Faça o que digo, não faça o que faço
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Seis meses após o ministro Flávio Dino impor limites à criação de penduricalhos por atos administrativos de órgãos do Judiciário, o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) se valeu desse expediente e criou um penduricalho por ato administrativo. A partir de agora, uma tal “gratificação por atuação de alta complexidade técnica e administrativa” garante a seus beneficiários – os servidores mais graduados do STF – um adicional de até 22,5% do salário a título de “indenização”, ou seja, isento de impostos. A contradição do STF seria apenas patética se não revelasse algo ainda mais grave: a perversão do sentido de serviço público.
Em fevereiro, Dino proibiu exatamente o que o STF, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Tribunal Superior do Trabalho (TST), o Superior Tribunal Militar (STM) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fizeram em seguida: inventar novos penduricalhos por deliberações interna corporis, sem previsão legal. Questionado pelo Estadão, o STF alegou que a nova gratificação seguiu o modelo adotado em outros tribunais depois de avaliação técnica e orçamentária. É uma alegação correta na forma. O STF, de fato, seguiu um caminho já trilhado por aqueles outros tribunais. Mas é ofensiva na substância, pois só explica a origem do penduricalho, não sua razão de existir – que, a rigor, não há.
A “gratificação por atuação de alta complexidade técnica e administrativa” foi criada pelo STJ em maio. Como incêndio em mato seco, logo se espalhou entre as cortes superiores, beneficiando, hoje, ao menos 5.600 servidores, a um custo anual de R$ 150 milhões. Não é pouco dinheiro. Tampouco é baixo o número de privilegiados. Mas o problema de fundo é a afronta à moralidade pública. Não tem cabimento em uma república decente premiar uma casta de servidores em razão da natureza específica de seu trabalho, pelo qual, diga-se, já é bem remunerada.
Como já dissemos em editorial recente (ver O STF na república dos penduricalhos, 4/8/2026), a fabricação de exceções remuneratórias segue um roteiro tão revoltante, pois revela um Judiciário que virou as costas para a sociedade brasileira, quanto enfadonho, de tão reiterado que é. De uma hora para outra, uma atividade rotineira qualquer é reclassificada como “acúmulo de serviço”, “função adicional”, “alta complexidade”, ou coisa que o valha, de modo a ensejar um mal disfarçado aumento salarial a título de “indenização” – o que, além de ser um ardil semântico, não raro faz a remuneração mensal dos servidores contemplados extrapolar o teto constitucional. Esse novo penduricalho criado pelo STF é exatamente isso.
É claro que a complexidade, o grau de especialização exigido e a responsabilidade de determinados cargos podem, sim, justificar uma remuneração diferenciada. É justo reconhecer financeiramente o mérito ou o desempenho de um trabalhador, seja no serviço público, seja na iniciativa privada. O que é injustificável, como fizeram o STF e outros tribunais, é transformar o simples exercício de uma atividade profissional, para a qual o servidor foi nomeado ou aprovado em concurso, em desculpa para um pagamento adicional, como se cumprir o trabalho diário fosse, por si só, um esforço extraordinário a merecer uma recompensa igualmente extraordinária.
Até o presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello, crítico contumaz do que chama de “gamificação” da remuneração dos servidores do Judiciário e do Ministério Público, instituiu a gratificação de atuação de alta complexidade em seu tribunal. Se nem os que reconhecem o problema resistem ao assédio corporativo, vê-se o grau de dissociação que há entre o Judiciário e o restante do País.
Anteontem, em palestra no Tribunal de Contas do Município de São Paulo, o ministro Alexandre de Moraes defendeu uma ampla reforma do sistema político, que, na sua visão, “faliu”. Ele até tem razão. Mas deveria começar olhando para o seu próprio quintal. A impressão que se tem é de que a vocação para o serviço público cedeu lugar à cobiça nas mais altas esferas do sistema de Justiça.
Medir eficácia deve ser condição para incentivo tributário
Por Editorial / O GLOBO
As isenções e os incentivos tributários somaram R$ 96 bilhões no primeiro trimestre. A previsão é o governo perder R$ 400 bilhões em arrecadação até dezembro, de acordo com dados da Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi). Esse termômetro da Receita Federal leva em conta apenas os incentivos concedidos ao setor produtivo e mede os benefícios que as empresas dizem ter usufruído. O custo total é muito maior.
Usando metodologia abrangente, com mais informações sobre os agentes econômicos e acrescentando benefícios destinados a pessoas físicas, como as deduções de saúde no Imposto de Renda, o Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT), também preparado pela Receita, estima as perdas tributárias deste ano em R$ 612 bilhões. Somando os incentivos concedidos por estados, o total deverá fechar 2026 em quase R$ 1 trilhão, ou 7% do Produto Interno Bruto (PIB). Para um país com uma bomba fiscal por estourar, uma perda de arrecadação dessa magnitude é um contrassenso.
Isenções ou descontos nos impostos, conhecidos tecnicamente como “gastos tributários”, são um tratamento privilegiado outorgado pelo poder público a grupos econômicos ou sociais com objetivos definidos: estimular determinado setor estratégico, equilibrar desigualdades ou assegurar competitividade no mercado internacional. Uma vez concedidos, porém, os incentivos raramente são retirados. “Como muitas dessas políticas não são transparentes, é difícil até identificá-las para fazer as devidas avaliações”, diz Manoel Pires, economista do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).
O acompanhamento dos resultados, quando existe, é precário. “Muitos desses privilégios não trazem nenhum benefício para a sociedade, para os mais pobres, para o aumento da produtividade”, diz o consultor econômico Nilson Teixeira. Nas raras vezes em que se constata que um incentivo tributário não cumpriu os objetivos, as empresas beneficiadas resistem como podem a perdê-lo. Grupos de interesse com poder de persuasão sobre o Congresso atuam, para manter as vantagens, com a mesma força empregada na hora de obtê-las. É dessa forma que bilhões de reais deixam de chegar aos cofres do governo, estrangulando o Orçamento e comprimindo os investimentos em áreas estratégicas.
Com a entrada em vigor da reforma tributária, as estimativas para o ano que vem têm sido otimistas. A previsão é de gastos tributários de R$ 434 bilhões, queda de quase 30% na comparação com o total esperado para este ano. A redução, porém, decorre de uma ilusão estatística. Não entram na projeção os impostos federais PIS e Cofins, que serão extintos em janeiro. Mas os incentivos persistirão e, embora não se saiba calcular ainda as isenções e reduções do novo CBS, é certo que elas serão significativas.
É possível que haja queda nas renúncias. Mesmo assim, a questão central persiste: é preciso medir a eficácia dos incentivos e acabar com aqueles que não fazem sentido. Publicada em dezembro passado, a Lei Complementar 224 estabeleceu como regra avaliações quinquenais dos gastos tributários. É preciso garantir o cumprimento dessa legislação. É a única maneira de reduzir de forma sustentada o impacto fiscal trilionário e garantir que não haja desperdício de recursos públicos.
O voto 'Tarula': Tarcísio atrai parte do eleitorado à esquerda e lulista, reduzindo dependência do bolsonarismo em SP
Por Samuel Lima — São Paulo / O GLOBO
Pesquisa Quaest divulgada na terça-feira aponta que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), consegue atrair uma parte do voto de esquerda no estado que naturalmente estaria inclinado ao ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). O fenômeno do voto “Tarula” inclui eleitores que se declaram apoiadores do presidente Lula, candidato à reeleição.
Pelo levantamento contratado pela TV Globo, Tarcísio mantém a liderança na disputa pelo Palácio Bandeirantes, com 40%, contra 27% de Haddad no primeiro turno, segundo a Quaest divulgada na terça. Em julho, o atual governador tinha 41% e Haddad, 26%.
No maior colégio eleitoral do país, o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), e Lula estão empatados tecnicamente na simulação de primeiro turno, com 30% e 29%, respectivamente. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Na última Quaest realizada em São Paulo, no fim de julho, Flávio marcava 34%, contra 30% de Lula.
Polarização à parte
Pelos números da Quaest, 11% dos lulistas em São Paulo optam por Tarcísio em um confronto direto com Haddad, além de 11% dos eleitores que se consideram de esquerda, mas dizem não se encaixar no termo. Esse campo representa, como um todo, cerca de um quarto do eleitorado paulista. Do outro lado, Haddad consegue atrair 2% dos votos dos bolsonaristas, além de 4% dos eleitores de direita que não se consideram seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem o candidato do Republicanos foi ministro.
Além de fidelizar os respectivos grupos políticos, as campanhas duelam pelo voto dos autodeclarados “independentes”, que alcançam quase metade dos eleitores paulistas. Neste caso, Tarcísio aparece em vantagem, com 27% das intenções de voto, contra 24% de Haddad, no primeiro turno.
— O Tarcísio consegue morder um pedaço do eleitorado da esquerda e do lulismo, coisa que o Haddad não consegue fazer na direita — disse o CEO da Quaest, Felipe Nunes, ao divulgar os números na GloboNews.
A situação é inversa na eleição presidencial, em que Lula captura 90% das intenções de votos entre os seus apoiadores e 78% da esquerda. Já Flávio tem problemas para fidelizar a direita, ao marcar 80% entre os bolsonaristas e 59% na direita que rejeita o rótulo. Lula também está em vantagem nos independentes, com 20%, ante 10% de Flávio. A margem de erro varia de três pontos percentuais, no centro, a seis pontos, no caso dos campos ideológicos, dependendo da incidência das amostras no total de entrevistados.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV, explica o voto cruzado a partir de um “eleitor pragmático”, que considera “mais as entregas de governo do que um alinhamento ideológico” ao escolher os seus candidatos a governador e presidente da República. Ele destaca ainda a capacidade de Lula de, historicamente, atrair para a sua base um eleitor de fora do campo tradicional do PT, algo que também ocorre com Tarcísio a partir do momento que se posiciona mais ao centro e reduz a dependência da família Bolsonaro.
— Não é um ponto desprezível porque temos uma eleição nacional difícil de prever, em que qualquer fluxo de votos pode fazer a diferença. Tarcísio está bem melhor do que o Flávio em São Paulo, o que faz com que o Flávio precise dele, enquanto o Haddad precisa pegar carona no Lula — analisa o cientista político.
Na pesquisa Quaest anterior, divulgada em 29 de julho, Tarcísio tinha 12% das intenções de voto entre lulistas, mais 7% na esquerda não-lulista e 31% entre os independentes. Haddad aparecia com 7% entre bolsonaristas, 5% na direita não-bolsonarista e 20% dos independentes. A análise também pode ser feita nos levantamentos do Datafolha. O material publicado em 24 de agosto mostra 20% dos votos dos petistas indo para Tarcísio, com Haddad marcando 4% no grupo bolsonarista. A margem de erro é de quatro pontos.
Integrantes do núcleo duro da campanha de Haddad atribuem a desvantagem atual ao nível de desconhecimento do candidato, que não estaria inteiramente associado ao líder do PT.
Além de colar em Lula, Haddad deve se concentrar em pontos vistos como desfavoráveis do mandato de Tarcísio, como problemas no transporte público; reclamações contra a Sabesp, a empresa de saneamento; e queda no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Dados da própria Quaest mostram que a percepção negativa do atual governador aumentou nessas áreas, ainda que a principal queixa continue sendo a política de segurança pública, outro tema que costuma ser abordado com frequência pelo candidato do PT ao governo.
Já os aliados de Tarcísio admitem que a campanha tenta tirar o peso do bolsonarismo, quatro anos depois de ser eleito com elevada dependência do ex-presidente, para preservar a liderança que detém entre os independentes e a direita que rejeita o rótulo. Um exemplo seria o material de campanha que adere à cor azul, em vez do tradicional verde e amarelo das manifestações do grupo. Ao circular pelas ruas, o GLOBO recebeu santinhos que não trazem a foto de Flávio, apenas o nome dele no verso.
— A gente está trabalhando para as pessoas, o resto é consequência. Claro que a gente acaba capturando também votos de pessoas que estão pensando na presidência da República no outro candidato, mas a gente aqui vai estar junto do Flávio, vamos acompanhar bastante a trajetória dele — disse Tarcísio no sábado, horas antes de encontrar o presidenciável do PL na Festa do Peão de Barretos, no interior do estado.
Voto para o Senado
No primeiro debate da dupla, na TV Band, no dia 9, houve uma tentativa de Haddad de encurralar o adversário sob esse ponto de vista. Tarcísio reclamou de menções do petista a Bolsonaro, e Haddad aproveitou para perguntar se ele tinha vergonha do ex-presidente, o que o obrigou a elogiar a gestão e mandar um abraço ao aliado. Mesmo com 40 minutos à disposição, Tarcísio não citou o nome de Flávio. Apenas indagou se não seria o momento de “dar uma guinada” nos rumos do país.
A pesquisa Quaest contratada pela TV Globo também mediu a intenção de voto para o Senado, que este ano tem duas vagas abertas. As ex-ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), com 12% e 11%, e o deputado Guilherme Derrite (PP), com 12%, lideram, em empate técnico. As ex-ministras de Lula fazem parte da chapa de Haddad, enquanto Derrite representa o grupo político de Tarcísio.
(Colaborou Sérgio Quintella)
Lula tenta mudar de assunto
Por Vera Magalhães / O GLOBO
O vento virou, e o favoritismo que vinha sendo atribuído a Lula desde o escândalo “Dark Horse” e os entreveros na família Bolsonaro se esvaiu diante das revelações das andanças de Lulinha por gabinetes estrelados de Brasília. Levado de volta ao incômodo tema da corrupção às vésperas do início da campanha na TV, e sem ter mais como se esquivar de debates e sabatinas como fez até aqui, o petista busca desesperadamente mudar de assunto. O irônico é ter de contar com o Congresso, que já está em ritmo de letargia eleitoral, para ter alguma boa notícia para apresentar ao eleitor.
Soa um tanto a desespero achar que notícias pontuais ou ainda por vir — como o fim da taxa das blusinhas ou a abolição da escala de trabalho de 6 dias por 1 de folga — operarão aquilo que bilhões despejados em medidas desde o ano passado não conseguiram: uma melhora substantiva na aprovação do governo, indicador considerado fundamental por especialistas em pesquisas para que o presidente possa sonhar com uma corrida um pouco mais tranquila ao quarto mandato. Mas é exatamente este o clima para os lados do PT: temor diante da escassez de cartas na manga.
O cientista político Maurício Moura, do Instituto Ideia, observa que todas as vitórias de Lula até aqui se deram com um discurso que vendia otimismo: de bonança econômica em 2002 e em 2006 (a ponto de, naquela reeleição, nem os escândalos do mensalão e dos aloprados serem capazes de abalar a popularidade do incumbente) e de defesa da democracia há quatro anos.
Agora, o que foi apresentado ao eleitor, de isenção de Imposto de Renda a sucessivos programas de renegociação de dívidas, foi recebido com um entusiasmo apenas momentâneo, mas não suficiente para talhar a imagem de um governo exitoso, capaz de fazer jus àquela maré de otimismo dos anos 2000.
A própria narrativa da preservação da democracia, em que Lula investiu depois do 8 de Janeiro e que imaginava prevalecer após a condenação de Jair Bolsonaro, perdeu força depois que os ministros do Supremo Tribunal Federal mais atuantes nesses casos foram colhidos pelo furacão Master, levando com eles a imagem da instituição.
Diante desse panorama, em que a aprovação de seu governo permanece em patamares rigorosamente iguais à reprovação, e, mês após mês, a rejeição pessoal de Lula grita números proibitivos, cresce no entorno presidencial o medo do que pode acontecer num segundo turno contra Flávio Bolsonaro — que, vejam só, era tido como adversário dos sonhos até ontem.
Os conselheiros da campanha petista sabem que Lula não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida e passaram a reforçar junto a candidatos nos estados e a cabos eleitorais na ponta das cidades a ideia de um mutirão para garantir a vitória já em primeiro turno. Os bons números do presidente no Sudeste, mostrados pela Quaest, foram celebrados como essenciais para o sucesso dessa estratégia.
Nesse esforço de sprint final, qualquer catadão de boas notícias passa a ser visto como o combustível que você coloca com os trocados da carteira só para o veículo chegar ao destino. O fim da escala 6 x 1 será embalado na propaganda da TV, de que Lula tem a maior fatia, como epílogo da história que seus marqueteiros tentarão contar: de um governo que atuou para os mais pobres, contra os bilionários matreiros.
É por isso que a ênfase no discurso contra o alto preço dos alimentos, tendo a picanha como símbolo maior, é visto como notícia com potencial de estrago igual ou maior que as traficâncias de Lulinha, Marcola e companhia. Nada mais fatal para a tentativa de vender esperança com um personagem tão desgastado quanto Lula que a evidência de que ele prometeu algo muito concreto — a volta do churrasco e da cerveja—, e isso nunca chegou à mesa do eleitor que agora é chamado a conduzi-lo ao Planalto pela quarta vez, para perfazer 16 anos no poder, algo inédito numa democracia ainda tão jovem.
Flávio Bolsonaro faz primeira visita ao Nordeste com centrão ausente e aposta em apoio no 2º turno
Raphael Di Cunto / FOLHA DE SP
A primeira agenda de Flávio Bolsonaro no Nordeste na campanha expôs o isolamento do candidato do PL na região, decisiva para a eleição. O presidenciável foi recepcionado nesta terça (25) apenas por políticos e militantes de direita, viu aliados de outros partidos fugirem do palanque e apostou no apoio de líderes religiosos.
A ausência de apoio em Alagoas, estado do vice de Flávio, replica a dificuldade que a candidatura bolsonarista enfrenta na região por causa da popularidade do presidente Lula (PT). Aliados de Flávio afirmam que a estratégia é trabalhar por alianças no segundo turno.
Em 2022, Lula venceu no país com apenas 2,1 milhões de votos a mais que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), resultado influenciado pela vantagem de 12,5 milhões de votos que obteve no Nordeste. A estratégia da campanha bolsonarista é diminuir a diferença na região com o apoio de governadores eleitos no primeiro turno contra os candidatos apoiados pelos petistas.
O plano é que, na primeira etapa da campanha, candidatos do centrão e centro-direita coligados ao PL permaneçam neutros na disputa presidencial, para evitar perder voto do eleitor lulista, principalmente do interior. Na segunda fase da campanha, no entanto, com as disputas locais já encerradas, a articulação é para que trabalhem ativamente contra o PT e Lula.
Por isso, o PL franqueou apoio a candidatos aos governos locais e ao Senado sem a promessa de reciprocidade pública na primeira etapa. É o caso das candidaturas de ACM Neto (União Brasil) na Bahia, de Ciro Gomes (PSDB) no Ceará e de Joel Rodrigues (PP) no Piauí. Além disso, o partido apoia Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, mesmo sem expectativa de declaração de voto futura.
Na Bahia, o PL aderiu à chapa de ACM Neto, que rivaliza com o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e declarou voto em Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência para evitar antagonizar com Lula. A eleição estadual tende a acabar no primeiro turno, e aliados de Flávio e de Neto dizem que a promessa é que ele entre na campanha nacional na segunda etapa.
No Ceará, o plano gerou estresse dentro do clã bolsonarista, mas o PL manteve o apoio a Ciro Gomes para vencer o governador Elmano de Freitas (PT) e aumentar as chances de eleger senadores de direita. Ciro trata apenas de questões locais em sua campanha, mas bolsonaristas esperam uma declaração de voto no segundo turno.
Na Paraíba, a estratégia foi lançar um candidato do PL mais ao centro e desistir da chapa "bolsonarista raiz". O senador Efraim Filho, eleito pelo União Brasil em 2022 em aliança com parte da base lulista no estado, se filiou ao partido de Bolsonaro e é candidato ao governo. "A redução da vantagem do Lula no Nordeste vai dar a eleição para o Flávio", afirma Efraim.
Além de gerar ruídos, o plano não tem dado certo em todos os lugares. Em Alagoas, estado de seu vice, o deputado Alfredo Gaspar (PL), Flávio esperava contar com o apoio público do popular ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas (PSDB). Foi o primeiro estado do Nordeste visitado na campanha, mas JHC faltou às agendas, ignorou Flávio nas redes sociais e não declarou voto.
A situação incomoda aliados do presidenciável. "Nem PhD em política consegue decifrar a estratégia do JHC. Mas, bicho, eu vou votar nele porque o outro lado é a desgraça de Alagoas, os Calheiros", diz o deputado estadual Cabo Bebeto (PL). "Mas confesso, não tô animado. Se ele continuar assim, sem fazer nada, eu continuarei também só sendo eleitor, votando e pronto."
Maceió é a capital mais bolsonarista do país. JHC foi eleito pelo PSB em 2020, mas migrou para o PL no meio do mandato –o que facilitou sua reeleição na prefeitura, ao impedir o surgimento de adversários à direita– e mudou para o PSDB este ano, para disputar a eleição. A esposa, Marina Cândia (PSDB), é candidata ao Senado com apoio de Flávio, mas também não se engajou na campanha bolsonarista.
Outro que não participou da recepção a Flávio em Alagoas é o ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), que tem apoio do PL para concorrer ao Senado. Lira encontrou Flávio apenas num culto de aniversário da Assembleia de Deus, igreja que apoia a candidatura do deputado.
Segundo aliados, o eleitor bolsonarista já entende que JHC, Marina e Lira são os representantes da direita. Um gesto mais explícito seria desnecessário e ainda poderia tirar votos. Esses aliados não descartam uma declaração de voto mais adiante, mas sem que isso seja explorado como ponto principal da campanha.
Em Alagoas, a campanha de Lula é feita pela família Calheiros, pelo governador Paulo Dantas (MDB) e pelo MDB, maior partido do Estado. O ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB) concorre ao governo, enquanto Renan Calheiros (MDB), o pai, busca o quarto mandato seguido ao Senado.
Os Calheiros declaram voto abertamente no petista e exploram a imagem em seu material de campanha. Já os comitês de Lira e de JHC não fazem nenhuma referência à candidatura presidencial. As redes sociais deles também evitam o tema. JHC também tem se recusado a dar entrevistas, faltou à própria convenção eleitoral e praticamente não fez eventos públicos desde que a campanha começou.
Nesta terça, ao desembarcar em Maceió, Flávio declarou voto no ex-prefeito e desconversou sobre a ausência. "O mais importante é ter essa maior liderança de Alagoas, que é o Alfredo Gaspar, e esse povo aqui", disse, antes de seguir em uma carreata.
O presidenciável se reuniu com empresários na associação comercial de Maceió. Entre os presentes na plateia, segundo os organizadores, estavam pessoas presas na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
Ele destacou ações caras a parte dos eleitores do Nordeste no governo do seu pai, como o aumento do Bolsa Família para R$ 600 e a conclusão de parte das obras de transposição do rio São Francisco. Também defendeu iniciativas para gerar emprego, principalmente no turismo.
"Essas pessoas estão decepcionadas com o Lula. Olham para ele e enxergam o passado, espero que olhem para mim e enxerguem o futuro", disse.
Tarcísio e Haddad seguem roteiros traçados por padrinhos
O principal atrativo da eleição para o governo de São Paulo, nos cálculos do mundo político, é que seus dois principais candidatos podem vir a encabeçar a disputa presidencial dentro de quatro anos. No presente, a corrida estadual avança sem maiores emoções.
Na largada oficial da campanha, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) confirma o favoritismo e tem 45% das intenções de voto, conforme pesquisa Datafolha recém-divulgada. Em segundo, o ex-ministro da Fazenda petista Fernando Haddad tem 27%. A distância entre os dois se ampliou numericamente, mas dentro da margem de erro, desde julho, quando era de 46% a 30%.
Dada a fragilidade das demais candidaturas, os números indicam que Tarcísio pode vencer já no primeiro turno, pois sua pontuação supera a soma das de seus adversários —ele teria 52% dos votos válidos, na contagem que exclui brancos e nulos para determinar o vencedor. Num eventual segundo turno, ele bateria Haddad por 54% a 35%.
Outros fatores reforçam a vantagem do mandatário. Sua gestão é considerada boa ou ótima por 42% dos paulistas aptos a votar, enquanto 23% a descrevem como ruim ou péssima. O saldo positivo caiu desde julho (eram 45% a 20%), mas ainda é confortável.
Já o petista é o postulante com maior rejeição. Entre os entrevistados, 47% declaram que não votariam nele em nenhuma hipótese, ante 29% que dizem o mesmo do rival. Reprovado sobretudo no interior, o PT nunca governou o estado mais populoso e economicamente poderoso do país.
Nenhum desses dados chega a ser surpreendente. Fato é que os dois candidatos seguem no pleito roteiros traçados por interesses de seus padrinhos políticos.
Introduzido nas disputas eleitorais em 2022 por Jair Bolsonaro (PL), o ex-tecnocrata Tarcísio abriu mão de suas pretensões presidenciais neste ano para não contrariar o ex-presidente —que lançou seu filho Flávio para preservar a liderança da família no campo antipetista. É aposta de partidos do centro à direita para uma alternativa mais moderada ao bolsonarismo em 2030.
Haddad cumpre missão a ele confiada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que precisa de um palanque em São Paulo na busca pelo quarto mandato no Planalto. Ex-prefeito da capital e já escalado para disputas na cidade, no estado e no país, o professor universitário é um candidato mais forte a sucessor preferido pelo cacique octogenário da legenda.
Espera-se que tais especulações sobre o futuro dos postulantes não releguem a segundo plano o debate qualificado sobre as necessidades presentes do estado —o que de fato deve interessar mais aos eleitores.
Do desempenho insatisfatório na educação básica aos roubos cotidianos de celulares, da expansão do metrô à despoluição de rios, da mudança climática às cracolândias, não faltam temas que demandem diagnósticos e propostas concretas.

