Muito ajuda quem não atrapalha
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Munida dos melhores argumentos, a indústria brasileira tenta convencer os Estados Unidos de que a agressiva política comercial do presidente Donald Trump prejudica, sobretudo, os norte-americanos. A audiência pública que ocorre nesta semana será mais uma oportunidade de trazer lucidez a um debate tomado pela política e mostrar às autoridades da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos que as tarifas não apenas não têm sustentação jurídica, econômica e estratégica, como também afetarão a própria indústria que elas supostamente tentam proteger.
A taxa de 25% seria a “punição” aplicada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) a países que adotam práticas comerciais desleais consideradas “injustificáveis, irracionais ou discriminatórias” às empresas norte-americanas. Já a de 12,5% seria uma penalidade a países que importam mercadorias produzidas com trabalho forçado ou análogo à escravidão.
Um dos processos contra o Brasil foi aberto tendo como base a Seção 301 do Trade Act de 1974. É a mesma legislação a que Trump recorreu no segundo processo, aberto em março, após sofrer uma derrota na Suprema Corte norte-americana e ver invalidado o tarifaço que havia imposto em abril de 2025, nos termos da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa, na sigla em inglês). Ao decidir sobre o caso, a Suprema Corte dos Estados Unidos lembrou que a Constituição reserva ao Congresso o poder de tributar. Mas a sentença foi lida como uma tentativa de impor limites a Trump.
A insistência de Trump em aplicar novas tarifas se insere muito mais na recusa em aceitar o sistema de freios e contrapesos norte-americano e na tentativa de manter o eleitorado republicano mobilizado do que no esforço de tornar o comércio internacional mais justo e equilibrado.
A esta altura, o presidente certamente já se deu conta de que o tarifaço, aliado aos efeitos da guerra no Irã e à disparada nos preços de petróleo e de combustíveis, lhe rendeu a maior inflação dos últimos três anos e índices recordes de desaprovação, a ponto de a maioria que detém na Câmara e no Senado estar sob ameaça nas eleições de novembro.
É nesse contexto político adverso que nada tem a ver com o Brasil que as entidades brasileiras tentam reverter a decisão pela aplicação da sobretaxa. Se a lucidez prevalecer no debate, o Brasil terá boas chances. Os argumentos são fortes, a começar pelo fato de os Estados Unidos terem superávit comercial com o Brasil.
A tarifa média aplicada pelo Brasil a produtos norte-americanos é de apenas 2,6%, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A maior parte dos itens que o Brasil exporta aos Estados Unidos são bens intermediários – insumos, matérias-primas e bens de capital que não competem, mas complementam a indústria norte-americana. Muitas dessas trocas se dão entre filiais e matrizes, de forma que as tarifas, em última instância, reduziriam a competitividade das próprias empresas dos Estados Unidos, e o aumento do custo, inevitavelmente, seria repassado às cadeias produtivas e aos consumidores.
A acusação de conivência com práticas de trabalho forçado ou análogo à escravidão é risível. Trump, por óbvio, nem de longe pode ser considerado um mártir dos direitos trabalhistas. É apenas pretexto para conter o avanço da China, com quem, por sinal, os Estados Unidos não romperam relações e continuam a registrar o maior déficit comercial. Corretamente, a indústria brasileira tentará mostrar que são justamente os chineses, principais candidatos a substituir nossos produtos, quem mais se beneficiarão da eventual aplicação dessa sobretaxa.
O contraponto à atuação técnica da indústria brasileira é a lamentável atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no processo. Seu despreparo enquanto pré-candidato à Presidência da República já era evidente, mas o pedido para que o governo norte-americano esperasse as eleições de outubro para castigar o Brasil escancarou sua falta de compromisso com o setor produtivo brasileiro. O que se espera é que Flávio Bolsonaro não atrapalhe as negociações sérias. Já será de grande ajuda.
Alta em aprovação no ensino médio deve ser encarada com ressalvas
Por Editorial / O GLOBO
Deve ser visto com ressalvas o aumento nas taxas de aprovação em colégios estaduais do país no ano passado. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Educação, elas subiram de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025. À primeira vista, pode parecer que o ensino médio melhorou, mas não é bem assim. A alta é atribuída sobretudo à estratégia de alguns estados de criar regras mais flexíveis para que os alunos passem de ano.
Não é incomum nos estados brasileiros alunos passarem de ano mesmo tendo sido reprovados em uma ou outra disciplina, prática chamada progressão parcial. Trata-se de uma estratégia bem-intencionada para conter a evasão escolar. Mas alguns estados têm exagerado, autorizando a aprovação mesmo quando o aluno é reprovado em até seis disciplinas, praticamente metade da grade. A decisão é motivada principalmente pela ambição de aumentar as notas no Índice da Educação Básica (Ideb), que crescem à medida que melhoram as taxas de aprovação.
No Rio Grande do Norte, que costuma ocupar as últimas posições no Ideb, a aprovação entre 2024 e 2025 subiu 14 pontos percentuais, de 79,2% para 93,3%. No Rio de Janeiro, outro estado mal colocado, foi de 81,1% para 91,6%. Na Paraíba, de 83,9% para 93,3%. No Rio Grande do Sul, de 83,9% para 91,3%. É esperado que o desempenho desses estados apresente boa evolução no Ideb deste ano. Mas, se isso ocorrer, provavelmente não será resultado de melhorias na aprendizagem, e sim de uma manobra para dourar os números.
Em muitos casos, a reprovação representa desestímulo para que o aluno permaneça em sala de aula, especialmente quando ocorre pela segunda ou terceira vez. Nos primeiros anos do ensino fundamental, pode causar efeito devastador. Por isso diferentes redes de Educação costumam adotar um sistema de ciclos conhecido como progressão continuada, previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
Mas a aprovação a qualquer preço no decorrer da vida escolar, sobretudo no ensino médio, pode prejudicar o aluno. “Está havendo uma forçação de barra”, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação. “Inflar artificialmente o Ideb induz a erro de avaliação, porque imagina-se que a educação melhorou, mas isso não corresponde à realidade. O aluno é aprovado sem aprender o básico.” A maneira correta de lidar com o desafio, diz ela, é oferecer a recuperação da aprendizagem ao longo do ano, como fazem estados bem-sucedidos e escolas particulares.
O Brasil tem muitos problemas na educação: formação deficiente de professores, má gestão das redes, escolas precárias, falta de laboratórios, poucas unidades em tempo integral, enorme discrepância entre os estados. A qualidade do ensino é uma preocupação sensata e é desejável aumentar as taxas de aprovação dos alunos. Mas desde que estejam realmente bem preparados. Disfarçar a situação para obter um melhor desempenho no Ideb é uma lástima. Mascarar um ensino ruim para que não pareça tão ruim quanto é faz apenas persistirem os problemas.
Sala de aula no Rio — Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo
Escassez de mão de obra é alerta para a economia
Por Editorial / o globo
Vários setores da economia têm sofrido com escassez crônica de mão de obra, como resultado do aquecimento da atividade, de mudanças demográficas, de baixa qualificação e de novas expectativas profissionais. O fato tem sido constatado em pesquisas de consultorias e nas baixas taxas de desemprego. Tal situação aumentou o custo operacional das empresas. Para qualquer país, é sempre melhor contar com mercado de trabalho aquecido do que sofrer com as mazelas do desemprego. Ainda assim, os impactos econômicos da escassez de mão de obra merecem atenção. Embora o mercado tenda a achar uma situação de equilíbrio entre oferta e demanda por trabalho, o poder público deve reforçar políticas que amenizem os efeitos do descompasso.
Oito em dez empregadores no Brasil relatam dificuldades para contratar, segundo pesquisa da consultoria ManpowerGroup em 41 países. No ranking global liderado por Eslováquia, Grécia e Japão, o Brasil aparece em oitavo lugar. O problema é mais agudo para empresas localizadas no Sudeste com mais de mil funcionários. Como mostrou reportagem do GLOBO, a dificuldade não está circunscrita a poucos setores. Entre empregadores de serviços profissionais, tecnologia da informação, comércio, logística, hospitalidade, indústria, saúde, construção e finanças, mais de 70% relatam escassez. As competências mais difíceis de encontrar são ligadas a inteligência artificial, tecnologia da informação, atendimento ao cliente, marketing e vendas.
Dados oficiais corroboram a conclusão das pesquisas. A taxa de desocupação entre março e maio foi de apenas 5,6%, a menor para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. Não se trata de dado fora da curva. Há mais de um ano o desemprego se mantém abaixo de 7%. O contraste com o período imediatamente anterior é acentuado. Entre o início de 2016, na crise do governo Dilma Rousseff, e o começo de 2022, quando a economia começou a se recuperar do impacto da pandemia, o desemprego passava de dois dígitos.
A mudança decorre do maior crescimento econômico e do envelhecimento da população. De 2021 para cá, a economia cresceu em média 3,3% ao ano, algo que não se via desde o período encerrado em 2013. Desde a década passada, o envelhecimento da população tem se acelerado. Há 14 anos, 36% da população era composta por jovens entre 15 e 29 anos. Hoje são 28,5%. A parcela de idosos saiu de 10% para 14%. Com menos gente em busca de trabalho, pesquisa da FGV Projetos estima que a taxa de desemprego tenha caído 2 pontos percentuais.
A mudança demográfica tende a se intensificar, enquanto as previsões para o avanço do PIB são de arrefecimento, uma vez que o modelo baseado no gasto público e no endividamento tem vida curta. Caso se confirme o prognóstico de ritmo mais lento para a economia, a pressão sobre o mercado de trabalho diminuirá. De todo modo, é preciso entender a atual escassez de mão de obra como um alerta. Em algum momento, o país adotará políticas que permitam um crescimento econômico sustentado, e as deficiências voltarão a aparecer. Sem um sistema educacional capaz de suprir as competências exigidas pelo mercado de trabalho — em especial nas disciplinas ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática (reunidas na sigla em inglês STEM) —, o desequilíbrio persistirá.
Funcionários de fábrica — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
Dark Horse: Distribuidora pede registro de filme na Ancine, 1º passo para lançá-lo nos cinemas
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / o globo
A menos de quatro meses das eleições presidenciais, a distribuidora Europa Filmes entrou com o pedido de registro de “Dark Horse” na Agência Nacional de Cinema (Ancine). Este é o primeiro passo para o lançamento comercial nos cinemas brasileiros do polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Procurada pelo blog, a Ancine informou que a Europa Filmes apresentou no dia 22 de junho o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, já esclarecendo, portanto, que não se trata de um filme nacional. A notícia vem à tona após uma proposta para lançar o filme no Brasil ter sido recusada pela Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras nacionais, com um catálogo que inclui as franquias “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”.
A Europa Filmes só pode lançar o filme após o registro ser autorizado pela Ancine e cumprir uma série de outras etapas burocráticas, como a emissão do Certificado de Registro de Título pela própria Ancine e o recebimento da classificação indicativa no Ministério da Justiça.
Em média, a análise do pedido de registro de um filme demora em torno de 30 dias, mas no caso de “Dark Horse” o prazo pode ser maior, já que a Ancine ainda aguarda esclarecimentos sobre as filmagens no Brasil, que não teriam sido previamente comunicadas à agência — o que, no limite, pode até levar a um impasse e inviabilizar a estreia do filme nos cinemas.
A garantia de uma distribuidora também está longe de encerrar toda a controvérsia em torno de “Dark Horse”, cujo nebuloso financiamento se tornou um dos maiores focos de desgaste para a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, após o site Intercept Brasil divulgar mensagens em que o filho 01 de Bolsonaro cobra dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do longa-metragem.
Além da distribuidora, é preciso que as cadeias de cinema se interessem pelo filme. Conforme informou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, as grandes redes querem distância de “Dark Horse”, por temerem que a cinebiografia seja um fiasco de bilheteria, além de acirrar os ânimos entre bolsonaristas e lulistas, transportando a polarização política para as salas de cinema, com riscos de confusão e protestos em shoppings de todo o país.
Um trailer oficial divulgado no mês passado indica o tom do filme, que está sendo vendido como uma espécie de thriller político ambientado durante as eleições presidenciais de 2018.
O elenco é predominante estrangeiro, capitaneado pelo ator Jim Caviezel, célebre por interpretar Jesus Cristo em “A paixão de Cristo” e estrelar “O conde de Monte Cristo”. Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que já fez participação no seriado "The Good Doctor: O bom doutor”. Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior.
No material de divulgação, Bolsonaro é chamado de “voz do povo” que “enfrentou o sistema”, “sistema que falhou em silenciá-lo”. A maior parte das cenas envolve a recriação do episódio da facada que o então candidato do PL à Presidência sofreu em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), e a sua recuperação médica.
Produtora nunca lançou filme
Não apenas o financiamento de “Dark Horse” é cercado de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior, conforme informou a equipe do blog.
Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes.
O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior.
Em ofícios enviados à Go Up em fevereiro e março deste ano – antes, portanto, de virem à tona as mensagens e áudios de Flávio cobrando financiamento de Daniel Vorcaro –, a Superintendência de Fiscalização da Ancine notificou a produtora a “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa da agência, em vigor desde 2008, que fixa as balizas para a produção de filmes estrangeiros no território nacional.
A Ancine quer esclarecer, entre outras coisas, se a Go Up era a principal produtora de Dark Horse ou se foi apenas contratada por uma empresa estrangeira.
Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na Ancine, a quem caberá comunicar a agência e apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado.
Nada disso foi feito no caso de “Dark Horse”, o que pode atrasar a análise do pedido de registro do longa-metragem.
Fundo obscuro
O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master.
Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos.
Petistas tentaram impedir estreia de filme até eleições
Antes mesmo de conseguir uma distribuidora, a estreia de “Dark Horse” já havia sido judicializada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Após a publicação de uma série de reportagens do Intercept Brasil, o grupo Prerrogativas e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), ambos aliados do presidente Lula, acionaram em maio o TSE para pedir a abertura de uma investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, além de impedir o lançamento de “Dark Horse” até o fim das eleições.
A alegação era a de que o filme poderia funcionar como “peça de comunicação política de enorme impacto”, além de configurar propaganda eleitoral “dissimulada”, financiada por recursos milionários de “origem suspeita”, com indícios de abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação, caixa 2, doação empresarial indireta e lavagem de dinheiro.
No mês passado, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, arquivou o caso por questões processuais, alegando que os autores da ação não tinham legitimidade. Agora, o julgamento que resta a “Dark Horse” é o do público.
Jair Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel em 'Dark Horse' — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil — Reprodução
Sob pressão, Mercosul encara a abertura comercial
Em recente reunião de cúpula em Assunção, no Paraguai, o Mercosul obteve consenso sobre a aceleração da abertura de seu mercado, altamente protegido. Não há alternativa num contexto de comércio global fragmentado e suscetível a decisões unilaterais dos EUA.
Há parceiros à espera de resposta, como o Reino Unido, desde o início da vigência do acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia, em maio. No final de junho, as conversas com o Japão em torno de um Acordo de Associação Econômica foram formalizadas. A China aguarda há anos, e o governo brasileiro resgatou da lista de espera um acerto com Pequim.
O escopo dessa negociação está longe da liberalização total de lado a lado, mas abre uma porta para tal arranjo no futuro.
Seja pela divisão ideológica dos sócios do Mercosul, seja pela resistência do setor industrial das quatro economias, não será fácil obter a anuência do bloco a uma negociação com a China.
O encontro de líderes gerou resultados. Os acordos com Singapura, maior hub logístico da Ásia, e com a Associação Europeia de Livre Comércio entram em vigor neste semestre. A redução a zero das tarifas com o Egito deve ter início em setembro. Há, porém, uma agenda a ser resgatada.
Negociar a ampliação do alívio de tarifas com a Índia e retomar conversas com Vietnã, Canadá, Indonésia, Emirados Árabes, Coreia do Sul e Líbano são objetivos que o bloco não deve postergar.
Desde a sua implementação, em 1995, o Mercosul conseguiu razoavelmente liberalizar seu comércio com a América do Sul e, agora, com a Europa. Deixou pelo caminho tratativas com os mercados mais dinâmicos da Ásia e o avanço de seus acordos com o México e a África Austral.
Desde que enterrou o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2005, o Mercosul refuta um diálogo nessa seara com os Estados Unidos. A omissão dessa via no encontro de Assunção não terá sido inconsequente, dado o afã de Donald Trump em desorganizar o comércio global e desrespeitar tratados com Canadá e México.
Entretanto haverá de ser repensada, sob o risco de a união aduaneira sul-americana acabar implodida pela Argentina, signatária de arranjo bilateral recente com os EUA, ou por outro sócio.
Não deveria haver dúvida sobre os benefícios para as economias e os cidadãos do Mercosul de uma expansão de parcerias livres de barreiras comerciais. Agora, aumenta a pressão sobre o tema, dado o risco de seus setores produtivos acabarem à margem das cadeias de valor do século 21.
Brasil fracassa em Copa bem-sucedida
Erros individuais, oportunidades claras perdidas e escolhas questionáveis do treinador serão as explicações mais comuns e plausíveis para a derrota do Brasil ante a Noruega, além de aspectos emocionais e uma sequência incomum de perdas de atletas por lesões. Entretanto o fracasso na Copa do Mundo de 2026 tem uma história de quase quatro anos.
Não foi por acaso que a sempre admirada e temida seleção brasileira desta vez chegou à competição sem o favoritismo de edições anteriores. Desempenhos e resultados sofríveis já se acumulavam ao longo de um período de decisões desencontradas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Três técnicos passaram pelo comando da equipe até que o italiano Carlo Ancelotti enfim aceitasse a missão em 2025. Dificultou-se sobremaneira a tarefa já inglória de lidar com o declínio de Neymar, o principal jogador desde a década passada.
O Brasil iniciou a Copa sem escalações e sistemas de jogo devidamente testados, o que se somou às muitas ausências de titulares. Houve improvisos em série até a partida derradeira.
Há que evitar teses catastrofistas, costumeiras em momentos de frustração, mas enfrentar deficiências de longa data. Não parece coincidência que as seis eliminações consecutivas em Copas tenham se dado contra adversários europeus —e, nesta última, nem mesmo se tratava de uma grande força do futebol global.
Tampouco se pode ignorar a escassez de treinadores brasileiros em destaque mesmo no cenário doméstico. Os times mais vitoriosos do país na história recente, Flamengo e Palmeiras, são hoje dirigidos por portugueses.
Fazer bom papel em Mundiais seguirá fundamental para que a seleção brasileira se mantenha como uma das marcas mais valorizadas do esporte. A competição deixou de ser oportunidade única de testemunhar enfrentamentos entre os melhores jogadores do planeta, o que hoje os bilionários clubes europeus proporcionam de modo cotidiano, mas preserva seu encantamento.
Sua nova versão ampliada, com representantes de 48 países e mais uma rodada de disputas eliminatórias, oferece surpresas, personagens, emoções e contrastes que superaram dúvidas quanto à qualidade técnica e ao apelo da profusão de partidas iniciais.
Decerto o novo formato atende sobretudo a interesses políticos e comerciais da Fifa, mas, goste-se ou não, esses são fatores inerentes à popularidade inigualável do futebol —o que não reduz, porém, o vexame da suspensão de um jogador americano revista após lobby de Donald Trump.
O entretenimento que resta nas fases finais do torneio será, infelizmente, menor para os brasileiros. O selecionado nacional dispõe de recursos humanos, experiência, prestígio e paixão popular para fazer melhor figura e prosseguir entre as potências globais. O trabalho deve começar desde já, com a serenidade possível, mas sem acomodação.

