. O ponto fraco foi não ter havido cortes nas despesas públicas, seja por parte do governo, seja pelo Congresso.

 

Salto afirma que o Congresso é essencial nessa discussão e precisa assumir seu papel. “Vivemos uma espécie de parlamentarismo branco, com o Congresso querendo apenas a parte boa. Agora, quando nem o possível o Congresso parece estar disposto a apoiar, aí fica muito complicado.

A situação está tão grave, diz ele, que “ou se faz alguma coisa, ou o País vai parar”. “Essa é a verdade”, afirma. “Há um risco muito alto do chamado shutdown (apagão) da máquina pública acontecer já no ano que vem, se não houver mudanças. Se o Congresso não aprovar as medidas, a meta fiscal do ano que vem vai ter de ser alterada. Isso vai gerar mais confusão, vai pressionar a curva de juros e vai produzir mais custos para a sociedade como um todo.”

 

Salto diz que, tecnicamente, as medidas não são as ideais. Só que a política é a arte do possível, afirma, e as medidas são “inescapáveis”. Por isso, “tem de aprovar. Isso é o mínimo — e nem vai ser suficiente ainda".

 

O anúncio do pacote, feito em conjunto pelo governo e por lideranças do Congresso, foi uma evolução em relação à proposta inicial de aumento do IOF?

 

Houve um avanço, sim, porque o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está praticamente sozinho na luta pelo ajuste fiscal. O Congresso, apesar do aparente rompante fiscalista, fez o oposto: quis enquadrar o Ministério da Fazenda, colocando o prazo de 10 dias para uma solução. O anúncio feito ontem (domingo), porém, não teve qualquer contribuição do Congresso, que não mexeu em um centavo nas emendas parlamentares ou em qualquer outro gasto. Foi positivo que se tenha conseguido avançar com algumas medidas, mas a minha preocupação é que elas podem ainda não ser suficientes para o que a gente precisa.

 

A conta não fecha?

Sim. Por exemplo, há uma incerteza muito grande sobre qual será o volume captado com essa tributação das bets, que já são tributadas em 12%. Também tem a questão da anterioridade tributária, já que boa parte das medidas só vão valer para o ano que vem. Por outro lado, a revisão dos gastos tributários foi o ponto alto. Esse tema é um tabu. Os governos anteriores que tentaram fazer alguma coisa sempre esbarraram nas pressões para derrubar isenções, como a do Simples Nacional, da Zona Franca, das instituições filantrópicas, da cesta básica... Parece que a escolha foi deixar de fora esses temas mais polêmicos e priorizar o restante, que é bastante coisa, dá uns R$ 250 bilhões. Se for efetivo o corte de 10% disso, dá uns R$ 25 bilhões, R$ 26 bilhões. É bastante coisa. Além disso, há ainda o JCP (Juros sobre Capital Próprio), que eles voltaram a falar em aumentar de 15% para 20%. São medidas importantes, mas elas não são suficientes para resolver o problema fiscal. Até porque faltou mexer do lado da despesa pública, que é o ponto fraco do anúncio.

 

Como fica o déficit no curto prazo?

Todas as medidas estão focadas em 2026, porque a maioria delas não vai valer de imediato. Mesmo com a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), que deve ser majorada para 15% sobre aquele conjunto de instituições que hoje tem uma alíquota de 9%, será preciso respeitar a noventena. Se fosse aprovada hoje, valeria para os últimos três meses do ano. O problema é menor porque o volume de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) que o governo estava considerando era algo como R$ 20 bilhões, e na nossa conta a gente considera R$ 15 bilhões. Pelo que foi sinalizado, a reversão do IOF não vai ser tão drástica. Por exemplo, ele vai mexer na parte fixa da alíquota das empresas, mas a parte variável vai continuar com o aumento proposto. O risco sacado, que são descontos de duplicatas, não vai voltar à estaca zero, também vai permanecer alguma tributação sobre isso. Na verdade, o governo ainda vai continuar contando com o IOF, para esse ano principalmente.

 

E o ano que vem?

Para o ano que vem, o efeito das medidas será maior, mas ainda será preciso essa ajuda do IOF. A situação em 2026 é mais grave porque, na nossa conta, considerado o cenário atual do IOF, seria preciso fazer um contingenciamento de R$ 46,8 bilhões. Não há espaço para isso porque a despesa discricionária ficaria inferior ao limite mínimo para o funcionamento da máquina pública. A situação é muito grave. As medidas são positivas, amenizam essa situação muito grave, mas estão longe de resolver o problema fiscal estrutural.

 

São paliativas?

Não diria paliativas, porque têm efeitos permanentes. Mas, enquanto não mexer do lado do gasto, ainda será um ajuste incompleto porque a carga tributária já é bastante elevada. Não há mais tanto espaço para se resolver o problema aumentando a tributação.

 

Representantes do agro já vieram a público dizer que as LCAs (Letras de Crédito Agrícola) não devem ser tributadas, bem como do setor de criptoativos, imobiliário e das fintechs. O governo conseguirá resistir à pressão?

São reações esperadas porque ‘farinha pouca. meu pirão primeiro’. Nunca esse ditado valeu tanto. Todo mundo é a favor de revisar o gasto tributário, mas, quando começa a mexer, os beneficiados começam a chiar. O setor do agronegócio, por exemplo, paga pouquíssimo tributo e ainda tem incentivo. As LCA, LCI (Letras de Crédito Imobiliário), o CRI , o CRAS (Certificados de Recebíveis Imobiliário e Agrícolas), debêntures incentivadas e correlatos vão continuar super incentivados (com menos impostos para receberem aplicações de investidores), com uma tributação bem inferior aos 17,5% que vão incidir sobre outros tipos de investimento. Essa reação é esperada, mas o governo, com o apoio do Congresso, tem de resistir.

 

O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que não há o compromisso do Congresso de aprovar as medidas anunciadas. O sr. acredita que elas irão passar?

Sinceramente, não consigo entender. Foi feita uma reunião em que o presidente Hugo Motta colocou o ministro da Fazenda na parede, o que é inédito na história. Aí aconteceu uma segunda reunião em que o Haddad apresentou medidas. Ele e os líderes saem do encontro dizendo que estão de acordo. Ato contínuo, Motta diz não ter compromisso com as medidas. Aí fica muito difícil. Vivemos uma espécie de parlamentarismo branco, com o Congresso querendo apenas a parte boa. Quer participar do orçamento, quer garantir R$ 50 bilhões de emendas — e já tem R$ 52 bilhões aprovados para o ano que vem —, por exemplo, no PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias). Quer aprovar a desoneração da folha sem dizer quem paga a conta, quer manter as renúncias fiscais, quer proteger a Zona Franca... Quer dizer, o Congresso não está disposto a fazer ajuste fiscal. O Congresso é fundamental nesse compromisso que foi firmado. Se titubear, vai tudo por água abaixo. As medidas, tecnicamente, não são as ideais. Eu mexeria na vinculação da saúde e educação, no Fundeb, no Plano Safra (que tem uma fábula de dinheiro para equalização de juros), no subsídio de subvenções, na indexação da previdência ao salário mínimo, no abono salarial. Só que a política é a arte do possível. Agora, quando nem o possível o Congresso parece estar disposto a apoiar, aí fica muito complicado. Não dá para agradar a todo mundo sempre. E o Congresso parece que tem esse anseio de querer agradar a todos os setores a todo momento. Isso é impossível, principalmente com uma situação fiscal em que a dívida está crescendo a olhos vistos. Ou se faz alguma coisa, ou o País vai parar. Essa é a verdade. Há um risco muito alto do chamado shutdown da máquina pública acontecer já no ano que vem, se não houver mudanças. Se o Congresso não aprovar as medidas, a meta fiscal do ano que vem vai ter de ser alterada. Isso vai gerar mais confusão, vai pressionar a curva de juros e vai produzir mais custos para a sociedade como um todo.

 

O custo seria maior do que adotar essas medidas agora?

 

As medidas são inescapáveis. Tem de aprovar. Isso é o mínimo — e nem vai ser suficiente ainda. São medidas que estão focadas do lado da receita, mas o gasto tributário, por exemplo, é uma coisa inédita. O Paulo Guedes tentou com a Emenda Constitucional 109, o artigo 4º, colocar na Constituição uma revisão do gasto tributário. O Executivo enviou o projeto, no governo anterior. O Congresso sentou em cima e engavetou o projeto. Os gastos tributários atingiram um nível que é insustentável. Todos os setores têm um pedacinho desse gasto tributário: as filantrópicas, o agronegócio, os abatimentos dos gastos médicos no imposto de renda das pessoas físicas. Ficou faltando o lado da despesa, e eu imagino porque eles não encontraram consenso. Era uma oportunidade para avançar nisso. O Haddad disse que, ao longo dos próximos dias, eles ainda vão negociar essa questão do ajuste do lado dos gastos. É muito importante. As contas que a gente fez inicialmente, antes de ver os detalhes, estavam mostrando um volume de arrecadação até considerável.

 

De quanto?

Caso as medidas sejam aprovadas, o efeito em valores brutos para 2026 será da ordem de R$ 44,2 bilhões. A parte que ficará para a União girará em torno de R$ 30 bilhões.

 

Há uma conta do impacto dessa majoração de impostos para a população?

No primeiro trimestre, a economia ainda estava aquecida. A desaceleração já está contratada com a taxa de juros que temos e que não tem saída, já que a expectativa de inflação está acima da meta para os próximos 12 meses. Essa mudança de tributação que está sendo feita vai ser decisiva para mudar essa tendência. A economia vai crescer em torno de 2,3% este ano e, no ano que vem, por volta de 2%, o que também não é o fim do mundo. É menos do que cresceu na média do primeiro biênio, mas não há como atender a todos os objetivos de uma vez só. O momento é de contração fiscal, seja pelo lado da receita, reduzindo a renda disponível, seja pelo lado do gasto, que infelizmente ainda não veio nada.

 

De maneira geral, sua avaliação é positiva?

Sim, o governo está na direção certa: é o que foi possível de ser feito. Falta muito, principalmente porque faltou o lado do gasto, nem nas emendas parlamentares, que o próprio presidente Hugo Motta tinha dito que estava disposto a cortar, nem nas outras ações. O Fundeb, por exemplo, multiplicou por quase duas vezes e meia. O percentual para este ano será de 23%. Inicialmente era 10%. Então já está mais de duas vezes o que era quando foi aprovada na legislação. Nós não estamos aqui falando de cortar gastos, estamos falando de conter o crescimento. A mesma coisa vale para a questão da indexação ao salário mínimo, para todas as outras agendas que eu mencionei.

Duquesa de Tax: ‘Governo tem de parar de fingir que arrecadação resolve tudo; arrecadação é sintoma’

Por Redação / O ESTADÃO DE SP

 

A novela em torno das alternativas para substituir o aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) deve ter em breve um desfecho, após negociações entre governo e líderes do Congresso e o anúncio de algumas medidas neste domingo, 8, como o aumento da taxação das bets e o fim da isenção para títulos de renda fixa como LCIs e LCAs.

 

Para a colunista do Estadão, Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax, desde 2023, porém, o que se vê não é um “plano de governo, mas um plano de arrecadação”. “Teve taxa das blusinhas, revisão da subvenção do ICMS, IOF, proposta para tributar dividendos”, diz ela (assista à íntegra do programa no vídeo acima).

“É uma lista que mais parece aquela sua tentativa de fazer milagre com o limite do cartão. Pega aqui, parcela ali, paga um cartão com outro, usa cashback ou refinancia o empréstimo. No caso do governo, o nome disso é política fiscal”, afirma a especialista no programa Não vou passar raiva sozinha desta semana. “O governo precisa parar de fingir que arrecadação resolve tudo, porque a arrecadação é sintoma.”

Segundo ela, o arcabouço fiscal não é um projeto de controle de gastos, mas de aumento de receita. “Mas isso tem um prazo de validade, porque arrecadar mais tem limite. Já cortar gasto, parece que ninguém quer nem começar esse papo. Cortar a despesa parece que virou um palavrão.”

Dados recentes da Receita Federal revelam que, entre janeiro de 2024 e abril de 2025, o governo federal deixou de arrecadar R$ 414 bilhões devido a incentivos e isenções tributárias. Segundo a Duquesa, quase um terço do total das renúncias do País foi para um grupo de 48 empresas que conseguiram pagar menos impostos graças a esses inúmeros benefícios e incentivos. “Esses dados mostram a necessidade de fato de uma revisão de políticas de renúncia fiscal.”

 

Programa

Todas as quintas-feiras, às 9h30, a Duquesa de Tax faz reacts (comentários sobre outros vídeos ou entrevistas) do noticiário econômico no Estadão. Além disso, tem o programa semanal Não vou passar raiva sozinha. Os vídeos inéditos vão ao ar sempre às segundas-feiras, às 9h30, para assinantes do Estadão. Cortes do programa são distribuídos ao longo da semana nas redes sociais e na Rádio Eldorado. A atração também tem uma versão em podcast.

 

 

XII Seminário de Prefeitos 2025 debate os fatores que impulsionam o desenvolvimento econômico

Escrito por Redação / DIARIONORDESTE
 

Ninguém concebe viver em uma cidade sem planejamento urbano, serviços públicos, geração de emprego, novos negócios e qualidade de vida. Todos esses fatores só podem existir em um cenário com desenvolvimento econômico, que ajuda significativamente a melhorar as condições de vida da população.

Ao impulsionar a produtividade e a competitividade do setor privado, cria um ambiente favorável para negócios e inovação. Além disso, o desenvolvimento econômico contribui para a redução da desigualdade social, elevando os índices de satisfação dos habitantes.

Não por acaso, o Ceará tem experimentado destacados índices de desenvolvimento econômico nos últimos anos: em 2023, o PIB estadual cresceu 2,42%, e em 2024, o crescimento foi ainda mais expressivo, chegando a 6,9%, o maior dos últimos 11 anos. Essa performance coloca o Ceará em 3º lugar no ranking nacional de crescimento econômico, superando a média nacional e liderando entre os estados do Nordeste. Assim, o crescimento acumulado no biênio 2023-2024 supera os 9% de expansão, refletindo a consolidação de políticas econômicas e investimentos no Estado.

Para debater os fatores que impulsionam o desenvolvimento econômico e seus benefícios para a população, o Seminário Gestores Públicos - Prefeitos 2025, a ser realizado nos dias 16 e 17 de junho, no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, traz o tema como um de seus painéis mais relevantes. 

A temática “Economia e Desenvolvimento” será abordada no Painel 12, tendo a mediação de Alci Porto Gurgel, Diretor Técnico do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Ceará (SEBRAE-CE). Uma das palestras que compõem este momento será proferida por Domingos Filho, Secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, com o título “Política de Desenvolvimento Econômico do Ceará”. 

“É de extrema importância debater o desenvolvimento econômico cearense no Seminário de Gestores Públicos. O Ceará é rico em diversos aspectos favoráveis para impulsionarmos a economia do estado, como polos férteis, clima favorável, infraestrutura que conta com o Porto do Pecém, e neste seminário, alinhamos estratégias para buscar políticas públicas eficazes, além de recursos e parcerias para proporcionar novas oportunidades para os municípios cearenses e com isso garantir mais emprego e renda para o nosso Ceará”, declara o secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Domingos Filho.

Incentivos governamentais

Ainda no Painel 12, haverá as palestras “A importância dos incentivos do Governo do Ceará para o desenvolvimento econômico do Estado”, com Danilo Serpa, Diretor Presidente da ADECE e “Os Novos Investimentos e as Perspectivas do Porto do Pecém”, proferida por Rebeca Oliveira, Vice-Presidente Financeira do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP). Também vai se pronunciar sobre a temática o Presidente de Honra da UVC - União dos Vereadores do Ceará, Toim Braga, com a palestra “A importância do vereador para o desenvolvimento do município”.

“Debater o desenvolvimento econômico do Estado do Ceará é fundamental, principalmente para o público que estará presente, pois teremos prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, secretários, advogados, contadores, deputados, todo o contexto dos representantes do povo participando, que poderá se informar melhor sobre o tema, com palestras de muito conteúdo, que vão contribuir para esse esclarecimento. E nada melhor do que abordar esse assunto tão relevante, especialmente para os dias de hoje, porque o desenvolvimento econômico impacta diretamente a população”, observou Toim Braga.

Hotéis parceiros

A organização do XIII Seminário Gestores Públicos - Prefeitos 2025 firmou parceria com hotéis de Fortaleza, para fortalecer a rede de recepção aos visitantes que virão de outras cidades para participar do evento. Os estabelecimentos oficiais do Seminário são: Hotel Sonata, Hotel Gran Marquise, Oásis Hotel, Bristol Guararapes Hotel, Villa Mayor, Gran Mareiro Hotel e Mareiro Beira-Mar.

Inscrições gratuitas

As inscrições para o XIII Seminário Gestores Públicos - Prefeitos 2025 são gratuitas. Para participar do evento, que vai reunir deputados, prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, secretários, gestores e outras autoridades públicas, basta acessar o endereço eletrônico do Seminário (https://gestorespublicos.com.br/), clicar em “Inscreva-se” e fornecer alguns dados pessoais. O Seminário é promovido pelo Sistema Verdes Mares, Instituto Future e Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), com realização da Prática Eventos.

Seminario de Prefeitos

PT não sabe o que fazer sem Lula

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A esquerda brasileira está encurralada entre o passado e o risco de se tornar irrelevante, dada sua profunda dependência da reeleição do presidente Lula da Silva para continuar no poder. Em recente entrevista ao programa Conversa com Bial, a ministra de Relações Institucionais e ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann, reconheceu, sem disfarçar um certo tom de lamento, que, “infelizmente, Lula terá de ser candidato” em 2026. Segundo ela, seu partido e a esquerda até “têm quadros políticos”, mas nenhum com “pegada popular” nem tampouco força eleitoral para “fazer disputa e ganhar da extrema direita” na próxima eleição presidencial.

 

É de reconhecer que a ministra está certa em um ponto. De fato, sem o nome de Lula nas urnas, um candidato que sempre será competitivo – e ainda mais com a força de incumbente movendo a máquina pública federal a seu favor –, não apenas o PT como a esquerda em geral amargarão anos a fio, é possível inferir, sem ter uma perspectiva de poder em âmbito nacional. Basta lembrar quão difícil foi até para Lula derrotar Jair Bolsonaro, um dos piores presidentes da Nova República, na eleição passada. Gleisi, no entanto, omitiu um fato e distorceu outro em sua análise da conjuntura política de seu campo ideológico.

 

Se o destino da esquerda, para o bem ou para o mal, é profundamente atrelado ao destino de Lula, e não de hoje, a responsabilidade por essa dependência é exclusivamente do presidente. Lula sempre sabotou qualquer movimento de renovação tanto no PT quanto no chamado “campo progressista” – seja o arejamento de lideranças, seja de ideias. Todos os que ousaram, ainda que timidamente, projetar sombra sobre Lula foram logo abatidos no nascedouro, restando ao incauto o culto à personalidade do demiurgo e/ou a posição de “poste” acaso desejasse ter alguma projeção política. Aí estão os exemplos de Dilma Rousseff e Fernando Haddad para desencorajar qualquer um que queira pôr à prova a lulodependência da esquerda.

 

Outra malandragem de Gleisi foi omitir que a razão para a esquerda “até ter quadros políticos”, mas nenhum deles ser eleitoralmente competitivo, é o fato de a esquerda não ter um projeto para o País, e sim, se tanto, um projeto para aferrar Lula ao poder sabe-se lá até quando. A esquerda brasileira é atrasada. Não enxerga nem o Brasil nem o mundo pelas lentes do século 21. Há uma profusão de análises e pesquisas, na imprensa profissional e na academia, demonstrando a desconexão que se estabeleceu entre a esquerda, em suas múltiplas derivações, e o eleitorado que, historicamente, sempre apoiou seus candidatos. O exemplo mais notório dessa desconexão, claro, é o próprio Lula, que, malgrado estar em seu terceiro mandato presidencial, é recalcitrante em reconhecer erros e se mostra incapaz de oferecer à sociedade um mero esboço de plano coerente, exequível e sustentável para o desenvolvimento do País.

 

Diante desse deserto propositivo, não resta alternativa a Lula, em particular, e à esquerda, em geral, a não ser apelar para essa suposta ameaça de retorno do que chamam de “extrema direita” à Presidência da República. Foi exatamente o que Gleisi vocalizou na entrevista, antecipando o tom da campanha eleitoral de Lula ou de quem ele ungir em 2026. Qualquer adversário do PT no ano que vem será invariavelmente tratado como o representante das forças do atraso, do golpismo e “das elites” – tudo isso empacotado como “extrema direita”.

 

Ocorre que o verdadeiro representante da extrema direita, Bolsonaro, está inelegível. Logo, não representa mais ameaça alguma à ordem democrática. A rigor, não é improvável que ao tempo da eleição o ex-presidente esteja preso por ordem do Supremo Tribunal Federal. Assim, será muito difícil formar uma nova “frente ampla” em torno da candidatura petista sob a bandeira da “defesa da democracia”, que, como é notório, prevaleceu sobre seus inimigos.

 

Sem a retórica do medo, quase nada sobra para uma esquerda anacrônica e incapaz de inspirar esperança para a maioria dos brasileiros. E sem propostas concretas para lidar com os reais problemas do País, resta-lhe o risco de desaparecer como força de transformação social, reduzida a um grupo fechado em torno de Lula e de um discurso vazio de sentido.

Falta planejamento e sobra desperdício

Por Rolf Kuntz / O ESTADÃO DE SP

 

 

Com vento a favor, proteção dos anjos e algum empenho do empresariado, a economia brasileira poderá crescer pouco mais de 2% neste ano – 2,4%, segundo estimativa oficial – e sobre isso nem vale a pena especular, segundo a sabedoria da Roma antiga. “Carpe diem, quam minimum credula postero”, aconselhou o poeta Horácio em sua ode a Leuconoe. Algo como: aproveita o dia de hoje, porque pouquíssimo podes confiar no amanhã. Mas até na antiguidade havia algum planejamento, como indica, por exemplo, o desenho das cidades, ou como se observa na organização militar, nas fortificações, na distribuição populacional e na estocagem de alimentos. Coisas do passado?

 

Pode ser. Valorizada no Brasil por alguns políticos do Império, exercida na maior parte do século 20 e mantida no começo do atual, essa prática vem sendo desprezada em Brasília. Ainda se mantém um Ministério do Planejamento e o ministro da Fazenda, talvez por teimosia, insiste em desenhar cenários e roteiros para os próximos anos. Mas o governo tende a funcionar, no dia a dia, como se a noção de planejamento embutisse apenas um jogo verbal. O presidente persegue fins políticos pessoais, aparentemente voltado para as eleições de 2026 e sem um roteiro claro de metas econômicas e sociais de prazos diferentes.

 

Por enquanto, a economia se move. Depois de dois anos de crescimento razoável, o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 1,4% no primeiro trimestre, puxado principalmente pela agropecuária. A indústria recuperou algum dinamismo na primeira metade do mandato, avançou mais um pouco no primeiro trimestre deste ano e perdeu impulso em abril. O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, tem um programa de recuperação e modernização do setor industrial, mas com efeitos pouco visíveis, provavelmente, no curto prazo.

 

O presidente Lula tem deixado o ministro Alckmin trabalhar sem interferência, pelo menos visível, por enquanto. Ao mesmo tempo, o bom desempenho da agropecuária permite alguma tranquilidade quanto aos preços internos da comida. Além disso, o vigor da atividade rural parece garantir o prolongamento de alguma segurança nas contas externas, apesar das iniciativas desastrosas do presidente Donald Trump.

 

Essas iniciativas têm ameaçado a boa ordem dos mercados internacionais, comprovando o desprezo do presidente americano pelas normas de convivência entre os Estados. No caso do Brasil, falta verificar, com dados práticos, como a nova política da Casa Branca afetará as exportações de aço, alumínio e outros bens industriais para o mercado americano. Os efeitos dessas medidas no comércio de vários países poderão levar a alguma reordenação das trocas. Por enquanto, o governo brasileiro pouco se manifestou sobre as mudanças.

 

Esperar para ver também tem sido uma atitude comum quando se trata das condições e perspectivas da economia interna. Analistas e empresários têm apontado como provável uma desaceleração da atividade no segundo semestre. Mas essa possibilidade é menos inquietante do que as projeções de crescimento nos próximos anos. Estima-se um ritmo pouco inferior a 2% no próximo ano e, em seguida, uma estabilização em torno daquela taxa. São perspectivas abaixo de medíocres para um país com as dimensões econômicas e o desenvolvimento já alcançado pelo Brasil. Outros emergentes aparecem, nas avaliações de entidades internacionais, como potências mais dinâmicas e com maiores possibilidades de expansão nos períodos seguintes.

Essas avaliações podem ser discutíveis, mas um dado inegável, e muito relevante, é a diferença entre as taxas de investimento produtivo. O valor investido no Brasil pelos setores privado e público tem ficado, com frequência, abaixo de 18% do PIB, nível superado em muitos outros emergentes.

 

Os juros elevados podem dificultar, como frequentemente se afirma, a decisão empresarial de investir em máquinas, equipamentos, instalações e outros meios produtivos. A afirmação é verdadeira, mas a disposição de imobilizar recursos nesses ativos depende também da confiança dos agentes privados e das condições de previsibilidade. No caso do setor governamental, a destinação de recursos ao potencial produtivo é relacionada, normalmente, à boa gestão dos fundos disponíveis e a projetos de expansão e transformação econômica e social.

 

Para obter resultados duradouros e relevantes, o governo deve buscar esses objetivos de forma persistente. Para isso, são indispensáveis uma condução eficiente da arrecadação tributária, uma gestão prudente e produtiva das verbas públicas e uma boa definição de objetivos e de etapas de realização de projetos. Entre outras mudanças, o País necessita, obviamente, de novos padrões de elaboração e de aplicação de recursos orçamentários. A racionalização do sistema de emendas, diferente daquele conhecido em outros países e semelhante a uma privatização de recursos públicos, é uma necessidade inegável.

 

Repensar o orçamento é também uma providência necessária para o País escapar da armadilha dos dois por cento.

Foto do autor
Opinião por Rolf Kuntz

Jornalista

'Todo mundo conhecia o problema do INSS, e o ministro Rui sabe disso', diz chefe da CGU

Por  — Brasília / O GLOBO

 

 

À frente da Controladoria-geral da União (CGU), que ao lado da Polícia Federal revelou o esquema de fraudes no INSS, o ministro Vinicius Carvalho virou alvo de críticas dentro do governo conforme ficou claro que a investigação havia se transformado numa nova frente de problemas para a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse que o assunto só se tornou uma crise porque avisos não foram feitos ao então ministro da Previdência, Carlos Lupi, que deixou o cargo diante do escândalo. Ao GLOBO, o chefe da CGU disse que seguiu a orientação do presidente de ser “intolerante com fraudes, desvios e corrupção” e que não faltaram alertas sobre o avanço do caso.

 

O presidente me deu uma tarefa clara quando me convidou para o ministério: ser intolerante com fraudes, desvios e corrupção. Poderíamos fingir que não vimos e rezar para ninguém descobrir. Ou fazer alguma perfumaria, inventando uma Medida Provisória, falando em recadastramento daqui a três anos, como foi feito no governo Bolsonaro. A terceira possibilidade era investigar, punir e ressarcir os aposentados. Esta foi a medida tomada.

Rui Costa disse que não houve alerta sobre o caso “a nível de ministro”. De fato, o senhor não tratou com o ex-ministro Carlos Lupi sobre o assunto. Por quê?

A preocupação do ministro Rui é super legítima: evitar que aposentados e pensionistas fossem lesados. Essa investigação foi feita em menos de um ano, que é um prazo razoável. Houve reuniões com a Previdência, envolvendo secretários. O Tribunal de Contas da União já tinha tomado decisão. Todo mundo sabia do problema e que a CGU estava fazendo auditoria. A informação de que as pessoas não sabiam não procede. O ministro Rui sabe disso. Temos 600 auditorias por ano na CGU. Em algumas situações, detectamos fraude, e a equipe vai à PF. Foram 739 operações feitas com a PF nos últimos 20 anos. Isso não é novidade para ninguém.

O senhor já se entendeu com o Rui Costa?

Nunca tive problema com o ministro. Essa avaliação que ele faz é de quem gostaria que o problema fosse detectado lá atrás. Eu também gostaria. Aliás, os valores obviamente são muito importantes, mas a função precípua do INSS era assinar e avaliar esses acordos de cooperação técnica. Eles foram assinados com entidades que não tinham a menor condição e não prestavam nenhum serviço aos aposentados. Ali é o ovo da serpente. Os acordos com essas entidades vinculadas ao centro do escândalo foram assinados em 2021 e 2022.

 

Mas o valor explode justamente durante o governo Lula.

Se monto um esquema em 2021 e 2022, em que ano que os descontos iam estourar? Em 2023. Mas não é meu papel defender entidade. Todas que fraudaram o INSS devem ser punidas. Em relação ao núcleo que fez as fraudes, há indícios claros de que foram pagas propinas de diferentes formas para servidores do INSS. Todo mundo está sendo investigado. Só que é importante individualizar a conduta de cada entidade.

A AGU deixou algumas entidades investigadas fora do pedido de bloqueio de recursos, casos da Conafer, da Contag e o sindicato que tem um irmão de Lula na diretoria. O governo tentou aliviar para elas?

Não. Foram feitos pedidos de bloqueio contra as entidades alvo de processos de responsabilização pela Lei Anticorrupção. Não estou dizendo que outras entidades não possam vir a ter indício de corrupção. Estamos no meio do processo. Não há seletividade. Todas as entidades que tiverem fraudado os descontos ou praticado algum ato de corrupção serão responsabilizadas. Se amanhã aparecer indício, por meio de quebra de sigilo ou relatório de informação financeira, de que a Contag pagou propina, te garanto que o processo será aberto no dia seguinte.

Como moralizar o sistema de descontos dos aposentados?

Há duas formas. A primeira é fazer com que o sistema não exista, dizendo que se trata de relação privada. A segunda é desenvolver um sistema imune, com biometria que funcione e mecanismo de fiscalização. O INSS nem recebia a documentação das entidades. Isso tem que ser revisto. Acho, inclusive, que, se for mantida a possibilidade do desconto em folha, isso tem que ser remunerado ao Estado pelas entidades. Não faz sentido ser gratuito. A conclusão do relatório da CGU é que o mais viável seria interromper os descontos. Mas essa é uma decisão política, que envolve inclusive o Congresso Nacional.

 

Está no horizonte firmar acordos de leniência com as entidades investigadas?

A Lei Anticorrupção prevê essa possibilidade. A entidade precisa demonstrar que vai gerar uma alavancagem para a investigação, tem que reconhecer a participação dela, ressarcir o dano e pagar multa. Se alguma entidade tiver interesse em fazer um acordo de leniência, vamos discutir. Não há pedido nesse sentido.

Há problemas também nos empréstimos consignados. A CGU vai aprofundar a investigação?

Já publicamos um trabalho e temos uma auditoria em andamento. O consignado permite empréstimos com juros mais baixos, é importante para a economia. Tem que levar em conta a responsabilidade que o sistema financeiro tem nessa história. É o compliance do sistema financeiro que precisa funcionar nesse caso.

Nos dois primeiros anos de governo, a CGU revelou fraude na vacinação de Bolsonaro e no Auxílio Brasil, apurou a Abin Paralela. O caso do INSS veio apenas agora. Houve esforço concentrado no início de sua gestão para ir atrás do governo Bolsonaro?

O caso do cartão de vacina do ex-presidente começa com um pedido via Lei de Acesso à Informação. Detectou-se fraude, o que levou à operação que prendeu Mauro Cid (ex-ajudante de ordens de Bolsonaro). No caso do governo anterior, havia uma série de situações que precisavam ser esclarecidas. O governo do presidente Lula não troca delegados e auditores porque estão fazendo alguma investigação que possa não agradar alguém.

Por que a CGU ainda não conseguiu garantir a promessa de Lula de dar mais transparência aos dados públicos?

A orientação do presidente é: transparência é a regra, o sigilo é a exceção. Nada justifica um sigilo de 100 anos. Isso foi inserido na lei lá atrás, mas acabou. A privacidade das pessoas tem que ser protegida, é um valor constitucional, assim como o acesso à informação. Como é que você compatibiliza as duas coisas? Tarjando partes de um documento que envolvam dados pessoais sensíveis. Inserimos no portal da Transparência uma série de informações que não existiam. A utilização do portal bateu recorde.

Ainda assim, o Ministério da Gestão restringiu acesso a 16 milhões de documentos sobre convênios de obras, repasses e emendas.

Existe uma preocupação dos servidores de serem responsabilizados pela divulgação de eventuais dados pessoais sensíveis. Acho que é uma questão de você ser transparente em relação ao problema. Nessa questão que você mencionou, o erro foi corrigido. Não temos compromisso com o erro.

 

Vinicius Carvalho, ministro da Controladoria Geral da UniãoVinicius Carvalho, ministro da Controladoria Geral da União — Foto: Cristiano Mariz

Gleisi vê governo ofuscado por crises e admite que parte da base pode estar contra Lula em 2026

Catia SeabraVictoria Azevedo / FOLHA DE SP

 

 

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse em entrevista à Folha que as crises do Pix e do INSS prejudicaram o esforço de recuperação da popularidade do presidente Lula (PT).

"Mesmo que você queira comunicar medidas positivas, elas ficam ofuscadas pela administração das crises", afirma.

Para ela, no entanto, o patamar de aprovação de 40% é uma condição suficiente para reversão do quadro. A ministra reconheceu, ainda, que parte dos partidos que hoje integram a base de apoio estará em campo adversário nas eleições de 2026.

presidente Lula enfrenta alta rejeição. É possível revertê-la a tempo das eleições?
O patamar de 40% de aprovação a ele e ao governo é condição suficiente para uma boa disputa eleitoral. Tenho certeza que o governo vai melhorar. É mostrando o que está acontecendo para a população, os feitos do governo. Temos tempo para isso.

Com a chegada do ministro Sidônio Palmeira (Secom), havia uma expectativa de melhora. É uma prova de que o problema não é só de comunicação?
Enfrentamos crises que prejudicaram muito o esforço de comunicação de Sidônio. Tivemos a crise do Pix e, agora, a do INSS. Com certeza, tem impacto na avaliação da opinião pública. Mesmo assim, continua em um patamar de 40%. Daqui para a frente, a gente consegue chegar mais diretamente à população. É melhorar cada vez mais a comunicação e a disputa política na sociedade. Lula vai viajar mais o Brasil, conversar mais com o povo. Esse é um quadro que a gente reverte.

Acha que o problema é só comunicação ou reconhece uma questão mais estrutural, de coordenação do governo?
Não acho que seja um problema a comunicação. Acho que tem problemas e tem que melhorar. Estou dizendo que nesse ínterim tivemos duas grandes crises que absorveram completamente a comunicação. Então, mesmo que você queira comunicar medidas positivas, elas ficam ofuscadas pela administração das crises.

Não se pode deixar de considerar que temos uma oposição sistemática, muito diferente do que tivemos nos dois primeiros mandatos de Lula. Não tínhamos essa oposição militante, que é a da extrema direita, uma oposição de rua, de rede, de Congresso e que disputa o tempo inteiro. Isso manteve quase que a realidade que tivemos na disputa eleitoral.

Com o escândalo do INSS, a oposição tenta imprimir em Lula a marca da corrupção. Como o governo enfrenta essa questão, também no momento em que os 20 anos do mensalão ocupam o noticiário?
A oposição está fazendo o papel dela. Em relação ao INSS, o governo está tomando todas as medidas e não restam dúvidas de que esse esquema foi montado no governo passado. Até então, não tínhamos entidades sem ligação com uma base. Você pode até criticar as entidades anteriores, mas elas têm uma base social, um serviço prestado.

A partir de 2018, 2017, é que tivemos entidades que não tinham isso e que tiveram um crescimento muito grande nos descontos da folha do INSS. Você pode dizer assim: "Ah, o governo demorou". Talvez aí tenha sido um problema nosso, mas não deixou de investigar. Desde 2023 a investigação está sendo feita. Enquanto isso, o governo tomou todas as medidas e vai ressarcir o dinheiro dos aposentados.

A adesão de petistas do Senado à CPMI do INSS pode prejudicar a articulação do governo para impedir sua instalação? O presidente Davi Alcolumbre disse que lerá o requerimento. Há tempo de reverter?
Acho que a CPMI é uma realidade. Não temos medo, nem problema com a CPMI. O que alertei quando havia essa discussão é que essa investigação pelo Congresso pode ter impacto na investigação da polícia.

O governo tem dificuldades no Congresso diante de uma base instável, apesar de partidos terem representantes na Esplanada. A sra. defende a demissão de indicados por siglas "infiéis"?
Sempre soubemos que não teríamos 100% de votação. Aliás, na nossa campanha foi assim. Fizemos uma aliança ampla com setores de partidos que não vieram inteiros conosco. O MDB veio uma parte, tinha candidatura da Simone [Tebet]; PSD veio uma parte; PP veio uma parte. Não adianta querer que agora venham 100% [dos votos]. A articulação com o Congresso, especialmente com os presidentes [Hugo] Motta e [Davi] Alcolumbre, tem sido excelente, pautada pelo compartilhamento de responsabilidades institucionais.

União Brasil ocupa três ministérios e anunciou federação com o PP, que é mais vinculado à oposição. Como avalia essa contradição?
A gente faz coalizão com quem é possível fazer. Se não é possível fazer com o todo dos partidos, que façamos com uma parte. Precisamos de governabilidade, inclusive, com partidos de direita.

Inclusive com partidos que prometem fazer oposição ao presidente em algum momento?
Uma parte desses partidos [da base] acha que tem que ter outro candidato. Tudo bem. Já tivemos apoio do MDB, com o MDB tendo uma candidatura própria.

Aliados do presidente divergem sobre a melhor estratégia para 2026. Uma ala defende que alguns ministros permaneçam no governo. Outros pregam o lançamento de todos que tenham potencial eleitoral. Qual é a sua opinião?
Defendo que todos que têm potencial eleitoral concorram. Precisamos ter chapas fortes, precisamos ter uma boa eleição para a Câmara, para o Senado.

A sra. pretende concorrer?
Eu não conversei com o presidente, mas, dentro dessa visão, acho que eu teria que fazê-lo para ajudar a chapa e ajudar a bancada.

Qual deve ser a reação do governo caso o governo Trump aplique sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do STF?
Temos mecanismos de reciprocidade. O governo brasileiro não aceitará essas medidas do Trump. O presidente foi claro nesse sentido de defesa da soberania e da democracia do Brasil. Não cabe a outro país aplicar sanções aqui. Não vamos admitir.

A associação do nome de Bolsonaro a Donald Trump pesa contra o ex-presidente?
Foi uma vergonha o que eles fizeram indo lá comemorar a vitória do Trump, depois uma vergonha usando bonezinho pró-Trump, depois uma vergonha defendendo as medidas que Trump estava tomando contra os outros países, inclusive contra o Brasil. É não defender o seu país. Não são nacionalistas nem um pouco.

O governador Tarcísio usou um boné pró-Trump. Acha que isso pode ser usado contra ele numa eventual eleição?
Foi uma vergonha ele ter usado aquele boné. Acho que ele até se arrependeu daquilo, porque como é que um governador de estado do tamanho de São Paulo usa um bonezinho para elogiar e para apoiar um presidente que ataca o seu país? É lamentável.

A sra. considera que o Tarcísio é o principal adversário em 2026?
Não faço avaliação sobre adversários. Aquele que vier vamos enfrentar e vamos ganhar a eleição de qualquer. Eles têm um problema porque estão divididos, não sabem quem é o candidato deles, inclusive divididos dentro da família. Temos um candidato único, que é o Lula, e que é o melhor candidato.

A sra. costuma defender a primeira-dama Janja das críticas. Como avalia a atuação dela?
Tem muito preconceito em relação à atuação da Janja. E muita fofoca. Qualquer coisa que tenha problema se coloca nas costas da Janja. Ela é uma pessoa que tem militância política, opiniões, e é válido ela dar suas opiniões e colaborar. Não queremos uma primeira-dama que seja um vaso de enfeite. Ela cumpre um papel importante, fala de temas importantes e tem que ser respeitada por isso.

Esfriou o debate sobre o PL da Anistia no Congresso. A sra. acha que isso já está sepultado ou o governo ainda tem alguma estratégia de como evitar que o PL avance?
O fracasso do projeto da anistia é a maior derrota do Bolsonaro, que aliás vai sentar no banco dos réus a partir desta semana, que é o lugar onde ele merece estar no Estado democrático de Direito. Esse tema da anistia que interessava a ele —nós não estamos falando da moça do batom nem do pipoqueiro— está encerrado.


RAIO X | GLEISI HOFFMANN, 59

Deputada federal licenciada pelo Paraná, é ministra das Relações Institucionais do governo Lula. Formada em direito, foi chefe da Casa Civil do governo Dilma e presidente do PT de 2017 a 2025. Foi senadora da República de 2011 a 2019.

 

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