Como Alcolumbre e Flávio Bolsonaro derrubaram Messias e conseguiram impor derrota histórica a Lula
COLUNA DA MALU GASPAR Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO
A rejeição histórica do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) foi resultado de uma articulação que mobilizou integrantes da tropa de choque bolsonarista, capitaneados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ministro Alexandre de Moraes e, acima de tudo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que trabalhou até o último minuto para impor a derrota ao governo Lula.
Messias obteve apenas 34 votos favoráveis, sete a menos que os 41 exigidos pela Constituição. Ao todo, 42 senadores votaram contra, formando um placar que não era esperado nem pelos mais pessimistas aliados de Lula e que supera um precedente histórico: antes de Messias, apenas o governo Floriano Peixoto havia tido indicações para o STF rejeitadas, cinco ao todo, em 1894.
Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, Alcolumbre passou os últimos dias pedindo votos “não” e pressionando lideranças do Senado, principalmente do Centrão e os considerados “independentes”, passando o recado de que se perdessem a oportunidade de derrotar Messias, não adiantaria depois pedir para que ele colocasse em pauta um dos 97 pedidos de impeachment de ministros que ele mantém engavetados.
De acordo com fontes envolvidas nas conversas, o presidente do Senado não se comprometeu a pautar nenhum pedido de impeachment, mas foi bem sucedido ao convencer os senadores de que a derrubada do indicado de Lula seria um passo necessário para chegar lá.
“Ele ligou para vários senadores para pedir votos contra”, confidenciou um interlocutor de Alcolumbre. Um dos alvos de pressão foi o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), que anunciou publicamente apoio a Messias, mas foi cobrado a enquadrar a bancada – formada por sete senadores – e entregar o menor número possível de votos “sim”.
Conhecido por nunca atender o celular, o presidente do Senado passou o tempo todo ao telefone falando com parlamentares, em especial os que já estivessem na campanha contra Messias ou estivessem em dúvida. Nas conversas, repetia frases como “faça o seu papel que eu farei o meu” e terminava dizendo que “hoje será um dia histórico”.
Antes do anúncio oficial do placar, Alcolumbre sussurrou no ouvido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), em uma fala captada pelo microfone: “Acho que ele vai perder por oito”.
Um aliado de Bolsonaro disse ao blog que, um dia antes da sabatina, recebeu a seguinte mensagem de Alcolumbre sobre a votação: “Nós vamos derrotar ele”.
Fator Flávio
De acordo com os relatos, porém, a articulação de Alcolumbre contou com o esforço de Flávio Bolsonaro e de lideranças como o senador Rogério Marinho, que além de líder da oposição no Senado, é coordenador da campanha presidencial.
Nos últimos dias, Flávio se reuniu pelo menos duas vezes com grupos de senadores, além de ter feito conversas reservadas e reuniões fechadas com vários outros, especialmente os do Centrão.
Num café da manhã na terça-feira (28) com integrantes do bloco Vanguarda, formado por 18 senadores, o filho “zero um” de Jair Bolsonaro disse que uma eventual aprovação de Messias só iria politizar ainda mais o Supremo e classificou o chefe da AGU como um quadro ideológico do PT – alguém que seria sempre subordinado aos interesses do presidente Lula, mesmo após a nomeação.
Além disso, a derrubada de Messias abriria espaço para ele mesmo indicar o próximo ministro do Supremo caso vença as eleições de outubro, mudando o jogo de forças no tribunal e quem sabe até permitindo a revisão de sentenças e processos contra o bolsonarismo. Alinhado com esse discurso, aliados de Flávio, como Sergio Moro (PL-PR), aproveitaram suas falas na sabatina para dizer que o governo não deveria ter direito de indicar ministros em ano eleitoral.
Aliados de Flávio calculam que ele tenha conseguido virar inclusive votos do Centrão em outra reunião da qual participaram mais de 30 senadores, acenando com pesquisas de opinião que mostram a desconfiança recorde da população em relação ao Supremo e apontando para a “vontade popular” de que alguns ministros sofram impeachment.
A articulação foi arrematada por reuniões secretas entre Alcolumbre, Flávio e aliados, em que foi feito um pacto de silêncio. Nenhum deles devia abrir para ninguém os detalhes do que estava sendo discutido, nem que havia chances concretas de Messias ser rejeitado.
A ordem de manter o segredo foi distribuída aos integrantes da oposição, junto com a orientação de não fazerem nenhum discurso no plenário no momento da votação. A ideia era fazer tudo rápido, para não dar tempo aos senadores governistas de reagir quando ficasse claro que a derrota era iminente.
De fato, quando perceberam que poderiam perder, senadores como Eduardo Braga (MDB-AM) e Jaques Wagner começaram a cogitar pedir o adiamento da sessão. Mas acabaram concluindo que poderiam ganhar, ainda que com placar apertado, e preferiram bancar o risco.
Antes de Flávio entrar em campo contra Messias, a expectativa era a de que o ministro de Lula conseguisse pelo menos quatro votos de “traição” dentro do PL – especialmente de parlamentares evangélicos que poderiam atender o pedido do ministro do Supremo André Mendonça, um dos que mais trabalhou para ter o advogado-geral da União como colega.
De fato, quando perceberam que poderiam perder, senadores como Eduardo Braga (MDB-AM) e Jaques Wagner começaram a cogitar pedir o adiamento da sessão. Mas acabaram concluindo que poderiam ganhar, ainda que com placar apertado, e preferiram bancar o risco.
Antes de Flávio entrar em campo contra Messias, a expectativa era a de que o ministro de Lula conseguisse pelo menos quatro votos de “traição” dentro do PL – especialmente de parlamentares evangélicos que poderiam atender o pedido do ministro do Supremo André Mendonça, um dos que mais trabalhou para ter o advogado-geral da União como colega.
Entre aliados de Flávio e integrantes da tropa de choque bolsonarista no Senado, que apostam na bandeira anti-STF para conquistar a maioria da Casa nas próximas eleições, a votação de Messias foi encarada como uma oportunidade para o Senado “mostrar o mínimo de altivez”.
Lição
A postura nos bastidores contrasta com os recados enviados a integrantes da base lulista de que Alcolumbre não ajudaria, mas também não atrapalharia as pretensões de Messias.
“A verdade é que Alcolumbre sempre atuou contra Messias. Mas fazia jogo duplo”, definiu outro interlocutor do presidente do Senado, destacando que Alcolumbre sempre quis a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e ficou contrariado com a decisão de Lula de optar por Messias sem avisá-lo ou consultá-lo previamente.
Lição
A postura nos bastidores contrasta com os recados enviados a integrantes da base lulista de que Alcolumbre não ajudaria, mas também não atrapalharia as pretensões de Messias.
“A verdade é que Alcolumbre sempre atuou contra Messias. Mas fazia jogo duplo”, definiu outro interlocutor do presidente do Senado, destacando que Alcolumbre sempre quis a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e ficou contrariado com a decisão de Lula de optar por Messias sem avisá-lo ou consultá-lo previamente.
Na avaliação de outro aliado do presidente do Senado, Alcolumbre quis dar uma lição a Lula ao articular pela derrota de Messias no plenário. “É para mostrar que as coisas não andam nem funcionam sem o apoio dele”, afirmou.
Correlação de forças
A indicação de Messias também contrariou os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que preferiam a escolha de Pacheco, que atua na órbita dos dois e é considerado um magistrado de perfil mais político, com mais habilidade na relação com o Parlamento em um momento em que se multiplicam no Congresso os pedidos de impeachment contra integrantes do STF.
Messias, por outro lado, era encarado pela dupla como um potencial aliado de Mendonça, relator do caso Master no STF. Num momento em que a Corte está mergulhada numa crise de credibilidade sem precedentes, a chegada de um novo ministro altera a correlação de forças e pode fazer a diferença em julgamentos que dividam o plenário.
Mas tudo isso não adiantou, em uma votação realizada a menos de seis meses da eleição, com as pesquisas mostrando Lula e Flávio tecnicamente empatados em um eventual segundo turno – e o índice de desconfiança do STF alcançando patamares recordes.
“O Senado vocaliza o sentimento da sociedade brasileira com essa interferência e a falta de sintonia entre o que quer a sociedade e a maneira como se comportam alguns ministros. É um recado ao próprio governo federal”, disse o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN).
“Estamos no meio de um processo pré-eleitoral e de uma crise moral das instituições, em especial do Judiciário, que está sob o foco dessas investigações. Então, é razoável que aguardemos o desfecho das eleições e quem ganhar as eleições, com a legitimidade do voto, tenha a possibilidade de fazer a indicação.”
Antes do resultado no plenário, um ministro do primeiro escalão do governo Lula assim resumiu a via-crúcis do chefe da AGU: “Messias está sendo julgado por crimes que não cometeu”.
Oposição quer explorar governo 'fraco', sem articulação e sob risco de novos reveses após derrota histórica de Messias
Por Letícia Pille — Brasília / O GLOBO
A rejeição na noite de quarta-feira do nome de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado marcou um episódio raro na história da República e representou uma derrota expressiva para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Messias se tornou o sexto indicado recusado para a Corte, sendo que todos os demais casos haviam ocorrido ainda no século XIX e automaticamente virou um flanco de ataque da oposição, que vê no episódio uma oportunidade para explorar uma imagem enfraquecida do governo.
Apesar de ter sido aprovado horas antes pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), após cerca de oito horas de sabatina, o nome do advogado-geral da União não resistiu à votação em plenário e acabou derrotado por 42 votos contrários e apenas 34 votos favoráveis, sete a menos do que precisava para ser aprovado.
O revés veio mesmo após uma série de gestos de Messias direcionados a parlamentares conservadores, como declarações contra o aborto, referências religiosas e defesa de maior autocontenção do STF. Um interlocutor da oposição chegou a definir tais acenos como “maravilhosos” e admitiu que em outro contexto político o AGU provavelmente teria passado pelo escrutínio dos senadores.
A leitura da oposição é que o episódio expôs um governo fragilizado politicamente e com dificuldades de articulação no Congresso. A estratégia agora é explorar a percepção de que o Planalto está “fraco”, sem capacidade de articulação interna e sem controle da própria base.
Para um parlamentar crítico do governo, o Planalto agora se encontra em uma poisção complexa porque precisa do opoio do Congresso para diversas pautas e ainda restam matérias importantes a serem aprovadas no legislativo este ano. O situação para o Executivo, segundo ele, é “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
Para esse parlamentar, se o governo for profissional, “entuba a derrota, dorme duas noites e vê se consegue juntar os trapos depois”.
Também há críticas à escolha feita por Lula de alguém considerado seu “amigo”. Integrantes da oposição afirmam que o governo errou ao insistir em mais um nome próximo, mesmo depois das indicações de Cristiano Zanin e Flávio Dino, e que uma indicação com perfil mais alinhado a demandas públicas — como o de uma mulher negra — teria encontrado menos resistência e dificultado a articulação contrária. Além disso, a avaliação, inclusive de membros da base aliada, é que a oposição conseguiu se aproveitar de um desentendimento entre Lula e Alcolumbre para ampliar a resistência ao nome e consolidar a derrota em plenário.
Por outro lado, interlocutores do governo avaliam que um eventual embate político pode, em alguma medida, favorecer o Planalto. Segundo essa leitura, momentos de confronto e de desgaste com o Congresso já estiveram associados, no passado recente, a oscilações positivas na aprovação do presidente. Ainda assim, governistas reconhecem que o episódio tende a ser pontual e não deve levar a uma ruptura institucional, justamente porque o governo continua dependente do Congresso para avançar em pautas consideradas prioritárias.
Nos bastidores, a avaliação de opositores de Lula é que o resultado negativo para Messias começou a se desenhar ainda no início da tarde, quando teria ficado mais clara, segundo esses relatos, uma atuação direta de Alcolumbre contra a indicação. O presidente do Senado, no entanto, nega ter atuado para barrar o nome. Outros integrantes da oposição também afirmam que a derrota já era perceptível desde a votação na CCJ. Embora Messias tenha sido aprovado no colegiado, o placar e o ambiente da sessão foram interpretados como sinais de que o governo enfrentaria dificuldades no plenário.
Aliados do governo, por sua vez, trabalhavam com estimativas apertadas e reconheciam incerteza quanto ao resultado final, em meio a um ambiente de desgaste na relação entre o Palácio do Planalto e o Senado. Ainda assim, pareciam confiantes na vitória, mesmo que com possíveis traições na votação secreta. Depois do anúncio do resultado, Randolfe Rodrigues (PT-AP) defendeu que o governo não vai fazer o que chamou de “caça às bruxas” para ficar mapeando os votos contrários.
— Não vamos transformar isso numa caça às bruxas. Ninguém vai perder tempo procurando saber quem votou a favor e quem votou contra — disse o senador. O episódio ocorre em um momento sensível para o governo, com a proximidade das eleições e sinais de enfraquecimento da base no Congresso. A expectativa entre oposicionistas é que a derrota no STF seja apenas o início de uma sequência de reveses.
Entre eles, estão a análise da dosimetria de penas relacionadas aos atos de 8 de Janeiro, prevista para esta quinta-feira, e a possível derrubada de vetos presidenciais pelo Congresso, o que pode impor novos desgastes ao Planalto.
CNI envia manifesto a Hugo Motta contra fim da escala 6x1: 'Impactos severos sobre a economia'
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), recebeu um manifesto da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em que o órgão se manifesta contra o fim da escala 6x1. O documento foi assinado em conjunto com as 27 federações estaduais, 98 associações setoriais e 741 sindicatos industriais.
Segundo a CNI, embora o debate seja legítimo, as propostas "podem provocar impactos severos sobre a economia, os investimentos e a criação de empregos formais".
O tema será analisado pela Comissão Especial da Câmara nesta quarta-feira (29). Motta anunciou que os deputados que comandarão a comissão são Alencar Santana (PT-SP), como presidente do colegiado, e Léo Prates (Republicanos-BA) como relator. As informações são do portal g1.
Argumentos da CNI
Conforme estimativas da CNI, a redução da jornada de trabalho pode provocar o aumento os custos com empregados formais em até R$ 267 bilhões por ano.
competitividade em um país que já convive com desafios estruturais para produzir e competir, alto custo de produção e insegurança jurídica", afirmou a confederação.
Ainda no manifesto, a CNI expressou que "mudanças estruturais na legislação trabalhista precisam ser construídas com base em evidências, diálogo técnico e responsabilidade econômica".
"A indústria deve participar desse debate para contribuir no estabelecimento de soluções equilibradas, que fortaleçam o ambiente de negócios, ampliem oportunidades de emprego para os brasileiros e promovam a sustentabilidade econômica de longo prazo do país", concluiu a CNI.
PEC deve ser votada em maio, mês do trabalhador
O relator Léo Prates tem a responsabilidade de consolidar a proposta que será votada pela Casa a partir de duas sugestões apresentadas pela deputada Érika Hilton (Psol-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Além disso, todo o setor produtivo deve ser ouvido antes da construção do texto final.
Segundo Motta, a previsão é que a PEC seja votada em plenário ainda em maio, em homenagem ao Dia do Trabalhador, comemorado no dia 1º de maio.
"Toda e qualquer sugestão ao texto é válida e a comissão vai debater. Não vai ser a vontade de um partido ou de um grupo que prevalecerá. Será a vontade média da casa", argumentou Motta.
FGC com regras mais duras
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Conselho Monetário Nacional (CMN), colegiado composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central (BC), acaba de aprovar regras mais rígidas para os participantes do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
As medidas surgem após a debacle do Banco Master, que consumiu mais de R$ 50 bilhões do FGC, ou um terço do colchão de liquidez do fundo, criado em 1995 para garantir a estabilidade do sistema financeiro e proteger depositantes e investidores em situações de falência, intervenção ou liquidação.
A principal novidade, que passa a valer a partir de 1.º de junho deste ano, é a adoção de um conceito chamado Ativo de Referência (AR). Instituições que vendem produtos com garantia do FGC terão de demonstrar que têm ativos de qualidade.
Pelas novas regras, quando uma instituição captar volume de recursos com garantia do fundo que supere o AR, ela terá de “direcionar parte desses recursos para títulos públicos federais”, conforme explicou o BC em nota.
Ainda de acordo com o Banco Central, as medidas buscam “mitigar o risco moral associado a captações excessivamente ancoradas na garantia do FGC”. Paralelamente, o CMN também publicou norma que exigirá que instituições financeiras enquadradas no grupo S2 – com ativos totais de 1% a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) – cumpram indicador de Liquidez de Curto Prazo (LCR), alinhado ao padrão de Basileia III (uma regra internacional de prudência bancária), o que antes era exigido apenas dos maiores bancos do País, que estão no grupo S1.
Assim, busca-se evitar que um novo Master usurpe os recursos do FGC. O banco de Daniel Vorcaro, como se sabe, usava o fundo como isca para que investidores comprassem produtos financeiros de alto risco, como Certificados de Depósito Bancário (CDB) com rendimentos muito acima da média do mercado.
Para a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), entidade que representa bancos de médio porte, as “novas regras de liquidez e garantia do FGC elevam padrões prudenciais e reforçam estabilidade financeira”.
O aperto de regras é obviamente necessário, mas poderia ter vindo mais cedo, já que as práticas do Master eram vistas com suspeição pelo mercado muito antes das revelações de que a instituição de Vorcaro era uma verdadeira usina de fraudes.
Independentemente do que ainda venha a ser revelado sobre o Master, a venda de CDBs com rendimentos anabolizados, por si só, oferecia um gatilho para medidas mais duras para se acessar o FGC, uma vez que o fundo recebe contribuições mensais obrigatórias dos bancos e instituições financeiras a ele associados.
Bancos que vendiam produtos alternativos com rendimentos mais modestos passam a pagar pela irresponsabilidade criminosa do Master. Agora é esperar que o arcabouço regulatório do sistema financeiro seja aperfeiçoado de forma permanente e tempestiva. Também é importante que o FGC seja difundido como o que é, uma ferramenta de estabilização, e não uma salvaguarda para a promoção de investimentos totalmente imunes a risco – o que, como se sabe, não existe.
A ousadia do crime organizado
Por Notas & Informações / O ESTADO DE SP
A ousadia do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo atingiu um patamar que já não pode mais ser descrito simplesmente como alarmante, o que seria impreciso. Uma operação deflagrada pela Polícia Civil no dia 27 passado, que desbaratou a infiltração de integrantes do bando em prefeituras paulistas, não lançou luz sobre um risco, mas sim sobre um fato consumado. Pelo que se depreende das investigações, em alguns municípios, não existem mais fronteiras entre o Estado e o crime organizado.
As revelações da Operação Contaminatio não se resumem aos 6 mandados de prisão e 22 de busca e apreensão que a autorizaram. Tampouco se circunscrevem à descoberta de um dos mais audaciosos esquemas de lavagem de dinheiro por meio de prefeituras no maior Estado da Federação, com práticas que vão desde a emissão de boletos falsos até a própria gestão do orçamento municipal. O que se constata é a presença de uma organização criminosa, parida do sistema prisional paulista, que adquiriu uma força tão colossal que passou a ocupar espaços de poder institucional de forma cada vez mais desabrida.
Tal é a audácia dos criminosos que até uma liderança do PCC ousou acionar seus “contatos políticos” para pousar, pasme o leitor, em pleno heliponto do Palácio dos Bandeirantes, em 10 de março de 2022. O objetivo do criminoso era prosaico: assistir a um jogo entre São Paulo e Palmeiras no MorumBis, pelo Campeonato Paulista daquele ano. De forma didática, só esse episódio sintetiza o grau de intromissão do crime organizado no aparato do Estado, pois evidencia a obliteração de limites legais e morais que deveriam ser absolutamente intransponíveis.
Aqui não cabe imputar responsabilidade direta ao então governador, João Doria (PSDB), haja vista que, por óbvio, não cabe ao chefe do Poder Executivo paulista gerenciar pousos e decolagens no heliponto da sede do governo. Mas seria um erro tratar o episódio como uma exceção ou um desvio mais espetaculoso. O que o pouso revela é a naturalização de um ambiente de promiscuidade, no qual controles elementares foram ultrapassados, muito provavelmente, pela corrupção de agentes públicos. A própria trajetória do PCC nos autoriza essa inferência.
O PCC nasceu intramuros. Seus membros originais estavam sob custódia do Estado, numa penitenciária de Taubaté (SP). Ao longo de mais de três décadas, a facção se infiltrou por fissuras institucionais que lhe permitiram crescer, diversificar suas atividades delitivas e expandir sua influência para além das fronteiras não apenas de São Paulo, como do Brasil. Esse processo não ocorreu à revelia do Estado, mas, fundamentalmente, pela colaboração direta ou indireta de servidores públicos – sejam os corruptos, sejam os prevaricadores.
A investigação da Polícia Civil que identificou um “núcleo político” do PCC, com capacidade de influenciar eleições por meio do financiamento paralelo de candidaturas, confirma que o projeto de poder da organização criminosa extrapola o mundo do crime “tradicional”, chamemos assim. Trata-se de uma estratégia que busca aplicar um verniz de legalidade a recursos ilícitos e, mais do que isso, orientar decisões administrativas em benefício da facção. A Operação Carbono Oculto, fruto da parceria entre os governos federal e estadual, foi reveladora nesse sentido.
Diante desse quadro de absoluta perversão da ordem jurídico-institucional, não basta mais celebrar operações bem-sucedidas, por mais relevantes que a Carbono Oculto e a Contaminatio, entre outras, tenham sido. É de justiça reconhecer que provavelmente a maioria dos servidores do Estado é comprometida com a lei e a causa pública. Mas algo além precisa ser feito. O enfrentamento do crime organizado e do PCC, em particular, exige mais do que ações episódicas, impõe uma concertação nacional permanente.
O PCC surgiu sob vigilância do Estado. Prosperou pela corrupção de agentes públicos. Só o Estado, portanto, será capaz de destruí-lo. E, para isso, há de haver coordenação federativa e integração para valer entre forças policiais, órgãos de controle financeiro e instâncias do Poder Judiciário. Além de vontade política para isso, é preciso enfrentar não só criminosos, mas também as condições que lhes permitiram se alimentar das entranhas do próprio Estado.
Lula perdeu os jovens
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Há poucos dias, duas personalidades do chamado campo progressista, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, e o presidente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé, expuseram sem rodeios o que muitos na esquerda têm receio de admitir publicamente: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu o pulso da juventude brasileira. E não por falhas de comunicação, mas por sua incompreensão de que os anseios dos jovens mudaram, assim como o Brasil e o mundo.
Ao Estadão, Bianca Borges reconheceu que falta a Lula “se conectar com o sentimento das pessoas”. Como cometeu a heresia de apontar falhas do demiurgo, a presidente da UNE foi tão atacada por partidários do presidente que, logo depois, sentiu-se compelida a se retratar. Só essa reação mostra como os ditos progressistas e o governo Lula, em particular, são infensos à autocrítica, o que ajuda a explicar por que o petista está tão distante do “sentimento” dos eleitores mais jovens.
Já Preto Zezé, em entrevista ao jornal O Globo, diagnosticou uma “crise de criatividade” de Lula para estabelecer laços com os jovens brasileiros. Sua observação de que o acesso à universidade, ao consumo e ao emprego formal já não basta para satisfazer os anseios das novas gerações foi ainda mais reveladora. Durante seus primeiros mandatos, Lula construiu uma agenda baseada na ampliação de oportunidades. À época, de fato, havia uma demanda reprimida, digamos assim. Hoje, porém, a realidade é outra.
A geração Z – ou “geração .com”, como a designou o cientista político Felipe Nunes, da Quaest – cresceu em um mundo marcado pela onipresença das mídias sociais e dos aplicativos, pela fluidez das relações de trabalho e por uma redefinição do que vem a ser sucesso pessoal. Para muitos jovens dessa geração, o diploma universitário deixou de ser percebido como garantia de prestígio e aumento de renda. Não poucos passaram a questionar o valor do emprego formal, regido pela CLT, em seus propósitos de vida. A promessa de estabilidade, outrora o grande objetivo da maioria da população ao tempo de Lula como líder sindical, perdeu boa parte de seu apelo diante de transformações sociais cada vez mais dinâmicas.
É nesse cenário que a visão de Lula sobre os jovens expõe todo o seu anacronismo, quando não preconceito. Medidas pontuais, como o alívio de dívidas do Fies ou programas de transferência de renda, têm alcance limitado diante de demandas bem mais complexas, que dizem respeito a propósito, autonomia e perspectiva real de mobilidade. Como bem lembrou Preto Zezé, o jovem que ingressou no ensino superior nos governos petistas não experimentou ascensão social. “Há uma frustração com tudo”, disse o presidente da Cufa.
Não se trata aqui de desprezar políticas públicas, consolidadas malgrado seus equívocos, mas de reconhecer que elas, isoladamente, já não bastam para inspirar esperança nos jovens brasileiros.
Os números confirmam a alienação de Lula. Diferentes pesquisas indicam que o presidente tem, entre os jovens de 16 a 24 anos, um nível de apoio significativamente inferior ao registrado entre os mais velhos. Nas primeiras eleições do petista, dava-se o exato oposto: a juventude figurava entre seus eleitores mais sólidos. Hoje, esse vínculo se perdeu.
É tentador atribuir a mudança à habilidade da direita nas mídias sociais. De fato, há uma evidente discrepância de desempenho no ambiente digital em relação à esquerda. Mas reduzir a questão à mera disputa técnica é ignorar que o avanço do discurso dito “conservador” entre os jovens decorre também de sua capacidade de oferecer mais protagonismo individual. Para a esquerda, sobretudo para os petistas, os jovens são tratados como um público monolítico, disposto a aceitar políticas igualmente uniformes.
O problema de Lula, portanto, não é “não ter celular”, como apontou a presidente da UNE. É não compreender, em profundidade, as transformações que moldaram a juventude brasileira contemporânea. Ações de aproximação baseadas em comportamentos constrangedores ou adaptações superficiais de linguagem nas mídias sociais soam não só artificiais, como ridículas, pois não têm substância. Lula não vê que os jovens sabem quando estão diante de um engodo.

