Guerra dita a política monetária
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Por seis vezes a ata da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez referência direta aos conflitos no Oriente Médio para amparar as decisões da política monetária, que cortou em apenas 0,25 ponto porcentual (p.p.) a taxa básica de juros, agora em 14,75% ao ano. Em razão das incertezas da guerra travada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, optou também por não dar qualquer indicação sobre a duração e intensidade do ciclo de queda de juros, à espera dos desdobramentos geopolíticos.
O Copom não poderia ser mais claro: explicou que as expectativas de inflação, que vinham declinando, subiram após o início do conflito e permanecem acima da meta de inflação “em todos os horizontes”. Mais uma vez, enfatizou sua função de trazer a inflação para o centro da meta (3% ao ano, como determinou o Conselho Monetário Nacional) e sublinhou que a calibração dos juros dependerá de novas informações vindas do front, que atingem em cheio países emergentes, como o Brasil.
Enquanto o BC se mantém firme no propósito de não agir sob pressão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preocupado com suas chances de reeleição, se queixou de que só “por causa da guerra” o BC deixou de baixar mais os juros – como se o caos provocado pelo conflito, afetando o preço dos combustíveis e de diversas etapas das cadeias produtivas que dependem deles, não tivesse nenhuma repercussão no Brasil.
Como sabem todos aqueles que se informam, a guerra no Oriente Médio tem afetado a ordem econômica em todo o planeta, e o Brasil não tem como passar incólume aos reveses de um conflito que atinge o centro produtor de petróleo mundial. Ao contrário do discurso lulopetista, o País não é autossuficiente em combustíveis. Importa 25% do diesel e 10% da gasolina que consome. Não há como “abrasileirar” preços dos combustíveis, como desejam Lula e os petistas desde sempre, diante da necessidade de importação e da enorme volatilidade dos preços externos.
O posicionamento do Copom foi bastante previsível – e num momento tão turbulento e indefinido, previsibilidade e cautela trazem alguma segurança. Mesmo assim, o imponderável da guerra se refletiu no mercado e produziu análises distintas do recado do Copom. Houve quem identificasse evidências de que a porta está aberta para um corte de 0,5 p.p. em abril; quem visse na abordagem que o BC irá manter a queda suave, de 0,25 p.p.; quem preferisse se ater ao médio prazo, com 12% ao final do ano, ou mesmo quem não veja compromisso com novos cortes, para citar apenas algumas análises divulgadas pelo Broadcast/Estadão.
Mais do que nunca, cabe ao Executivo atender ao apelo do Banco Central para manter a inflação sob controle, reduzindo gastos e evitando o incentivo ao consumo. Manter prudência justamente para permitir a continuidade de um ciclo seguro de queda de juros não é pedir muito. É apenas o básico.

