Oposição quer explorar governo 'fraco', sem articulação e sob risco de novos reveses após derrota histórica de Messias
Por Letícia Pille — Brasília / O GLOBO
A rejeição na noite de quarta-feira do nome de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado marcou um episódio raro na história da República e representou uma derrota expressiva para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Messias se tornou o sexto indicado recusado para a Corte, sendo que todos os demais casos haviam ocorrido ainda no século XIX e automaticamente virou um flanco de ataque da oposição, que vê no episódio uma oportunidade para explorar uma imagem enfraquecida do governo.
Apesar de ter sido aprovado horas antes pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), após cerca de oito horas de sabatina, o nome do advogado-geral da União não resistiu à votação em plenário e acabou derrotado por 42 votos contrários e apenas 34 votos favoráveis, sete a menos do que precisava para ser aprovado.
O revés veio mesmo após uma série de gestos de Messias direcionados a parlamentares conservadores, como declarações contra o aborto, referências religiosas e defesa de maior autocontenção do STF. Um interlocutor da oposição chegou a definir tais acenos como “maravilhosos” e admitiu que em outro contexto político o AGU provavelmente teria passado pelo escrutínio dos senadores.
A leitura da oposição é que o episódio expôs um governo fragilizado politicamente e com dificuldades de articulação no Congresso. A estratégia agora é explorar a percepção de que o Planalto está “fraco”, sem capacidade de articulação interna e sem controle da própria base.
Para um parlamentar crítico do governo, o Planalto agora se encontra em uma poisção complexa porque precisa do opoio do Congresso para diversas pautas e ainda restam matérias importantes a serem aprovadas no legislativo este ano. O situação para o Executivo, segundo ele, é “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
Para esse parlamentar, se o governo for profissional, “entuba a derrota, dorme duas noites e vê se consegue juntar os trapos depois”.
Também há críticas à escolha feita por Lula de alguém considerado seu “amigo”. Integrantes da oposição afirmam que o governo errou ao insistir em mais um nome próximo, mesmo depois das indicações de Cristiano Zanin e Flávio Dino, e que uma indicação com perfil mais alinhado a demandas públicas — como o de uma mulher negra — teria encontrado menos resistência e dificultado a articulação contrária. Além disso, a avaliação, inclusive de membros da base aliada, é que a oposição conseguiu se aproveitar de um desentendimento entre Lula e Alcolumbre para ampliar a resistência ao nome e consolidar a derrota em plenário.
Por outro lado, interlocutores do governo avaliam que um eventual embate político pode, em alguma medida, favorecer o Planalto. Segundo essa leitura, momentos de confronto e de desgaste com o Congresso já estiveram associados, no passado recente, a oscilações positivas na aprovação do presidente. Ainda assim, governistas reconhecem que o episódio tende a ser pontual e não deve levar a uma ruptura institucional, justamente porque o governo continua dependente do Congresso para avançar em pautas consideradas prioritárias.
Nos bastidores, a avaliação de opositores de Lula é que o resultado negativo para Messias começou a se desenhar ainda no início da tarde, quando teria ficado mais clara, segundo esses relatos, uma atuação direta de Alcolumbre contra a indicação. O presidente do Senado, no entanto, nega ter atuado para barrar o nome. Outros integrantes da oposição também afirmam que a derrota já era perceptível desde a votação na CCJ. Embora Messias tenha sido aprovado no colegiado, o placar e o ambiente da sessão foram interpretados como sinais de que o governo enfrentaria dificuldades no plenário.
Aliados do governo, por sua vez, trabalhavam com estimativas apertadas e reconheciam incerteza quanto ao resultado final, em meio a um ambiente de desgaste na relação entre o Palácio do Planalto e o Senado. Ainda assim, pareciam confiantes na vitória, mesmo que com possíveis traições na votação secreta. Depois do anúncio do resultado, Randolfe Rodrigues (PT-AP) defendeu que o governo não vai fazer o que chamou de “caça às bruxas” para ficar mapeando os votos contrários.
— Não vamos transformar isso numa caça às bruxas. Ninguém vai perder tempo procurando saber quem votou a favor e quem votou contra — disse o senador. O episódio ocorre em um momento sensível para o governo, com a proximidade das eleições e sinais de enfraquecimento da base no Congresso. A expectativa entre oposicionistas é que a derrota no STF seja apenas o início de uma sequência de reveses.
Entre eles, estão a análise da dosimetria de penas relacionadas aos atos de 8 de Janeiro, prevista para esta quinta-feira, e a possível derrubada de vetos presidenciais pelo Congresso, o que pode impor novos desgastes ao Planalto.

