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O contra-ataque governista na estratégia de voto casado Ciro-Lula

Escrito por Inácio Aguiar / DIARIONORDESTE

A base governista escalou o senador Camilo Santana (PT), nome de maior densidade eleitoral do grupo, para enfrentar a estratégia de voto casado Ciro/Lula no Ceará. Camilo publicou vídeo em suas redes sociais no último domingo (23), em que exibiu cortes de falas antigas do tucano criticando o presidente e sugeriu que quem vota em Lula não vota em Ciro "de jeito nenhum".

A escolha do porta-voz é um recado de que o assunto é prioridade para o grupo que tem como candidato à reeleição Elmano de Freitas.

A fórmula que o petismo quer desmontar vem sendo defendida por aliados de Ciro. Ivo Gomes, ex-prefeito de Sobral, publicou em suas redes sociais, na semana passada, uma arte explorando o voto Ciro/Lula.

Mauro Filho, deputado federal, também ensaiou o voto casado. Em meio à guerra de narrativas, ele foi excluído pelo governo Lula da lista de vice-líderes na Câmara dos Deputados. Mesmo assim, o próprio Ciro anunciou: Mauro continua votando em Lula-Ciro.

Estratégia nacional

Conforme já dito nesta coluna, Ciro e Elmano têm estratégias diferentes sobre o cenário nacional. Ao passo que o petista quer reforçar a ideia de fazer parte do "time do Lula", o tucano busca manter o debate aqui no Ceará.

O vídeo de Camilo é a versão mais direta dessa disputa.

Postagem de Ivo Gomes

Legenda: Em sua conta no Instagram, Ivo Gomes, ex-prefeito de Sobral, publicou uma montagem em que Lula aparece ao lado de Ciro

 

 

 

As armas que Ciro e Elmano levaram para a sabatina

Escrito por Wagner Mendes / DIARIONORDETE
 

Foi dada a largada para o início da campanha eleitoral no Ceará. De um lado, Elmano de Freitas representando o governismo busca manter a hegemonia política que governa o Estado desde 2007.

Em nome do "projeto", o petista pede ao eleitor mais quatro anos para resolver problemas profundos que ainda se arrastam pelo Ceará, ao mesmo tempo em que quer que e eleitor reconheça as transformações dos últimos anos, principalmente na educação.

De outro lado, Ciro Gomes, que ajudou esse grupo a se projetar, se apresenta como opção para romper com a atual força política que senta na cadeira do Palácio do Abolição. O ex-governador quer mostrar ao cearense que sabe fazer e se apresenta como o solucionador das chagas do povo mais pobre.

Cada um, com sua força e fragilidade, se mostrou nas ruas, nas redes sociais e nos veículos de imprensa, nesses primeiros dias, para entrevistas e sabatinas. O voto é só em outubro, mas o eleitor já é provocado a começar a escolher em quem deve apostar para os próximos quatro anos.

O que disse Ciro...

Segurança

Ciro defendeu uma mudança de paradigma no combate às facções, substituindo o "aparelhamento" atual pelo uso intensivo de inteligência artificial, tecnologia e territorialização das ações policiais para mapear chefias criminosas. É uma das principais armas discursivas adotadas pelo tucano nessa campanha eleitoral. Segundo a Quaest, é o tema de maior preocupação dos cearenses.

Saúde

O candidato apontou falhas estruturais, como a entrega da rede a interesses políticos (citando o ISGH), prometendo otimizar recursos para zerar filas de cirurgias e modernizar o atendimento, criticando o foco exclusivo em construções de prédios sem a devida operação. O discurso do ex-ministro tenta minar os esforços do governo de fazer da saúde uma vitrine eleitoral, como a educação. A estratégia minimiza a construção de prédios e foca no atendimento em sua essência.

Educação

A proposta central de Ciro envolve elevar o salário do magistério ao padrão das melhores escolas privadas e instituir a meritocracia via critérios internacionais (PISA), além de introduzir o ensino de inteligência digital para preparar os jovens para o mercado moderno. O tema, muito embora seja de relevância estadual, não alcança terrenos como áreas de maior crise do governismo. Isso porque a educação do Estado virou vitrine nacional. É um desafio até para a crítica, que se limita.

Economia

Ciro propõe a redução de secretarias para economizar cerca de R$ 1 bilhão por ano e critica a perda de competitividade industrial do estado, defendendo uma reestruturação dos incentivos fiscais e a busca por fundos regionais mais robustos. O assunto é um dos mais confortáveis para Ciro, que se adaptou às críticas econômicas nacionais nos últimos anos, o que lhe deu retórica e contextualização para construir argumentos.

Política

O candidato tenta se afastar da polarização nacional entre Lula e Bolsonaro, se colocando como uma alternativa "de mudança" para o Ceará e buscando aglutinar forças de oposição sob um projeto focado nos problemas locais, longe da influência direta de alianças nacionais – o que é um grande desafio. Ciro tem na sua composição de chapa o PL de Bolsonaro, além de lideranças alinhadas ao projeto nacional do ex-presidente. Fica difícil explicar que não é uma candidatura bolsonarista. Desafio para a coordenação de campanha.

Foto: Thiago Gadelha

O que disse Elmano...

Segurança pública

Elmano enfatizou os dados de redução de homicídios no primeiro semestre de 2026 para contestar a ideia de inércia do grupo político. O petista defendeu a nova política de inteligência, o programa "Procumpre" e o investimento em tecnologia e concursos como ferramentas de mudança.

O gestor disse ainda que a criminalidade se empoderou no Rio de Janeiro, terra administrada pela direita há muitos anos. A onda de criminalidade que vive o Estado há mais de uma década e meia, porém, depõe contra o atual grupo político e será uma pedra no sapato do governador na campanha. É seguramente o tema mais sensível dos embates daqui pra frente.

Comparação de gestão

O candidato focou em um balanço positivo como o avanço de obras como a duplicação da BR-116, a Transnordestina e a duplicação do Eixão das Águas, e apostou nas diferenças entre as gestões. Elmano afirmou ter dado celeridade a projetos parados e questionou o histórico da oposição, afirmando que adversários governaram o Ceará por 20 anos e ficaram atrás nas entregas. Citou como exemplo a falta de interiorização da saúde. Tanto para Elmano quanto para Ciro faltou explicar a origem financeira para manter o serviço funcionando. Saúde é cara.

Apoio político

Alinhamento nacional com o presidente Lula pareceu ser um mote da campanha de Elmano. Ele tenta repetir o sucesso eleitor de 2022 com o voto casado no PT. A outra estratégia que se mostrou óbvia na sabatina foi a tentativa de atrelar a candidatura de Ciro Gomes a forças bolsonaristas. É um embate muito claro. Pesquisas internas da campanha do petista apontam ainda que a maioria do eleitorado não sabe de quem é o apoio do presidente. Pode ser um trunfo para explorar na campanha de rádio e televisão.

Educação

A educação foi apresentada como o pilar do plano de reeleição. A promessa de transformar as escolas de tempo integral em profissionalizantes é a sua principal bandeira para os próximos 4 anos, muito embora não tenha ficado claro se o governo de fato encerrará 2026 com todas as escolas de tempo integral.

Elmano usou o "sucesso" da educação como política exitosa do grupo político que representa, ao citar os ex-governadores Cid Gomes e Camilo Santana. É a área de maior sucesso do governo.

Foto: Thiago Gadelha

Economia e saúde

Elmano apostou ainda na citação da atração de data centers (o maior investimento privado do país) e a geração de empregos com carteira assinada. Na saúde, ele defendeu a interiorização dos serviços (tratamento de câncer em cidades polos) e o funcionamento do Hospital Universitário, tentando desconstruir a narrativa de que o estado estaria em crise de infraestrutura hospitalar.

O grupo político que governa o Ceará tem a interiorização de hospitais como principal meta quando se fala em saúde. Elmano buscou fortalecer o discurso da saúde, embora precise responder a fechamento de hospital e a necessidade de abertura de novas vagas.

A imagem do desrespeito A foto que mostra metade das bancadas vazias num debate presidencial é

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Realizado pela Band e o Estadão, em parceria com a TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan, o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, anteontem à noite, só contou com a participação de Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que, juntos, representam apenas uma parcela minoritária das intenções de voto – cerca de 11%, somados. Mais eloquente foi a imagem dos três púlpitos vazios no estúdio, o retrato mais bem acabado do profundo desrespeito dos srs. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) aos eleitores.

 

Zema, convenhamos, é irrelevante. Mas a Lula e a Flávio Bolsonaro, por serem os líderes de todas as pesquisas de intenção de voto, faltaram seriedade e espírito público. A despeito de seus interesses e estratégias pessoais, considerando suas posições na disputa pelo alto cargo a que almejam, ambos deveriam se apresentar ao País, em todas as oportunidades que tiverem, para expor suas ideias às críticas dos adversários e ao escrutínio de jornalistas profissionais, além de prestar contas à sociedade sobre fatos que maculam suas candidaturas. Como se sabe, Lula está às voltas com as suspeitas que recaem sobre seu primogênito e sobre seu ex-chefe de gabinete; Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda deve explicações sobre sua relação com Daniel Vorcaro e os milhões de dólares que recebeu do banqueiro para, supostamente, financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.

 

Lula optou por conceder uma entrevista à TV Record, que a emissora escolheu levar ao ar no mesmo horário do debate. Flávio Bolsonaro, por sua vez, escapou do confronto por temer ser o alvo preferencial dos adversários, uma decisão que até pode ser compreensível do ponto de vista tático, mas é inaceitável para quem se propõe a governar o Brasil.

 

Coube a Caiado, Cury e Santos oferecer aos eleitores o mínimo que a democracia exige: o livre debate de ideias entre os que se pretendem líderes da Nação. Aqui não nos propomos a avaliar os méritos ou deméritos de cada uma das propostas que os três candidatos apresentaram, mas não podemos ignorar o comportamento agressivo do sr. Renan Santos, que chegou a ser admoestado por Cury. O excesso, contudo, não anula a disposição dos presentes de se submeterem ao desconforto de participar de um debate eleitoral, sujeitando-se às perguntas incômodas, às críticas e até a seus próprios erros, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro se resguardaram.

 

Discute-se hoje a relevância dos debates na TV para a formação das convicções de voto. É uma reflexão legítima. Mas não se pode perder de vista que debates não são meros compromissos de campanha. Além de servirem de palco para a exposição de planos de governo, são também um dos raros momentos em que os eleitores podem observar os candidatos juntos em um ambiente que não controlam.

 

É nos debates que transparecem suas expressões físicas, maneirismos e reações aos temas tratados, ajudando a audiência a ter uma visão mais completa sobre aqueles que pedem o seu voto. Evitar esse teste é um luxo antidemocrático.

O plano quinquenal chinês e o Brasil

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Como faz regularmente desde 1953, a China divulgou recentemente sua visão estratégica para o período de cinco anos entre 2026 e 2030. Em seu 15.º plano quinquenal, Pequim eleva a autossuficiência alimentar ao status de prioridade, pregando inclusive a moderação nas importações, algo que impacta diretamente o Brasil, principal fornecedor de produtos agrícolas para o gigante asiático.

 

Para atingir tal objetivo, a China está investindo em tecnologia e no aumento de produtividade para ampliar sua produção de proteína animal e de grãos como a soja. No primeiro trimestre de 2026, a produção de carne suína na China aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025.

 

Apesar de ser a maior produtora de suínos do mundo, a China, dado o tamanho de sua população, ainda precisa importar carne de porco de outros mercados, entre os quais o Brasil. Mas quando amplia significativamente sua produção, como agora, a China acaba derrubando os preços no mercado internacional, comprimindo as margens de lucro dos exportadores brasileiros.

 

Além disso, traumatizado pelo surto de peste suína africana que levou ao abate de parte significativa do rebanho suíno chinês em 2019, o gigante asiático também está investindo em biossegurança para evitar que novos episódios de doenças impeçam o país de reduzir suas importações de carne de porco.

 

Paralelamente, Pequim visa ainda a ampliar a produção doméstica de soja nos próximos anos entre 13% e 30%, a depender da fonte da estimativa. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de toneladas de soja por ano. Já o Brasil, apenas em 2025, exportou 80% de sua produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo que a China só consiga incrementar sua produção de soja em 13%, isso não deixa de representar um desafio para os produtores brasileiros, especialmente porque os embarques recordes de soja daqui para a China no ano passado contaram com a ajuda inadvertida do presidente dos EUA, Donald Trump.

 

Em meio à guerra tarifária com Trump, Pequim reduziu em 2025 a compra de soja dos EUA, segundo maior produtor do grão, e ampliou importações oriundas do Brasil e da Argentina. Em 2026, porém, a China voltou a acelerar as importações de soja americana.

Como o principal alvo da renovada ofensiva protecionista de Trump é exatamente a China, a soja dos EUA é um fator importante nas negociações comerciais entre os dois países. O presidente chinês, Xi Jinping, será recebido por Trump na Casa Branca no final de setembro.

 

Não bastasse o contexto da guerra comercial, com o qual a China tem jogado muito bem escolhendo de quem compra ou não, Pequim também vem reduzindo o uso da soja como ração para animais, e tem apostado em um subproduto do milho chamado DDG. A China é um dos maiores produtores de milho do mundo, atrás apenas dos EUA e à frente do Brasil.

 

Embora especialistas apontem limitações no desejo manifesto chinês de ser autossuficiente na produção de alimentos – a disponibilidade de terras cultiváveis na China é pequena, e o uso do DDG como ração animal é desafiador porque o farelo de soja consumido pelos rebanhos é mais nutritivo –, o Brasil não pode ser apenas espectador das mudanças que Pequim vem buscando acelerar.

 

É verdade que a condição do Brasil de maior exportador de produtos agrícolas para a China não vai mudar da noite para o dia. Mas por mais que o plano de autossuficiência alimentar chinês envolva desafios de grande monta, convém não duvidar de uma nação que em pouco mais de três décadas converteu-se de um país miserável na segunda maior economia do mundo.

 

Cabe ao governo e ao setor agrícola do Brasil analisar conjuntamente os desdobramentos em curso na China e trabalhar para que o País amplie o valor de sua cadeia produtiva agrícola. A busca incessante de novos mercados para os produtos brasileiros também é um imperativo.

 

Se nada fizer, o Brasil corre o risco de perder protagonismo até mesmo em uma das poucas áreas, o agronegócio, nas quais se destaca globalmente.

Cinismo petista

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O ministro Dario Durigan informou que quer se reunir com os economistas Pedro Malan e Arminio Fraga para discutir a agenda fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual quarto mandato. Chega a ser comovente a tentativa dos petistas de revestir de racionalidade e sensatez uma candidatura, a de Lula, fundada na demagogia e na presunção de que dinheiro público brota em árvore – nada mais distante, aliás, da prudente condução da economia por Malan e Arminio, respectivamente ministro da Fazenda e presidente do Banco Central nos governos de FHC.

 

Na hipótese de que esse encontro realmente ocorra, seria muitíssimo interessante e útil se Durigan se dispusesse a discutir a “herança maldita” – não aquela que Lula levianamente disse ter recebido de Fernando Henrique Cardoso quando chegou ao poder, em 2003, mas sim a “herança maldita” real, aquela que Lula legará a si mesmo, caso vença a eleição e permaneça mais quatro anos no poder.

 

Os números falam por si. A dívida bruta do governo geral – dado do Banco Central que inclui os governos federal, estaduais e municipais, além do INSS – aumentou nada menos que dez pontos porcentuais ao longo do terceiro mandato do petista, saindo de 71,38% do Produto Interno Bruto (PIB), em janeiro de 2023, para 81,9% do PIB em junho, o maior patamar dos últimos cinco anos.

 

Diante desse descalabro, tanto Malan quanto Arminio já manifestaram preocupação. Em artigo publicado no Estadão por ocasião dos 400 dias deste governo Lula, Malan avaliou o programa Nova Indústria Brasil e constatou que “o pensamento de 15 anos atrás” perdurava. Alertou, no texto, que uma política fiscal insustentável impediria o desenvolvimento econômico e social sustentado no longo prazo.

 

Fraga, por sua vez, disse recentemente que a política fiscal do governo Lula é fraca, não facilita em nada a vida do Banco Central e cria fragilidades que afetam a saúde das empresas e do próprio Estado brasileiro. Segundo ele, o quadro é desastroso, e o País caminha para uma crise semelhante à que gerou a recessão econômica do governo de Dilma Rousseff.

É improvável que Durigan, uma espécie de estagiário ambicioso que ora ocupa a Fazenda, se abale com essas observações. Nada parece capaz de desviá-lo do objetivo de agradar ao chefe, na ânsia de ficar no cargo caso Lula vença, razão pela qual não vale um pequi roído sua tentativa de espalhar por aí que o próximo mandato do petista, caso venha, será de ajuste fiscal. É apenas a reciclagem preguiçosa da conhecida farsa de Lula para engabelar eleitores de centro.

 

Que ninguém se deixe enganar. Lula foi desonesto em relação a Malan, Arminio e Fernando Henrique Cardoso desde seu primeiro dia no poder. Em abril de 2004, por exemplo, declarou que recebeu da gestão tucana uma herança “pra lá de maldita”, numa referência à crise cambial e à alta da dívida pública legadas por FHC. O que Lula não disse é que boa parte dessa turbulência resultou do chamado “risco Lula”, isto é, do temor dos mercados com a perspectiva de vitória do petista. A verdadeira herança de FHC para Lula, jamais reconhecida pelo petista, foram o controle da inflação, o superávit primário consolidado e a cultura da responsabilidade fiscal, materializada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. Sem isso, Lula jamais teria condições de implementar sua agenda social, por meio da qual pretende ser consagrado pela História.

 

Mas Malan e Arminio são dois democratas, genuinamente interessados no bem do País. Por essa razão, é possível até que aceitem conversar com Durigan, ocasião em que poderiam explicar ao voluntarioso ministro que ele está simplesmente errado, por exemplo, ao dizer que a dívida pública sobe porque os juros são elevados – tentativa nada sutil de livrar o perdulário governo Lula de responsabilidade pelas escorchantes taxas. Nessa aula, Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o equilíbrio fiscal.

Autoridades precisam ter mais empenho para combater bets ilegais

Por Editorial / O GLOBO

 

Práticas ilegais de apostas têm dominado fatia relevante do mercado brasileiro. Três em quatro usuários de bets (77%) dizem ter apostado nos últimos três meses em plataformas que mantêm pelo menos uma prática ilegal, segundo pesquisa do instituto Locomotiva. Para elaborar o questionário, os pesquisadores usaram como parâmetro as ações proibidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda.

 

As práticas ilegais mais frequentes foram falta de reconhecimento facial (53%) e uso de domínios diferentes do único autorizado, bet.br (48%). “A exigência de reconhecimento facial busca frear o acesso de impedidos de apostar, como menores de idade ou quem possa ter acesso a informações sobre eventos esportivos objetos de apostas”, diz o advogado André Santa Rita. De acordo com ele, sites usam domínios diferentes do bet.br para fugir à fiscalização e poder agir sem nenhuma restrição, aplicando golpes contra os apostadores.

 

Outra prática ilegal frequente nesses sites é permitir o uso de cartão de crédito. Na pesquisa, 37% confessaram ter conseguido pagar suas apostas no crédito, percentual alarmante. Tais usuários estão vulneráveis ao furto de dados e passam ao largo das medidas de prevenção ao endividamento. As apostas alimentam a fatura do cartão com valores exorbitantes e, em pouco tempo, uma dívida pequena fica impagável. Também preocupante é a fatia que admite pagar apostas com criptoativos (23%), outro recurso proibido. “Os objetivos da proibição são a prevenção à lavagem de dinheiro, a identificação da origem dos recursos e a rastreabilidade financeira”, diz o advogado Daniel Dias, da FGV Direito Rio.

 

É verdade que o governo tem apertado o cerco contra apostadores que não seguem a lei. De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, 800 mil foram excluídos das plataformas de aposta depois de entrarem no programa Desenrola, de renegociação de dívidas — levando a 5 milhões o total de cidadãos proibidos de apostar. Mas, apesar de os esforços terem surtido algum resultado, os sites ilegais se mantêm relevantes, como atesta a pesquisa. De janeiro a junho do ano passado, seis em dez entrevistados reconheciam pelo menos duas práticas ilegais ao apostar em bets. No semestre seguinte, a fatia caiu para 55%. Em maio, estava em 50%, patamar ainda inaceitável. Entre quem ganha até dois salários mínimos, alcançava 51% dos apostadores.

 

As consequências nefastas das bets ilegais são sentidas não apenas no estímulo ao vício que contribui para o endividamento, mas também nos cofres do governo. Em audiência no Congresso, Durigan afirmou que a arrecadação anual com a tributação de empresas de apostas já alcançou R$ 9 bilhões. Se dedicar mais energia a reprimir as bets que operam fora da lei, o governo conseguirá ampliar essa arrecadação, aliviando a pressão sobre as contas públicas.

 

 

Governo tem apertado o cerco, mas práticas ilegais de bets persistemGoverno tem apertado o cerco, mas práticas ilegais de bets persistem — Foto: Gustavo Azeredo/Agência O Globo

 

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