Um petista no Banco Central
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Não repercutiu bem a indicação do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, a uma das vagas abertas na diretoria do Banco Central (BC). Sugestão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que está prestes a deixar a pasta, Mello é conhecido pela formação acadêmica heterodoxa e por opiniões manifestamente contrárias à austeridade fiscal e a juros elevados.
Não menos importante, Mello é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde a adolescência. Foi um dos economistas que elaboraram o plano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Fundação Perseu Abramo durante as eleições de 2022 e colabora com o Executivo desde a transição. Conta com a simpatia da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para quem os juros altos só aumentam a dívida pública.
Pode-se argumentar que o cargo forja o profissional que o assume, o que muitas vezes é verdade. O próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo, é exemplo disso. O ex-secretário-executivo de Haddad também era um crítico contumaz dos juros elevados, mas foi sob seu mandato à frente da instituição que o Copom elevou a Selic a 15% ao ano, maior nível desde 2006, a despeito de toda a pressão do governo, o que, inclusive, lhe gerou algum desgaste.
O contexto em que o nome de Mello é ventilado é bastante diferente. Parte do mercado avalia que o ciclo de redução dos juros já poderia, inclusive, ter sido iniciado. Com dólar em queda, economia mais fraca e projeções de inflação mais próximas da meta, os cortes na Selic se tornaram questão de tempo, e o próprio Banco Central já sinalizou que o primeiro deles deve vir em março.
O incômodo que o nome de Mello causou, embicando a curva longa de juros para cima desde que sua indicação veio a público, não se deve exatamente ao que ele diz. Os investidores não têm nada contra juros baixos, desde que haja condições para conduzi-los a esse patamar.
O secretário, por sua vez, não apenas relativiza os benefícios de uma política monetária austera para um crescimento sustentável. Ele também acredita piamente que a política fiscal do governo Lula tem sido contracionista e não parece ver relação entre a inflação elevada e o mercado de trabalho aquecido, que tem sido acompanhada com lupa pelo Banco Central.
São convicções que não combinam com o cargo que Mello pode vir a assumir caso seu nome seja confirmado por Lula e aprovado pelo Senado. A diretoria de Política Econômica tem papel central nas reuniões do Copom, na elaboração dos comunicados da instituição e nas reuniões trimestrais com economistas do mercado financeiro.
A última ata do colegiado evidencia o quanto a visão de Mello contrasta com a dos demais diretores do Banco Central. Todos eles foram indicados por Lula e, ainda assim, decidiram, por unanimidade, manter a Selic no patamar em que está, bem como enfatizar a necessidade de que as políticas fiscal e monetária sejam harmoniosas – ou seja, que remem na mesma direção. Talvez seja exatamente essa unidade que Haddad queira quebrar.

