Omissão crônica em prevenção eleva custo das tragédias depois de chuvas
Por Editorial / O GLOBO
O Brasil tem repetido erros ao lidar com tragédias causadas por desastres naturais, como as chuvas que castigam estados do Nordeste, onde já provocaram pelo menos oito mortes, deixaram mais de 10 mil desabrigados ou desalojados e impuseram transtornos à população. Nos últimos 14 anos, o governo federal gastou com reconstrução de áreas atingidas o triplo do gasto com prevenção, de acordo com levantamento feito pelo GLOBO com base em dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU).
Entre 2012 e 2026, o Estado empenhou R$ 24,4 bilhões em ações de resposta e recuperação a desastres, ante R$ 9,6 bilhões em prevenção. Desse valor, foram efetivamente pagos R$ 21,6 bilhões e R$ 6,8 bilhões, respectivamente. As respostas incluem medidas emergenciais de assistência, como distribuição de água, cestas básicas ou material de higiene. A recuperação envolve reconstrução de estruturas danificadas e pequenas obras de contenção. As verbas para prevenção dizem respeito a drenagem, contenção de encostas e intervenções destinadas a evitar, ou ao menos reduzir, efeitos das catástrofes.
Para o TCU, esse padrão configura uma estratégia “reativa”, considerada ineficaz e mais dispendiosa. Com base em dados internacionais, a Corte diz que cada US$ 1 investido em prevenção pode economizar até US$ 15 em reconstrução. O modelo equivocado expõe também a falta de coordenação entre governo federal, estados e municípios, uma vez que as ações de prevenção dependem em boa parte de intervenções locais, enquanto a reconstrução costuma recair sobre a União.
O pouco-caso com a prevenção fica patente também na falta de empenho para se preparar. Segundo números da Confederação Nacional de Municípios, 68% das cidades nem têm mapeamento de risco, 57% não dispõem de sistemas de alerta, 44% não têm setor responsável pelo monitoramento de eventos e 46% não contam com equipes treinadas — iniciativas básicas que deveriam ser obrigatórias.
Gestores de todos os níveis de governo costumam se agarrar aos índices pluviométricos para tentar encobrir as lacunas na prevenção. Num mundo convulsionado pelas mudanças climáticas, porém, não há qualquer perspectiva de que os eventos extremos darão trégua. Ao contrário, tendem a ser mais frequentes e intensos. Ser pego despreparado só agravará a situação.
Há décadas, o Brasil convive com tragédias provocadas pelas chuvas. Mudam as cidades, as regiões, as datas, mas as situações são praticamente idênticas. Não é admissível assistir sempre às mesmas cenas de famílias soterradas pela lama, moradores implorando socorro no telhado, motoristas arrastados pela correnteza, cidadãos usando porta de geladeira como bote salva-vidas. Não há como evitar chuvas torrenciais, mas é possível reduzir danos, desde que haja investimento em prevenção. Uma das respostas necessárias é retirar famílias das áreas de risco. Mas como fazer isso se muitas cidades não sabem sequer quem são, quantas são e onde estão?
Defesa Civil em área atingida pela chuva em Pernambuco — Foto: Reprodução
Lula e o 'sistema'
Por Vera Magalhães / O GLOBO
A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.
Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Siva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.
No cenário internacional, Lula tem tentado se diferenciar de Donald Trump e similares ao pregar o fortalecimento de organismos multilaterais, justamente o “sistema” erigido após a Segunda Guerra Mundial para reconstruir a governança global e reconfigurar as relações entre países e blocos geopolíticos.
Tudo o que o PT e a esquerda vêm denunciando nas últimas eleições é o risco de fatias cada vez maiores do eleitorado serem seduzidas por discursos que pregam a redução drástica do Estado e dos impostos ou soluções fáceis e baseadas na apologia do individualismo, justamente por parte daqueles aventureiros que usam a lábia “antissistema” com forte apelo nas redes sociais.
Portanto, cabe entender que sistema é esse de que Lula se queixa por não deixá-lo governar. Suas recentes derrotas graves no Congresso se devem ao fato de, além de não ter conseguido eleger coalizão majoritária, ter perdido apoio ao longo dos anos, por uma ruptura cada vez maior entre sua agenda e a do Parlamento.
Isso pode até incomodar Lula, mas atribuir um dos pilares de qualquer democracia — a divisão de Poderes e o papel do Legislativo como parte da tomada de decisões — a um complô de um sistema obscuro é simplificador e denota enorme vazio de ideias e de capacidade de reação por parte dele.
O outro pilar da democracia é o voto, e as pesquisas mostram que Lula ainda lidera, mas enfrenta enormes dificuldades na busca do quarto mandato. Começar, a cinco meses da eleição, a enxergar fantasmas para explicar o humor do eleitor não é nem de longe um caminho de fortalecimento da institucionalidade. Basta lembrar que o último presidente que se vendeu como antissistema, e trabalhou de fato para levar o arcabouço institucional ao colapso, chegou a colocar em dúvida a lisura das eleições.
A falta de governabilidade de Lula tem várias razões, todas elas concretas: o descasamento de sua vitória e da escolha de Câmara e Senado predominantemente conservadores, a ineficiência da articulação política montada pelo próprio Lula, sua capitulação diante do deslocamento de poder do Executivo ao Legislativo graças às emendas, a arrogância de achar que poderia enfiar um nome como Jorge Messias goela abaixo de um Senado com esse perfil, e por aí vai.
O presidencialismo de coalizão implica negociação constante com um Congresso cada vez mais fragmentado. A dificuldade não é nova nem exclusiva deste mandato, mas tende a ser crescente. Nos mandatos anteriores, Lula operou com habilidade dentro desse mesmo “sistema” e terminou seu segundo governo com níveis recordes de aprovação, superiores a 80%.
As principais mudanças desde então foram, além da farra das emendas, o deslocamento da mobilização política das ruas e sindicatos para as redes sociais e a guinada conservadora da sociedade brasileira. Lidar com essas variáveis é o que se espera de qualquer um que deseje comandar o país e inseri-lo num mundo igualmente sujeito a essas condições.
Ao se colocar como vítima de “forças ocultas” que não o deixam entregar resultados, Lula acaba investindo contra a política formal em que foi forjado e prosperou. Dos vários sinais de enfraquecimento que vem dando, esse é um dos mais notáveis.
Um governo que gosta das sombras
Por Notas & Informações / O ESTDÃO DE SP
Uma reportagem recente do Estadão que revelou a retenção de centenas de requerimentos de informação por um deputado do PT, integrante da Mesa Diretora da Câmara, não é um episódio isolado. Ao contrário, funciona como ponto de partida para um diagnóstico mais preocupante. Levantamento deste jornal mostra que, até poucos dias atrás, cerca de 600 dos pouco mais de mil requerimentos apresentados por deputados neste ano ainda aguardavam envio ao Executivo pelo primeiro-secretário da Câmara, deputado Carlos Veras (PT-PE). Entre eles, claro, havia pedidos sobre o escândalo do Banco Master. As explicações foram as de praxe: a Câmara afirmou que todos seguem tramitação regular e destacou o aumento do volume de solicitações, e o deputado petista sustenta que os pedidos obedecem ao fluxo institucional e atribui a demora à complexidade do processamento. Mas o fato incontestável é que os dados disponíveis indicam um represamento relevante.
O ponto central não é apenas o número de requerimentos parados, mas o que isso representa. O requerimento de informação é um dos instrumentos mais básicos de fiscalização parlamentar. É por meio dele que o Legislativo exige dados, confronta versões e obriga o Executivo a prestar contas. Quando esse mecanismo perde ritmo, perde-se também a capacidade de controle.
E isso não é uma abstração. Requerimentos de informação já foram decisivos para revelar inconsistências relevantes na administração pública. Durante a pandemia, por exemplo, foi por meio desse instrumento que o Ministério da Saúde admitiu ter inflado o número de vacinas anunciadas, reconhecendo que havia contratado cerca de metade das doses divulgadas oficialmente. O episódio ilustra a função prática desses pedidos: não apenas produzir informação, mas corrigir versões oficiais.
Esse movimento no Legislativo dialoga com a atitude do próprio Executivo. Reportagens recentes mostram que, embora o governo Lula tenha sido eleito com o discurso de reconstrução institucional e ampliação da transparência, o acesso a informações públicas frequentemente depende de contestação ou pressão externa. Não se trata de fluxo aberto, mas de um processo condicionado.
Os exemplos são numerosos. Houve tentativa de restringir o acesso a milhões de documentos de convênios no sistema TransfereGov. A divulgação de agendas da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, enfrentou resistência inicial. Informações sobre gastos públicos, como uso de aeronaves oficiais e despesas em residências oficiais, foram negadas ou limitadas. Dados sobre potenciais conflitos de interesses também sofreram restrições, revertidas apenas após questionamento.
Há ainda um elemento estrutural no uso da Lei de Acesso à Informação. A invocação recorrente da proteção de dados pessoais, com interpretações amplas, tem aumentado na prática o alcance do sigilo. Um instrumento criado para garantir transparência passa, em parte, a ser utilizado para restringi-la.
Quando esse cenário do Executivo se combina com o bloqueio de requerimentos no Legislativo, o problema se aprofunda. Forma-se um duplo obstáculo. De um lado, o governo dificulta o acesso. De outro, o Parlamento reduz a cobrança. A consequência é direta: menos informação disponível e menor capacidade de fiscalização.
Não se trata de ruptura explícita nem de um ato isolado. O que se observa é um acúmulo de práticas que, somadas, produzem efeito semelhante. A transparência não é formalmente negada, mas vai sendo limitada por entraves administrativos, interpretações restritivas e inércia institucional.
Esse padrão contraria o compromisso assumido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a transparência após retrocessos recentes. Transparência não se afirma no discurso. Depende de acesso efetivo, resposta tempestiva e funcionamento pleno dos instrumentos de controle.
Sem informação, não há fiscalização. E, sem fiscalização, enfraquece-se um dos pilares do regime democrático. O represamento de requerimentos e as restrições no Executivo não são detalhes administrativos. São sinais de um problema institucional que precisa ser enfrentado.
Aspirina eleitoral
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Premido por um desconfortável empate técnico nas pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma nova edição do Desenrola para socorrer, novamente, os brasileiros encalacrados. Em 2023, o foco eram famílias, cujos níveis de endividamento atingiam níveis recordes. Ao todo, 15 milhões de pessoas foram beneficiadas e R$ 53 bilhões em dívidas foram alvo de renegociação. Os indicadores até melhoraram por um tempo, mas menos de um ano depois já estavam piores do que antes.
Agora, o problema se agravou ainda mais, e o humor do brasileiro piorou. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que 80,4% das famílias estavam endividadas em março, o maior nível da série histórica da pesquisa. Em outro recorde, o Banco Central (BC) apurou que o endividamento das famílias atingiu 49,9% de sua renda. Não é por acaso. Dívidas com cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado são caras e, se não são pagas em dia, aumentam exponencialmente com o tempo.
Mas em vez de reconhecer os limites do Desenrola, o governo Lula optou por dobrar a aposta na iniciativa. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a primeira edição do programa, lançada em junho de 2023, foi concebida na expectativa de que a taxa básica de juros seria reduzida ao longo do tempo, algo que acabou por não se concretizar. À época, a Selic estava em 13,75% ao ano. O Banco Central até chegou a reduzi-la a 10,5% em meados de 2024, mas voltou a elevá-la em setembro daquele ano, ocasião em que classificou, em ata, a política fiscal do governo como “expansionista”. Os juros subiram até atingir o patamar de 15% em junho de 2025, e por lá ficaram por meses até que começassem a cair em março deste ano.
Não será muito diferente dessa vez. A Selic está em 14,5% ao ano, e a projeção do mercado, segundo o boletim Focus, é de que a taxa encerre o ano em 13%. O impacto da guerra no Oriente Médio nos preços é inegável, a duração do conflito é uma incógnita e a política econômica de Donald Trump é ciclotímica, mas muitas das razões que explicam a resiliência de nossa inflação e a piora das expectativas do mercado são internas.
Ora, juros altos, de fato, castigam o consumidor, mas o BC não é o vilão desse enredo. Simplesmente não há como manter a taxa básica de juros baixa quando o governo gasta mais do que arrecada. O arcabouço fiscal tem sido incapaz de conter a trajetória da dívida pública. As taxas são elevadas porque o governo precisa de dinheiro para financiar e rolar sua própria dívida.
Juros altos, por sua vez, servem – ou deveriam servir – justamente como um sinal para conter a demanda e, consequentemente, a inflação. Mas o governo, em vez de colaborar com a política monetária, rema na direção oposta. O Executivo dá o exemplo ao não conter seus gastos e promover a gastança, e o relançamento do Desenrola evidencia o problema. A esperança – quiçá a certeza – de que o governo, em algum momento, virá em socorro dos endividados funciona como um estímulo para o consumo e o calote.
Para as instituições financeiras, será um negócio excelente, já que dívidas antes irrecuperáveis serão repactuadas e passarão a contar com a garantia de um fundo público. Desta vez, além das famílias, foram incluídos universitários com dívidas no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), micro e pequenos empreendedores e agricultores familiares. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 27,7 milhões de pessoas poderão ser alcançadas, e o estoque da dívida renegociada pode atingir R$ 97,3 bilhões.
A fúria eleitoreira está à toda, e, nos bastidores, há quem diga que o Executivo ainda pretende apresentar, nas próximas semanas, uma proposta para ampliar o acesso ao crédito de quem pagar suas dívidas em dia, mas está com o com orçamento no limite, com foco na população de baixa renda. Ou seja, edições futuras do Desenrola já estão praticamente contratadas para os próximos anos, e o Banco Central não pode se dar ao luxo de fechar os olhos para esse cenário se quiser preservar o poder de compra da moeda, que é sua função primária.
Açudes no Ceará: abril tem a 3ª melhor recarga dos últimos 10 anos
Dentro do mês, o aporte aos reservatórios chegou a 2,90 bilhões de metros cúbicos, ficando atrás apenas de 2024 (5,27 bilhões m³) e 2023 (3,25 bilhões m³) na série histórica analisada pelo Diário do Nordeste, desde 2017.
O resultado coloca o mês à frente de anos considerados positivos, como 2020 (1,92 bilhão m³) e 2022 (1,71 bilhão m³), além de superar com folga períodos mais secos, como 2017 (0,4 bilhão m³) e 2021 (0,44 bilhão m³).
O desempenho reforça a influência de chuvas mais consistentes ao longo de abril, penúltimo mês da quadra chuvosa no Estado, período que recebe influência direta da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).
No entanto, quando se observa o acumulado entre os meses de janeiro e abril, houve leve recuo de recarga em relação ao ano passado. Em 2025, o aporte total no período foi de 4,96 bilhões de metros cúbicos, contra 4,82 bilhões m³ registrados em 2026.
A diferença é pequena mas indica que, apesar de um abril forte, o início da quadra chuvosa deste ano teve distribuição de chuvas mais irregular em comparação ao ciclo anterior.
Situação geral do armazenamento
Dados do Portal Hidrológico do Ceará mostram que, mesmo com essa variação, o Ceará mantém um cenário relativamente confortável de armazenamento nos reservatórios. Em 30 de abril de 2026, o volume médio dos 144 açudes monitorados chegou a 50,24%, superando a metade da capacidade total. No mesmo período de 2025, o índice era mais elevado, de 55,63%.
No comparativo entre os dois anos, também houve redução no número de açudes sangrando (de 49 para 33) e leve queda entre os que estão acima de 90% da capacidade, de 14 para 13. Por outro lado, aumentou o número de açudes em situação mais crítica, com volume inferior a 30%, passando de 23 para 27.
O quadro geral aponta recuperação hídrica no Estado, ainda que menos intensa do que a observada em 2025. A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) ressalta que a grande variabilidade das chuvas ao longo da quadra chuvosa impacta diretamente esses resultados.
No início deste ano, a instituição já indicava um cenário de grande incerteza quanto à regularidade das chuvas em 2026: os dois prognósticos divulgados em janeiro e fevereiro indicavam probabilidade de 40% de chuvas dentro da média, 40% abaixo da média e apenas 20% acima da média histórica.
Maio, último mês da quadra chuvosa no Ceará, pode influenciar de forma decisiva os níveis dos reservatórios. Para qualificar os dados, neste mês, a Cogerh firmou uma parceria de cinco anos com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MSJP) para monitorar as águas cearenses por meio de imagens de satélites diárias.
Segundo a Companhia, a ferramenta garante acesso a um conteúdo com alta resolução, “traçando um retrato mais fiel das condições reais dos reservatórios e reduzindo inconsistências no processamento técnico”.
Impactos por região
O recorte regional do Portal Hidrológico mostra que, embora o Ceará tenha ultrapassado os 50% de armazenamento total, a distribuição da água ainda é desigual. Enquanto algumas bacias operam com mais folga, outras permanecem vulneráveis e dependem diretamente da continuidade das chuvas para melhorar seus níveis.
Atualmente, as situações mais favoráveis estão nas bacias do Litoral (95,76%), Alto Jaguaribe (95,82%) e Coreaú (94,73%), indicando elevada segurança hídrica. Nessas áreas, além dos altos volumes, há maior número de açudes sangrando ou próximos disso, reflexo de chuvas mais regulares ao longo da quadra.
Na sequência, aparecem regiões com níveis intermediários, mas ainda positivos: Acaraú (83,83%), Serra da Ibiapaba (77,18%) e Salgado (68,61%). O Curu (57,67%) e a bacia Metropolitana (52,19%) também estão acima da metade da capacidade, o que indica um cenário de relativa estabilidade.
Por outro lado, algumas bacias têm situação delicada. O Médio Jaguaribe (29,05%) e o Banabuiú (30,23%) estão entre os principais pontos de atenção. A situação mais crítica do Estado fica nos Sertões de Crateús (21,53%), onde estão cidades como Quiterianópolis, Independência e Novo Oriente.

A IA a serviço dos criminosos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma reportagem recente do Estadão mostrou como o uso das ferramentas de inteligência artificial (IA) potencializa os ganhos dos criminosos ao mesmo tempo em que desafia o poder público e as instituições financeiras no Brasil.
Segundo dados da Polícia Federal (PF), 42,5% das fraudes financeiras aplicadas no ano passado envolveram alguma ferramenta de IA; o uso de vídeos e áudios falsos, os chamados deepfakes, registrou uma alta de 830%, de 2024 para 2025; e o País é um dos maiores produtores no mundo de programas que roubam dados bancários, os chamados malwares.
Os crimes digitais acendem um alerta: com a popularização dos serviços financeiros nos smartphones, os bandidos deslocaram o velho estelionato das praças para o mundo virtual. Hoje, eles dão golpes por meio de SMS, aplicativos de mensagens ou e-mails e por ligações telefônicas. E, cada vez mais capacitados, usam ferramentas avançadas da chamada engenharia social, como a manipulação psicológica de pessoas para que repassem dados ou transfiram dinheiro, contando com a IA como aliada.
O ritmo dos ataques preocupa: segundo a Serasa Experian, há uma tentativa de fraude digital a cada 2,2 segundos. O resultado disso tudo é a eficiência da bandidagem, de um lado, e o prejuízo dos correntistas, fintechs e bancos, de outro. Segundo dados da Aliança de Combate às Fraudes Bancárias Digitais, que reúne a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), as perdas com fraudes digitais chegaram a R$ 52 bilhões em 2024.
Como bem explicou Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), “a IA é a forma mais barata e mais fácil de se aplicar golpe com muitas pessoas”. Como se vê, é uma atividade de alto retorno e baixo risco para o mundo do crime. Mas é claro que há medidas que podem ser tomadas para atenuar esse cenário, a começar pelo acesso à informação.
Bancos e fintechs já enviam alertas aos clientes para que não repassem dados, como senhas, a estranhos. Pode parecer pouco, mas não é: saber que o risco existe é uma forma de evitar as perdas, tendo em mente que a dica mais valiosa é sempre desconfiar de tudo e de todos.
Os crimes digitais, ainda assim, avançam: não à toa, as operações da PF contra as fraudes virtuais saltaram de cerca de 300 em 2022 para mais de mil por ano desde 2024. E a corporação federal parece ter ciência de que sozinha não pode vencer essa guerra. Acertadamente, a PF criou a Plataforma Tentáculos, uma ferramenta de inteligência e de base de dados nacional, na qual centraliza, investiga e combate fraudes bancárias eletrônicas em cooperação com polícias Brasil afora e com as instituições financeiras.
A PF agora adota a tática dos bandidos contra eles mesmos: articulada com o setor privado e outras corporações na troca de informações, a corporação federal recorre à IA para traçar modelos que possam antecipar as ações dos criminosos e enfrentá-los. Sem pirotecnias nem disparos em vão, as polícias poderão vencer esse tipo de crime com colaboração e inteligência.

