Busque abaixo o que você precisa!

Promessa do novo PNE exige empenho maior do governo

Por Editorial / O GLOBO

 

Novo PNE guiará políticas educacionais pelos próximos dez anosNovo PNE guiará políticas educacionais pelos próximos dez anos — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/ 04/06/2025

 

 

É auspicioso o novo Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado pelo Senado na semana passada, com diretrizes mais abrangentes que as anteriores, traçadas para o período 2014-2024, mas prorrogadas até o fim do ano passado. O novo PNE traça 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias (antes eram 20 metas, 56 indicadores e 254 estratégias). O texto, que seguiu para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, norteará as políticas educacionais de governo federal, estados e municípios até 2035.

 

O novo PNE representa, na avaliação do movimento Todos Pela Educação, “um marco fundamental” que poderá “orientar avanços significativos”. Entre seus méritos, estão a ênfase na qualidade — principal deficiência educacional brasileira —, a preocupação com equidade e a criação de instrumentos para implementação e monitoramento. Há metas para qualidade da educação infantil, profissional e formação de professores, que não existiam no anterior. Também são novidades a projeção de metas para estados e municípios e a orientação de acompanhamento a cada dois anos (antes a análise ocorria apenas ao fim de dez anos).

 

Entre as metas listadas, estão a garantia de que 100% das crianças estejam alfabetizadas e alcancem o nível adequado de matemática ao fim do segundo ano do ensino fundamental (anteriormente, a previsão de alfabetização era o terceiro ano, e a matemática não era citada); a universalização da pré-escola (prevista no plano anterior, mas não cumprida); e a expansão do atendimento em creches a 60% das crianças até 3 anos (anteriormente eram 50%).

 

Embora alguns objetivos possam parecer descolados da realidade, eles poderão ser alcançados com mudanças de gestão. “Algumas metas de aprendizagem, especialmente as do 9º ano e do fim do ensino médio, são ambiciosas demais”, diz Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas do Todos Pela Educação. “Mas, de modo geral, se adotarmos um ritmo mais forte na gestão educacional, considerando governo federal, estados e municípios, elas são factíveis. O plano não é a salvação, é um norte muito relevante.”

 

O país não poderia ficar mais tempo sem um plano com metas para todas as etapas, da educação infantil ao ensino superior. A negligência com a educação já foi longe demais. Mas, apesar do acordo no Congresso e da boa receptividade no meio educacional, uma coisa é ter um bom plano, outra é cumpri-lo. O histórico até aqui não favorece os governos. Um estudo produzido pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados em 2025 mostrou que 61% das metas estabelecidas no plano anterior não foram atingidas (o levantamento considerou 42 dos 56 indicadores que permitiam verificação). Algumas até retrocederam, como percentual de alfabetizados no segundo ano.

 

Melhorar a qualidade da educação é tarefa que exige esforço dos três níveis de governo. Está claro que, no ritmo atual, as novas metas dificilmente serão cumpridas. De pouco adianta ter um plano ousado se os gestores não se empenharem para segui-lo. Ao menos, desta vez é previsto acompanhamento a cada dois anos. Isso lançará mais responsabilidade sobre os políticos. Espera-se que o monitoramento seja levado a sério e que os resultados sejam divulgados com transparência.

 

Cabe aos organismos de controle e à sociedade civil seguir de perto. E, ao eleitor, punir ou premiar na urna os gestores segundo o cumprimento das metas.

 

Fracasso de PDV demonstra limite de planos do governo para salvar Correios

Por  Editorial / O GLOBO

 

As dificuldades na execução do plano de reestruturação traçado pelo governo para a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) não tardaram a se materializar. Com prejuízo de R$ 6,1 bilhões nos três primeiros trimestres de 2025 (o dado consolidado para o ano ainda não foi publicado) e contando pouco mais de 80 mil funcionários, a empresa tem obtido resultados tímidos no Programa de Demissão Voluntária (PDV) estabelecido como crítico para reduzir seus custos fixos. Com meta de 10 mil desligamentos, o PDV está perto de encerrar o prazo e atraiu apenas 3 mil funcionários.

 

Trata-se de um dos itens de redução de custos no plano do governo. A estimativa era, até o fim de 2027, alcançar 15 mil adesões, com economia anual estimada em R$ 2,1 bilhões. Mesmo assim, seria pouco para resgatar a saúde financeira da ECT — só no primeiro semestre do ano passado, a estatal registrou perdas de R$ 4,4 bilhões. Por enquanto ela vai sobrevivendo graças à benevolência do consórcio de bancos estatais e privados que liberou em dezembro empréstimo de R$ 12 bilhões, com aval do Tesouro. Deu-se um pouco mais de oxigênio aos Correios, mas parece inevitável que, caso a empresa não seja privatizada, cedo ou tarde a conta caia no colo do contribuinte.

 

Impressiona que os problemas da ECT, que persistem há pelo menos 15 anos, não tenham sido contornados com um óbvio e necessário enxugamento de custos. No governo Jair Bolsonaro, a empresa chegou a entrar na relação de estatais a privatizar, mas foi retirada no retorno ao Planalto de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Os prognósticos para o plano de ajuste são desanimadores. Além do PDV, a diretoria tenta avançar com outros cortes de despesas. Um deles envolve otimizar a rede de atendimento. Foram fechadas mais de 120 agências, mas isso equivale a 12% da meta de mil. Há também leilões para venda de imóveis. Nos já realizados, arrecadaram-se míseros R$ 9 milhões, ou 20% do valor ofertado. Há terrenos bem avaliados em Salvador e Brasília, na casa de centenas de milhões. Tais cifras, porém, apenas atenuam os efeitos da crise estrutural que atinge a ECT.

 

O fim do mercado de cartas e correspondências serviu no mundo todo para que as empresas públicas de correios se reinventassem. O Royal Mail britânico foi privatizado. O Deutsche Post alemão virou empresa de economia mista. Na França, apesar de a empresa La Poste continuar estatal, tornou-se sociedade anônima e passou a ter uma administração empresarial com metas de eficiência. O Brasil ficou parado no mesmo lugar. Para sobreviver sem ajuda do Tesouro, os Correios teriam de competir no mercado de entregas criado e impulsionado pelo comércio eletrônico, hoje dominado por startups ágeis que atuam sobretudo na rentável fase final da entrega.

 

Incapazes até de entregar cartas simples ou boletos antes do vencimento em bairros de elite no Rio, é inimaginável os Correios sobreviverem nesse ambiente de concorrência. Sem privatização, a ECT continuará a ser uma ameaça para o Tesouro, já às voltas com crise fiscal crônica.

 

 

André Valadão exaltou família Vorcaro em culto da Lagoinha: ‘amigos da vida, de décadas’

Malu Gaspar /Análises e informações exclusivas sobre política e economia/ POR Por 
Johanns Eller / O GLOBO
 
O líder da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão, exaltou a família de Daniel Vorcaro durante a inauguração da Lagoinha Belvedere, templo que recebeu repasses milionários do pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do dono do Banco Master.  Na cerimônia ocorrida em abril do ano passado, Valadão homenageou os pais do executivo, a quem chamou de “amigos da vida e de décadas”, e disse ter enxergado em Zettel e sua esposa, Natália Vorcaro, uma “promessa de Deus muito linda”.  Além dos fiéis da Lagoinha, o evento contou com a presença de políticos, desembargadores e empresários influentes de Belo Horizonte, segundo fontes da denominação. A equipe da coluna teve acesso ao vídeo das falas do pastor, e o material foi preservado para garantir o sigilo da fonte e evitar sua identificação. 
 

Hoje, Valadão alega ter se afastado da família e diz estar “profundamente decepcionado” com as informações reveladas no âmbito do caso Master (leia a íntegra ao final da matéria). No final de semana, templos da Lagoinha em diversos locais exibiram um vídeo em que ele pede desculpas aos fiéis e diz "deixar claro" que não participa do grupo criminoso.

 

O tom é bem diferente do adotado lá atras, durante a inauguração da Belvedere. Na ocasião, ele homenageou não apenas Zettel, mas também os pais de Vorcaro, Henrique e Aline, que estavam no culto e foram chamados de “prova de milagre”. O patriarca, que já ajudou a Lagoinha a comprar uma rede de TV onde o filho foi apresentador, injetou dinheiro no império dos Valadão nas últimas décadas, segundo fontes próximas da cúpula. 

 

“Amigos da minha vida. Henrique, Aline, fiquem em pé. Meus amigos da minha vida aqui. Vamos celebrar esse casal maravilhoso. É uma prova de milagre. Amamos vocês demais da conta, demais. Somos amigos desde as minhas solteirices, amigos de vida, de anos, de décadas!”, disse André Valadão.

 

Em relação a Fabiano Zettel, o líder religioso disse ter um “relacionamento de 20 anos” com o empresário.“Preciso falar isso porque você não está na casa de uma pessoa que ontem decidiu ter uma igreja no Belvedere. Eu estou falando de mais de 20 anos de relacionamento [com essa pessoa]. Pergunte para quem está do seu lado: onde você estava 20 anos atrás? Mas eu sei onde ele estava. [O] Pastor dessa casa, pastor Fabiano Zettel”, declarou Valadão, pedindo aplausos para o aliado.

 

 

Fundada em Belo Horizonte, a Lagoinha se expandiu nas últimas décadas por diversos estados brasileiros e para o exterior, com forte atuação nos Estados Unidos, onde Valadão mora. Na ocasião, o líder evangélico estava no país para ações da igreja e, segundo fontes próximas, prestigiou a inauguração do megatemplo a pedido da irmã de Vorcaro, que também é pastora da Lagoinha e se casou com Zettel em 2018 em uma cerimônia celebrada por Valadão.

 

Repasses milionários

A igreja do Belvedere foi fechada há duas semanas. Conforme revelou a Folha de S. Paulo, Zettel fez 54 transferências para a unidade do Belvedere totalizando R$ 41 milhões entre 2024 e janeiro de 2026, quando a Lagoinha alega que ele já estava afastado da igreja por conta do caso Master. O templo era administrado por ele e, após seu licenciamento, foi assumido pela irmã de Vorcaro.

 

A Lagoinha nega irregularidades e diz que cada unidade “possui autonomia administrativa, jurídica e financeira, sendo responsável por sua própria gestão” e que Valadão enviou um vídeo às igrejas da denominação no último domingo no qual afirma “que não há qualquer envolvimento” da instituição em atos ilícitos e que “é o maior interessado na completa apuração das circunstâncias” (veja a íntegra ao final da matéria).

 

No evento de inauguração da unidade do Belvedere, Valadão fez questão de pedir para que Natália Vorcaro se levantasse no auditório da igreja para ser abraçada por sua esposa, Cassiane Valadão, conhecida na Lagoinha como Cassi. “Queria que a pastora Natália ficasse de pé. Que você [fiel] celebrasse essa pastora maravilhosa. Abraça ela, Cassi? A gente te ama tanto”, declarou.

 

O pastor registrou no Instagram a passagem pelo púlpito da Lagoinha Belvedere na data da inauguração, mas não destacou os trechos em que elogiou os Vorcaro e Zettel.

 

“Eu enxerguei no Fabiano e na Natália uma promessa de Deus muito linda. Eu me lembro de conversar com seu pastor quando ele não era crente. Tenho conversado com Natália e Fabiano, há um óleo fresco, um óleo novo de Deus vindo sobre o Centro-Sul de Belo Horizonte”, completou em referência à região do bairro do Belvedere.

 

Na última quarta-feira (25), Zettel contratou o advogado criminalista Celso Vilardi, que representou delatores da Camargo Correa na Operação Lava-Jato e, mais recentemente, integrou a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro no processo da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Atuando como operador financeiro de Vorcaro, Zettel doou R$ 5 milhões às campanhas de Bolsonaro e do atual governador de São PauloTarcísio de Freitas (Republicanos), em 2022, além de cuidar dos pagamentos de R$ 35 milhões à empresa da família de Dias Toffoli, a Maridt, por uma participação no resort Tayayá.

 

De acordo com pessoas ligadas à cúpula da Lagoinha, Zettel não compareceu ao evento por causa de um estremecimento na relação com Valadão provocado por divergências em torno de novas unidades da igreja, incluindo a do Belvedere. Ainda assim, a parceria seguiu até a primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.

 

Procurado por meio da assessoria de imprensa da Lagoinha, o pastor não

 

Em nota, a instituição disse que a relação com a família do dono do Master “sempre se deu no âmbito de uma amizade pessoal construída ao longo de anos” na mesma cidade, BH, “muito antes” do Banco Master existir. Questionada se Henrique e Aline Vorcaro continuam frequentando a instituição, a igreja respondeu que não há atualmente “qualquer vínculo” entre Valadão e a Lagoinha e a família Vorcaro.

 

‘Traição’ entre amigos

Nos últimos dias, Valadão tem usado suas redes sociais para lamentar uma “traição” e se dizer alvo de supostas mentiras, sem mencionar Fabiano Zettel ou a família Vorcaro.

 

No último sábado, o religioso publicou uma ilustração de um homem com seis facas enfiadas nas costas acompanhadas dos dizeres “algumas feridas não vieram de inimigos… Vieram de pessoas que você chamava de amigo”. “E quando a traição vem de perto, não dói só no coração. Ela tenta roubar a sua confiança nas pessoas e até na vida”, diz a legenda publicada pelo pastor. “Nunca deixe que a mentira de alguém transformar [sic] o seu caráter”.

 

Em outro vídeo publicado no Instagram, Valadão apareceu com a voz embargada e olhos marejados se dizendo enganado, novamente sem citar o envolvimento da Lagoinha com o escândalo do Master. “Olha, sobre muita coisa que tem acontecido nesses últimos dias, talvez você esteja precisando ouvir algo que eu estou com propriedade para falar com você”, declarou. “Pessoas de coração sincero às vezes acham que todo mundo carrega a mesma sinceridade dentro de si, e quando essa verdade aparece machuca a gente demais, sabe? Dói perceber que a confiança foi quebrada, que aquela pessoa vivia uma mentira”.

 

 

Entre muitas mensagens de apoio de fiéis e outros líderes evangélicos, alguns cobraram maiores esclarecimentos de Valadão e da Lagoinha. O pastor restringiu os comentários das publicações. “Não vou mentir, está difícil acreditar que você não sabia ou não usufruía de nada… Quero muito estar errada, de verdade”, escreveu uma seguidora evangélica.

 

“André, uma dúvida sincera. Uma movimentação de R$ 40 milhões em uma das contas da igreja não te levantou suspeitas, ou é normal esse volume?”, perguntou outro. “E você não pode dizer que não viu porque em alguns vídeos seus que não tem a ver com isso você diz que tudo é controlado pela Lagoinha Global. Então eu gostaria de entender isso, assim como todos os outros seguidores que ainda acreditam em você”.

 

Relação histórica

Vorcaro tem ligações históricas e familiares com a Lagoinha, que passou a frequentar ainda jovem ao lado de seu pai e seu avô, Serafim. Como revelou a revista piauí, o banqueiro também apresentou um programa de TV na juventude em uma emissora controlada pela Igreja que foi financiada por Henrique Vorcaro. Já Natália Vorcaro passou a atuar como cantora backvocal de Valadão em produções musicais, realizando um antigo sonho do pai, além da função pastoral.

 

O patriarca da família também teria pago parte da dívida de uma BMW adquirida por Valadão nos anos 90. Um dos filhos do pastor dançou com a filha mais velha de Vorcaro na sua festa de 15 anos em Nova Lima, no entorno de Belo Horizonte, evento marcado por luxo.

 

Mensagens de celular

Nas conversas entre o CEO do Master e a sua então noiva, Martha Graeff, obtidos no celular dele pela Polícia Federal (PF), Vorcaro compartilhou uma mensagem de áudio encaminhada pelo pastor e disse que ele estava em Belo Horizonte na véspera da inauguração da Lagoinha Belvedere, onde o pastor cobriu sua família de elogios.

 

Meses antes, o banqueiro encaminhou à noiva uma mensagem de André Valadão para o casal. O pastor o chama de “Dani”, como o executivo é conhecido na Lagoinha, e alerta sobre a necessidade de reconstruir a vida e o no o relacionamento após o divórcio sob “o fundamento sólido de Cristo”, listando uma série de passagens bíblicas ao lado de conselhos pessoais, reforçando a intimidade entre o líder evangélico e o dono do Master.

 

“Valorize a parceria e o propósito que Deus tem para vocês como casal, ajudando-se mutuamente a crescer ESPIRITUALMENTE. Conversem com Deus constantemente e permitam que Ele conduza cada decisão e passo que vocês tomarem nessa nova fase. Que o Senhor fortaleça você e traga PAZ ao seu coração!”, escreveu Valadão, segundo o relato de Vorcaro.

 

Procurada, a defesa do executivo afirmou que não se pronunciará sobre o tema. Ele segue preso na Superintendência da PF em Brasília, onde negocia uma delação premiada. Em outros diálogos ocorridos no ano anterior, 2024, Vorcaro relata a Martha que Valadão prometeu casá-los no futuro, além de idas a cultos na Lagoinha na presença do aliado.

 

respondeu sobre o desentendimento com o cunhado de Vorcaro.

 

 

 

 

Menos agências, mais acesso a bancos

Por necessidade, ao longo de décadas de alta inflação e indexação, há tempos o sistema financeiro brasileiro se consolidou como um dos mais avançados do mundo em tecnologia e rapidez de transações.

Nos últimos anos, o movimento prosseguiu com ampliação do acesso da população ao sistema com o Pix e acirramento da concorrência por meio das fintechs.

A digitalização foi acelerada. Segundo a federação do setor, 82% de 208,2 bilhões de transações bancárias realizadas em 2024 foram feitas por canais digitais —75% delas pelo celular. Os canais físicos (agências, caixas e correspondentes) responderam por somente 5% do total.

Há efeitos colaterais, como a perda de relevância de agências físicas, sobretudo em localidades menores, que vão sendo fechadas. Em apenas dez anos, de 2015 a 2025, o país perdeu 37% de suas agências bancárias, cujo número caiu de 22,8 mil para 14,3 mil.

Assim, 638 municípios ficaram sem agência, totalizando 2.649 sem atendimento presencial, com 19,7 milhões de pessoas afetadas (9% da população).

São especialmente idosos, moradores de áreas rurais e estratos mais pobres que podem ficar desassistidos, por não terem acesso adequado a meios digitais. Ainda hoje, 27% dos pagamentos de contas e 14% dos investimentos ocorrem de forma presencial.

De todo modo, o avanço dos canais digitais é inescapável. Tudo considerado, o quadro geral é positivo, e não deve haver retrocesso na tendência de maior bancarização. O Brasil chegou a 200 milhões de pessoas bancarizadas em janeiro de 2025, segundo o Banco Central.

Milhões oriundos das classes C, D e E, muitos dos quais viviam antes à margem do sistema financeiro, abriram contas digitais via aplicativos simples e gratuitos.

O que era até uma espécie de privilégio se torna rotina para uma ampla maioria, a custos baixos, ao menos em termos de serviços. Nos últimos anos, a tecnologia e a concorrência forçaram os grandes bancos a se mexerem. Nunca houve tantas opções nem tanta conveniência.

Apesar de menos agências, a oferta de serviços é crescente, e o movimento dos últimos anos tem sido, no balanço geral, favorável aos consumidores. A inclusão financeira plena avança simultaneamente na inovação tecnológica e na equidade de acesso, inclusive educacional.

Ainda há muito o que fazer, todavia, para a redução do custo do crédito, que depende de concorrência e de uma gestão econômica responsável que permita a queda sustentável dos juros.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Lula está tonto

Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada" / O GLOBO

 

"Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas, quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo."

 

Culpar a população por um problema é a marca dos governantes tontos. E Lula não está tonto porque o endividamento das famílias aumentou. O que o leva a culpar o povo são as pesquisas. Segundo a Atlas/Bloomberg, a desaprovação do governo chegou a 54% e, além disso, uma simulação do segundo turno da eleição mostrou-o tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. O presidente tem 46,6% das intenções de voto e Bolsonaro 2 ficou com 47,6%. Diferindo de seu pai, que aproveitava qualquer oportunidade para fazer campanha, seu filho está jogando parado. Não apresentou plano de governo e mal opina sobre as questões relevantes da vida nacional. De certa maneira, alimenta-se do mau humor dos eleitores com o desempenho do governo.

Lula 3.0 completou três anos de governo sem que tenha fixado uma marca. A fila do INSS arrisca bater a marca dos 3 milhões de vítimas antes de outubro. Apesar do programa Pé-de-Meia, as matrículas de jovens no ensino médio encolheram 6,3%.

Pode ser que o mau humor tenha a ver com o cansaço, com os escândalos que não partiram do governo, com má marquetagem ou também com salto alto.

Um exemplo dos perigos do salto alto veio do ministro da Previdência, Wolney Queiroz, e do presidente do INSS, Gilberto Waller Junior. Apesar das promessas do governo e a fila de vítimas aumentando, Queiroz sustentou que os segurados deverão ser atendidos "no menor tempo possível". O doutor perdeu uma oportunidade de explicar por que três anos de promessas atolaram.

Os estrategistas do Planalto surpreenderam-se com a erosão da popularidade de Lula no andar de baixo. Não poderia ser de outra forma, os aposentados foram roubados e os segurados não conseguem atendimento. Waller Junior ofereceu um número que pode explicar a ruína: em 2022 (governo Bolsonaro) o INSS tinha 36 mil funcionários e em 2025 (governo Lula), esse número caiu para 18 mil. O presidente do INSS comporta-se como um analista que nada tem a ver com a gestão do governo.

O ministro pediu que se faça uma "boa propaganda" da Previdência. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber como isso pode ser feito.

Lulinha

Abril vem aí e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, defende-se com o silêncio. É tudo que a oposição precisa.

Há um mês ele entrou na frigideira da CPI do INSS e já está entendido que viajou com o Careca a Portugal para prospectar um negócio. Agora sabe-se que ele prestou serviços de consultoria à Fictor, jogada na frigideira do bando Master y otras cositas más.

Enquanto o negócio do Careca do INSS em Portugal era essencialmente privado, na Fictor Lulinha era ligado ao empresário Luiz Rubini, um ex-sócio da empresa, que passou a integrar o Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão. Esse plenário tem nome comprido e atribuições nulas. Apenas enfeita os currículos dos seus integrantes.

O Planalto ainda tem tempo para desativar essa bomba-relógio, armada para explodir na campanha eleitoral.

Lula tem dezenas de parentes e, desde que o marechal Deodoro encrencou-se pela parentela, ele foi um dos presidentes que menos misturaram a família com negócios do Estado.

 

Crise financeira das empresas reforça necessidade de ajustar contas públicas

Por  Editorial / O GLOBO

 

Não faltam análises sobre os efeitos nocivos da alta taxa de juros no endividamento público e na inadimplência das famílias. A saúde financeira das empresas também sofre com o dinheiro mais caro. No ano passado, 80 companhias entraram com pedidos de recuperação extrajudicial, um recorde (quase sete vezes os pedidos feitos em 2020). De janeiro para cá, foram quase dez. Sempre haverá empresas em dificuldade por falhas de gestão. Mas, quando a quantidade se avoluma nessa magnitude e se espalha por vários setores, é razoável suspeitar de causa estrutural. Num ambiente hostil em que o juro segue nas alturas por tempo prolongado, dívidas corporativas disparam e comprimem o caixa. Mais uma razão para o governo rever sua política expansionista de gasto, que mina a confiança, pressiona a inflação e força o Banco Central a manter os juros no alto.

 

Como mostrou reportagem do GLOBO, o endividamento das grandes companhias não para de crescer. Uma amostra com 129 empresas dá a dimensão do problema. Em 2020, elas somavam uma dívida de R$ 1,12 trilhão. Em cinco anos, o montante cresceu 53%, para R$ 1,71 trilhão, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria. Mesmo no competitivo setor do agronegócio tem havido sinais de alerta. Os pedidos de recuperação judicial chegaram perto de 2 mil no ano passado, crescimento de 56% ante 2024. “A recuperação extrajudicial se tornou a alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para estruturar esse processo”, diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes Advogados.

 

Mesmo com a expansão da economia acima do previsto, muitas companhias não conseguiram encontrar o equilíbrio. Do setor de saúde ao siderúrgico, várias enfrentam dificuldades. O índice que mede a capacidade das empresas médias listadas em Bolsa de pagar o custo de suas dívidas segue preocupante. Não é coincidência que, no período de cinco anos, a taxa básica de juros tenha subido de 2% para 15%. O corte recente para 14,75% não muda o cenário. Desde fevereiro de 2022, o Brasil tem uma Selic de dois dígitos. O juro real — descontada a inflação — está entre os três mais altos do planeta. “O choque dos juros no Brasil é sistêmico, mas o grau de impacto em cada companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação”, diz Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação. A Selic perto de 15%, diz ele, representa 18% a 30% para quem empresta dinheiro, em virtude do spread bancário.

 

E não há garantia de queda significativa no futuro. Se o endurecimento da política monetária desde 2020 tivesse ocorrido em período de corte de impostos, a pressão sobre o caixa das empresas teria sido menor. Mas aconteceu o oposto. A carga tributária equivalia a 31,2% do Produto Interno Bruto em 2022, no atual governo aumentou para 32,3%. Não há sinal mais eloquente da necessidade de mudança na política fiscal.

Compartilhar Conteúdo

444