Fim de tratado nuclear põe planeta em risco
Por Editorial / O GLOBO
Expirou nesta quinta-feira o Novo Start, último de uma série de tratados entre os Estados Unidos e a Rússia estabelecendo limites a ogivas nucleares e criando mecanismos mútuos de monitoramento. Ciente de que Donald Trump e Vladimir Putin não renovariam o acordo, o Boletim dos Cientistas Atômicos, fundado em 1945 por Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer e outros integrantes do Projeto Manhattan, ajustou na semana passada o Relógio do Juízo Final. A métrica criada para avaliar quanto a humanidade está próxima de uma hecatombe nuclear nunca apresentou risco tão alto. No relógio metafórico, faltam 85 segundos para a meia-noite, o apocalipse.
Por décadas, os tratados de não proliferação funcionaram como planejado. Na análise dos riscos, a quantidade de armas é sempre determinante. Quanto maior, mais difícil manter o controle, evitar mal-entendidos, incidentes e guerras. Em 1986, havia 65 mil ogivas. Hoje são 12.500, e apenas 5.700 prontas para ser lançadas. Com a expiração do Novo Start e a relutância da China em participar de acordos que limitem o crescimento de seu arsenal, porém, o mundo pode estar prestes a testemunhar uma reviravolta na tendência de desarmamento. Uma corrida armamentista desenfreada eliminaria os avanços conquistados e traria um sem-número de novos problemas.
Estados Unidos e Rússia têm testado armamentos nucleares mais poderosos. Os americanos têm modernizado o arsenal, substituído mísseis e bombardeiros e aumentado a quantidade de ogivas em submarinos. Estudam também construir um novo sistema de radares e mísseis para proteger seu território, batizado Domo de Ouro. Os russos testaram recentemente o Poseidon, drone marinho construído para cruzar oceanos e provocar um tsunami radioativo capaz de destruir uma cidade. Nos planos militares russos estão ogivas nucleares no espaço. Não menos preocupante é a ameaça de Putin de usar armas nucleares táticas contra forças ucranianas.
Embora inferior ao americano e ao russo, o arsenal chinês é o que cresce mais rápido — pelas últimas estimativas, a China já tem 600 ogivas operacionais, ante 3.700 americanas e 4.309 russas. Os chineses testaram um míssil hipersônico capaz de lançar uma bomba em qualquer parte do mundo. Nesta quinta-feira em Pequim, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores exortou os Estados Unidos a retomar o diálogo com os russos para prorrogar o Novo Start. Nesse ponto, porém, Trump tem razão. Novos tratados não podem deixar a China de fora, e ela reluta em participar. Claro que Trump continua a ser o principal fator de instabilidade. A relação atribulada que estabeleceu com aliados levanta tantas dúvidas sobre sua disposição em protegê-los que muitos começaram a cogitar o desenvolvimento de suas próprias armas atômicas.
Quem não viveu a época em que um apocalipse nuclear era visto como iminente pode ter dificuldade em entender o risco. A ansiedade cotidiana estava refletida na filosofia, nos livros, nos filmes, nas artes plásticas e na música pop — de Albert Camus a Bob Dylan, de Stanley Kubrick a The Doors, de Andy Warhol a Secos & Molhados. Ao postergar a negociação de um novo acordo de não proliferação, os líderes das três maiores potências nucleares ameaçam trazer de volta um horror que parecia ter ficado no passado.

