Sanção contra brasileiros desperta preocupação
EDITORIAL DE O GLOBO
No fim de maio, o Departamento de Estado americano anunciou que as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) seriam classificadas como organizações terroristas a partir de 5 de junho. Menos de um mês depois da entrada em vigor da medida, o Departamento do Tesouro impôs sanções financeiras a dois cidadãos brasileiros e três empresas instaladas aqui, sob suspeita de ligação com o PCC. O governo americano acusa o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada de liderar uma estrutura de lavagem de dinheiro com atuação nos Estados Unidos que movimentou mais de US$ 30 milhões de origem ilícita e de usar criptomoedas para transferir fundos ao PCC no Brasil. Sua secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é acusada de atuar como intermediária na coleta do dinheiro.
É bem-vinda a colaboração prestada por autoridades americanas no combate às facções criminosas brasileiras. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pediu ao americano Donald Trump ajuda para desbaratar esquemas de lavagem de dinheiro oriundo de fraudes tributárias. Em dezembro, Shimada e Stella foram denunciados na Justiça da Flórida sob a acusação de participar de esquema de lavagem de dinheiro proveniente da venda de drogas. A denúncia, porém, não menciona vínculo com o PCC. Para as autoridades brasileiras, a ligação é novidade. Por aqui, a folha corrida de Shimada inclui uma condenação por fraude eletrônica e lavagem de dinheiro contra o Banco Votorantim e uma denúncia em caso que investiga contrato entre o Corinthians e uma empresa de apostas. O Departamento do Tesouro não apresentou as provas do elo com o PCC.
Mesmo que confirmado, os valores revelados até o momento parecem representar parte ínfima dos recursos lavados pelo PCC, envolvido em esquemas bilionários de empresas de ônibus, adulteração e venda de combustível e diversas outras atividades ilegais além do narcotráfico. É provável que o governo americano inclua nas próximas semanas e meses novos nomes na lista dos cidadãos e empresas brasileiras sujeitos a sanções financeiras.
Embora, até o momento, o caso envolva cifras menores, ele é um prenúncio dos efeitos da classificação do PCC e do CV como grupos terroristas. Empresas que têm Shimada como sócio, três no Brasil e uma em Portugal, também foram alvo das sanções. Seus bens nos Estados Unidos ou sob a posse de cidadãos americanos podem ser bloqueados. Mais grave: instituições financeiras que mantiveram negócios com essas empresas de Shimada poderão sofrer punições.
O risco desse tipo de medida é o abuso. Alguém com o perfil errático de Trump pode querer usá-la de forma indiscriminada contra bancos brasileiros. É fato que as instituições financeiras com sede no Brasil precisam melhorar a análise de seus clientes e adotar políticas mais restritivas para evitar ser contaminadas por atividades ilegais — do narcotráfico ao desmatamento. Houve nítida evolução entre os bancos brasileiros na conformidade com leis americanas relativas à corrupção. Não há razão para que não consigam se adaptar também às que dizem respeito aos grupos terroristas. Deve-se, porém, lembrar que nenhuma empresa, estatal ou privada, tem poder de investigação comparável ao de um governo, muito menos o americano.
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PGR revela sensatez ao pedir que Bolsonaro continue em domiciliar
Por Editorial / O GLOBO
É sensata a posição da Procuradoria-Geral da República (PGR) ao defender junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) a manutenção da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. A PGR entendeu que a apreensão de uma pistola registrada em seu nome não configura falta disciplinar capaz de agravar sua situação penal. A manifestação havia sido pedida pelo ministro Alexandre de Moraes. Qualquer fato que envolva Bolsonaro — condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes — é tema sempre sensível e precisa ser tratado com serenidade e bom senso.
O novo imbróglio teve origem na apreensão de uma pistola Glock 9 mm e de um carregador em 15 de junho, durante uma blitz da Polícia Militar do Distrito Federal. O motorista do veículo abordado, militar do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República que fazia segurança para Bolsonaro, disse que a arma lhe foi entregue para um reparo e seria devolvida no dia seguinte. Em depoimento, Bolsonaro alegou “que tinha três mulheres em casa” e “não podia ficar desarmado”. A Polícia Civil do DF instaurou inquérito para apurar o caso e concluiu que ele não cometeu crime ao manter a arma em casa, mesmo em prisão domiciliar.
Mesmo reconhecendo que a arma tinha registro válido, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que a atual condição jurídica de Bolsonaro é incompatível com a posse de arma de fogo. Obviamente ela é desnecessária. O parecer lembra que a legislação exige comprovação de idoneidade por meio de certidões negativas atestando que o proprietário não responde a inquéritos ou processos criminais — e não é o caso de Bolsonaro. A falta desses requisitos, diz Gonet, pode levar à perda do certificado de registro. Mas não à mudança de regime penal.
É compreensível que, dado o histórico de Bolsonaro, as autoridades fiquem em estado de alerta. Em novembro passado, quando cumpria prisão domiciliar, ele tentou romper a tornozeleira eletrônica usando um ferro de soldar para danificar o equipamento. A tentativa foi prontamente frustrada. Independentemente do motivo que o levou ao desvario, a ação lhe custou a volta à cadeia. Em março deste ano, com o agravamento de suas condições de saúde, foi beneficiado com prisão domiciliar humanitária.
Não há dúvida de que são graves os crimes cometidos por Bolsonaro. Mas execução de pena não pode ser ato de revanchismo. Ele enfrenta sérios problemas de saúde, como demonstra a sucessão de cirurgias e procedimentos a que tem se submetido nos últimos anos. É preciso assegurar que cumpra as determinações da Justiça em condições que não agravem seu estado. Evidentemente, vulnerabilidade não significa salvo-conduto para agir como se estivesse em liberdade. O desafio para o Supremo, que ainda decidirá sobre o caso, está em aplicar a lei com a firmeza necessária, coibindo excessos, e, ao mesmo tempo, contemplar a questão humanitária — princípios que devem valer para todos os brasileiros.
O ex-presidente Jair Bolsonaro — Foto: Sergio Lima / AFP/ 25/11/2025
A irritação de Michelle Bolsonaro com um pedido de Valdemar
Por Rafael Moraes Moura e Johanns Eller — Brasília e Rio / MALU GASPAR
Foi tensa a conversa entre Michelle Bolsonaro e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que sacramentou a saída da ex-primeira-dama do comando do PL Mulher em meio à crise com Flávio Bolsonaro. Um pedido específico do dirigente, porém, tirou Michelle do sério a ponto de ela ameaçar se desfiliar do partido.
Segundo duas fontes ouvidas pela equipe da coluna próximas tanto de Flávio quanto da ex-primeira-dama, Valdemar sugeriu que ela assinasse uma carta se dizendo abalada pelos problemas familiares provocados pela prisão de Jair Bolsonaro e pedisse desculpas pelo vídeo no qual dirigiu duras críticas a Flávio e a setores do bolsonarismo e abriu um racha na direita.
Michelle, que há dias vinha manifestando a aliados irritação com os ataques nas redes sociais por aliados do pré-candidato do PL e do também enteado Eduardo Bolsonaro, reagiu mal à proposta e demonstrou indignação com a ideia.
Ao sair da reunião, na terça-feira (30), ela anunciou a saida do PL Mulher, mas não cita Flávio e nem pede desculpas no comunicado divulgado nas redes. Sem ignorar a crise, se referiu ao “momento em que estamos vivendo em nossa família” para justificar a decisão de deixar a presidência do PL Mulher, medida que segundo ela foi tomada junto a Jair Bolsonaro para que se dedicasse “integralmente” aos cuidados dele e da filha mais nova, Laura.
Na nota, a ex-primeira-dama listou feitos de sua gestão e agradeceu nominalmente Valdemar pela autonomia e pela sua nomeação ao cargo, em março de 2023, três meses após o marido deixar a presidência.
Também fez um aceno à vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), pivô da crise com Flávio pelo apoio dele e dos outros enteados à campanha de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará. Priscila era pré-candidata ao Senado Federal, mas teve que se contentar com a candidatura a deputada federal.
Já Valdemar destacou em sua nota oficial que Michelle passa por “um momento difícil”, admitiu “divergências” e “indignações” dentro do PL, mas defendeu que a decisão dela de deixar o cargo seja respeitada.
Como mostrou O GLOBO, a ex-primeira-dama foi convencida a não se desfiliar do PL no calor da crise pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e pela governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), aliadas e amigas próximas de Michelle, em uma reunião no Palácio do Buriti.
Na reunião com Valdemar, a mulher de Jair Bolsonaro também sinalizou que desistiria de concorrer ao Senado pelo Distrito Federal em outubro, como o próprio presidente do PL confirmou na última quinta em entrevista à Rádio Gaúcha.
No entorno de Michelle, porém, a avaliação é que essa hipótese está descartada, mas ainda assim ela não irá se empenhar na campanha do enteado ao Palácio do Planalto. Caso dispute a eleição, concorrerá na chapa de Celina, que tentará a reeleição.
Boa relação com Valdemar
Valdemar Costa Neto estava em Miami, nos Estados Unidos, para assistir a disputa entre Brasil e Escócia na Copa do Mundo 2026 quando Michelle divulgou o vídeo de 27 minutos no Instagram acusando Flávio de “apunhalá-la” e “maltratá-la” poucas horas antes da partida.
O presidente do PL antecipou a volta ao Brasil e chegou a classificar a briga como “muito séria” e a admitir que, sem Michelle, a eleição de Flávio seria “muito difícil”.
A conversa dura com Michelle contrasta com a boa relação que ambos mantiveram publicamente nos últimos anos. Valdemar, inclusive, era um entusiasta público de uma candidatura presidencial da ex-primeira-dama antes de Jair Bolsonaro escolher o filho 01 como seu representante nas urnas.
Menos de um mês após a posse de Lula, quando já se aventava a possibilidade de uma condenação de Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de implicações criminais pelos ataques golpistas do 8 de janeiro, o chefe do PL declarou à CNN Brasil que a mulher do ex-presidente poderia ser candidata.
O dirigente voltou a defender a candidatura presidencial em várias outras ocasiões, mesmo quando Bolsonaro sinalizava preferir que Michelle disputasse o Senado pelo DF. Mais recentemente, classificou a aliada como um “fenômeno” político e lamentou que o marido não tenha apoiado uma candidatura dela ao Executivo.
Foi também Valdemar quem indicou ex-primeira-dama para a presidência do PL Mulher, em 2023 e garantiu a ela uma remuneração mensal de R$ 46 mil – a mesma do ex-presidente. Pelo jeito, o histórico afável com Valdemar não foi suficiente para contornar o climão diante do apelo do presidente do PL por um “mea culpa” de Michelle na reunião da última terça.
Michelle Bolsonaro e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto (ao fundo), durante posse da ex-primeira-dama como dirigente do setorial de mulheres da sigla — Foto: Cristiano Mariz/O Globo
Governo do Rio tinha funcionários fantasmas em todos os órgãos públicos; conheça quem são os suspeitos
Por Anna Bustamante , Felipe Grinberg , João Vitor Costa e Vera Araújo / O GLOBO
Só na Casa Civil, foram aproximadamente 1,2 mil exonerados até agora. A pasta teve subsecretarias inteiras extintas: a Adjunta de Projetos Especiais, onde 32 perderam seus cargos, e as de Gastronomia e de Ações Comunitárias e Empreendedorismo, ambas com 11 pessoas lotadas em cada.
Os resultados, em alguns casos, são reveladores, como na Seas. Lá, havia 128 pessoas apenas no gabinete do secretário da pasta, das quais 110 — ou 86% — jamais acessaram o sistema. Em outra secretaria analisada, a de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), detectou-se que, dos 150 servidores em cargos em comissão, apenas 90 tinham estação de trabalho.
Entre os servidores em cargo comissionado que passaram pelo crivo dos auditores do estado, há outro caso de pai e filho. Marcus Wilson Von Seehausen e o filho, João Antonius Von Seehausen, também fazem parte da lista de exonerados, em 30 de abril e 18 de maio, respectivamente.
Marcus, lotado na Seas, recebia salário líquido de R$ 12.212,72. Segundo fontes do governo, não há registro de que ele fizesse login nos computadores da pasta nem de que acessava o local de trabalho. Natural de Petrópolis, tem histórico político na cidade: foi presidente do PTB local em 2008, secretário municipal de Administração e Recursos Humanos em 2018 e chefe de gabinete do ex-deputado estadual Marcus Vinicius Nescau (PTB), preso na Operação Furna da Onça, em 2019, que apurou o recebimento de propinas mensais por parlamentares — Marcus Von Seehausen chegou a ser apontado como responsável por receber os valores destinados ao deputado. Depois, aproximou-se do deputado estadual Bernardo Rossi (União), também de Petrópolis, que foi secretário da Seas — cargo que explicaria a lotação de Marcus como seu chefe de gabinete.
O GLOBO foi às ruas para apurar quem são essas pessoas que recebiam salário sem dar expediente e que, nos últimos meses, foram exoneradas pelo governo Ricardo Couto. A maioria era ligada a políticos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), à gestão anterior ou a ex-titulares de pastas estaduais.
Marcelo Cabral D'Almeida é um dos cerca de 200 exonerados da Secretaria estadual do Ambiente e está na lista de “alta criticidade”. Ele afirma que seu trabalho era, majoritariamente, em campo, em visitas técnicas a praças e outros locais públicos na Zona Oeste do Rio, como o Pico da Pedra Branca.
Ao ser questionado se enviava esses registros ao seu chefe e a quem ele respondia na secretaria, ele diz não lembrar o nome de seu gestor:
— Nem lembro o nome da pessoa no primeiro momento, tipo um supervisor.
— Ficava na rua, mas, frequentemente, assinava o ponto — diz ele. — Fazia registros de conservação do local, acúmulo de resíduos, necessidade de poda técnica, degradação, arborização — acrescenta.
Ao ser questionado se enviava esses registros ao seu chefe e a quem ele respondia na secretaria, ele diz não lembrar o nome de seu gestor:
— Nem lembro o nome da pessoa no primeiro momento, tipo um supervisor. Marcelo é filho do ex-vereador e ex-funcionário comissionado do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Marcelino Almeida — que deixou o cargo na pasta em abril. Estava nomeado na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, com salário de R$ 10.903,66. As equipes de reportagem foram a dois endereços ligados a ele. No primeiro, funciona um polo de reabilitação da Secretaria de Estado da Juventude e Envelhecimento Saudável. No segundo, em um condomínio de alto padrão em Vila Valqueire, na Zona Sudoeste da cidade, uma mulher que se identificou como irmã dele atendeu.
— Vocês estão batendo na casa das pessoas exoneradas? — perguntou ela, acrescentando que seria melhor que o irmão esclarecesse a questão. — Depois que os irmãos crescem, não sabemos o que cada um faz, cada um tem a sua vida. Nem quero saber o que ele faz — conclui ela, enquanto se distanciava.
Por WhatsApp, Marcelo propôs falar pessoalmente sobre o assunto. Depois, recuou, mas respondeu pelo aplicativo de mensagens. Disse que seu desligamento não causou surpresa, por se tratar de um cargo de livre nomeação.
— Não entendi muito, mas como eu já sabia que era um cargo do qual, a qualquer momento, eu poderia sair, então não senti muito — disse o ex-comissionado, admitindo que foi indicado ao cargo pelo ex-secretário da pasta Bernardo Rossi. — Foi via Bernardo Rossi que tudo começou. Nós nos conhecemos em um evento, e ele se interessou para que eu fizesse esse trabalho em uma área que eu conheço bem.
Embora tenha afirmado que Bernardo Rossi se interessou pelo “seu trabalho na área”, Marcelo reconheceu não possuir formação no campo ambiental, o que “não exigiram” dele.
Ele integrava uma das duas subsecretarias da Seas que tiveram todos os funcionários exonerados e, em seguida, foram extintas pelo atual governo, entre outros motivos, devido às suspeitas de serem todos fantasmas. Na dele, eram 14 cargos, segundo fontes, com a maioria dos comissionados indicados pelos irmãos Luciano Vieira (PSDB) e Léo Vieira (Republicanos), deputado federal licenciado e prefeito de São João de Meriti, respectivamente. Já na Subsecretaria de Conscientização Ambiental, foram liquidadas 37 vagas. A estrutura era comandada pela vereadora de Campos dos Goytacazes Thamires Rangel (PMB), filha do deputado estadual Thiago Rangel (PMB), preso em maio deste ano suspeito de estar envolvido em fraudes na Secretaria estadual de Educação.
Em nota, Rossi negou ter nomeado fantasmas e afirmou que parte dos funcionários trabalhavam in loco. Thamires também defefendeu sua atuação na pasta e negou irregularidades.
Outros dos lotados nessas subsecretarias localizados pelo GLOBO apresentaram justificativa parecida com a de Marcelo, de que faziam trabalhos externos. Foi o caso de Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, na Zona Norte, que teve salário líquido de R$ 6.040,64 e carga horária de 40 horas semanais na Subsecretaria de Manutenção em Áreas Verdes Urbanas, onde batia “ponto manual”. Ao GLOBO, Allen não especificou as suas atribuições na pasta.
— Eu não tive nem tempo de trabalhar direito, fiquei dois meses lá. Cumpri expediente, meu trabalho era na rua, era trabalho externo. Aí, quando veio esse novo governador, fez as exonerações — disse ele.
Desde 23 de março, já foram exonerados mais de 4.283 comissionados na gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. A economia estimada até o fim do ano gira em torno de R$ 230 milhões, valor que ainda pode subir.
Só entre março e maio, houve uma enxurrada: 1.767 deixaram o governo na condição de fantasmas — o que representa uma economia de quase R$ 15 milhões por mês. Os primeiros alvos foram as secretarias da Casa Civil, de Governo e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em um trabalho interno apelidado de “laboratório”. A partir dessa experiência, foi instituída uma auditoria geral, dirigida pelo GSI com auditores do CGE.
— Pontos eletrônicos, mecanismos de acesso às instalações e registro de login nas atividades públicas restritas aos funcionários seriam medidas imprescindíveis para prevenir o que diagnosticamos nos relatórios das auditorias — afirmou o secretário de Governo e coordenador do GSI, delegado Roberto Lizandro Leão.
Não passam pelas catracas dos locais de trabalho. Não fazem login em computadores. Nem acessam o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), usado para criar, tramitar e assinar documentos oficiais. A partir desses critérios, o atual governo do Rio passou a rastrear, no funcionalismo público do estado, os casos de “alta criticidade” — nome técnico que qualifica os comissionados que, aparentemente, são “fantasmas”. Um levantamento da Controladoria Geral do Estado (CGE), iniciado no fim de março, chegou a uma conclusão contundente: todos os 77 órgãos da máquina fluminense tinham funcionários com esse perfil, que supostamente não trabalhavam. Já na cidade de São João de Meriti, O GLOBO encontrou Sintilaine Alessandra de Souza Silva, nomeada entre março e maio na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes, uma das áreas extintas na Seas. Alegando estar se recuperando de uma cirurgia, ela falou com a equipe do GLOBO por um número de telefone informado por sua prima, que atendeu à porta.
Sintilaine, que fez campanha para a família Vieira na cidade, não soube dizer por que ficou tão pouco tempo no cargo. Ao ser questionada sobre suas atribuições, perguntou por que teria de responder a essas perguntas. Sobre a quantia mensal que recebia do estado, alegou receber apenas uma pensão pela morte do filho. Em abril, Sintilaine recebeu R$ 494 de pensão, além dos R$ 9,2 mil pela Seas. Quando indagada sobre a suspeita de ser fantasma, ela disse:
— Não tenho nada a declarar. Estou doente.
Em nota, os irmãos Léo e Luciano Vieira negaram terem indicado pessoas a cargos no governo.
‘Missionária digital’
Era na Seas também que estava lotada, entre janeiro de 2025 e maio de 2026, Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida como a “blogueirinha de São Marcos”, com cerca de 16 mil seguidores no Instagram e 50 mil no TikTok, onde se apresenta como “missionária digital” e prega a fé católica e a evangelização de jovens. Ela foi uma das exoneradas sob a classificação de “alta criticidade”. Ela ainda aparece em fotos com políticos em eventos religiosos, como o vereador Diego Faro (PL), o deputado estadual Fred Pacheco (PL) e do irmão Marcio Pacheco, presidente do Tribunal de Contas do Estado. Os irmãos negaram que a indicaram ao cargo e Faro não respondeu.
Bruna tinha 25 anos quando sua nomeação foi levada à Casa Civil, em dezembro de 2024, e publicada no Diário Oficial menos de um mês depois. Assumiu o cargo de Adjunto I, símbolo DAI-4 — função de livre nomeação. Documentos analisados pelo GLOBO não trazem informações sobre o tipo de serviço que ela exercia. A Coordenadoria de Pessoal da Seas certificou apenas que ela acumulou 41 dias de férias entre 2025 e 2026, no valor de R$ 9.657,78.
No LinkedIn, no entanto, onde se descreve como publicitária, analista de marketing e profissional de gestão de projetos e comunicação, consta um registro profissional que coincide temporalmente com sua passagem pela secretaria: “Coordenadora de marketing no governo do Estado do Rio de Janeiro”, cargo que, segundo o perfil, teria sido exercido em tempo integral entre janeiro de 2025 e junho de 2026. A equipe de reportagem do GLOBO a procurou em endereços que seriam ligados a ela e seus familiares, um deles em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste. Mas somente por telefone que ela foi localizada. Numa primeira ligação por vídeo, apareceu num ambiente interno, com teto branco ao fundo. Em seguida, numa segunda chamada, por áudio, disse estar "em trânsito" e que poderia falar depois. Depois, passou a repetir "alô?", como se estivesse com problemas de sinal, até a ligação cair.
Até o momento, 60 dos 77 órgãos passaram pela auditoria geral nas três últimas semanas. A previsão é que essas pastas já auditadas gerem uma economia de R$ 355 milhões em um ano, incluindo décimo terceiro e férias. Segundo um auditor ouvido pelo GLOBO sob reserva, o "bom senso" também integra a análise dos casos de “alta criticidade”, já que podem existir situações específicas — cabendo ao gestor da pasta assumir o risco de justificar eventuais exceções.
Cada órgão já recebeu relatório individualizado com as inconsistências identificadas, e os secretários da Casa Civil, Flávio Willeman, e de Governo, Roberto Leão, fixaram prazo para que os gestores apresentem suas listas de fantasmas e promovam as demissões. Os exonerados entram numa lista especial e não poderão retornar ao órgão de origem. Entre as secretarias com maior redução de comissionados estão Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%), Turismo (73,3%) e Cultura, Tecnologia e Inovação (65,6%).
Leia os posicionamentos na íntegra:
Bernardo Rossi:
"O ex-secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade Bernardo Rossi nega de forma categórica a alegação de que servidores nomeados durante sua gestão fossem “fantasmas”. Trata-se de uma acusação grave, que exige provas individualizadas e não pode se sustentar em suposições ou generalizações.
Os servidores exerciam atividades vinculadas às atribuições da secretaria, muitas delas desenvolvidas em campo, in loco, junto aos municípios, em programas como o Limpa Rio, além de vistorias, fiscalizações, monitoramento e acompanhamento de obras e projetos ambientais."
Márcio Pacheco:
"Márcio Pacheco esclarece que, além de sua atuação na vida pública, também exerce um trabalho de evangelização como cantor católico, participando regularmente de eventos religiosos em diferentes cidades. Nessas ocasiões, é natural que tire fotografias com dezenas ou até centenas de pessoas que solicitam um registro.
A mulher que pode estar ao lado dele na imagem mencionada pela reportagem não faz parte de seu círculo de convivência e não possui qualquer relação pessoal com ele. Márcio Pacheco não a conhece. A fotografia provavelmente foi feita no contexto de um evento público, como ocorre rotineiramente com inúmeros participantes que pedem para registrar o momento.
Assim, a existência de uma foto em um evento aberto não pode ser interpretada como indicativo de vínculo, proximidade ou qualquer tipo de relação entre Márcio Pacheco e a pessoa retratada."
Fred Pacheco:
"Essa pessoa (Bruna Castello Branco) não foi indicada por mim nem tão pouco pelo meu irmão".
Léo e Luciano Vieira:
"O prefeito Léo Vieira e o deputado federal Luciano Vieira esclarecem que não realizaram qualquer indicação das pessoas mencionadas para cargos no Governo do Estado. Ambos desconhecem as nomeações e não têm qualquer participação na composição da referida subsecretaria"
Thamires Rangel:
"Thamires Rangel recebe com estranheza as declarações divulgadas pela atual gestão da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, que não refletem os resultados alcançados durante sua atuação à frente da subsecretaria. Durante quase oito meses de trabalho intenso, atuou com dedicação e compromisso para apresentar resultados concretos, especialmente para as regiões Norte e Noroeste Fluminense, que historicamente demandam atenção, investimentos e ações efetivas.
A assessoria reafirma o compromisso da vereadora Thamires Rangel com a transparência, a verdade dos fatos e a defesa de um trabalho sério, responsável e voltado para atender às necessidades da população. Da mesma forma, ressalta a importância de um jornalismo pautado pela apuração responsável, pelo contraditório e, sobretudo, baseado em verdades."
O risco do ‘acelera e freia’
O ESTAÃO DE SP / NOTAS E INFORMAÇÕES
Concessionárias de rodovias brasileiras começaram a testar uma nova ferramenta para flagrar os motoristas que trafegam acima do limite de velocidade. Diferentemente do atual modelo de radares fixos que registram a velocidade durante a passagem do veículo num determinado ponto, os equipamentos conseguem acompanhar o deslocamento de motos, carros, ônibus e caminhões por um trecho da via e calcular de forma precisa a sua velocidade média. E os resultados dos experimentos não são nada animadores.
O monitoramento, segundo reportagem do Estadão, revelou que os motoristas abusam do comportamento “acelera e freia”, trafegando acima da velocidade permitida e driblando a fiscalização para escapar de multas e da perda de pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Ocorre que a lei da física é incontornável: a velocidade média é a razão entre a quilometragem percorrida e o tempo gasto para percorrê-la. Se o motorista chegou a um ponto antes do tempo estimado, é porque infringiu outra lei, a de trânsito. Ou seja, a tecnologia é capaz de detectar e denunciar o condutor imprudente.
Num trecho monitorado no Rodoanel, metade dos carros, segundo a concessionária SPMar, excedeu o limite de velocidade, trafegando em média a 110 km/h onde a velocidade máxima permitida era de 100 km/h. E os dados em relação aos caminhões e ônibus impressionam ainda mais: 9 em cada 10 veículos pesados circularam a uma velocidade média acima do limite de 80 km/h. Como se vê, os condutores se arriscam e, pior, põem em risco a vida daqueles que cruzam seu caminho.
Não é preciso ser especialista em tráfego para depreender que o problema é bem maior do que o registrado numa ou noutra rodovia. O trânsito em todo o Brasil é perigoso. Em 2024, o País registrou mais de 37 mil mortes no trânsito, segundo dados divulgados recentemente pelo DataSUS, pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Contra essa triste realidade, há alguns bons exemplos a serem seguidos. Em vigor há 20 anos, o monitoramento por velocidade média na Europa tem salvado vidas: na Itália, a queda da mortalidade foi de 56%, enquanto na Escócia foi de 70%.
É urgente que o Brasil enfrente as suas inquietantes estatísticas de trânsito e se aproprie de todas as ferramentas tecnológicas disponíveis para frear a escalada da violência nas ruas e nas estradas. Já existem condições tecnológicas para que os radares de velocidade média sejam instalados por aqui. Para isso, ainda faltam marcos jurídicos e regulatórios que permitam que se avance da fase de testes, hoje meramente educativa, para a fase de fiscalização.
Logo, reformas legislativas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e medidas de regulação são necessárias. Mas tudo isso exigirá engajamento da sociedade e do poder público, que precisa convencer a população de que não existe “indústria da multa” para quem respeita a lei. Também é necessário que as próprias autoridades políticas se convençam de que salvar vidas importa mais do que qualquer ganho eleitoral obtido na base do discurso irresponsável.
A sedução autoritária
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, apresentou há poucos dias o “Brasil Sem Medo”, um plano de doze medidas para a área de segurança. Registre-se que o diagnóstico do senador não está errado. O Brasil, de fato, há anos convive com indicadores de criminalidade inaceitáveis para um país que se pretende civilizado. Com razão, a sociedade está exasperada diante da conclusão de que o Estado tem sido incapaz de protegê-la de criminosos cada vez mais ousados e organizados. Mas o acerto do sr. Bolsonaro termina aí.
Ponto a ponto, seu plano, inspirado no regime autoritário de Nayib Bukele, em El Salvador, segue a velha receita populista que combina apelo social com sedução autoritária: a promessa de segurança à custa de direitos e garantias fundamentais.
Se o modelo salvadorenho já é terrível no mérito, há que se desconfiar também de seus supostos indicadores de “sucesso”. Bukele obliterou a separação de Poderes, calou a imprensa profissional e transformou o Judiciário de seu país em fantoche do Executivo. De modo que os dados circulantes sobre queda de roubos, tráfico e homicídios em El Salvador são exatamente os que Bukele quer que circulem. No Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), o megapresídio erguido como vitrine do regime salvadorenho, meros suspeitos são trancafiados sem mandados judiciais, sem acesso a advogados ou qualquer outra mínima garantia de defesa justa.
Tratar a barbárie como um modelo a ser seguido no Brasil implica pisotear a Constituição de 1988 e, ademais, ignorar que, no Estado de Direito, mesmo o mais cruel dos criminosos, a despeito de estar privado da liberdade, não deixa de ser um cidadão titular de outros direitos elementares. Como é típico do bolsonarismo, Flávio instrumentaliza o medo da população e importa a lógica da crueldade que supostamente o aplaca para o Brasil. Decerto tem quem o apoie, mas não é esse o País que queremos.
Sua proposta de execução sumária de suspeitos armados como política de Estado é uma afronta ao devido processo legal e à presunção de inocência, pilares do artigo 5.º da Constituição. Evidentemente, qualquer policial não só pode como deve reagir à força, inclusive letal, quando sua vida ou a de terceiros está em risco. Mas transformar a letalidade policial em meta declarada é coisa de aspirante a tiranete.
A criação do “TREVA”, rede de presídios federais nos moldes do Cecot, também esbarra na vedação constitucional a penas cruéis e no dever do Estado de respeitar a integridade física e moral do preso, ainda que se trate do chefe de uma facção criminosa. Outra proposta do senador, a castração química de condenados por crimes sexuais, é igualmente incompatível com a proibição de penas cruéis prevista no inciso XLVII daquele mesmo artigo. Por mais hediondo que seja o crime, o Estado não pode impor ao criminoso penas que envolvam suplícios de qualquer natureza. Deveria ser ocioso ter de relembrar esse primado civilizatório.
A redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e a punição de adolescentes de 14 anos como adultos tampouco é trivial. Como já dissemos nesta página, trata-se de questão das mais complexas, que deve ser debatida com serenidade pela sociedade – e longe do calendário eleitoral. O fim da progressão de regime para crimes hediondos, no mesmo sentido, ignora o princípio da individualização da pena e, como se isso não bastasse, desestimula o preso a se ressocializar.
Entre as propostas, há ainda o “Muralha Brasileira”, um sistema de reconhecimento facial que promete vigiar portos, aeroportos e ruas com 1 milhão de câmeras. Tecnologia de vigilância em massa, sem os devidos controles, é terreno fértil para erros de identificação, vieses raciais e violações de privacidade. Em suma, uma agressão a direitos que não deixam de existir apenas porque o alvo declarado do Estado é o crime organizado.
Malgrado não serem surpreendentes vindo de quem vêm, as propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro não resistem a um exame sério à luz da Constituição. Mas o “Brasil Sem Medo” tem o mérito de mostrar, mais uma vez, de que material é feito o bolsonarismo. Um genuíno líder democrata jamais submeteria a Nação à escolha entre a repressão ao crime e o respeito às garantias e direitos fundamentais.

