Congresso continua a contribuir para transformar setor elétrico num caos
O setor de energia sabe como poucos conquistar vantagens com a ajuda do Congresso. O roteiro é conhecido. Projetos de lei (PLs) são criados sem objetivo controverso. No meio do caminho, acabam desfigurados com “novidades” sem relação com a proposta inicial — os famigerados “jabutis”. Quando são aprovados, o resultado é invariavelmente uma conta de luz mais cara para o consumidor. Quando são barrados, muitas vezes voltam mais tarde em nova versão, os “jabutis zumbis”. O PL 5.017 é o último exemplo dessa categoria insepulta. Os senadores deveriam reconhecer a contribuição que o Congresso tem dado para transformar o setor elétrico num caos — e repudiá-lo.
Aprovado na Câmara para ampliar o desconto na tarifa de energia para iniciativas de irrigação e perfuração de poços semiartesianos, o PL 5.017 foi desfigurado no Senado. Na versão atual, torna obrigatória a contratação de usinas térmicas e pequenas hidrelétricas, a expansão da infraestrutura de gás natural e aumenta os subsídios. O custo? Despesa anual extra de, no mínimo, R$ 44,2 bilhões na conta de luz a partir de 2032, de acordo com cálculos da Abrace Energia, entidade que representa grandes consumidores de eletricidade. Para comparar, os subsídios pagos em 2025 pelos consumidores de energia somaram R$ 57,1 bilhões, de acordo com dados da Aneel.
Uma das facetas do PL 5.017 é a exigência de construção de térmicas onde não há rede de gasodutos ou linha de distribuição. O texto também determina a contratação de 2,5GW de termelétricas a gás com a obrigação de o consumidor pagar 70%, quer use a eletricidade, quer não. Estipula até o tamanho das usinas (500MW cada) e sua localização: Goiás, Distrito Federal e região, Rondônia, Triângulo Mineiro e Região Metropolitana de São Luís. Tais propostas não foram fruto de análises técnicas tendo em vista o benefício de todos. Reproduzem apenas demandas de segmentos do setor privado com trânsito no Congresso. Ora, é do Executivo a prerrogativa de analisar a infraestrutura, elaborar projeções de demanda e planejar a expansão do setor elétrico. Há instituição pública capacitada para desempenhar precisamente essa tarefa. Ainda assim, não faltam intromissões do Congresso no planejamento. O PL 5.017 é apenas a mais nova tentativa de perpetuar esse arranjo descabido.
Não há como tal arranjo dar certo para o consumidor. O setor elétrico brasileiro, antes exemplar, se tornou sinônimo de desorganização e pressão por vantagens. Querem vantagem para quem produz a energia, para quem transporta o gás, para quem constrói o gasoduto, para a linha de transmissão. Quem perde é o consumidor. Quando se pensa em desvio de função do Congresso, logo se fala nos abusos associados às emendas parlamentares. Eles são de fato um despropósito. Mas a sequência recorrente de PLs para favorecer grupos de pressão do setor elétrico está na mesma categoria.
Por Editorial / O GLOBO
Torre de transmissão no Rio — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo./07-06-2022
Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela
Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.
A lista de países arregimentados na Waico é sintomática. O Brasil aparece ao lado de países como Camboja, Camarões, Congo, Cuba, Mianmar, Nicarágua, Rússia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Venezuela ou Zâmbia. Com exceção da própria China, nenhum tem expressão no universo da IA. Chama a atenção a ausência de nações desenvolvidas e grandes economias emergentes como Índia, México ou Coreia do Sul. O governo americano atraiu para aliança similar países como Austrália, Japão e Reino Unido. A Waico reflete a tentativa chinesa de assegurar predominância a seus modelos de IA.
Em desempenho, os modelos chineses ficam atrás dos americanos de ponta. Mas têm encurtado a distância. Empresas chinesas adotaram um paradigma de desenvolvimento aberto. Em contraste com as líderes americanas, tornam público o ajuste das “manivelas e alavancas” que fazem seus modelos funcionar, conhecidas como “pesos”. Isso incentiva o uso, o treinamento e o aperfeiçoamento desses modelos.
Preocupado com a segurança nacional, o governo Donald Trump tem apoiado modelos de “pesos fechados” e vetado acesso às versões mais avançadas. Mas uma coalizão de gigantes digitais americanas, incluindo Microsoft, Meta e Nvidia, publicou um manifesto defendendo o paradigma de “pesos abertos” dos chineses. O documento afirma que ele favorece a inovação e é, na realidade, mais seguro que as caixas-pretas de OpenAI ou Anthropic.
A questão está no fulcro da disputa com a China, e a Waico tenta fortalecer o paradigma chinês. “O domínio da IA definirá o equilíbrio econômico e geopolítico das próximas décadas”, afirma a pesquisadora de IA Dora Kaufman, da PUC-SP. O Itamaraty diz que a nova organização estimulará a cooperação tecnológica. O propósito é legítimo. O Brasil precisa avançar em IA. Mas, numa questão ainda em ebulição e tão decisiva, deve pensar nos prós e contras antes de tomar qualquer decisão.
Por ter vantagens comparativas para instalação de infraestrutura, o país precisa elaborar um plano estratégico sobre como se colocar na disputa entre Estados Unidos e China. Depois da assinatura do acordo, a adesão à Waico terá de ser aprovada pelo Legislativo. Será uma oportunidade para discuti-la a fundo — de forma técnica. A pergunta que deve nortear o debate é se o país precisa aderir a uma iniciativa que parece guiada mais pelo interesse chinês que pelo brasileiro. Como serão governança, proteção de dados e liberdade de expressão numa organização com sede em Pequim que reúne várias ditaduras? O Congresso Nacional é o local para um debate frutífero sobre o tema.
Por Editorial / o globo[
O líder chinês Xi Jinping na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) em Xangai — Foto: Agence Kampuchea Press (AKP) / AFP/17/07/2026
Criança de 5 anos é hospitalizada e denuncia abusos sexuais de namorado da avó
Escrito por Redação / DIARIONORDESTE
Uma criança de 5 anos foi hospitalizada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro José Walter com indícios de violência sexual no último sábado (25). No local, a vítima denunciou abusos praticados pelo companheiro da avó materna.
Durante o atendimento, a criança relatou espontaneamente aos policiais que era vítima de abusos praticados pelo suspeito, que mantém relacionamento com a avó materna, responsável pela guarda da criança. O Conselho Tutelar foi acionado para acompanhar o caso.
Com as informações obtidas, a equipe policial realizou diligências até o endereço indicado e localizou o suspeito, que recebeu voz de prisão em flagrante na noite do último sábado (25). Em seguida, ele foi conduzido à Delegacia de Defesa da Mulher, onde foi autuado com base no artigo 217-A do Código Penal (estupro de vulnerável).
O suspeito também foi submetido a exame pericial e, em seguida, encaminhado à Delegacia de Capturas e Polinter (Decap), onde permanece à disposição da Justiça.

Neomercantilismo de Trump custa caro
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente dos EUA, Donald Trump, voltou à carga. Três meses antes das eleições legislativas, a Casa Branca anunciou nova rodada de tarifas. Depois de mais de um ano, a política tarifária não entregou a reconstrução econômica prometida. Ainda assim, sobrevive, porque aumentou o poder do presidente para tributar, ameaçar e distribuir exceções.
O “Dia da Libertação”, em abril de 2025, foi vendido como a inauguração de uma “era de ouro”. As tarifas trariam fábricas e empregos de volta, reduziriam o déficit comercial, atrairiam investimento estrangeiro e fortaleceriam o poder de compra. A julgar pelas próprias promessas de Trump, o balanço é fartamente negativo.
A manufatura não viveu a anunciada renascença. O emprego industrial caiu, a produção permaneceu quase estagnada e o investimento em instalações perdeu fôlego. O déficit de bens, descontadas distorções como a antecipação de importações, terminou 2025 praticamente onde começou. A economia continuou crescendo, mas o impulso veio sobretudo da inteligência artificial, do consumo e de setores poupados pelo governo.
A política tarifária só se tornou menos destrutiva porque Washington recuou diante de seus próprios custos. A ausência de desastre não é evidência de sucesso. Só mostra que boa parte da dose anunciada jamais foi administrada.
Também caiu por terra a fantasia de que estrangeiros pagariam a conta. Estudos estimam que empresas e consumidores americanos suportaram entre 77% e 96% do custo. Muitas tarifas incidem sobre insumos, componentes e bens de capital usados por fabricantes dos EUA. Proteger um produtor de aço tende a elevar a despesa de indústrias que compram aço. O ganho é concentrado e visível; as perdas se espalham por preços, margens menores, investimentos adiados e empregos que nunca chegam a existir.
As exceções abriram um mercado paralelo de favores e chantagens. Escritórios de advocacia, consultorias e lobistas passaram a disputar acesso à Casa Branca e às agências capazes de decidir quem paga, quem é poupado e quem é protegido. Para quem precisa decidir onde construir uma fábrica ou de quem comprar componentes pelos próximos anos, a incerteza funciona como um imposto adicional.
Trump obtém ganhos reais dessa engrenagem: a arrecadação aumenta, governos estrangeiros fazem concessões, empresas anunciam fábricas e algumas importações chinesas caem. Isso não significa que os EUA ficaram mais ricos ou mais fortes. A receita sai em grande medida do bolso americano. O investimento feito para escapar de uma barreira tende apenas a deslocar capital para usos menos eficientes. A queda do déficit com a China pode reaparecer como aumento das importações do Vietnã, do México ou de Taiwan. Uma concessão arrancada de um aliado pode custar mais, no longo prazo, do que rende ao presidente na fotografia.
A dissonância decisiva está entre exercer poder e criar prosperidade. Trump mede “vitória” pela capacidade de impor custos. Uma economia mede sucesso por produtividade, inovação, salários e investimento sustentável. Sob esse padrão, as tarifas frustraram a propaganda.
Seu legado, porém, pode ser duradouro. A Suprema Corte derrubou o uso discricionário da Lei de Emergência Econômica, mas o governo manipula investigações comerciais para fabricar seus pretextos. O fundamento muda; a intenção permanece. O Congresso tolera a usurpação de seus poderes, enquanto o Executivo transforma tarifas em instrumento de extorsão em temas díspares: da imigração, às drogas até a política industrial. Presidentes futuros herdarão essa máquina.
A China já opera numa lógica de subsídios, crédito dirigido, proteção e coerção. Os EUA construíram sua vantagem com mercados abertos, segurança jurídica, inovação descentralizada, alianças e capacidade de atrair capital e talentos. Ao escolher o terreno preferido de Pequim, Washington debilita atributos próprios e incentiva parceiros a firmar acordos entre si.
Trump pode legar aos sucessores mais poder sobre a economia. Será uma herança cara: mais privilégios, mais instabilidade, menos disciplina institucional e um país que tenta superar a China mimetizando justamente as práticas contra as quais oferecia uma alternativa melhor.
Milei não deveria se imiscuir na política brasileira
Por Editorial / O GLOBO
As desavenças ideológicas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei são profundas e estarão sempre sujeitas às intempéries políticas. Mas não podem atrapalhar a relação diplomática entre Brasil e Argentina, tão importante para os dois países e para o continente sul-americano. Daí a preocupação com os efeitos do discurso destemperado de Milei na convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo, que sacramentou no sábado a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
No longo pronunciamento de apoio a Flávio, Milei adotou um tom agressivo e malcriado, incompatível com o esperado de um chefe de Estado. Atacou Lula, a quem se referiu como “presidiário”, e xingou de “lixo” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Recentemente, Moraes o proibiu de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Milei chamou de “amigo injustamente encarcerado”. “Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”, disse.
Milei saiu do tom não apenas nos ataques, mas na atitude belicosa e no linguajar. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que o xingamento a Moraes foi “desrespeitoso” e “incompatível com a civilidade”. Lula disse que quem venha de fora “meter o dedo” nas eleições brasileiras vai “apanhar muito”. Até o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se manifestou em tom inadequado chamando Milei de “palhaço”, embora não tivesse nada a ver com o assunto nem devesse se pronunciar sobre o tema. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” ao ocorrido e convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.
O presidente da Argentina pode ter afinidade política com quem quiser, mas não deveria se imiscuir na política brasileira. É certo que o caso tem precedentes, tão descabidos quanto. Em 2023, Lula enviou estrategistas de campanha à Argentina no intuito de ajudar a candidatura governista de Sergio Massa à Presidência. Massa, que acabaria derrotado por Milei, também se encontrou com Lula em Brasília para tratar das eleições argentinas. Em 2025, o petista aproveitou a estadia em Buenos Aires durante reunião de cúpula do Mercosul para condenar a prisão da ex-presidente Cristina Kirchner por corrupção, misturando os papéis de chefe de Estado e militante político. Pior: posou com ela e depois ao lado de um cartaz “Cristina livre”, num flagrante desrespeito às decisões da Justiça local. Milei disse que “não esqueceria” o que fez Lula. Evidentemente, o erro de um não justifica o do outro.
Divergências políticas entre governos são legítimas, mas precisam ser conduzidas dentro do respeito, da civilidade e dos protocolos diplomáticos. Atacar um ministro do STF que nada tem a ver com as disputas eleitorais e lançar mão de xingamentos e atitudes agressivas contra autoridades em solo brasileiro são atitudes inaceitáveis. Brasil e Argentina são parceiros importantes não apenas no comércio. Os desdobramentos do episódio, com a escalada de críticas de um lado e de outro, só pioram o clima. É hora de serenar os ânimos. Nenhum dos lados tem nada a ganhar com a deterioração das relações diplomáticas. Lula e Milei não são maiores que seus países.
O presidente argentino Javier Milei durante convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo
Em seu afã de ‘bondades’ eleitoreiras, governo deixará herança funesta
Por Editorial / O GLOBO
À medida que se avoluma a lista de “bondades” eleitoreiras do governo, os economistas tentam quantificar seu efeito. Independentemente da metodologia adotada, uma constatação tem sido unânime: o agravamento da crise fiscal é preocupante. A estimativa mais recente vem de um estudo do economista Alexandre Manoel, da consultoria Global Intelligence and Analytics. Do início de abril ao fim de junho, as “bondades” concedidas por meio de linhas de crédito subsidiadas ou pagamentos que deixarão pendências para o futuro somaram 4,5% do PIB, ou R$ 150 bilhões. No primeiro trimestre, o total era menos da metade disso, ou 2,19%. Comparada ao ciclo eleitoral de 2022, a situação sofreu deterioração de 5,3 pontos percentuais.
O governo se justifica alegando que, no primeiro ano da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o déficit primário foi da ordem de 2,4% do PIB, enquanto a previsão para este ano está abaixo de 1%. Mas essa explicação é pouco convincente. Primeiro, porque a promessa logo no início do mandato era zerar o déficit — e lá se vão quatro anos sem que ela seja cumprida. Segundo, porque o governo tem sido pródigo em medidas que não entram nos cálculos das metas fiscais. Chamadas de parafiscais, elas ficam fora da conta, mas continuam a alimentar a dívida pública, que não para de crescer. Hoje nenhum economista leva mais a sério o diagnóstico fiscal baseado apenas no resultado primário. Bancos e consultorias fazem seus próprios cálculos para se defender dos dribles do governo.
É evidente que as inúmeras linhas de crédito subsidiado ampliadas ou lançadas pelo Planalto provocam distorções na economia. Elas podem até deixar satisfeitos os beneficiados — agricultores, motoristas de aplicativos, ônibus e caminhões, micro e pequenos empresários, cidadãos inadimplentes, quem faz reforma, quem quer comprar a casa própria, exportadores, empresas do setor aéreo… Mas cada empréstimo subsidiado traz prejuízo ao Tesouro, que paga taxas maiores para captar recursos e raramente vê o dinheiro de volta. Quanto maior a dívida pública, pior o ambiente para a economia crescer de forma sustentada.
É certo que Lula não é o primeiro presidente a abrir as torneiras da gastança em ano eleitoral. Mas os precedentes não o redimem. Na campanha de 2022, os petistas criticaram o descontrole de gastos promovido por Jair Bolsonaro para tentar se reeleger. Lula assumiu com um discurso de responsabilidade fiscal, criou um novo arcabouço para acomodar mais despesas e nem assim foi capaz de cumprir sua promessa de zerar o déficit para controlar o endividamento público. Agora, em seu afã eleitoreiro, deixará uma herança funesta ao próximo governo.

