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Onde assassinos ficam impunes

A probabilidade de o criminoso ser identificado e responsabilizado é fator crucial para a dissuasão de práticas ilícitas. O Brasil, no entanto, vai mal nessa seara.

De acordo com o relatório da ONG Instituto Sou Paz divulgado nesta quarta (8), a taxa média de resolução de homicídios (quando denúncia criminal é oferecida pelo Ministério Público) entre 2020 e 2023 ficou em torno de 40% —em 2023, foram registradas 46.409 mortes violentas intencionais no país.

Na Austrália e nos Estados Unidos, os indicadores oficiais em 2024 foram de 85% e 61%, respectivamente; na Europa, segundo a ONU, 90%.

O relatório também mostra discrepâncias regionais. Foram analisados 23 estados e o Distrito Federal, porque Alagoas, Tocantins e Rio Grande do Sul não disponibilizaram dados no período.

Ceará (27%), Rio de Janeiro (23%), Piauí (23%), Bahia (14%) e Rio Grande do Norte (9%) estão nas últimas colocações. Já Goiás (86%), Distrito Federal (81%), Minas Gerais (75%), Paraná (72%) e Mato Grosso do Sul (71%) têm taxas de países desenvolvidos.

Estados que apresentam maiores padrões de resolução, no geral, têm menores taxas de homicídio por 100 mil habitantes (a média brasileira é de 21,9). A situação da Bahia é temerária, com 46,5 mortes violentas intencionais por 100 mil, a segunda maior do país, e só 14% de resolução.

Mas alguns casos fogem ao padrão. São Paulo, com a menor taxa de homicídios por 100 mil habitantes do país (7,8), tem um indicador de resolução relativamente baixo (40%); enquanto os índices de Rondônia são de 29,9 e 67%, respectivamente.

A pesquisa também verificou as correlações de alguns indicadores mais altos dos estados, como rendimento domiciliar per capita, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), urbanização e a média de anos de estudo, com maiores taxas de resolução.

Fatores socioeconômicos podem dificultar preservação de provas, identificação de suspeitos e cooperação de testemunhas, ainda mais considerando a expansão do poder das facções.

É preciso consolidar um sistema nacional de mensuração de resoluções. Ademais, estados que elevaram suas taxas passaram a priorizar o atendimento no local do crime e evitar a descontinuidade entre a equipe de agentes desse primeiro atendimento e a da investigação posterior.

Também é necessário ampliar e qualificar a inteligência e o uso de ferramentas de monitoramento, de provas digitais, de provas técnicas em balística e genética forense, entre outras ações.

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PESQUISA Datafolha: Lula e Flávio Bolsonaro empatam em SP para presidente, mas petista tem rejeição maior

Ana Gabriela Oliveira Lima / FOLHA DE SP

 

O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empatam nas intenções de voto em São Paulo para a disputa ao Palácio do Planalto no primeiro e no segundo turno, mas o petista tem rejeição maior entre o eleitorado paulista, segundo nova pesquisa Datafolha.

Tanto Lula quanto o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) marcam 35% no estado em cenário de primeiro turno testado pelo instituto com outros 11 nomes. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) aparecem na sequência, com 3% cada.

Eles são seguidos pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), Samara Martins (UP) e Aécio Neves (PSDB), todos com 2%. Augusto Cury (Avante), Cabo Daciolo (Mobiliza), Rui Costa Pimenta (PCO) e Joaquim Barbosa (DC) registram 1%. Edmilson Costa (PCB) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram.

O levantamento foi realizado de 1º a 3 de julho, com 1.608 entrevistas no estado de São Paulo, distribuídas em 71 municípios, com a população de 16 anos ou mais. A margem de erro máxima para o total da amostra é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob os números SP-01703/2026 e BR-06481/2026.

O Datafolha também testou o nível de rejeição dos pré-candidatos em um primeiro turno da eleição para presidente. Metade dos paulistas (51%) diz que não votaria de jeito nenhum em Lula, que é seguido na rejeição por Flávio Bolsonaro (43%).

 

O político mineiro Aécio Neves é o único, com exceção dos candidatos da dianteira, a superar a marca de 20%. Zema e Caiado marcam 13% cada, seguidos de Cabo Daciolo, com 12%, Rui Costa Pimenta e Renan Santos, com 10% cada.

Na pesquisa espontânea, quando não são apresentados nomes aos respondentes, Lula aparece com 24% das intenções de voto, contra 18% de Flávio Bolsonaro. O ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado, é mencionado por 3% dos eleitores. Renan Santos, Ronaldo Caiado e "candidato do PT" receberam 1% cada.

No cenário de segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro têm empate técnico, com o senador marcando 46% das intenções de voto, frente a 43% do petista.

O empate técnico se repete com Caiado, que marca 43% das intenções de voto contra 42% do petista, e com Romeu Zema, que tem 44%, ante 41% de Lula.

A intenção de voto no estado é considerada estratégica pelos políticos. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com mais de 30 milhões de eleitores.

O PT só ganhou no segundo turno no estado em 2002, quando todo o Brasil, com exceção de Alagoas, votou majoritariamente em Lula para o primeiro mandato.

Nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro venceu no estado de São Paulo, mas perdeu na capital paulista. O ex-presidente teve no segundo turno 55,24% dos votos válidos, contra 44,76% de Lula.

 

No cenário atual de segundo turno contra Flávio testado pelo Datafolha, o desempenho de Lula, que na média do estado é de 43%, cai no interior (38%, frente a 52% do filho de Bolsonaro). Na região metropolitana, o petista registra 48%, contra 40% de Flávio.

43% dos paulistas avaliam governo Lula como ruim ou péssimo

O governo Lula é avaliado como ruim ou péssimo por 43% dos paulistas, índice que era de 46% em março. Já 29% o avaliaram como ótimo ou bom. Para 26%, a gestão é regular, e 1% não soube responder.

A taxa de satisfeitos com o governo Lula é mais alta entre as mulheres do que entre os homens (33% a 26%). A margem de erro é de 4 pontos percentuais para os homens e 3 para as mulheres.

A avaliação negativa geral é ligeiramente superior à do resultado nacional de 18 de junho do instituto, quando 38% avaliaram como ruim ou péssimo o governo do petista, e 32%, como ótimo ou bom.

Já quando questionados se aprovam ou não o governo, 55% disseram desaprovar, contra 42% que aprovam. Outros 3% não souberam responder.

 

A desaprovação aumenta no interior, chegando a 59%, mas o segmento tem margem de erro de 4 pontos percentuais. Na região metropolitana, fica em 50%, com margem de erro de 3 p.p.

No nível nacional, 49% disseram desaprovar o governo em pesquisa de junho, contra 48% que aprovaram.

Por fim, 63% dos paulistas dizem acreditar que o presidente Lula fez pelo estado de São Paulo menos do que esperavam. Outros 22% falam que o petista fez o esperado, e 11%, que fez mais do que o esperado.

 

 

Datafolha: Lula e Flávio Bolsonaro empatam em SP para presidente, mas petista tem rejeição maior

Ana Gabriela Oliveira Lima / FOLHA DE SP

 

O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empatam nas intenções de voto em São Paulo para a disputa ao Palácio do Planalto no primeiro e no segundo turno, mas o petista tem rejeição maior entre o eleitorado paulista, segundo nova pesquisa Datafolha.

Tanto Lula quanto o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) marcam 35% no estado em cenário de primeiro turno testado pelo instituto com outros 11 nomes. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) aparecem na sequência, com 3% cada.

Eles são seguidos pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), Samara Martins (UP) e Aécio Neves (PSDB), todos com 2%. Augusto Cury (Avante), Cabo Daciolo (Mobiliza), Rui Costa Pimenta (PCO) e Joaquim Barbosa (DC) registram 1%. Edmilson Costa (PCB) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram.

O levantamento foi realizado de 1º a 3 de julho, com 1.608 entrevistas no estado de São Paulo, distribuídas em 71 municípios, com a população de 16 anos ou mais. A margem de erro máxima para o total da amostra é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob os números SP-01703/2026 e BR-06481/2026.

O Datafolha também testou o nível de rejeição dos pré-candidatos em um primeiro turno da eleição para presidente. Metade dos paulistas (51%) diz que não votaria de jeito nenhum em Lula, que é seguido na rejeição por Flávio Bolsonaro (43%).

 

O político mineiro Aécio Neves é o único, com exceção dos candidatos da dianteira, a superar a marca de 20%. Zema e Caiado marcam 13% cada, seguidos de Cabo Daciolo, com 12%, Rui Costa Pimenta e Renan Santos, com 10% cada.

Na pesquisa espontânea, quando não são apresentados nomes aos respondentes, Lula aparece com 24% das intenções de voto, contra 18% de Flávio Bolsonaro. O ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado, é mencionado por 3% dos eleitores. Renan Santos, Ronaldo Caiado e "candidato do PT" receberam 1% cada.

No cenário de segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro têm empate técnico, com o senador marcando 46% das intenções de voto, frente a 43% do petista.

O empate técnico se repete com Caiado, que marca 43% das intenções de voto contra 42% do petista, e com Romeu Zema, que tem 44%, ante 41% de Lula.

A intenção de voto no estado é considerada estratégica pelos políticos. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com mais de 30 milhões de eleitores.

O PT só ganhou no segundo turno no estado em 2002, quando todo o Brasil, com exceção de Alagoas, votou majoritariamente em Lula para o primeiro mandato.

Nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro venceu no estado de São Paulo, mas perdeu na capital paulista. O ex-presidente teve no segundo turno 55,24% dos votos válidos, contra 44,76% de Lula.

 

No cenário atual de segundo turno contra Flávio testado pelo Datafolha, o desempenho de Lula, que na média do estado é de 43%, cai no interior (38%, frente a 52% do filho de Bolsonaro). Na região metropolitana, o petista registra 48%, contra 40% de Flávio.

43% dos paulistas avaliam governo Lula como ruim ou péssimo

O governo Lula é avaliado como ruim ou péssimo por 43% dos paulistas, índice que era de 46% em março. Já 29% o avaliaram como ótimo ou bom. Para 26%, a gestão é regular, e 1% não soube responder.

A taxa de satisfeitos com o governo Lula é mais alta entre as mulheres do que entre os homens (33% a 26%). A margem de erro é de 4 pontos percentuais para os homens e 3 para as mulheres.

A avaliação negativa geral é ligeiramente superior à do resultado nacional de 18 de junho do instituto, quando 38% avaliaram como ruim ou péssimo o governo do petista, e 32%, como ótimo ou bom.

Já quando questionados se aprovam ou não o governo, 55% disseram desaprovar, contra 42% que aprovam. Outros 3% não souberam responder.

 

A desaprovação aumenta no interior, chegando a 59%, mas o segmento tem margem de erro de 4 pontos percentuais. Na região metropolitana, fica em 50%, com margem de erro de 3 p.p.

No nível nacional, 49% disseram desaprovar o governo em pesquisa de junho, contra 48% que aprovaram.

Por fim, 63% dos paulistas dizem acreditar que o presidente Lula fez pelo estado de São Paulo menos do que esperavam. Outros 22% falam que o petista fez o esperado, e 11%, que fez mais do que o esperado.

 

 

PGR cita sete episódios de assédio contra servidora do STJ e pede condenação de Buzzi

Por Johanns Eller Rafael Moraes Moura — Rio e Brasília / O GLOBO

 

O ministro afastado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi assediou em sete ocasiões diferentes uma servidora da Corte ao longo de dois anos, entre 2023 e 2025. A informação consta na manifestação em que a Procuradoria-Geral da República (PGR) defende a aposentadoria compulsória de Buzzi – penalidade máxima prevista atualmente na Lei Orgânica da Magistratura Nacional – dentro de uma sindicância interna do Tribunal. Buzzi nega as acusações.

 

A peça encaminhada ao STJ, assinada pelo subprocurador-geral da República José Adonis, narra em detalhes os episódios em que uma assessora da Corte vinculada ao gabinete do ministro é apalpada, estapeada e agarrada pelas partes íntimas, constrangida e até encurralada em um cômodo apertado na sede da instituição, geralmente após ter um favor solicitado por Buzzi.

 

Os episódios de assédio incluem abordagens de Buzzi com toques físicos nas nádegas da servidora em ambientes como o corredor do gabinete e na própria sala do ministro, onde ela tentou ajudá-lo a colocar um pendrive no computador.

 

O relato da vítima foi corroborado por familiares, um namorado, assessores e até a chefe de gabinete de Buzzi. Todos os nomes também foram omitidos da reportagem pelo fato do processo tramitar em sigilo e para preservar tanto a vítima quanto as testemunhas que colaboraram com as investigações.

A situação era tão recorrente – e grave – que os colegas de trabalho da servidora assediada tomaram conhecimento dos episódios e elaboraram uma rotina de trabalho para evitar ao máximo que ela e Buzzi se encontrassem no gabinete a sós. A estratégia envolvia desde o remanejamento de escalas de trabalho de assessores e estagiários até um monitoramento em tempo real da movimentação do ministro nas dependências do STJ em um grupo de WhatsApp.

 

O plenário da Corte deve se reunir em agosto para decidir a punição de Buzzi na seara administrativa, no âmbito de um processo disciplinar que pode resultar na sua expulsão do STJ. O magistrado também é alvo de um inquérito em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que pode levar à sua condenação na esfera criminal. Os dois processos tramitam sob segredo de Justiça.

Na avaliação de ministros do Tribunal ouvidos reservadamente pelo blog, o parecer da PGR é contundente, expõe a fragilidade dos argumentos de Buzzi e dá força à tese de punição disciplinar numa das maiores crises de imagem enfrentadas pela Corte em sua história, em um momento em que o STJ “frequenta” as páginas policiais por conta de outro escândalo – a investigação sobre um esquema de venda de sentenças judiciais.

 

“Acho muito difícil o Buzzi escapar de uma consequência”, prevê um ministro do STJ ouvido em caráter reservado.

A manifestação do Ministério Público Federal também se debruça sobre um oitavo episódio de assédio no qual Buzzi teria importunado sexualmente uma jovem de 18 anos que estava hospedada em sua casa de praia em Balneário Camboriú (SC) acompanhada dos pais, amigos próximos do ministro e da mulher dele, a advogada Katcha Buzzi. A denúncia da vítima foi a primeira a vir à tona, em janeiro deste ano, e levou à abertura da sindicância no STJ.

 

O que diz Buzzi

Em nota enviada ao blog, a defesa de Buzzi informou que discorda do parecer da PGR e que “está no encargo de comprovar fatos que nunca ocorreram”, apresentando “testemunhas, registros, vídeos e outros elementos concretos que, em conjunto, comprovam a inocência do ministro”.

“O processo tramita em segredo de Justiça, o que impossibilita, infelizmente, a defesa de revelar detalhes mais apurados, os quais serão apresentados em alegações finais”, comunicaram os advogados de Buzzi (leia a íntegra ao final da matéria).

 

‘O mais longe possível’

Em seu depoimento à Corregedoria Nacional de Justiça, a vítima relatou que os dois primeiros atos inadequados de Buzzi ocorreram em um curto espaço de tempo, mas depois as importunações sexuais passaram a ocorrer de forma espaçada – como se ele reconhecesse o caráter impróprio de suas atitudes.

 

Afirmou, ainda, ter sentido medo de sofrer retaliações caso levasse as denúncias adiante. Os assédios foram descobertos por alguns colegas de trabalho por conta do agravamento do estado emocional da servidora. Ela também chegou a relatar o problema à chefe de gabinete de Buzzi, mas o caso só veio a público após a primeira denúncia contra o ministro envolvendo a jovem de 18 anos agarrada durante um banho de mar em Santa Catarina.

 

O episódio mais tenso – mas não o primeiro na ordem cronológica, segundo os depoimentos – ocorreu no gabinete de Buzzi, quando ele solicitou ajuda da assessora para que ela conectasse um pendrive em seu computador, instalado em uma mesa apertada que exigia a aproximação física dela em relação ao magistrado.

Na defesa entregue à sindicância interna, ele alegou que a disposição do gabinete não permitiria que alguém ficasse na posição relatada pela servidora do STJ. Entretanto, a PGR defende em sua manifestação que as fotos anexadas pelos advogados do ministro “não sustentam as alegações defensivas”.

 

Em tom de desabafo, a vítima afirmou em seu depoimento que já vinha buscando distância física de Buzzi.

“Eu já [de] imediato, para não ficar perto dele, porque toda minha reação era tentar ficar o mais longe possível, eu falei que eu ia chamar o pessoal da informática. Ele não aceitou. Ele falou: ‘Não, não, espera. Vamos tentar de novo.’ E, na segunda tentativa, deu certo. Ele agradeceu por eu ter conseguido colocar o pendrive e conectar, só que aí ele se aproveitou pra passar a mão de novo na minha bunda”, declarou a servidora, que prosseguiu com o relato:

“Só que dessa vez ele apertou, e eu, com essa mão, segurei a mão dele. Só que ele fez força, e eu precisei usar das minhas duas mãos para tentar conter ele”, E, quando ele percebeu, naquele minuto, o que estava acontecendo, que a gente estava fazendo força um contra o outro, ele começou a me pedir desculpa: ‘Desculpa, desculpa, desculpa pela brincadeira’”.

Depois do ocorrido, a servidora buscou a chefe de gabinete de Buzzi e desabafou sobre os assédios. Os constrangimentos eram de longa data: o primeiro episódio, de acordo com ela, ocorreu na biblioteca situada no interior do gabinete de Buzzi no início de 2023.

 

O ministro solicitou que a servidora organizasse seus livros, tarefa que já havia sido realizada por outros assessores no passado. No entanto, ele a acompanhou até o local e, enquanto dava instruções sobre a tarefa, passou a mão em suas nádegas.

“Coloquei na minha cabeça que foi um contato acidental, mas, lá no fundo, eu já senti que não era... A gente que é mulher, a gente sabe que não era uma coisa que deveria tá acontecendo de forma acidental. E aí eu fingi que nada aconteceu, trabalhei o dia normal”, diz trecho da transcrição destacada pela PGR.

 

Conduta reincidente

A impertinência, porém, não cessou. De acordo com a vítima, o segundo episódio de assédio ocorreu logo depois e não deixou dúvidas sobre as intenções do magistrado.

 

Em outra conversa dentro do gabinete, Buzzi manifestou o receio de que um rato tivesse invadido o local por conta de ruídos que ele alegou ter ouvido dentro de um pequeno cômodo usado como despensa, e pediu à assessora para que ela checasse os armários.

De acordo com o relato da vítima à Corregedoria, o ministro a seguiu até o local e se posicionou atrás dela no momento em que ela abria um dos móveis. Encurralada, conseguiu se desvencilhar de Buzzi e deixar o local.

O magistrado alegou na sindicância interna que não poderia se deslocar até a funcionária de forma rápida por se locomover com o auxílio de bengala. Assessores, porém, afirmaram à Corregedoria que ele caminhava com frequência sem o uso do instrumento em seu gabinete.

Em uma terceira ocasião, ele orientou a vítima a se deslocar até outro trecho do prédio por meio de um corredor e, ao abrir passagem para a assessora, estapeou suas nádegas. O magistrado alegou que o trajeto conta com janelas para diversas salas com funcionários, mas a comissão de sindicância concluiu que o tapa pode ter ocorrido sem que ninguém percebesse por conta da altura de Buzzi.

No quarto episódio, o ministro determinou que a assessora regulasse o termostato do ar-condicionado de seu gabinete por meio de um aparelho em frente à sua mesa. Quando a servidora atendeu o pedido, ele afirmou que ela “tinha um atributo diferente das mulheres do Sul”, o “bumbum grande”, e "que isso chamava muito atenção”.

 

À Corregedoria, o ministro do STJ alegou que as saídas do ar-condicionado foram vedadas em seu gabinete por problemas de saúde e que a regulagem só poderia ser feita por técnicos, mas sua própria chefe de gabinete alegou em depoimento que o controle da temperatura durante despachos de Buzzi por funcionários era frequente.

Em outra oportunidade, o ministro pediu para que ela guardasse seu celular durante um evento e, ao retomar o aparelho, exibiu a foto de uma mulher seminua para a servidora e questionou se ela estava “conversando com essa moça bonita” durante sua ausência.

 

A vítima também relatou ter sido alvo de assédio moral durante um rompante de Buzzi antes de uma audiência trabalhista na qual ele e um irmão teriam sido citados. A PGR lista o caso como um dos sete episódios elencados na representação.

Na ocasião, Buzzi pediu a ela que procurasse um técnico de informática para que o ajudasse a entrar em uma vídeoconferência. Quando a funcionária retornou, o ministro teria atacado a servidora.

 

“A senhora é uma incompetente, a senhora é uma burra. Eu sou um ministro muito bonzinho, mas pra eu te dar uns pé na bunda é daqui pra ali, e pega as suas tralhas e vai embora do meu gabinete, que a senhora tá demitida”, declarou ele, segundo o relato da assessora.

No processo, Buzzi alegou que estava repreendendo sua chefe de gabinete por telefone, mas a vítima do assédio sustentou que as palavras foram direcionadas a ela. Em sua defesa escrita, o ministro atribui as denúncias da servidora ao receio de ser demitida após alerta sobre sua suposta vestimenta inadequada. A versão, porém, foi rebatida pelos assessores que prestaram depoimento à Corregedoria, que informaram não haver qualquer irregularidade nas roupas que a assessora do STJ usava durante o expediente.

Leia abaixo a íntegra da nota da defesa do ministro afastado do STJ, Marco Buzzi:

1- A defesa respeita, embora discorde do parecer da PGR, conforme manifestará nas alegações finais;

2- O médico foi arrolado pela defesa, uma vez que indeferidos os sucessivos pedidos para realização de perícia médica;

3- A defesa está no encargo de comprovar fatos que nunca ocorreram. Para tanto, apresentou testemunhas, registros, vídeos e outros elementos concretos que, em conjunto, comprovam a inocência do ministro. O mencionado laudo destacado pelo ilustre membro do Ministério Público Federal foi mencionado como se prova única fosse, e não é.

O processo tramita em segredo de justiça, o que impossibilita, infelizmente, a defesa de revelar detalhes mais apurados, os quais serão apresentados em alegações finais.

É deletéria para o futebol a sujeição da Fifa aos desígnios de Trump

EDITORIAL DE O GLOBO

 

Para quem admitiu nem saber para que serve um cartão vermelho, Donald Trump parece ter aprendido rápido as piores práticas da cartolagem no futebol. Num expediente frequente nos tapetões da Justiça desportiva brasileira, Trump fez pressão sobre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para que fosse suspensa a punição decorrente do cartão vermelho recebido pelo jogador Folarin Balogun, artilheiro da seleção dos Estados Unidos, no jogo de quarta-feira contra a Bósnia e Herzegovina. Assim Balogun poderia entrar em campo na partida seguinte contra a Bélgica. Em gesto de deferência descabida, Infantino cedeu, e Balogun pôde jogar. De nada adiantou a manobra. Os belgas venceram por 4 a 1. O episódio deixou claro, contudo, que nem a entidade máxima do futebol está imune à pressão política.

 

Não foi a primeira vez que Infantino e a Fifa se desdobraram em mesuras a Trump. Infantino o agraciou com um insólito Prêmio da Paz da Fifa, simulacro do Nobel da Paz de que Trump se considerava merecedor. Também cedeu à exigência para que a seleção do Irã — cujos jogadores nada têm a ver com os crimes do regime dos aiatolás — tivesse de voltar ao México depois de jogar nos Estados Unidos. E não reclamou quando o governo americano, com base em regras imigratórias abstrusas, negou entrada no país ao somali Omar Abdulkadir Artan, eleito melhor juiz da África em 2025, impedindo-o de atuar na Copa do Mundo.

 

Também não foi a primeira vez que houve pressão política pela suspensão de punição numa Copa. Em 1962, para que Garrincha pudesse participar da final entre Brasil e Tchecoslováquia, a Fifa relevou sua expulsão no jogo anterior. O então primeiro-ministro Tancredo Neves, incentivado pelo presidente João Goulart, enviou mensagem para que não fosse punido. A Fifa se rendeu ao argumento de que o lance não constava da súmula. Garrincha jogou, fez dois gols, e o Brasil se sagrou campeão.

 

O caso de Balogun foi além de uma simples mensagem. Mobilizou a cúpula do governo americano. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o diretor executivo do grupo da Copa do Mundo na Casa Branca, Andrew Giuliani, convocaram advogados para ajudar a Federação Americana de Futebol a formular o recurso. A Fifa atendeu a Trump com base no artigo 27 do Código Disciplinar, que lhe permite “suspender total ou parcialmente” qualquer medida punitiva. Algo semelhante ao “efeito suspensivo” frequente no Brasil. Balogun voltará a ser punido no período de 12 meses, caso cometa a mesma falta que provocou sua expulsão. Mas isso não redime a Fifa nem atenua os danos à imagem do futebol.

 

É natural que dirigentes da Fifa tentem cultivar bom relacionamento com políticos. Mas a proximidade não pode interferir no que acontece em campo. O árbitro tem de ser a autoridade máxima dentro das quatro linhas do gramado. Como prega o próprio slogan da Fifa, o futebol deve unir os povos. A sujeição a qualquer demanda política ou ideológica é nociva ao espírito do esporte e deve ser repudiada.

 

O jogador americano Balogun é expulso pelo árbitro Raphael KlausO jogador americano Balogun é expulso pelo árbitro Raphael Klaus — Foto: MICHAEL STEELE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

Discussão técnica é essencial para desfazer tarifaço

Por Editorial / O GLOBO

 

Tem trazido sensatez aos debates a presença de representantes do empresariado e do meio acadêmico nas audiências públicas realizadas em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o processo em que o Brasil é acusado pelo governo Donald Trump de práticas comerciais injustas e discriminatórias. No mês passado, o USTR sugeriu a imposição de tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Nesta semana, os afetados puderam apresentar seus argumentos, como já havia ocorrido depois do primeiro tarifaço.

 

Numa demonstração de como a questão tem implicações políticas, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, compareceu às audiências para tentar reverter ao menos em parte o estrago provocado pela ação desastrosa de seu irmão Eduardo e de seu grupo de bolsonaristas junto ao governo Trump. Por trazer elementos mais sólidos, porém, é a atuação das empresas que poderá surtir algum efeito sobre as autoridades americanas.

 

As entidades presentes nas audiências terão cinco dias para enviar documentação complementar, em seguida o USTR fará sua recomendação final. Em paralelo, o governo brasileiro negocia com os americanos. Como sempre ocorre com Trump, a decisão deverá ter fundo político. Mas a melhor estratégia à disposição do Brasil é a ação conjunta entre governo e o empresariado. Noutras ocasiões, Trump já se mostrou suscetível a pressões e recuou.

 

O USTR acusa o Brasil de práticas que considera prejudiciais aos Estados Unidos: decisões arbitrárias da Justiça contra plataformas digitais, o uso de um sistema de pagamento eletrônico desfavorável a bandeiras de cartão de crédito (Pix), tarifas baixas que beneficiam produtos de outros países em detrimento dos americanos, barreiras ao etanol, negligência na proteção da propriedade intelectual, no combate à corrupção e ao desmatamento ilegal. Noutra investigação, que se debruçou sobre alegações de trabalho forçado e incluiu vários países, o USTR propôs mais 12,5% de tarifa sobre produtos brasileiros.

 

No primeiro dia de audiência, representantes brasileiros mostraram que elevar as tarifas aumentará os custos da indústria americana, com impacto inflacionário. “As perguntas foram mais técnicas, mais específicas e mais aprofundadas”, disse ao GLOBO Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. Desta vez, entidades dos dois países trabalharam de forma mais colaborativa. Em carta, multinacionais como Coca-Cola, Nestlé, Tesla e eBay alertaram sobre os impactos negativos das tarifas para o consumidor americano. No painel sobre o Pix, depoentes ressaltaram que Índia e Estados Unidos também têm sistemas de pagamento digital.

 

Desde o tarifaço de 2025, Trump tenta usar barreiras comerciais para interferir em assuntos domésticos do Brasil. Candidato preferido de Trump, Flávio encaminhou documento ao USTR solicitando que as tarifas sejam adiadas para depois das eleições, pois agora podem fortalecer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É um argumento ruim, que reflete um misto de desespero com oportunismo. Quanto mais distante a política se mantiver do debate, melhor. O tarifaço deveria ser cancelado por ter bases frágeis. A saída são negociações técnicas e sensatas.

 

 
 

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