Quem é o cérebro por trás da arquitetura de criação do Banco Master
Por Luiz Vassallo, Jenne Andrade e Arthur Guimarães / O ESTADÃO DE SP
Habitué de alguns dos hotéis mais luxuosos do mundo, dono de jatinhos e de mansões multimilionárias e anfitrião de festas com políticos no Lago Sul, em Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro teve à sua sombra um discreto operador do mercado financeiro, que o auxiliou desde a arquitetura inicial do Banco Master até seus primeiros negócios com a Fictor, empresa que propôs, em 2025, comprar o banco às vésperas da liquidação dele pelo Banco Central (BC). Alvo da Polícia Federal e dono de uma longa ficha na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a mente por trás da complexa teia de fundos de investimentos, captação de dinheiro de pensionistas e compra e venda de títulos podres a valores duvidosos é Benjamim Botelho de Almeida, dono da gestora Sefer Investimentos.
A Sefer, empresa de Botelho, afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que as operações com fundos são regulares (leia mais abaixo). A defesa de Vorcaro, por sua vez, afirmou que não iria se manifestar.
Nas milhares de páginas de documentos da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias no Master, há centenas de menções ao nome de Botelho na condição de operador de Vorcaro e de seus familiares desde antes do início do banco, em 2019. A PF afirma que a “grande maioria das operações suspeitas” da família Vorcaro “envolve também as empresas de Benjamim Botelho”.Entre essas operações, segundo a PF, estão “compra e venda de fundos imobiliários, debêntures e outros títulos de origem duvidosa, constituição de empresas de fachada e conflitos de interesses entre empresas da mesma família”.
Botelho mora há cinco anos em Portugal e viaja com frequência ao Brasil. É dono de um cipoal de empresas de capital multimilionário, muitas delas com conexões com paraísos fiscais, como Delaware, nos Estados Unidos. Sedia algumas das empresas em Cascais, reduto de endinheirados na costa de Portugal.
Sempre levou uma vida discreta, sem redes sociais nem extravagâncias como as de Vorcaro. No dia a dia, ex-associados do empresário na Sefer contam que ele não tirava por nada seus óculos escuros e gostava de ficar isolado em sua sala envidraçada no escritório. Usava o termo “chinese wall” para descrever o tamanho do distanciamento que queria dos empregados.
Além de investigado pelas fraudes em fundos ligados ao Master, Botelho é protagonista em uma transação de mais de R$ 500 milhões entre uma empresa de Vorcaro nas Ilhas Cayman e a Fictor, nebulosa empresa do mercado financeiro que anunciou a compra do Master na véspera da liquidação do banco e no dia da operação que prendeu Vorcaro pela primeira vez, em 2025.
Pouco mais de um mês após o anúncio de que compraria o banco, foi a própria Fictor que pediu recuperação judicial, com R$ 4 bilhões em dívidas. Em razão de negócios com Vorcaro, a empresa listou a empresa de Botelho como sua segunda maior credora à Justiça de São Paulo.
Documentos mostram que o verdadeiro credor da Fictor, por trás de um fundo administrado pela Sefer, é uma holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman. Com isso, na condição de segundo maior credor da Fictor, ele terá peso no destino da recuperação judicial da empresa (leia mais detalhes abaixo).
Se Vorcaro era um novato no mercado financeiro em 2019, quando assumiu o Master, Botelho já tinha anos de experiência como estruturador de fundos de investimentos. Trabalhou para o lendário Banco Garantia, nos anos 1990. Botelho fundou a gestora e administradora de fundos de investimentos Sefer, sediada na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em 2003.
A Sefer teve antes outros dois nomes: Foco DTVM e Índigo DTVM. A empresa foi rebatizada ao longo dos anos ao passo em que seu fundador era enredado, mais e mais, em processos sancionadores da CVM e em investigações da Polícia Federal. Entre 2019 e 2021, Botelho foi alvo de pelo menos cinco processos sancionadores — abertos quando técnicos da autarquia acreditam ter evidências suficientes para levar um executivo a julgamento. Entre os casos, estão investimentos de fundos de pensão que teriam beneficiado empresas de Daniel Vorcaro.
Hoje, a Sefer administra 102 fundos, com patrimônio de mais de R$ 20 bilhões. Desses, pelo menos R$ 9,6 bilhões (48% do total), possuem alguma relação financeira com o ecossistema formado pelo Master, seja pelo investimento direto em empresas ligadas ao banco, seja por manter nas carteiras ativos que já foram alvos da instituição, como precatórios de usinas.
Um desses fundos da Sefer, o Nazaré, integra esse grupo e já registrou, por exemplo, investimentos de R$ 14 milhões na Super Empreendimentos, empresa apontada pela Polícia Federal como dona de bens de luxo de Vorcaro, como sua mansão em Brasília, de R$ 36 milhões.
Operação Fundo Fake
Botelho atua para o Master desde a época em que o banco ainda não pertencia a Vorcaro e se chamava Máxima. Ele foi alvo da Operação Fundo Fake, que investigou desfalques do Máxima em fundos de pensão. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, porém, acolheu pedidos de investigados na Operação e anulou as investigações. Em 2019, quando Vorcaro assumiu o Máxima e mudou seu nome para Master, já conhecia Botelho. A relação se aprofundou ainda mais depois disso.
Tudo aquilo que a Fundo Fake investigou voltou a ser objeto de escrutínio da PF na Operação Compliance Zero, que levou Vorcaro à prisão duas vezes, em novembro de 2025 e em março de 2026, pelas fraudes no Master. Nas investigações mais recentes, Botelho voltou a ser tido por investigadores como um operador de fraudes contábeis de Vorcaro desde a gênese do Master.
Segundo narra a PF, Botelho gere fundos de investimentos que compram imóveis e outros ativos duvidosos e jogam seus preços para as alturas. Invariavelmente, esses imóveis, empresas e outros bens são revendidos a empresas de Vorcaro e familiares. O resultado da tabelinha entre Vorcaro e Botelho é que ambos ganham, mas outros investidores — o que inclui fundos de pensão — saem prejudicados.
Em parte, essas operações inflaram também ativos que foram parar no patrimônio do Máxima e, posteriormente, do Master. Em uma dessas operações, descrita pela Polícia Federal, um fundo administrado pela Sefer comprou um terreno em Aracaju onde se propagandeava que seria construído um condomínio residencial. Nada foi construído, nem a empresa dona das terras, que recebeu investimentos do fundo, podia ser qualificada com segurança como proprietária do terreno. Isso porque a Justiça chegou a dar razão a um casal, que nada tinha a ver com a empresa, mas reivindicou ser dono daquela área desde os anos 1990.
A PF apontou que transações envolvendo esse terreno e empresas da família Vorcaro deram prejuízos milionários ao fundo da Sefer, que teve como investidores fundos de pensão. Este mesmo fundo foi usado, mais tarde, para capitalizar o Master quando os Vorcaro adquiriram o banco.
A ‘holding ostentação’ e a Fictor
As digitais de Benjamim Botelho estão, também, na Titan, a famosa “holding ostentação” que Vorcaro usa para abrigar seus investimentos pessoais. A holding fica localizada em dois andares de um dos ícones da Faria Lima, o “prédio da baleia”.
É um escritório de 4 mil metros quadrados, divididos em duas lajes e com apenas cerca de dez funcionários — sendo que empresas no mesmo prédio costumam colocar de 150 a 200 pessoas por andar. Um elevador privativo liga a Titan ao heliponto. Formalmente, a Titan é sediada em um prédio comercial em Georgetown, nas Ilhas Cayman. Ela também já se chamou Master Holding — Sefer Investimentos. Todos os seus contatos no Brasil são da gestora de fundos de Botelho.
A Titan e a Sefer foram os veículos de um primeiro negócio, no valor de R$ 500 milhões, entre Vorcaro e a Fictor, empresa que era mais conhecida por patrocinar o Palmeiras e anunciou, em 17 de novembro de 2025, um dia antes da liquidação do Master, que compraria o banco.
No mês anterior à tentativa de compra do Master, a Fictor acertou a compra de R$ 566 milhões em precatórios que pertenciam à Titan Holding. Os precatórios eram valores a serem recebidos por usinas de açúcar que quebraram nos anos 1980 em razão do congelamento de preços pelo governo federal e que obtiveram a condenação da União a indenizá-las em razão da política econômica.
Na prática, a Titan havia comprado dos autores da ação judicial e dos advogados que aguardavam o pagamento pelo governo o direito de receber essa indenização. E vendeu à Fictor esses recebíveis. O negócio envolveu um fundo de investimentos da Sefer, e o pagamento pela Fictor, por contrato, seria feito em uma conta da empresa de Botelho. O negócio foi revelado pelo Estadão. E detalhes do contrato foram revelados pelo ICL Notícias.
Depois da tentativa fracassada de comprar o Master, a Fictor pediu recuperação judicial, em janeiro deste ano. A empresa listou como uma de suas principais credoras a Sefer Investimentos.A dívida de R$ 430 milhões, segundo apurou o Estadão, na verdade, corresponde a valores que não haviam sido pagos ainda pela aquisição dos precatórios da Titan Holding. Como a Sefer administra o fundo de investimentos que foi usado na transação entre a Titan e a Fictor, ela foi listada de maneira equivocada como credora da empresa. Na verdade, esta é uma dívida da Fictor com a Titan.
Na condição de uma das maiores credoras da empresa, a holding de Vorcaro terá um importante peso na assembleia que vai aprovar, ou não, o plano de recuperação judicial proposto pela Fictor.
A lista de credores enviada pela Fictor à Justiça, na prática, escondeu o tamanho da influência que o próprio banqueiro investigado, e também o próprio negócio de mais de meio bilhão de reais às vésperas de a empresa tentar comprar o banco.
Em Portugal, onde reside ao lado de sua mulher, Botelho é dono de um cipoal de empresas. Uma delas, a Zeal Capital, fica em uma sala de um centro comercial em Cascais. Está em nome de sua mulher, que declara residir em uma rua bucólica na sofisticada cidade de Oeiras, espécie de Vale do Silício português, região com concentração de empresas de tecnologia, boa qualidade de vida e localizada a menos de 20 quilômetros da capital, Lisboa. O capital da empresa é equivalente a R$ 3,8 milhões.
No mesmo escritório, ainda sedia outra empresa, a Drako, cuja controladora é uma empresa de Zug, na Suíça, onde vivem pouco mais de 20 mil habitantes e estão instaladas companhias que buscam impostos baixos e altíssima discrição.
A empresa suíça, por sua vez, tem a Hoag Investments, que tem a mulher de Botelho como conselheira, segundo documentos obtidos pelo Estadão. Seu capital é de R$ 63 milhões, decorrente da aquisição de duas empresas em Delaware, Estado conhecido como um paraíso fiscal norte-americano.
Defesas
A Sefer Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. (Sefer DTVM) afirmou que “são inverídicas as informações que atribuem a determinadas pessoas físicas a condição de cotistas dos fundos de investimento por ela administrados”. “A composição do quadro de cotistas de fundos de investimento é informação protegida por sigilo bancário e fiduciário, nos termos da legislação aplicável, razão pela qual não pode ser divulgada a terceiros, inclusive à imprensa. Todavia reafirmamos que as pessoas mencionadas na reportagem não constam como cotistas desses fundos ou ainda beneficiários finais”, afirmou.
A Sefer ainda diz que, “no que se refere à constituição de fundos de investimento e às operações de aquisição, cessão ou alienação de ativos realizadas no âmbito desses veículos, a Sefer DTVM destaca que todas as operações observam rigorosamente a legislação do mercado de capitais, os regulamentos dos respectivos fundos, bem como as normas emanadas dos órgãos reguladores e autorreguladores, sendo lícitas, regulares e pautadas por critérios técnicos e de mercado”.
“Por fim, a Sefer DTVM reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência regulatória e o cumprimento integral de seus deveres fiduciários, permanecendo à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários, nos canais apropriados”, afirma.
Cidades sem receita própria distorcem federalismo
Em sistemas federalistas, é esperado que a maior parte da receita pública venha do governo nacional, que tem maior capacidade de tributar em todo o território do país. Também é normal que municípios recebam recursos federais e estaduais, pois arrecadam menos e têm de atender mais de perto aos cidadãos. No Brasil, entretanto, tais relações assumiram proporções disfuncionais.
Como mostra levantamento feito pela Folha, 4 de cada 10 cidades brasileiras —ou, mais precisamente, 2.190 das 5.569— tinham 90% ou mais de seus orçamentos dependentes de verbas obtidas de governos estaduais e da União em 2024. Cinco anos antes, mais da metade delas estava nessa situação (2.950), contudo, é cedo para apontar se a melhora configura uma tendência.
Uma comparação com os Estados Unidos, um país de referência para nosso modelo federativo, é ilustrativa. Lá, em uma carga tributária total de 25,6% do Produto Interno Bruto, os municípios arrecadam 3,7% do PIB. Aqui, a carga total é bem maior, de 32,3%, mas os municípios arrecadam menos, somente 2,4% do produto.
A razão principal para essa discrepância é que, no Brasil, se institucionalizaram mecanismos de repasse obrigatório de recursos entre os entes federativos. Entre eles, destaca-se o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), composto por 25,5% das receitas dos federais Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Isso não se dá sem efeitos colaterais relevantes.
Para os prefeitos, tornou-se politicamente mais simples reivindicar aumentos do FPM em Brasília do que arcar com o desgaste de cobrar os devidos impostos dos munícipes —basta dizer que o fundo absorvia não mais de 10% dos recursos do IR e do IPI quando foi criado, nos anos 1960.
Esse processo de expansão das transferências foi intensificado com o restabelecimento da democracia e a Constituição de 1988. Desmembrar e criar cidades com direito a verbas federais crescentes e poderes Executivo e Legislativo passou a ser um grande negócio para o mundo político, e surgiram mais de 1.300 novas prefeituras e câmaras de vereadores até o ano 2000.
A farra só começou a ser contida por uma emenda constitucional aprovada em 1996, que condicionou a criação de municípios a uma lei federal que regulasse o procedimento. Desde então, o Palácio do Planalto tem barrado iniciativas nesse sentido.
Distorções, porém, persistem. Prefeitos que contam com o conforto de repasses garantidos da União têm pouco incentivo a aperfeiçoar a cobrança dos impostos municipais, ISS e IPTU, e a melhorar a eficiência dos gastos.
Pior ainda, nos últimos anos, eles passaram a receber montantes anômalos de recursos oriundos de emendas de deputados e senadores ao Orçamento federal —destinados, no mais das vezes, a obras paroquiais de baixa qualidade que alimentam o clientelismo, quando não a corrupção.
Feitos e frustrações de MarinaFeitos e frustrações de Marina
Marina Silva deixou o cargo de ministra do Meio Ambiente na última semana —ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado pela federação PSOL-Rede. Nessa nova passagem pela pasta, conseguiu reduzir de forma expressiva o desmatamento, feito que já havia alcançado entre 2003 e 2008, durante o primeiro e parte do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mas o assim chamado desenvolvimentismo petista —fator que contribuiu para a sua saída do governo em 2008— novamente se impôs desta vez e, com um Congresso Nacional permeável à atuação de lobbies, dificultou outros avanços no setor.
Sob o desmonte promovido por Jair Bolsonaro (PL), a área devastada na Amazônia Legal subiu de 10,1 mil km² em 2019 para 11,5 mil km² em 2022, com pico de 13 mil km² em 2021 (maior patamar desde 2006), de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2025, o indicador caiu a 5,7 mil km², o terceiro menor da série histórica iniciada em 1998.
No cerrado, viu-se movimento semelhante, com alta de 6,3 mil km² para 10,6 mil km², entre 2019 e 2022, e diminuição até 7,3 mil km² no ano passado. Na seara dos combustíveis fósseis, aparece a contradição entre a pasta do Meio Ambiente e a chefia do Executivo. A Política Nacional de Transição Energética, lançada pelo Planalto em 2024, prestou-se a fomentar o gás natural. O programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), criado por medida provisória no mesmo ano, incluiu medidas retrógradas em meio ambiente e economia, como subsídios à indústria automotiva. Lula 3 também elevou o imposto para importação de carros elétricos e híbridos.
Sob pressão do governo federal, o Ibama concedeu licença para pesquisa da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas poucos dias antes da COP30 em Belém. Num Congresso Nacional com forte atuação do agronegócio, o ministério sofreu derrota com a aprovação da lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, principalmente no caso do dispositivo que agiliza autorizações para empreendimentos considerados estratégicos por órgão ligado à Presidência —regra que recebeu aval do Planalto.
No lugar de Marina, assumiu João Paulo Capobianco, que era secretário-executivo da pasta e não deve mudar a política da gestão anterior. Apesar da melhoria no cenário do desmatamento, o governo Lula ainda deve medidas efetivas em áreas cruciais como transição energética e adaptação aos efeitos da mudança climática.
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Feitos e frustrações de Marina
Marina Silva deixou o cargo de ministra do Meio Ambiente na última semana —ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado pela federação PSOL-Rede.
Nessa nova passagem pela pasta, conseguiu reduzir de forma expressiva o desmatamento, feito que já havia alcançado entre 2003 e 2008, durante o primeiro e parte do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mas o assim chamado desenvolvimentismo petista —fator que contribuiu para a sua saída do governo em 2008— novamente se impôs desta vez e, com um Congresso Nacional permeável à atuação de lobbies, dificultou outros avanços no setor.
Sob o desmonte promovido por Jair Bolsonaro (PL), a área devastada na Amazônia Legal subiu de 10,1 mil km² em 2019 para 11,5 mil km² em 2022, com pico de 13 mil km² em 2021 (maior patamar desde 2006), de acordo com o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em 2025, o indicador caiu a 5,7 mil km², o terceiro menor da série histórica iniciada em 1998.
No cerrado, viu-se movimento semelhante, com alta de 6,3 mil km² para 10,6 mil km², entre 2019 e 2022, e diminuição até 7,3 mil km² no ano passado.
Na seara dos combustíveis fósseis, aparece a contradição entre a pasta do Meio Ambiente e a chefia do Executivo. A Política Nacional de Transição Energética, lançada pelo Planalto em 2024, prestou-se a fomentar o gás natural. O programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), criado por medida provisória no mesmo ano, incluiu medidas retrógradas em meio ambiente e economia, como subsídios à indústria automotiva. Lula 3 também elevou o imposto para importação de carros elétricos e híbridos.
Sob pressão do governo federal, o Ibama concedeu licença para pesquisa da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas poucos dias antes da COP30 em Belém.
Num Congresso Nacional com forte atuação do agronegócio, o ministério sofreu derrota com a aprovação da lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, principalmente no caso do dispositivo que agiliza autorizações para empreendimentos considerados estratégicos por órgão ligado à Presidência —regra que recebeu aval do Planalto.
No lugar de Marina, assumiu João Paulo Capobianco, que era secretário-executivo da pasta e não deve mudar a política da gestão anterior. Apesar da melhoria no cenário do desmatamento, o governo Lula ainda deve medidas efetivas em áreas cruciais como transição energética e adaptação aos efeitos da mudança climática.
Cobrança híbrida e conta-salário: veja mudanças previstas para o Pix em 2026
O Pix, mecanismo de pagamento brasileiro lançado em 2020, vem passando por diversas atualizações desde então. Uma das prioridades do Banco Central para 2026 é a cobrança híbrida e ajustes no campo de 'descrição'.
O Pix se tornou alvo de críticas do governo dos Estados Unidos, que alegam que o sistema é prejudicial às empresas de cartão de crédito, como as estadunidenses Visa e Mastercard.
Em resposta às críticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ressaltou que 'ninguém vai fazer o Brasil mudar o Pix', que tem prestado serviço à sociedade brasileira.
As mudanças previstas pelo Banco Central, discutidas na 28ª Reunião Plenária do Fórum Pix, buscam aprimorar a ferramenta de mecanismos instantâneos.
O campo de descrição do Pix deve passar por ajustes após constatação de que está sendo utilizado de maneira indevida para transmitir mensagens ofensivas ou intimidatórias.
Entre as medidas previstas, estão ações de orientação aos usuários, aplicação de restrições ou filtros no campo e definição de valor mínimo para o qual o campo de descrição possa ser preenchido.
Cobrança híbrida e conta-salário
Outra mudança debatida para 2026 é a da agenda híbrida, que junta em um único documento o boleto bancário com o QR Code disponibilizado pelo Pix.
Isso permitirá o pagamento da conta tanto pelo código de barras quanto pelo QR Code.
A agenda evolutiva do Pix também prevê que as contas-salário possam ser utilizadas para operações de Pix-automático. Atualmente, apenas contas correntes realizem a operação.
O mecanismo deve ser ampliado também para o pagamento de duplicatas, que são títulos de crédito. O Banco Central prevê adequar o sistema ao pagamento de impostos em tempo real, que vem sendo desenvolvido pela Receita Federal para a reforma tributária.
Veja algumas medidas aplicadas nos últimos anos:
- Pix Saque e Pix Troco: permite retirar dinheiro físico em lojas e estabelecimentos comerciais.
- Pix agendado: permite agendar pagamentos periódicos, com datas fixas. Utilizado principalmente por profissionais liberais.
- Pix automático: permite automatizar pagamentos recorrentes, assim como o débito automático.
O Pix já é utilizado por mais de 170 milhões de pessoas físicas, quase 80% da população brasileira, segundo o Banco Central.
Em janeiro de 2026, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. O volume movimentado em um mês chega a R$ 3 trilhões, o que equivale a mais de 3 PIBs mensais.
Ar poluído até no interior
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma pesquisa do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) revelou que o ar do interior paulista pode ser pior que o da capital. Isso porque, segundo o estudo conduzido pela química Aleinnys Yera, pesticidas associados ao risco de câncer foram detectados na zona agrícola de Piracicaba em concentração superior à registrada na cidade de São Paulo e no polo petroquímico de Capuava, entre Mauá e Santo André. E chama a atenção o fato de as substâncias prejudiciais à saúde terem sido encontradas tanto na zona rural como nas áreas urbana e industrial.
O trabalho identificou em Piracicaba um nível mais alto de atrazina, um composto usado para controle de pragas nas culturas de cana-de-açúcar. Na área urbana da capital e na industrial de Capuava, o estudo mapeou o malationa e permetrina, que são usados no combate a mosquitos transmissores de doenças, como a dengue. E nos três pontos de medição houve registro de alta exposição diária ao heptacloro, que, embora seja proibido há anos no Brasil, ainda está presente no ar.
Um dos principais achados da pesquisa é o potencial impacto dos pesticidas para além da região onde são usados. O estudo afirma que, considerando o peso da atividade agrícola e o uso intensivo de agrotóxicos no País, é “provável” que haja a presença generalizada de pesticidas no ar. O cultivo da cana-de-açúcar, por exemplo, é o que mais recebe pulverização aérea no Estado, que, aliás, é o maior produtor de cana do Brasil. Trata-se, portanto, de uma evidência de que, transportados pelo ar, esses produtos alcançam áreas muito afastadas de onde foram aplicados.
Não menos importante, outro achado preocupante é o fato de a mistura dos diferentes pesticidas potencializar ainda mais a toxicidade no ar. Professora do IQ-USP e responsável por estimular Yera a pesquisar os níveis de pesticidas, Pérola Vasconcellos afirmou ao Estadão que “a pesquisa comprova que estamos respirando pesticidas, e que isso faz mal à saúde”. Não à toa, os pesticidas presentes nos pontos de medição causaram estresse e morte de células pulmonares, o que atesta o efeito perverso da poluição e o risco de desenvolvimento de doenças.
Para minimizar tudo isso, o governo paulista disse que capacita produtores rurais para que façam o manejo racional dos defensivos agrícolas e afirmou que fiscaliza o uso dos pesticidas e pune os infratores. Parece insuficiente. Do contrário, os resultados da pesquisa do IQ-USP não seriam tão ruins.
O Estado de São Paulo é uma potência agrícola, o interior paulista é pujante e o agronegócio impulsiona a economia, mas nada pode colocar em risco a saúde da população. São necessárias práticas ainda mais sustentáveis. Os aviões poderiam ser substituídos por drones, por exemplo, para que a aplicação dos defensivos seja circunscrita a uma determinada área, sem risco de dispersão. São Paulo tem tecnologia, técnicas e recursos financeiros para melhorar esse quadro. E o governo tem o dever de, com suas agências, intensificar o monitoramento e elevar a qualidade do ar.

