Carnaval precisa de regras para que todos possam se divertir sem tumultos
Por Editorial / O GLOBO
O carnaval é, por tradição, um evento que celebra a alegria, a irreverência e o espírito livre. Tais características intrínsecas da maior festa popular do país não devem significar, porém, ausência de regras. Ao contrário. Em desfiles que costumam reunir milhares ou até milhões, é fundamental manter a ordem urbana. Não só para que os cortejos transcorram de forma organizada e segura, mas também para reduzir os transtornos inevitáveis aos que preferem manter distância da agitação nas ruas.
A Prefeitura de São Paulo anunciou o maior carnaval do país, com previsão de 627 blocos de rua. Mas tem recebido críticas pelo encerramento dos desfiles às 18h (com tolerância até 19h para dispersão dos foliões). É um horário em que, para muitos, a festa deveria estar apenas começando. “O maior carnaval que acaba às 18h não é o maior, é o mais curto”, disse Lira Alli, do Arrastão dos Blocos, grupo que reúne em torno de uma centena de agremiações. O governo alega que a limitação de horário tem o objetivo de permitir o início da limpeza das ruas.
Pode-se questionar se 18h é o horário mais adequado para encerrar os desfiles. A questão deveria ser discutida entre os representantes dos blocos e a prefeitura. Mas não há dúvida de que cabe ao governo municipal fixar regras para o bom funcionamento da festa. Quando o desfile acaba, começa outra jornada, que inclui retirada de estruturas, desmobilização de profissionais de apoio, limpeza das ruas e calçadas, além de outros serviços nem sempre à vista.
Há restrições também noutras cidades. No Rio, os megablocos têm horário para começar e terminar. Concentram-se às 7h, desfilam a partir das 8h e precisam parar até as 12h. O desrespeito às normas pode acarretar perda de autorização no ano seguinte. Blocos noturnos são proibidos. Mesmo assim, há os não oficiais ou “secretos”, organizados em cima da hora pelas redes sociais. São a exceção, não a regra.
Não há como planejar eventos que reúnem multidões sem estabelecer regras básicas. Nos anos 2000, os cortejos explodiram, tanto em número de foliões quanto de novos grupos. O caos era visível. A partir de 2009, a prefeitura passou a restringir o número de agremiações, controle que permanece até hoje. Dos mais de 800 blocos que pediram autorização para sair neste ano, pouco mais da metade obteve permissão. Os roteiros também foram alterados ao longo do tempo, de modo a causar menos interferência no trânsito e no sossego dos moradores.
Em qualquer cidade, para que o folião aproveite os blocos ao máximo, autoridades estaduais e municipais precisam montar uma estrutura gigantesca, que envolve polícia, guarda municipal, departamento de trânsito, fiscalização e limpeza urbana. Há uma legião de trabalhadores para a qual a festa começa bem antes e acaba bem depois das batucadas. Obviamente, tudo isso demanda planejamento e regras. O importante é que todos possam se divertir — tanto os que saem às ruas quanto os que preferem ficar em casa.

