Ação contra contrabando no Rio deve inspirar outras em portos pelo país
Por Editorial / O GLOBO
Foi exemplar a Operação Mare Liberum, ação conjunta da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal para desbaratar um megaesquema de corrupção no Porto do Rio. Por determinação judicial, 17 auditores fiscais e oito analistas tributários foram afastados. A investigação revelou uma quadrilha formada por servidores da Receita, empresas importadoras e despachantes aduaneiros — totalmente dedicada ao contrabando. Estimativas preliminares sobre o total sonegado chegam a R$ 500 milhões. A suspeita é que o esquema também tenha sido usado para abrir portas a armas e drogas ilícitas. A ação, que envolveu cem auditores ou analistas da Receita e 250 agentes da PF, deveria inspirar operações semelhantes noutros portos brasileiros. É difícil acreditar que os crimes e irregularidades desvendados estejam circunscritos ao litoral fluminense.
Os agentes encontraram todos os indícios frequentes em casos de corrupção. Quantias milionárias de dinheiro vivo e produtos caros em abundância. Em imóvel na Barra da Tijuca, a polícia achou US$ 166 mil (R$ 830 mil) dentro de um piano, além de R$ 1,2 milhão em espécie. Em Niterói, mais US$ 358 mil (R$ 1,7 milhão). Em Copacabana, outros R$ 233 mil. O dinheiro “guardado debaixo do colchão”, longe dos controles do sistema bancário, ultrapassou R$ 4 milhões. Na lista do material apreendido, constam caixas de vinho, joias e outros bens normalmente usados na lavagem de recursos ilícitos.
A Corregedoria da Receita deu início às investigações em fevereiro de 2022. Encontrou 17 mil declarações de importação suspeitas. Uma das práticas consistia em registrar custo abaixo do real para os produtos que chegavam ao porto. Dessa forma, as empresas do esquema pagavam menos imposto. Outro crime era liberar a entrada de produtos ilegais, identificados como artigos permitidos pela legislação brasileira. Agentes criminosos faziam vista grossa para as mercadorias no porto.
Além das adulterações nas declarações, foram identificadas fraudes na admissão temporária de produtos, principalmente no setor de óleo e gás. Empresas petrolíferas costumam trazer para o Brasil equipamentos usados por tempo limitado, depois enviados a outro país. É o caso de máquinas usadas em perfuração ou sondas. A legislação estipula prazos rigorosos para essas importações, mas as regras foram muitas vezes esquecidas mediante propina.
“Qualquer tipo de fragilidade no controle é motivo de preocupação. Pode entrar de tudo, como produtos que colocam em risco a saúde, o meio ambiente e a segurança pública”, disse ao GLOBO Claudiney Santos, superintendente da Receita no Rio. A próxima fase da operação terá como objetivo chegar aos corruptores, às companhias que se beneficiaram do esquema e aos intermediários. A ação de criminosos dentro da estrutura do Estado reduz a arrecadação de impostos, beneficia empresas que operam na ilegalidade, distorce o ambiente de negócios e põe a saúde, ou mesmo a vida, da população em risco. Não pode haver trégua contra eles, seja no Rio, seja em qualquer outro porto brasileiro.
Dinheiro apreendido durante operação da PF no Porto do Rio — Foto: Receita Federal / Divulgação/28/04/2026
Desvirtuamento político contaminou rejeição de Messias
Por Editorial / O GLOBO
Desde o fim do século XIX, a aprovação dos indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) transcorria sem sobressaltos no Senado. Na quarta-feira, a escrita foi rompida. O plenário rejeitou o advogado-geral da União, Jorge Messias — ele recebeu 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, sete aquém do mínimo para aprovação. Pela Constituição, é prerrogativa dos senadores aprovar ou barrar quem bem entenderem depois da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça. Não há, portanto, reparo a fazer ao direito de agirem na direção que acharem melhor. Ainda assim, o ineditismo é revelador. Expõe o grau de contaminação política de uma escolha que deveria se guiar por critérios de outra natureza — as exigências constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.
Ao transformar a votação para cargo de tamanha importância em campo de batalha política, os presidentes da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), prestaram um desserviço ao país. Alcolumbre foi o protagonista do movimento de bastidor contra Messias. Desde o início, quando seu aliado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) foi preterido, ele sentiu-se contrariado. A resistência no Senado levou Lula a adiar a oficialização da indicação por cinco meses (antes, já tinha sido descortês com o Senado ao comunicá-la pelo Diário Oficial). No fim, parecia convencido de que o nefasto toma lá dá cá bastaria para convencer os senadores. Mas, vendo o governo enfraquecido, Alcolumbre preferiu se aliar à oposição para impor uma derrota acachapante ao presidente em fim de mandato.
Lula agiu com soberba e revelou inépcia na articulação. Messias, cujos vínculos com o PT são profundos, é o terceiro nome que ele indica ao STF neste mandato, com base mais na lealdade que nas credenciais jurídicas. Como não houve empecilho às indicações anteriores — Cristiano Zanin (seu advogado pessoal) e Flávio Dino (ex-ministro da Justiça) —, confiou que a aprovação seria automática, como historicamente tem sido. Enquanto isso, se acumulavam tensões e frustrações do governo no Congresso. Nos dias que antecederam a votação, ninguém no Planalto parecia enxergar a derrota iminente.
O mais grave do episódio não é a rejeição de Messias em si, mas a transformação de uma instituição republicana essencial em tabuleiro de jogo político. De um lado, um presidente da República que, no atual mandato, deixou em segundo plano o saber jurídico dos indicados, preocupado apenas em garantir decisões favoráveis no STF. De outro, um presidente do Senado sem nenhum constrangimento em transformar qualquer votação em objeto de negociatas. Qualquer que fosse o desfecho, deveria ter sido resultado de avaliação jurídica na sabatina. Não foi o que aconteceu. O desvirtuamento político das indicações ao Supremo só contribui para minar a credibilidade da Corte.
'Bode expiatório' e 'ilações mentirosas': busca do Planalto por traições sobre Messias estremece relação com aliados
Por Dimitrius Dantas e Luísa Marzullo— Brasília / O GLOBO
A histórica derrota na indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF) fez o governo contabilizar possíveis traições, principalmente em partidos como MDB e PP. A desconfiança abalou a relação do Palácio do Planalto com integrantes da base aliada. Lideranças emedebistas, por exemplo, reagiram acusando o governo de querer transferir responsabilidades pelo resultado negativo. No PP, interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que a inflexão decisiva ocorreu no dia da votação, quando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), passou a atuar diretamente e teria conseguido consolidar a maior parte da bancada, que soma sete votos.
O movimento teria incluído o presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI), que havia declarado apoio a Messias, mas permaneceu ao lado do presidente do Senado durante praticamente toda a sessão — gesto interpretado como alinhamento à articulação. Já no MDB, a leitura no Planalto é que a articulação encontrou eco em uma dissidência organizada na bancada. Integrantes do governo avaliam que Alcolumbre também teve papel relevante na consolidação desses votos, ao explorar insatisfações com a escolha feita pelo presidente Lula e interesses cruzados na disputa pela vaga no Supremo.
Em pronunciamento em rede nacional na noite de quinta por ocasião do Dia do Trabalho, o presidente Lula mencionou duas vezes obstáculos impostos pelo “sistema”. O petista afirmou, em um dos trechos, que “cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra” (mais detalhes na página 13).
‘Bode expiatório’
O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), negou que a bancada do partido teria atuado contra a indicação. Em nota, o senador classificou as versões como “intriga” e “maledicência” e afirmou que o governo tenta transferir responsabilidades pela derrota: “Aqueles que deveriam aprender com os erros estão afastando aliados ao tentar criar um ‘bode expiatório’ para a situação”, argumentou. O senador Renan Calheiros (MDB-AL) também negou ter traído o governo. “São improcedentes as ilações sobre o MDB e mentirosas as especulações sobre o meu voto, dos senadores Renan Filho e Eduardo Braga. Trabalhamos e votamos em Jorge Messias. Derrotas devem ensinar e não gerar efeitos lisérgicos vindos do cavalo de Tróia dentro do governo”, escreveu Renan nas redes sociais.
Messias teve apenas 34 votos a seu favor, sete a menos do que o necessário. A votação foi secreta. O núcleo mais alinhado ideologicamente ao governo, formado por senadores do PT, PDT e PSB, reúne 18 votos. Outros 13 haviam declarado ser a favor da indicação de Messias, mas no governo não há certeza sobre a fidelidade desses parlamentares. O grupo favorável era composto por sete senadores do MDB (Alessandro Vieira, Confúcio Moura, Eduardo Braga, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Renan Filho e Veneziano Vital do Rêgo), quatro do PSD (Carlos Fávaro, Eliziane Gama, Lucas Barreto e Otto Alencar), além de Ciro Nogueira, do PP, e Dra. Eudócia, do PSDB.
Na hipótese de que todos esses cumpriram a palavra, o placar chegaria a 31 votos. Mas o governo avalia um cenário com adesão de indecisos e traições de senadores em tese mais próximos.
Contas
Nessas contas, parlamentares de oposição teriam, em tese, garantido os votos de todos os 16 senadores do PL, além de 11 senadores que declararam voto contrário a Messias, como cinco do Republicanos, além de Carlos Viana e Mara Gabrilli, do PSD. O grupo de 21 senadores que estava em disputa inclui desde parlamentares notadamente oposicionistas, mas que não se pronunciaram, mas também congressistas considerados próximos ao governo.
Quatro senadores ouvidos pelo GLOBO, sob reserva, relataram que Alcolumbre entrou em contato com parlamentares de centro, oposição e indecisos ao longo do dia, pedindo voto contrário a Messias e estimulando que esses senadores também buscassem convencer outros colegas. Procurada, a assessoria do presidente do Senado rechaçou tal movimentação.
(Colaborou Luis Felipe Azevedo)
Jaques Wagner é cobrado após errar cálculos
- Integrantes do Palácio do Planalto afirmam que o líder do governo do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), terá de prestar contas por ter desenhado cenário equivocado de votação para a indicação do ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, ao Supremo Tribunal Federal.Às 13h15 de quarta-feira, Wagner previu a aprovação de Messias por 45 votos. À tarde, Lula chamou Wagner no Palácio da Alvorada para acompanhar uma agenda com o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), e o questionou sobre a situação de Messias no Senado.
- De volta ao Congresso, após o encontro com Lula, Jaques Wagner previa placar menor que o anterior, de 41 votos, o limite necessário para a aprovação, e relatou o diálogo com o presidente no qual o tranquilizou. Também há críticas ao ministro José Guimarães, responsável pela articulação política, que assumiu o cargo há duas semanas. Aliados afirmam que o governo deveria ter agido para adiar a votação no plenário. Para esse grupo, o Executivo menosprezou o risco de derrota. (Jeniffer Gularte)
Na trincheira dos juros
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto porcentual, para 14,5% ao ano, em reunião concluída em 29 de abril. A harmonia dos membros do comitê em relação à magnitude do corte, que veio de acordo com o esperado pelo mercado financeiro, contrasta com o que se viu nos EUA.
Por lá, o Fed (banco central americano) também adotou a decisão que era aguardada e manteve a taxa de juros de referência entre 3,5% e 3,75%, mas de forma totalmente dividida. A maioria do colegiado optou pela manutenção dos juros, mas também houve quem votasse por um comunicado sem sinalização de cortes futuros e quem tenha deliberado por uma queda da taxa já agora. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente Donald Trump vem constrangendo publicamente o banco dos EUA a cortar os juros na marra. Por ora, ele foi bem sucedido em instalar a discórdia entre os membros do colegiado. A influência do presidente pode vir a crescer, porém, já que o atual presidente do Fed, um dos alvos preferenciais da ira do republicano, está de saída.
Já aqui, a despeito do fato de que a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, tal qual a de Trump, também pressiona por juros mais baixos, o BC tem se mostrado estritamente técnico e unido no combate à inflação. A coesão na tomada de decisões é um sinal importante no que diz respeito à formação de expectativas. Uma autoridade monetária que emite sinais contraditórios causa perturbações desnecessárias no mercado. Tudo isso é ainda mais importante no momento em que o cenário para a determinação dos juros tornou-se especialmente mais complexo.
Como destacou o próprio Banco Central no comunicado sobre o corte recente da Selic, o ambiente para a calibragem da política monetária no Brasil é extremamente desafiador. Por um lado, a atividade econômica do País, por força dos juros elevados já há bastante tempo, vem desacelerando, como era de se esperar. Por outro, no entanto, o prolongamento do conflito no Oriente Médio amplia o estrangulamento sobre a cadeia de fornecimento global de petróleo e derivados, alimentando a inflação.
“Neste momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária”, enfatiza o BC.
Em função disso, instituições financeiras, que antes previam que a Selic encerraria 2026 no patamar de 13%, já começaram a rever suas projeções e estimam que os juros devem encerrar o ano entre 13,25% e 13,5%. É o mais provável, embora o comunicado do BC não ofereça muitas pistas sobre os próximos passos. O que o comunicado faz, além de descrever o efeito da política contracionista sobre a atividade econômica e as projeções de inflação elevada, é sinalizar que “segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros”.
No fim, o que o BC fez foi comprar tempo para ter mais serenidade quando voltar a deliberar sobre a Selic, já no mês que vem.
O problema da carona em jatinhos
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Polícia Federal abriu inquérito para apurar suspeitas de descaminho ou contrabando em um voo realizado em aeronave do empresário Fernando Oliveira Lima, investigado no âmbito da CPI das Bets, após a entrada irregular de bagagens no País. Durante a apuração, constatou-se que estavam a bordo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL). O caso foi remetido ao Supremo Tribunal Federal diante da possibilidade de envolvimento de autoridades com foro, e imagens mostram um funcionário do empresário transportando volumes por fora do raio X com possível facilitação de um auditor fiscal.
Pode até ser que os parlamentares em questão não tenham nada a ver com o possível caso de contrabando, algo que só as investigações poderão mostrar, mas o episódio em si mesmo é obviamente constrangedor – e poderia ter sido perfeitamente evitado se os mencionados parlamentares tivessem recusado a carona, como deveria fazer qualquer político preocupado com sua imagem e com o respeito aos mais comezinhos princípios republicanos. O problema é que, em Brasília, há práticas típicas, como a carona de parlamentares e magistrados em aeronaves privadas, que se tornaram até mesmo naturais, a despeito de claramente afrontarem esses princípios.
Ao longo dos anos, consolidou-se na capital federal uma espécie de tradição informal: às quintas-feiras, encerrada a agenda legislativa e judiciária, autoridades deixam a capital a bordo de jatinhos oferecidos por empresários. A cena é conhecida, reiterada e amplamente aceita nesse ecossistema. O busílis, evidente, é que o favor nunca é de graça. Empresários podem até ter amigos, mas certamente têm muito mais interesses.
Ora, parlamentares dispõem de passagens aéreas custeadas pelo mandato. Ministros de tribunais superiores não enfrentam, em regra, obstáculos logísticos intransponíveis para voar em linhas comerciais. Quando, ainda assim, recorrem a aeronaves privadas, a questão deixa de ser operacional e passa a ser institucional.
Não se trata, necessariamente, de ilegalidade. Trata-se de algo mais sutil e, por isso mesmo, mais corrosivo: a diluição das fronteiras entre o público e o privado.
Um voo em jatinho não é um gesto trivial de cortesia. Trata-se de um benefício de alto valor econômico, inacessível à imensa maioria da população e, por definição, seletivo. Ao aceitá-lo, a autoridade pública estabelece uma relação de proximidade com quem o oferece. E proximidade, em política, raramente é neutra.
A prática não se restringe a episódios isolados. Reportagem de O Globo mostrou que o banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso no âmbito das investigações do caso Master, viajou em jatinho ao lado de parlamentares e ex-ministros, em deslocamento típico de fim de semana, reforçando a rotina de compartilhamento de voos entre agentes públicos e interesses privados em Brasília. O relato de que parte dos passageiros nem sequer conhecia o dono da aeronave, mas “aproveitou a carona”, é revelador: o benefício se naturalizou a tal ponto que já não exige sequer vínculo prévio.
As explicações recorrentes variam de desconhecimento sobre a propriedade da aeronave até conveniência logística, passando por agendas incompatíveis com voos comerciais. Nenhuma dessas desculpas, por óbvio, é suficiente. Convém insistir: o ponto não é presumir favorecimentos indevidos, tampouco imputar condutas ilícitas sem prova. O ponto é reconhecer que a lisura do agente público não se comprova apenas por meio da ausência de crime, mas também da aparência de isenção, no caso dos magistrados, e de respeito aos eleitores, no caso dos parlamentares.
A política brasileira costuma se indignar com escândalos explícitos. Tem mais dificuldade em lidar com as zonas cinzentas que os antecedem. A carona é uma delas, pequena o suficiente para parecer irrelevante, mas grande o suficiente para corroer, pouco a pouco, a credibilidade das instituições. Porque, no fim das contas, a independência não se perde apenas em grandes decisões. Ela se dissolve, silenciosamente, nos pecadilhos cotidianos.
Mais uma chance para o STF
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), evento inédito na história republicana recente, foi um potente sinal de alerta emitido pelo Senado. Considerando que, em 132 anos, jamais um indicado ao STF pelo presidente da República teve seu nome rejeitado pelos senadores, é correto afirmar que Messias já pisou no Congresso na manhã de quarta-feira passada como virtual ministro, crente que lá estava só para cumprir tabela. Assim, na prática, seu infortúnio pode perfeitamente ser lido como uma espécie de “impeachment” informal, algo semelhante a uma moção de censura a certos desvios que, reiteradamente, têm sido cometidos por ministros da Corte.
É claro que não assistimos a um arroubo inconsequente dos senadores. Em amplos segmentos da sociedade, grassa um profundo descontentamento com os rumos do STF, percebido, com razão, como um tribunal que age por motivações políticas e por um espírito de corpo que, à luz das implicações de alguns de seus integrantes no escândalo do Banco Master, soa como acobertamento. Os senadores não são alheios aos humores de suas bases. Por óbvio, capturaram a malaise e sinalizaram ao STF que o eventual impeachment de ministros não está só no radar do Senado – está na alça de mira.
Nesse sentido, a rejeição de Messias sepultou a ideia de que “impeachment” seria um termo impronunciável quando relacionado a ministros do STF. E sobre isso é bom que se diga que não se tratou de uma ameaça, mas antes da reafirmação de um instrumento constitucional legítimo que, até agora, apenas dormitava no campo das hipóteses. Logo, ao demonstrar capacidade de, a um só tempo, contrariar o governo e impor limites ao Supremo, o Senado reposicionou o impeachment de ministros no horizonte político do País.
Alguns no STF talvez acreditem estar blindados contra reveses no Senado pela circunstancial associação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), outro potencial implicado no caso Master. O fundo de pensão dos servidores públicos do Amapá, controlado por aliados de Alcolumbre, investiu milhões de reais em títulos podres emitidos por Daniel Vorcaro. Mas, se existe, esse mutualismo é frágil. Nada garante a reeleição do presidente do Senado no início da próxima legislatura. A depender do resultado das urnas, há, no mínimo, dois fortes candidatos à sucessão de Alcolumbre publicamente reconhecidos como tais: Tereza Cristina (PP-MS) e Rogério Marinho (PL-RN).
Diante dessas perspectivas nada alvissareiras, o STF tem mais uma chance de se recolher, pôr a mão na consciência e recobrar o prumo republicano. Chega de ministros censurando cidadãos a torto e a direito por suas opiniões. Chega de ministros ameaçando e caluniando abertamente parlamentares no exercício do mandato, como fizeram Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Chega de concentração de poder na figura de Alexandre de Moraes, que há anos comanda com mão de ferro inquéritos que já deveriam ter sido encerrados. Chega de ministros que acham que têm o poder de falar pela Corte, como o calouro Flávio Dino, que foi à imprensa pontificar sobre uma ampla reforma do Judiciário, e Gilmar Mendes, que fez uma turnê de entrevistas para supostamente defender o STF, colhendo resultado diametralmente oposto. Chega de ministros que se põem acima das leis, infensos ao escrutínio público.
Louve-se, em sentido oposto, a postura do presidente do Supremo, Edson Fachin, que, ao comentar a decisão do Senado, relembrou que ainda há laivos de dignidade na mais alta corte do País. Sua nota pública – sóbria, respeitosa, democrática – reafirmou o papel do STF e mostrou por que apenas seu presidente deve falar em nome da instituição. A propósito, é vergonhosa a forma como Fachin tem sido tratado por alguns colegas, como se o comando informal do Supremo estivesse nas mãos de leões-de-chácara.
Em suma, o tranco da rejeição de Messias oferece a alguns ministros do Supremo uma nova oportunidade de reflexão, permitindo-lhes, se acaso quiserem, recalibrar sua atuação à luz dos limites que a Constituição impõe. Aproveitar ou desperdiçar a chance, com suas consequências, é escolha deles.

