A Educação entre o fascínio e o medo da IA
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em entrevista ao Estadão, a empreendedora Iona Szkurnik, uma das curadoras do São Paulo Innovation Week – evento que o jornal realizará em maio, com foco em tecnologia, inovação e negócios –, apontou um equívoco recorrente no debate sobre inteligência artificial (IA) na educação. O erro mais comum no uso da IA, disse ela, é enxergá-la apenas como um robô que fará as coisas pelos estudantes, e não como complemento de quem a utiliza. E admitiu: “Claro que tenho medo, como todo mundo, do que vai acontecer. Só que, em vez de ficar congelada ou em pânico, a gente tem de saber como se preparar para usar essas inteligências que já estão aí e não vão parar”.
Este é um dos principais problemas relacionados ao mau uso da IA: quando a tecnologia passa a ocupar o lugar do raciocínio do estudante, substituindo o processo de elaboração intelectual que constitui o próprio sentido da aprendizagem. Ao deixar que a máquina tome o lugar da reflexão e da construção de ideias, a escola deixa de formar pensamento e passa apenas a administrar expedientes. Por outro lado, quanto mais o estudante exercitar pensamento crítico, criatividade e clareza de objetivos, mais a IA “vai catapultá-lo para onde quer chegar”, nas palavras da curadora.
A observação ilumina um dilema das escolas: como lidar com uma tecnologia já disseminada entre os alunos, mas ainda pouco compreendida pelo sistema educacional. A IA já ingressou no cotidiano dos estudantes. Pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que sete em cada dez alunos do ensino médio utilizam ferramentas de IA para pesquisas ou trabalhos escolares, mas apenas uns poucos dizem ter recebido orientação sobre como usar esses recursos. Ou seja, a tecnologia avança entre os alunos, enquanto a escola permanece, em grande medida, despreparada para mediá-la.
O debate público, assim, oscila entre dois impulsos igualmente improdutivos. Um é o entusiasmo acrítico. Multiplicam-se discursos que tratam a inteligência artificial como solução quase automática para problemas históricos da educação brasileira, como se bastasse introduzir novas ferramentas digitais para resolver déficits de aprendizagem que se arrastam há décadas. Convém cautela. O sistema educacional já viveu outros momentos de fascínio com equipamentos e plataformas apresentados como atalhos para a modernização. Em geral, a tecnologia chegou antes da reflexão pedagógica, e os resultados ficaram muito aquém do prometido.
O outro extremo é a reação defensiva, que tenta enfrentar a novidade pela via da proibição. É também uma resposta ilusória. A IA já faz parte do ambiente informacional em que crianças e jovens vivem diariamente. Está nos celulares, nos aplicativos de estudo e nas plataformas digitais que estruturam a circulação contemporânea do conhecimento. Pretender excluí-la não impedirá seu uso, apenas deslocará esse uso para fora do alcance de professores. Quanto mais a escola tentar ignorar a inteligência artificial, mais ela será usada sem critérios pelos estudantes.
O desafio, portanto, não é decidir se a tecnologia entrará ou não na educação – ela já entrou. A questão é em que condições ela será incorporada ao processo de aprendizagem. Se servir apenas para produzir respostas prontas, tenderá a empobrecer o trabalho intelectual dos alunos. Se usada como apoio à investigação, à organização de informações e à comparação de argumentos, poderá ampliar as possibilidades pedagógicas. Para que isso aconteça, porém, a escola precisa se preparar. Isso implica formar professores para lidar com as ferramentas, revisar práticas de avaliação e reforçar a missão fundamental da educação. Num ambiente em que respostas estarão sempre disponíveis a poucos cliques – e nem sempre confiáveis, sublinhe-se –, torna-se ainda mais importante ensinar os alunos a formular perguntas, interpretar informações e sustentar argumentos.
É o momento de o País evitar tanto o entusiasmo ingênuo quanto a recusa estéril. A tecnologia avançará independentemente das hesitações do sistema educacional. A verdadeira escolha é outra: aprender a utilizá-la de modo crítico ou permitir que se espalhe entre estudantes sem orientação. A escola brasileira ainda pode escolher o primeiro caminho e, assim, provar se o País é capaz de compreender as transformações do seu tempo.
Educação entre o fascínio e o medo da IA
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Em entrevista ao Estadão, a empreendedora Iona Szkurnik, uma das curadoras do São Paulo Innovation Week – evento que o jornal realizará em maio, com foco em tecnologia, inovação e negócios –, apontou um equívoco recorrente no debate sobre inteligência artificial (IA) na educação. O erro mais comum no uso da IA, disse ela, é enxergá-la apenas como um robô que fará as coisas pelos estudantes, e não como complemento de quem a utiliza. E admitiu: “Claro que tenho medo, como todo mundo, do que vai acontecer. Só que, em vez de ficar congelada ou em pânico, a gente tem de saber como se preparar para usar essas inteligências que já estão aí e não vão parar”.
Este é um dos principais problemas relacionados ao mau uso da IA: quando a tecnologia passa a ocupar o lugar do raciocínio do estudante, substituindo o processo de elaboração intelectual que constitui o próprio sentido da aprendizagem. Ao deixar que a máquina tome o lugar da reflexão e da construção de ideias, a escola deixa de formar pensamento e passa apenas a administrar expedientes. Por outro lado, quanto mais o estudante exercitar pensamento crítico, criatividade e clareza de objetivos, mais a IA “vai catapultá-lo para onde quer chegar”, nas palavras da curadora.
A observação ilumina um dilema das escolas: como lidar com uma tecnologia já disseminada entre os alunos, mas ainda pouco compreendida pelo sistema educacional. A IA já ingressou no cotidiano dos estudantes. Pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que sete em cada dez alunos do ensino médio utilizam ferramentas de IA para pesquisas ou trabalhos escolares, mas apenas uns poucos dizem ter recebido orientação sobre como usar esses recursos. Ou seja, a tecnologia avança entre os alunos, enquanto a escola permanece, em grande medida, despreparada para mediá-la.
O debate público, assim, oscila entre dois impulsos igualmente improdutivos. Um é o entusiasmo acrítico. Multiplicam-se discursos que tratam a inteligência artificial como solução quase automática para problemas históricos da educação brasileira, como se bastasse introduzir novas ferramentas digitais para resolver déficits de aprendizagem que se arrastam há décadas. Convém cautela. O sistema educacional já viveu outros momentos de fascínio com equipamentos e plataformas apresentados como atalhos para a modernização. Em geral, a tecnologia chegou antes da reflexão pedagógica, e os resultados ficaram muito aquém do prometido.
O outro extremo é a reação defensiva, que tenta enfrentar a novidade pela via da proibição. É também uma resposta ilusória. A IA já faz parte do ambiente informacional em que crianças e jovens vivem diariamente. Está nos celulares, nos aplicativos de estudo e nas plataformas digitais que estruturam a circulação contemporânea do conhecimento. Pretender excluí-la não impedirá seu uso, apenas deslocará esse uso para fora do alcance de professores. Quanto mais a escola tentar ignorar a inteligência artificial, mais ela será usada sem critérios pelos estudantes.
O desafio, portanto, não é decidir se a tecnologia entrará ou não na educação – ela já entrou. A questão é em que condições ela será incorporada ao processo de aprendizagem. Se servir apenas para produzir respostas prontas, tenderá a empobrecer o trabalho intelectual dos alunos. Se usada como apoio à investigação, à organização de informações e à comparação de argumentos, poderá ampliar as possibilidades pedagógicas. Para que isso aconteça, porém, a escola precisa se preparar. Isso implica formar professores para lidar com as ferramentas, revisar práticas de avaliação e reforçar a missão fundamental da educação. Num ambiente em que respostas estarão sempre disponíveis a poucos cliques – e nem sempre confiáveis, sublinhe-se –, torna-se ainda mais importante ensinar os alunos a formular perguntas, interpretar informações e sustentar argumentos.
É o momento de o País evitar tanto o entusiasmo ingênuo quanto a recusa estéril. A tecnologia avançará independentemente das hesitações do sistema educacional. A verdadeira escolha é outra: aprender a utilizá-la de modo crítico ou permitir que se espalhe entre estudantes sem orientação. A escola brasileira ainda pode escolher o primeiro caminho e, assim, provar se o País é capaz de compreender as transformações do seu tempo.
A farsa do PT ‘antissistema’
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente do PT, Edinho Silva, publicou um vídeo numa rede social no qual defende que o partido deve “enfrentar a polarização” dialogando, ora vejam, “com quem está do outro lado”. O discurso, que em outra boca poderia soar como um raro sopro de sensatez em meio à crispação do ambiente político brasileiro, mal esconde o cinismo de quem o profere. Mais ainda quando, no mesmo fôlego, o dirigente petista sustentou que o PT seria o verdadeiro partido “antissistema”, rótulo que, obviamente, tenta colar à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
É difícil saber por onde começar a desmontar essa mistificação. Talvez pelo que é mais evidente: o PT exerceu o poder central por 18 dos últimos 24 anos. Não é nem jamais pode ser associado a qualquer coisa que soe “antissistema”. O PT não apenas governou o País por longos períodos desde a redemocratização, como moldou práticas políticas, apresentou ou sancionou leis que construíram o “sistema” tal como isso se apresenta hoje, povoou órgãos públicos e influenciou decisivamente o funcionamento das instituições. Se há algo que não cabe em qualquer petista, a começar pelo mais poderoso e proeminente deles, é essa fantasia de outsider.
A tentativa de Edinho Silva de promover uma espécie de rebranding do PT seria risível, não fosse tão ofensiva à memória coletiva da Nação. Este jornal não nega a legitimidade de um partido político que venceu eleições limpas e que assumiu e deixou o poder, alternadamente, de acordo com as regras do jogo democrático. Mas não podemos aceitar calados essa deliberada distorção da realidade factual. Esse “sistema” que ora tanto se critica – com seus vícios, distorções e afastamento do interesse público – foi, em grande medida, construído sob governos petistas.
O segundo ponto é ainda mais desconcertante. O apelo ao diálogo feito por Edinho Silva contrasta frontalmente com o comportamento de seus próprios correligionários petistas. Foi sob a liderança de Lula, é sempre bom lembrar, que se consolidou no Brasil a divisão simplista da sociedade entre “nós” e “eles” como método de atuação política. Após o escândalo do “mensalão”, que desconstruiu o mito do PT como o partido da “ética na política”, o recurso à polarização – vale dizer, a negação da voz de adversários políticos – passou a ser um instrumento de mobilização e ação política desde o Palácio do Planalto.
Essa lógica atravessou governos e campanhas. Nem Dilma Rousseff nem Lula, enquanto presidentes da República, notabilizaram-se por esforços consistentes de pacificação nacional. Ao contrário: a retórica de confronto permanente com críticos e adversários do PT é que foi estimulada. Nem membros históricos do partido escaparam da virulência petista – Marina Silva que o diga. A radicalização posterior, insuflada por Jair Bolsonaro, não tem o condão de apagar esse passado.
Hoje, um petista de quatro costados, como o sr. Edinho Silva, chamar ao diálogo depois de anos de incentivo ao dissenso entre os cidadãos soa menos como autocrítica e mais como cálculo eleitoral. Não se está diante de um reconhecimento sincero da parcela de responsabilidade que cabe ao PT por essa polarização estéril que paralisa o Brasil, mas de uma tentativa de explorar o genuíno mal-estar de um eleitorado cansado de conflitos e descrente de que as instituições republicanas – o tal “sistema” – trabalham em seu benefício, e não em prol dos interesses corporativos das castas que as ocupam.
Ademais, flertar com o ideário “antissistema”, sobretudo em se tratando de um partido estruturado e representativo como o PT, tem consequências nefastas que vão muito além da disputa eleitoral. Ao sugerir que a concertação entre a miríade de interesses da sociedade pode ser feita fora do “sistema” – vale dizer, fora da política e das instituições republicanas –, abre-se perigoso espaço para a negação da ordem democrática. A história recente, não só do Brasil, mostra que esse tipo de discurso, quando levado às últimas consequências, não dá em coisa boa.
O País precisa de diálogo. Mas precisa também de reformas que aproximem o Estado da sociedade. Quando um partido central para a política nacional, como o PT, tenta se vender como a antítese do sistema que ajudou a moldar, não só ofende a inteligência do eleitor, como agrava a desordem que marca o debate público.
Tarde demais, cara demais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cumpriu uma promessa de campanha ao inaugurar, ontem, a Linha 17-Ouro do Monotrilho, que liga o Morumbi ao Aeroporto de Congonhas. Em meio a tantas obras públicas que apodrecem a céu aberto como monumentos à incúria, é de justiça registrar seu mérito. Finalmente, um trem previsto para ser entregue a tempo da Copa do Mundo de 2014 começou a se mover. Mas é só isso. A história dessa obra inspira mais lamento do que celebração.
Concebida em 2010, sob o entusiasmo da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo seguinte, a Linha 17-Ouro do Monotrilho deveria ligar Congonhas ao estádio em tempo recorde. A promessa, como tantas daquela época, não passou disso, de uma promessa, sucumbindo à incompetência e à roubalheira. Vieram as mudanças no projeto original, aditamentos contratuais, a troca do estádio da abertura da Copa do Mundo pela Fifa, o corte de financiamentos e, em meio a tudo isso, a razia provocada pela Lava Jato, atingindo em cheio as empreiteiras responsáveis pela obra. Resultado: paralisações, contratos rescindidos pelo Metrô de São Paulo e um canteiro de obras que não demorou para se transformar numa pequena Cracolândia, para desespero de quem circula pela Avenida Roberto Marinho.
O Monotrilho chega com três Copas do Mundo de atraso, fato que, por si só, já demonstra que a ideia original perdeu o sentido. O custo, por sua vez, dobrou. O que começou como um orçamento de R$ 2,9 bilhões terminou em cerca de R$ 6 bilhões apenas nesta primeira etapa, sem que se possa dizer, com segurança, que se trata da conta final para os contribuintes. A bem da verdade, esse não é um problema exclusivo da Linha 17-Ouro. Obras públicas raramente têm esse tipo de acurácia no Brasil.
Portanto, a construção da Linha 17-Ouro do Monotrilho não foi um raio em céu azul. Foi fiel a uma tradição de desmazelo administrativo, para dizer o mínimo, que naturaliza o atraso e banaliza o desperdício de bilhões de reais em recursos públicos como se fossem fatos da vida.
Doze anos depois, Tarcísio tem o direito de receber os louros políticos pela conquista – afinal, de fato, ele concluiu uma obra que deveria ter sido entregue à população ainda nos tempos de Dilma Rousseff (PT). O Monotrilho, aliás, não é a primeira obra que Tarcísio retira do limbo das promessas não cumpridas por outros governos, algo que merece ser notado.
Para os turistas e moradores da capital paulista, resta a utilidade de mais uma linha de transporte sobre trilhos, ainda que de alcance limitado, e a esperança de que futuros presidentes da República, governadores e prefeitos guardem essa obra não como um triunfo de engenharia e gestão, mas como uma advertência para projetos dessa magnitude. Se a Linha 17-Ouro do Monotrilho deixar ao menos essa lição, já terá prestado um serviço muito melhor do que aquele para o qual foi concebida.
O vício das redes sociais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Após mais de uma semana de deliberação, um júri no Tribunal Superior da Califórnia decidiu que a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) e a Alphabet (controladora do Google) desenvolveram produtos intencionalmente viciantes para crianças. As duas empresas foram condenadas a pagar milhões de dólares por danos morais e outros prejuízos financeiros a uma mulher que começou a utilizar as redes aos 6 anos de idade. Os jurados concordaram com a tese da defesa dela, hoje com 20 anos, de que as redes sociais levaram-na a desenvolver problemas graves como dismorfia corporal e pensamentos suicidas.
A decisão deve abrir caminho para uma enxurrada de ações judiciais relacionando saúde mental ao uso de produtos oferecidos pelas chamadas big techs. Nos EUA, já se compara o atual momento das empresas de tecnologia com aquele vivido pelas grandes companhias de cigarro em meados dos anos 1990. À época, ficou comprovado que as fabricantes sabiam, havia décadas, dos malefícios causados pelo fumo. Apesar disso, o setor seguia promovendo seus produtos como símbolos de liberdade, bem-estar e status.
Tudo isso começou a mudar em 1998, quando as quatro maiores companhias de cigarro dos EUA entraram em um acordo de mais de US$ 200 bilhões para pôr fim a uma série de ações judiciais. Um dos objetivos do acordo era justamente o de reduzir o vício de fumar entre os jovens. Para tal, adotaram-se medidas como a proibição de patrocínio de marcas de cigarro em eventos voltados ao público jovem, tais como shows e disputas esportivas. As big techs tentam, agora, evitar ter o mesmo destino que, em um passado recente, acabou por mudar significativamente o modo de atuação das fabricantes de cigarro – de acordo com a Organização Mundial de Saúde, o uso global de tabaco caiu de 26,2% em 2010 para 19,5% em 2024.
Para as big techs, potenciais regras de uso mais rígidas ou limitação de publicidade podem não ser facilmente assimiladas, uma vez que a receita dessas empresas deve-se quase integralmente à veiculação de propagandas ou conteúdo pago. Por isso mesmo, um porta-voz da Meta afirmou que a empresa “discorda respeitosamente do veredicto” do júri californiano e que avalia opções legais. Durante o julgamento, as empresas invocaram o princípio constitucional de liberdade de expressão e pediram o arquivamento da ação.
Celebrado por pais e educadores, o desfecho do caso não está imune a controvérsias, já que envolve escolhas pessoais, o próprio papel da família na atenção aos filhos e limites legais e regulatórios. “A saúde mental é uma questão profundamente complexa e não pode ser associada a um único aplicativo”, afirmou a Meta em um comunicado, valendo-se de um argumento que, com um ou outro ajuste, pode facilmente ser esposado por empresas de outros setores.
É fato, porém, que, a despeito das peculiaridades de diagnósticos de distúrbios mentais, o próprio CEO da Meta, Mark Zuckerberg, já teve de se desculpar publicamente, em uma audiência no Senado dos EUA, com as famílias de crianças e jovens expostos a conteúdo impróprio, como de cunho sexual, em plataformas como o Facebook.
Na ocasião, provocado por um senador, Zuckerberg disse sentir muito por tudo o que os familiares de crianças e jovens passaram, mas garantiu que investe pesadamente para garantir a segurança dos usuários dos produtos de sua empresa.
Não parece ser o bastante, e a decisão do caso na Califórnia é apenas a mais recente a comprovar o desconforto generalizado com o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes. Países como a Austrália já tomaram medidas drásticas, como o banimento das redes para menores de 16 anos. Seja como for, está claro que os padrões de segurança e de proteção de crianças nas redes sociais ainda são insuficientes. Melhor que sejam aprimorados por vontade das próprias empresas, mas, se tiver de ser por força de decisões judiciais, que seja.
Alta na dívida das famílias decorre de políticas do governo
Por Editorial / O GLOBO
Não deveriam surpreender os dados do Banco Central (BC) mostrando que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas voltou a atingir em janeiro o maior patamar da série histórica, 29,3%, repetindo o nível de outubro passado. Mesmo com desemprego em baixa, inflação sob controle e aumento da renda, o endividamento não para de crescer, graças aos estímulos ao consumo e ao crédito dados pelo próprio governo. Já se previa que medidas populistas, como o programa Desenrola, teriam efeito limitado. Pois foi exatamente o que aconteceu. Agora, a seis meses das eleições, o governo se desdobra para dar um jeito de aliviar o orçamento dos brasileiros. É indisfarçável a preocupação maior com a urna do que com o bolso da população.
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que tomaria providências para “facilitar o pagamento daquilo que as pessoas devem”. O governo tem se mostrado perdido, como demonstram as declarações de Lula sobre o assunto. Recentemente ele disse em tom de brincadeira que os brasileiros gastam muito com cachorros e que na China não há esse problema. Em discursos recentes, tentou convencer o cidadão a gastar apenas o dinheiro que ganha. E culpou os brasileiros pelas compras por impulso de produtos baratos pela internet que, ao fim do mês, comprometem o orçamento. Lula só esquece que o governo não só estimula o consumo, na esperança de turbinar a economia, como é conhecido pela gastança desenfreada. Definitivamente, o governo Lula não pode dar lição de austeridade a ninguém.
A preocupação exacerbada com as dívidas tem justificativa eleitoral, pois o problema cai na conta do governo. A pedido de Lula, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu com representantes do setor financeiro para elaborar um novo programa de renegociação de dívidas. Como o Planalto tem pressa, pretende que seja mais ágil que o Desenrola. A intenção agora é que a negociação seja diretamente com os bancos. Os estrategistas de Brasília também querem que o programa tenha outro nome para não passar a ideia de que o governo sempre está disposto a refinanciar dívidas em atraso. Ora, nome é o que menos importa. Os objetivos, na prática, são os mesmos. E qualquer tentativa de refinanciamento sempre embute o que os economistas chamam de “risco moral”, o incentivo a mais endividamento. Ele sempre existirá em programas que atacam a consequência, não a causa do problema.
As dívidas surgem por vários caminhos. De acordo com o BC, 101 milhões de brasileiros usam cartão de crédito (dado de janeiro), 40 milhões pagam juros de 15% ao mês, e o rotativo registra cerca de 60% de inadimplência. Mas não é difícil entender a principal explicação para o aumento do endividamento: os juros altíssimos nas operações de crédito acompanham a taxa Selic, hoje em 14,75% ao ano, e põem em risco os compromissos assumidos. E por que os juros estão nas alturas? Porque o descontrole fiscal do governo não deixa margem para baixá-los sem comprometer a inflação. Somente quando houver equilíbrio nas contas públicas e uma política fiscal responsável, eles cairão de modo sustentado. Enquanto isso não acontecer, o governo poderá tirar da cartola programas como Desenrola, ou seja lá que nome der, que o endividamento persistirá.

