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A inesperada resiliência do comércio global

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em entrevista ao Estadão, a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, advertiu que o sistema internacional de comércio enfrenta as maiores disrupções em 80 anos. Tarifas unilaterais, rivalidades geopolíticas e políticas industriais agressivas parecem anunciar o desmonte da ordem econômica construída no pós-guerra. Se dependesse da atmosfera política atual, seria fácil concluir que a globalização entrou em estado terminal. A realidade, porém, é mais complexa.

 

O comércio internacional, é verdade, voltou a ser instrumentalizado na competição estratégica entre potências. Os EUA recorrem cada vez mais a tarifas e barreiras comerciais; a China turbina setores industriais com generosos subsídios estatais; a União Europeia ampliou políticas industriais. Em diferentes graus e por razões distintas, as principais economias do mundo vêm tensionando as regras que ajudaram a criar – como proprietários que desconfiam da solidez da casa que eles próprios construíram.

 

E, no entanto, apesar de todo o ruído político, o comércio global segue funcionando com surpreendente normalidade. Mais de 70% das transações internacionais ainda operam sob as regras da OMC. As cadeias globais continuam integrando fábricas, fornecedores e mercados em diversos continentes. Empresas organizam sua produção em escala internacional e governos negociam novos acordos – muitas vezes em formatos regionais ou plurilaterais. A globalização, longe de desaparecer, passa por um processo de reorganização: mais cautelosa, mais politizada, mas ainda profundamente estruturante para a economia mundial. Quando barreiras surgem em um ponto do sistema, fluxos comerciais frequentemente encontram outros caminhos. Só em 2026, Índia e Mercosul celebraram com a Europa acordos massivos de livre-comércio e empresários nos EUA lograram desbaratar o arsenal tarifário de Donald Trump na Justiça.

 

Essa resiliência tem razões sistêmicas. Décadas de integração produtiva criaram uma rede de interdependências difícil de desmantelar sem custos elevados. Um automóvel montado na América do Norte pode depender de semicondutores asiáticos, software europeu e minerais africanos. Para milhares de multinacionais, desfazer essas cadeias significaria abrir mão de eficiência, escala e acesso a mercados. Fornecedores, consumidores e governos dos cinco continentes seguem dependentes dos ganhos de produtividade proporcionados por mercados abertos e competitivos.

 

O risco, portanto, não é o desaparecimento desse sistema, mas sua fragmentação. Disputas geopolíticas, combinadas ao emprego populista de políticas industriais e barreiras comerciais, podem forçar uma lógica de blocos rivais, degradando a previsibilidade que sustentou a expansão do comércio nas últimas décadas.

 

Nesse cenário, a OMC – ainda que muito mais limitada do que no auge da globalização pós-guerra fria – continua relevante. Não porque tenha resolvido seus impasses, mas porque o mundo ainda não encontrou nada melhor para substituí-la. Mesmo debilitada por bloqueios e sabotagens, suas regras e mecanismos de resolução de disputas seguem sendo a principal infraestrutura institucional do comércio, reduzindo riscos de conflitos descontrolados e funcionando como amortecedor contra a lei do mais forte.

 

Preservar esse sistema exigirá adaptação. A própria Okonjo-Iweala defende reformas que tornem a OMC mais ágil, ampliem o uso de acordos plurilaterais e atualizem regras para novas áreas da economia digital. Ao mesmo tempo, economias emergentes, como a Índia, pressionam por um equilíbrio que permita conciliar integração comercial e desenvolvimento industrial.

 

O comércio internacional atravessa, sem dúvida, uma fase turbulenta, mas é mais resistente do que muitos supõem. Governos podem tentar controlar seus fluxos, mas raramente conseguem ignorar por muito tempo as convergências de interesses que os impulsionam. Mais cautelosa do que há duas décadas, a globalização talvez tenha perdido parte do entusiasmo político que a acompanhou no passado, mas continua sendo a engrenagem silenciosa que mantém a economia mundial em movimento.

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