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A lavagem do ouro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Uma reportagem do Estadão com base num estudo da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa) detalhou o caminho traçado por criminosos para “esquentar” – ou seja, regularizar – o ouro extraído de forma ilegal de reservas indígenas e áreas de preservação ambiental do Brasil. E a conclusão do trabalho indica uma potencial negligência do poder público.

 

Até 2023, apenas uma autodeclaração bastava para atestar a licitude da origem do ouro. Obviamente, isso abria brechas que facilitavam o escoamento do minério extraído de garimpos ilegais, sobretudo na Amazônia Legal. Mas, desde então, pouca coisa mudou.

Como mostrou o estudo, nem uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que pôs fim no ano passado à chamada presunção de boa-fé da origem do ouro foi capaz de frear o avanço dessa cadeia de ilícitos que alimenta um lucrativo mercado nacional e internacional. Ao contrário: o cometimento de fraudes ainda persiste.

 

E isso ocorre porque, logo no início da cadeia, há a emissão de títulos “fantasmas” de lavras garimpeiras e até mesmo o envolvimento em ilegalidades de funcionários dos Pontos de Compra de Ouro (PCOs), entidades de instituições financeiras que adquirem o ouro de pequenos garimpeiros ou cooperativas, inserindo-o no mercado legal.

 

A corrupção tem permitido que o ouro ilegal vire, como num passe de mágica, ouro legal. E, a partir daí, fica praticamente impossível distinguir o minério fruto da exploração autorizada pelo poder público daquele obtido do garimpo predatório.

 

O resultado da “lavagem” do metal é alarmante: o estudo estima que nada menos que metade das 104 toneladas de ouro exportadas anualmente pelo Brasil tenha origem no garimpo ilegal – ou seja, é produto do crime. O contexto atual favorece a ganância dos bandidos: só no ano passado, o ouro se valorizou em torno de 50%, enquanto países e investidores buscam o ativo, considerado mais seguro, num mundo cada vez mais instável.

 

Esse mercado bilionário, claro, atraiu facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que se associam a garimpeiros ilegais e oferecem suas rotas de tráfico de drogas no Norte para também dar vazão ao ouro ilegal.

Tudo isso expõe falhas sistemáticas do poder público. Preocupa o fato de a Agência Nacional de Mineração (ANM) admitir ao Estadão que precisa melhorar a fiscalização, que hoje é frouxa. Mas não basta reconhecer o problema, é preciso combatê-lo.

 

Aliás, as autoridades públicas podem se inspirar nas medidas listadas pelo estudo da Abrampa. Há como melhorar os instrumentos de controle, a começar pelo aperfeiçoamento da fiscalização, com a reforma do regime de permissão de lavras; a criação de um cadastro federal de maquinários usados em garimpo; a cobrança de que a primeira venda do ouro seja feita pelo titular da lavra; e a adoção de novas tecnologias para identificar a origem do minério.

 

Todas essas ações combinadas podem ajudar a proteger as comunidades indígenas, a preservar o meio ambiente e a promover a segurança pública para todos os cidadãos da Amazônia Legal.

Partidos têm o dever de barrar criminosos

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

É obrigação legal e moral dos partidos filtrar seus candidatos antes de permitir o registro na Justiça Eleitoral. Não é aceitável que legendas sustentadas pelo contribuinte por meio dos bilionários Fundos Partidário e Eleitoral permitam que pessoas suspeitas de ligação com o crime organizado ou procuradas pela Justiça carreguem suas siglas às urnas.

 

É certo que a legislação estabelece limites para quem pode concorrer, mas antes disso há uma questão de responsabilidade política. Como uma legenda que se apresenta como instituição idônea, que escolhe representantes para concorrer aos postos de formular leis, executar o Orçamento da União e participar de decisões que influenciam a vida de milhões de brasileiros, pode tratar a análise dos antecedentes de seus próprios candidatos como assunto menor?

 

Reportagem da Folha de S.Paulo identificou ao menos nove candidatos a deputado federal ou estadual que são ou foram investigados sob suspeita de ligação com organizações criminosas. Sete já são alvo de questionamentos na Justiça Eleitoral. As suspeitas envolvem PCC, Comando Vermelho, milícias, jogo do bicho e Terceiro Comando Puro. Entre os candidatos há até um deputado estadual preso preventivamente desde outubro do ano passado e condenado em primeira instância a mais de 36 anos de prisão.

 

O G1 fez outro levantamento e encontrou nove candidatos com mandados de prisão civil em aberto por dívidas de pensão alimentícia, que somam mais de R$ 95 mil em oito dos casos. A natureza desses casos é evidentemente distinta: dívida de pensão não é crime, e o mandado de prisão civil não torna ninguém inelegível. Mas é difícil compreender por que os próprios partidos não identificaram situações públicas que um veículo de imprensa encontrou cruzando a lista de candidatos com o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões.

 

Os dois levantamentos foram publicados menos de uma semana depois do fim do prazo de registro das candidaturas. Ora, se jornalistas conseguem fazer esse pente-fino em poucos dias, não deveria ser impossível para partidos dotados de diretórios municipais, estaduais e nacionais fazer o mesmo na preparação das chapas.

 

Antes do registro há conversas, negociações, reuniões e convenções. Dirigentes partidários, muitos deles com mandato, dedicam parte considerável de seu tempo à montagem das chapas. O mínimo que se espera de tamanho esforço é alguma diligência sobre quem receberá o direito de representar a legenda e, potencialmente, dinheiro público para pedir votos.

 

Dinheiro, aliás, não falta. Neste ano, os partidos têm à disposição R$ 4,96 bilhões do Fundo Eleitoral e cerca de R$ 1,4 bilhão do Fundo Partidário. É razoável exigir que parte desse esforço seja dedicada a saber quem exatamente as legendas estão colocando na rua em seu nome.

As autoridades também precisam ser mais ágeis e elevar o sarrafo. Às vésperas do fim do prazo de registro das candidaturas, o Ministério Público Eleitoral enviou às legendas uma recomendação cobrando medidas para impedir a infiltração do crime organizado nas eleições. As legendas reclamaram do prazo curto. De fato, foi curto. Mas ninguém precisava avisá-las de que facções tentam entrar na política. Combater a entrada de facções não pode depender de uma cobrança do Ministério Público na última hora. É obrigação elementar de quem pretende governar o País – e em particular daqueles partidos que fazem da segurança pública sua principal bandeira.

 

Partidos conhecem a trajetória de quem recrutam, negociam candidaturas, calculam votos e escolhem onde investir seus recursos. Quando todo esse cuidado desaparece na hora de verificar eventuais vínculos com organizações criminosas, cabe perguntar se estamos mesmo diante de mera negligência.

 

Facções criminosas têm dinheiro e interesse em controlar o poder público. Os partidos sabem disso. Ninguém pode afirmar, sem provas, que uma legenda abra deliberadamente suas portas ao crime em troca de dinheiro clandestino. Mas, diante da falta de cuidado na escolha de seus candidatos, fica difícil condenar quem desconfia que essa cegueira possa ser conveniente.

Boa proposta de reforma do Judiciário

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A pressão por uma urgente reforma do Judiciário ganhou importante impulso com uma proposta apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil da Seção São Paulo (OAB-SP). Trata-se de assunto incontornável, diante da hipertrofia do Supremo Tribunal Federal (STF), dos inúmeros privilégios para magistrados e das ameaças de desobediência por parte de políticos incendiários.

 

A proposta da OAB, elaborada ao longo de um ano por uma comissão de juristas, cientistas políticos, ex-ministros do STF e ex-ministros da Justiça, tem profundas repercussões na competência, na estrutura e na organização do Supremo, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

 

O relatório apresenta um detalhado diagnóstico da confusão em que se meteu a Justiça – e, em particular, o STF. De forma bastante didática, o documento conseguiu organizar os sentimentos difusos dos cidadãos em relação ao Judiciário.

 

Como bem apontou o relatório, “de um lado persistem problemas estruturais crônicos”, como a morosidade processual, o excesso de litigiosidade e a indiscriminada virtualização de julgamentos e audiências, e de outro aprofunda-se “a percepção pública de déficit de integridade e transparência, alimentada pela ausência de parâmetros claros de conduta para a magistratura, pela proliferação de decisões monocráticas em detrimento da colegialidade, por controvérsias remuneratórias e por conflitos de interesse não regulados”.

 

Em outras palavras, os cidadãos não confiam mais no Judiciário. E isso ocorre por várias razões, seja de natureza ética – quando magistrados participam de eventos patrocinados por empresas com causas que poderão um dia ter de julgar –, seja de natureza institucional – quando ministros de tribunais superiores ditam os rumos do País na base do voluntarismo, não raro de forma monocrática e em desrespeito à separação dos Poderes. Por fim, mas não menos importante, cresce a sensação de que magistrados alargam o conceito de autonomia do Judiciário para criar privilégios pecuniários para si mesmos, na forma dos infames “penduricalhos”.

 

Contra tudo isso, a OAB-SP propõe “uma reação institucional”. Além de reforçar a necessidade de um código de conduta para os tribunais superiores, o texto defende que a idade mínima para ingressar no Supremo suba de 35 para 50 anos, na presunção de que a atual faixa etária não garante a necessária experiência para o cargo. A proposta, ademais, estabelece um mandato fixo de 12 anos para os ministros do Supremo, sem direito à recondução. A intenção, nas palavras da direção da OAB, é evitar a “cristalização de tendências” dentro do tribunal. O novo limite do mandato já valeria para os atuais ministros, o que implicaria a aposentadoria imediata de quatro deles.

 

A proposta ainda retira do STF a função de julgar deputados e senadores, com exceção dos presidentes do Senado e da Câmara. O fim da competência criminal abriria espaço para que o Supremo retome suas funções precípuas, quais sejam, zelar pela Constituição, deixando de se imiscuir em assuntos de alta octanagem política.

 

Já para o CNJ, órgão criado para fiscalizar o Judiciário, a proposta amplia os assentos reservados à sociedade civil. É uma forma de reduzir o poder da magistratura no CNJ, já que os juízes ocupam 9 das 15 cadeiras e tomam decisões em benefício próprio como se estivesse numa assembleia sindical. Além do mais, a proposta dissocia a presidência do CNJ da presidência do STF e limita seu poder normativo, hoje usado, não raro, para o conselho regular matérias que caberiam ao Legislativo. Tudo isso devolveria o CNJ à sua função original.

 

O relatório da OAB agora poderá ser avaliado pelo Congresso. Oxalá a alta cúpula dos Poderes da República acolha e apoie as propostas da OAB-SP. Tudo isso pode ajudar a resgatar a autoridade moral do Poder Judiciário, a amainar as tensões políticas em Brasília e, sobretudo, a fortalecer o Estado de Direito e a democracia.

‘Drogômetro’ e atualizações na Lei Seca prometem trânsito mais seguro

Por Editorial / O GLOBO

 

Faz bem o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) em atualizar a Lei Seca diante da experiência acumulada ao longo dos últimos 18 anos e de novas demandas para aumentar a segurança nas vias. Entre as novidades, estão o uso de equipamentos para detectar substâncias psicoativas além do álcool (“drogômetros”), um pré-teste que não terá valor para autuação, mas indicará a necessidade do procedimento tradicional do bafômetro, e um reteste em caso de dúvidas. As mudanças prometem conferir mais precisão e abrangência às inspeções.

 

Tanto quanto o álcool, o uso de drogas como anfetaminas, cocaína, ecstasy, heroína, maconha ou fentanil traz risco de acidentes graves nas estradas. A legislação determina testes toxicológicos periódicos para determinadas categorias — dos 9 milhões realizados entre 2016 e 2025, 380 mil foram positivos. As inspeções aleatórias podem ser um instrumento eficaz não só para flagrar situações irregulares, mas também para desestimular o uso de entorpecentes ao volante. Já existem dispositivos para isso, e eles são comuns noutros países, mas sua implementação no Brasil dependia de regulamentação.

Criada em 2008, a Lei Seca se mostrou fundamental para coibir a perigosa mistura de álcool e direção. Trata-se de ideia relativamente simples. Motoristas escolhidos aleatoriamente em pontos arbitrários são parados nas ruas e submetidos ao teste do bafômetro. Constatada a embriaguez, o condutor recebe uma multa pesada, e sua Carteira Nacional de Habilitação é suspensa. No Rio, a implantação da Lei Seca contribuiu para frear sucessivas mortes de jovens que se acidentavam gravemente nas noites e madrugadas dos fins de semana.

 

Apenas boas ideias não resolvem o problema se não forem adotadas de forma sistemática. O flagelo da imprudência no trânsito persiste, a despeito da Lei Seca e de mudanças na legislação para torná-la mais rigorosa. Motoristas continuam bebendo antes de dirigir, pondo em risco a própria vida e a de terceiros. No fim do mês passado, um gari de 19 anos que fazia seu trabalho dignamente na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo, foi atropelado e morto por um motorista embriagado que, segundo policiais, mal conseguia ficar em pé. A vítima deixou mulher grávida e uma filha pequena. O condutor foi preso em flagrante.

O mais importante hoje é aplicar a lei. Quando ela surgiu, houve efeito benéfico, pois os motoristas temiam perder a carteira numa blitz. A repetição de crimes envolvendo condutores alcoolizados sugere, porém, que houve afrouxamento nas inspeções. Se as chances de alguém ser flagrado são remotas, os irresponsáveis preferem arriscar. Por isso é essencial manter operações regulares. O aperfeiçoamento da legislação é sempre louvável, mas de pouco adiantará se as atrocidades no trânsito não forem reprimidas na prática.

 

Operação da Lei Seca no Rio de JaneiroOperação da Lei Seca no Rio de Janeiro — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo

 

 

Parar pente-fino no Bolsa Família foi um equívoco

Por Editorial / O GLOBO

 

O governo errou ao fechar acordo com a Defensoria Pública da União (DPU) suspendendo até 1º de julho do ano que vem a obrigatoriedade de visita residencial para concessão ou manutenção do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a quem afirma morar sozinho. A exigência foi estabelecida em maio do ano passado, diante das evidências de fraudes na classificação de famílias como unipessoais para ampliar a quantidade de benefícios recebidos em uma mesma residência. A DPU entrou com processo contra a União alegando haver suspensão de benefícios sem ter havido visita. Em vez de aceitar o acordo com a DPU que preserva o caminho para as fraudes, o governo deveria ter reforçado o pente-fino por meio da checagem presencial.

 

Não faltam estudos técnicos revelando sinais gritantes de fraudes. Basta lembrar a auditoria realizada em 2023 numa amostra aleatória de famílias pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Ela constatou que, em dois de cada dez domicílios, havia beneficiários do Bolsa Família com renda familiar acima do teto estabelecido pelo programa. No ano passado, o Ministério do Desenvolvimento Social baixou Portaria para que 20% dos inscritos no Cadastro Único (CadÚnico), onde estão registrados os beneficiários de programas sociais, fossem inspecionados presencialmente. O acordo com a DPU suspendeu o pente-fino.

O argumento da DPU é que as prefeituras, responsáveis pelos Centros de Referência de Assistência Social e pelo acesso direto aos beneficiários dos programas, precisam se estruturar. Mas já existem informações suficientes para aprofundar o trabalho de campo, obtidas pela comparação entre microdados do CadÚnico e informações sobre domicílios e famílias do último Censo, entre outros cruzamentos. Soube-se em 2022 que havia dez cidades, nos estados de Amazonas, Pará, Amapá e Maranhão, com mais famílias que residências, quando só pode haver um pagamento de Bolsa Família por domicílio.

 

Em 2016, os beneficiários do Bolsa Família que afirmavam viver sozinhos representavam 8,2% dos atendidos pelo programa. No ano passado, eram 19,3%. Pelo último Censo demográfico do IBGE, de 2022, 18,9% das residências brasileiras tinham apenas um morador. Na Pnad 2025, também do IBGE, eram 19,7%. Esse dado inclui idosos de classe média e jovens dos grandes centros urbanos, enquanto a população do Bolsa Família se concentra nas periferias e no interior, onde mais de uma família costuma dividir o mesmo endereço. São indícios sugestivos de fraudes.

Em momento de pressão sobre as contas públicas, é imperiosa a necessidade de evitar desperdício de dinheiro público. Seria possível economizar por ano R$ 50 bilhões apenas no combate a fraudes nos programas sociais, de acordo com estudo dos economistas Gabriel Barros, Cléo Olimpio e Matheus Caliano, da ARX Investimentos. O Bolsa Família é um caso típico. Os recursos poupados poderiam ser destinados a quem de fato necessita de apoio do Estado. Infelizmente, o saneamento dos gastos e o desperdício de bilhões foram ignorados, ao que tudo indica, porque são temas inconvenientes num ano eleitoral.

 

O cartão do Bolsa FamíliaO cartão do Bolsa Família — Foto: Lyon Santos/Divulgação/MDS

 

 

Beneficiários unipessoais voltam a crescer no Bolsa Família perto da eleição

Idiana Tomazelli / FOLHA DE SP

 

 

O número de beneficiários unipessoais no programa Bolsa Família voltou a crescer em 2026, ano eleitoral. A categoria alcançou 3,9 milhões em julho, um número abaixo do pico de 5,9 milhões registrado em janeiro de 2023 —que reflete a folha de pagamento de dezembro de 2022, último mês do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)—, mas acima dos 3,5 milhões observados em janeiro deste ano.

 

A categoria entrou no radar de especialistas e técnicos do Executivo após o fenômeno de divisão artificial das famílias nas eleições de 2022. No fim do ano anterior, a gestão Bolsonaro introduziu um benefício mínimo de R$ 600 por família, independentemente do número de integrantes, o que acabou induzindo pessoas que moravam juntas a declarar que moravam sozinhas para receber mais de um benefício. Simultaneamente, o afrouxamento dos mecanismos de controle permitiu que a prática se alastrasse pelo país.

 

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vinha tentando regularizar a situação por meio de um pente-fino nos cadastros. Técnicos do Executivo esperavam uma continuidade da redução, mas o que se vê é a inversão desse movimento. De janeiro a julho de 2026, último dado disponível, houve um acréscimo de 344 mil famílias unipessoais no Bolsa Família. No mesmo período, o total de beneficiários também subiu de 18,8 milhões para 19,3 milhões.

 

Procurado, o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome) atribuiu o crescimento dos beneficiários unipessoais a uma oscilação esperada diante da dimensão do programa e também dos fluxos de entrada e saída, que ocorrem todo mês e acabam influenciando o estoque de beneficiários. A pasta disse, em nota, não ver sinais de nova divisão artificial de cadastros.

 

Especialistas avaliam que a variação está dentro da média dos últimos meses e também pode ser fruto da mudança demográfica, dado que há mais indivíduos vivendo sozinhos. Ainda assim, veem uma saturação dos esforços para regularizar o cadastro e recomendam estudos adicionais, sobretudo no caso de municípios com aumento expressivo ou participação elevada de unipessoais no âmbito do programa.

 

Levantamento feito pela Folha mostra que, em 128 municípios, o número atual de unipessoais no programa cresceu mais de 100% em relação ao fim de 2022, quando houve o pico das distorções no cadastro. Em 211 cidades, a expansão ficou entre 50% e 100% no período. Outros 613 apresentaram crescimento de 10% a 50% nesse mesmo intervalo.

A alta recente é o primeiro movimento do tipo desde o segundo semestre de 2024, quando um repique na quantidade de unipessoais chamou a atenção do MDS, levando o órgão a reforçar ações de fiscalização.

Naquele ano, diante das eleições municipais, o ministério levantou a suspeita de uso eleitoral do Cadastro Único, que é porta de entrada para quase 2.000 benefícios em todo o Brasil.

O governo federal financia boa parte dos programas, mas as prefeituras operam o cadastro e aplicam as regras de seleção dos beneficiários, sem arcar com os pagamentos.

 

Em nota, o MDS disse não ver indícios de uso eleitoral do cadastro em 2026.

 

Segundo integrantes do governo, as prefeituras em geral colaboram com a revisão, mas a pasta conta com uma lista interna de 306 municípios e três estados considerados críticos, o que inclui aqueles que não respondem a ofícios, não compartilham dados da folha de aposentados e pensionistas do município ou têm proporção elevada de unipessoais.

 

Outros 45 municípios e cinco estados estão na categoria que requer atenção, ou seja, ainda não são considerados críticos, mas precisam de acompanhamento.

 

Em julho, representantes do MDS se reuniram com membros dos TCEs (Tribunais de Contas dos Estados) para discutir um plano de ação. A ideia é que os tribunais reforcem os pedidos de informação e, se for o caso, abram processos de monitoramento.

 

META DE UNIPESSOAIS

O número de beneficiários unipessoais em julho representou 19,9% do total de famílias contempladas pelo programa. O percentual está acima dos 16% estipulados como referência para as revisões.

A meta foi criada em 2023 para tentar induzir o ajuste no cadastro e tomou como referência a proporção de domicílios com um só integrante em todo o país conforme a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

 

Municípios acima da meta passaram a ter regras mais rígidas para incluir unipessoais. Desde 2025, exigia-se entrevista domiciliar, mas a DPU (Defensoria Pública da União) questionou na Justiça o risco de gargalo e prejuízo a vulneráveis.

 

Em julho deste ano, governo e DPU fecharam um acordo para flexibilizar a exigência até julho de 2027. Com isso, a tendência é cair o ritmo de ajuste no cadastro, segundo técnicos.

 

Hoje, há 3.813 municípios com proporção de famílias unipessoais acima da meta de 16%. É o maior patamar desde que essa estatística passou a ser divulgada, em setembro de 2023. Desses, 736 exibem percentuais acima de 25%. Em 35 deles, a fatia das famílias de um só integrante representa 40% ou mais dos beneficiários.

O MDS afirma que a existência de municípios com percentuais acima da meta não representa, por si só, uma irregularidade e antecipa que estuda definir metas regionalizadas.

 

"Para os casos em que a proporção de unipessoais supera 40%, está prevista a realização de estudos específicos para avaliar a adoção de parâmetros regionalizados", diz o órgão. "A intenção é ajustar os limites às características demográficas de cada território, o que poderá, inclusive, resultar em percentuais superiores aos atuais 16% onde os dados mostrarem que essa composição é compatível com a realidade local."

 

Segundo a pasta, a divulgação dos microdados do Censo Demográfico de 2022 por município, feita em julho deste ano, vai ajudar nessa atualização.

 

O economista Daniel Duque, do FGV Ibre, espera que famílias unipessoais cresçam no CadÚnico e no Bolsa Família, dada a tendência de redução do tamanho das famílias.

 

Isso não anula os efeitos do ocorrido em 2022, que ele chama de "descontinuidade" no programa, induzida por um benefício básico elevado sem considerar o número de integrantes.

 

"O governo atual tentou reverter esses incentivos. Mas, recentemente, essa política chegou a uma saturação em termos de capacidade. A partir desse limite, volta a tendência demográfica", avalia.

 

Segundo Duque, não se sabe se a saturação resulta do sucesso das revisões ou de seu limite. Ele diz que "é difícil o governo ter conseguido resolver 100% do problema" e sugere reduzir o benefício básico e elevar o valor por membro da família.

 

O economista Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, avalia que as variações recentes no número de unipessoais são pequenas para sinalizar mudança de tendência, mas cada município merece um "olhar mais fino" para detectar situações fora da curva.

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