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Ortega rasga a fantasia

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O presidente Daniel Ortega anunciou que seus adversários jamais voltarão ao governo da Nicarágua pelas urnas: “Aqui não voltará a haver eleições”. Com isso, não inaugurou uma ditadura, apenas decidiu parar de fingir que a Nicarágua é democrática.

 

Após retornar à presidência pelo voto, em 2007, o extremista de esquerda chutou a escada e desmantelou o arcabouço democrático. Subordinou tribunais, manipulou regras eleitorais e reprimiu protestos. Antes da eleição de 2021, encarcerou pré-candidatos da oposição. Desde então, a perseguição avançou contra empresários, estudantes, jornalistas, religiosos e antigos correligionários. Milhares foram exilados. O fim das eleições consuma uma obra construída metodicamente.

 

Há uma ironia especialmente degradante em oficializar o golpe no aniversário da insurreição que derrubou a família Somoza, em 1979. A revolução sandinista que prometia libertar a Nicarágua de uma dinastia cimentou outra. A mulher de Ortega, Rosario Murillo, foi elevada a “copresidente”, os filhos ocupam posições de influência e o Estado foi subvertido em patrimônio político do clã. A proscrição das urnas talvez proteja o regime no presente, mas deve tornar a sucessão mais dependente da truculência e mais sujeita a rupturas.

 

Ortega espera que esse futuro interesse pouco ao resto do mundo. China e Rússia oferecem apoio sem perguntas inconvenientes. Os Estados Unidos perderam influência, as democracias latino-americanas se dividem segundo afinidades ideológicas e outras crises disputam a atenção internacional. O tirano mostra fraqueza, não força, ao temer até uma eleição fraudulenta dentro de casa, mas comporta-se com audácia diante do exterior porque espera que a indignação logo se dissipe.

 

O governo brasileiro é cúmplice nesse cálculo. Lula já comparou a longevidade de seu amigo Ortega no poder à das premiês Angela Merkel e Margaret Thatcher, como se fossem coisas equivalentes. O próprio nicaraguense encarregou-se de demolir o argumento. Aquelas líderes permaneceram no poder enquanto obtiveram o consentimento dos eleitores; Ortega acaba de proclamar que jamais tolerará um veredicto adverso. O silêncio gritante do lulopetismo comprova sua hipocrisia: a democracia é tratada como detalhe inconveniente sempre que é seviciada pelos “companheiros” em Caracas, Havana ou Moscou.

 

A comunidade internacional não deveria limitar-se a divulgar notas de repúdio. Cabe coordenar pressão máxima sobre os bens e negócios da família governante, suas empresas de fachada e os operadores civis, policiais e judiciais da repressão. Essas medidas precisam preservar remessas, ajuda humanitária e proteção aos exilados, além de apoiar jornalistas e organizações nicaraguenses que ainda documentam os crimes do regime.

 

Até autocratas costumam conservar eleições de fachada porque reconhecem no voto uma fonte de legitimidade que não conseguem substituir inteiramente. Ortega resolveu dispensá-las para entregar o país à própria família. Se essa ruptura não tiver consequências, sua lição será ouvida muito além da Nicarágua: já se pode negar abertamente aos cidadãos o direito de mudar o governo sem pagar por isso.

O novo tarifaço de Trump

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Após punir produtos brasileiros com uma nova tarifa de importação de 25%, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agora partiu para cima do Canadá, vizinho e tradicional parceiro comercial. Trump assinou decretos que impõem uma draconiana sobretaxa de 50% sobre produtos canadenses como vinhos, equipamentos e máquinas elétricas a partir de 19 de agosto.

 

Nem o timing nem os alvos iniciais das novas sanções de Trump são aleatórios. Em resposta à decisão de fevereiro da Suprema Corte, que derrubou o tarifaço instituído no início de 2025, a gestão do republicano lançou mão da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para restaurar a chamada tarifa-base de 10% sobre importações.

 

Mas as sobretaxas baseadas na Seção 122 expiram nesta sexta-feira, a menos que o Congresso americano as renove, o que parece improvável. Por isso, o governo Trump agora se vale de outros pretextos para escalar a batalha de poder com a própria Suprema Corte e, ao mesmo tempo, pressionar ainda mais as nações que Washington entende estarem sob sua “esfera de influência”, como o Brasil e o Canadá.

 

Enquanto no caso brasileiro instrumentalizou-se investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio, a nova sobretaxa contra o Canadá tem por base uma disposição tarifária de 1930, que permite ao presidente impor tarifas de até 50% quando outro país discrimina produtos americanos. Até hoje tal dispositivo jamais havia sido usado.

 

Mais uma vez, não se trata de casualidade. O Canadá sofre ameaças de punição severa no exato momento em que México e Estados Unidos retomam negociações sobre o USMCA, o pacto comercial regional que mantêm com os canadenses desde 2020.

 

No início de julho, Trump decidiu que não renovaria o acordo. Agora, os americanos sentam-se à mesa apenas com os mexicanos, numa tentativa clara de arrancar concessões ao mesmo tempo em que o outro parceiro, o Canadá, não só não está presente nas negociações, como é especialmente ameaçado – a tarifa de 50% incidirá até sobre produtos canadenses enquadrados no USMCA e hoje, portanto, isentos.

 

Por mais que o tarifaço seja ilegal, como já reconheceu a Suprema Corte, ou impopular, já que quem realmente paga o imposto de importação é o consumidor americano, Trump não vai desistir.

 

Não importa que, para justificar o injustificável, ele precise apelar até para a fumaça dos incêndios florestais canadenses que chega aos Estados Unidos, ou ignorar solenemente que a relação comercial com o Brasil é superavitária para seu país. Como bem observou o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Matias Spektor em entrevista ao Estadão, Trump está mais preocupado em manter sua influência na região – que, reconheça-se, no atual governo americano é tratada sem nenhum disfarce como quintal americano. “O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que o Trump quer restaurar na América Latina”, afirma Spektor.

 

Vale lembrar ainda que o presidente dos Estados Unidos acabou reaproximando, inadvertidamente, o Canadá da China. Trump tanto agrediu o Canadá, a quem enxerga como um Estado americano, que o país vizinho recentemente fechou acordo para importar carros elétricos chineses.

 

É nesse contexto, de batalha interna contra as instituições americanas e externa contra a China, que Trump retoma sua cruzada protecionista. Como a disputa direta com os chineses é pesada para os Estados Unidos, Trump tenta enfraquecer o poderio da China nas Américas.

 

Isso não significa, porém, que países como Brasil e Canadá não possam negociar. Embora haja a perspectiva de que tarifas adicionais ainda sejam anunciadas pelos americanos para um conjunto bem mais amplo de países, o escopo delas tem sido bem mais reduzido que o das que foram impostas no ano passado. Trump tem um teste eleitoral em novembro e sabe que não pode aumentar ainda mais o custo de vida dos americanos.

 

Do lado de quem está sendo punido, é preciso resistir também à tentação natural de retaliar medidas que não fazem sentido algum. Trump ladra, mas seguirá negociando porque os Estados Unidos ainda têm instituições fortes e porque mesmo Brasil e Canadá têm algum poder de barganha.

Quem sai aos seus não degenera

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.

 

Durante o encontro em Brasília, que reuniu representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.

 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio, como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.

 

Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”, disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses liberticidas.

 

Flávio é tépido como democrata, mas não deixa de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação” com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.

 

Com intervalo de poucos dias, o discurso golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante: basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá a possibilidade de perder uma eleição limpa.

 

O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito. Lembremos que, em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente, garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?

 

É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas. Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi um deles.

Prefeitura de Quixeramobim é denunciada por gastos com Carnaval de 2024 durante estiagem

Escrito porIngrid Campos / DIARIONORDESTE

 

 

O Ministério Público do Ceará (MPCE) ajuizou ação contra a Prefeitura de Quixeramobim por gastos com o Carnaval de 2024. O prefeito Cirilo Pimenta (PSB) e o secretário municipal de Cultura, Salviano Paulino de Moraes Neto, também são alvos da ação. Segundo o órgão, a gestão desembolsou R$ 690 mil em atrações para o chamado Carnacentral em um momento de decreto local de situação de emergência devido à estiagem. 

Soma-se a isso o fato de, à época, o município estar enfrentando restrições financeiras, que resultaram, inclusive, no adiamento do início das aulas na rede pública. Esse problema também é apontado na denúncia do MPCE. 

O valor foi usado para contratar cinco artistas de projeção regional e nacional que se apresentaram entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 2024. Os cachês somaram R$ 690 mil para cerca de oito horas de shows, o equivalente a R$ 86,2 mil por hora de apresentação.

 

Em contato com o PontoPoder, o prefeito Ciro Pimenta disse considerar a ação “injusta”, já que, segundo ele, Quixeramobim teve o Carnaval mais barato da região. “Quanto custa hoje (contratar) um artista? R$ 1 milhão, R$ 2 milhões cobram ‘um’ Bruno e Marrone desse aí para cantar por duas horas. E aqui foram quatro dias de Carnaval (por R$ 690 mil)”, afirmou.

Quanto à situação de estiagem, ele argumentou que, na verdade, houve chuvas naquele período e lavouras não foram afetadas, mas as precipitações não foram suficientes para encher reservatórios em algumas localidades da cidade. Sendo assim, os decretos de emergência foram apenas atos formais para solicitar o suporte de carros-pipa. 

Ele também negou a existência de situação de restrição financeira que justificasse o atraso no início das aulas à época. Conforme Cirilo Pimenta, o adiamento se deu por problemas no processo seletivo de professores, que durou mais que o esperado. “Não tinha professores suficientes”, explicou.

A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Quixeramobim também foi procurada pela reportagem, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.

Ação do MPCE

Na Ação Civil Pública, o MPCE apresentou um pedido de indenização por danos morais coletivos no mesmo valor das contratações para abastecer o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos do Ceará (FDID). 

Naquele ano, aponta o documento, a Prefeitura deixou de cumprir determinações judiciais relacionadas ao pagamento de precatórios. Ainda segundo o MPCE, os gastos com os shows representam quase o triplo do valor do contrato anual para abastecimento de água potável para consumo nas escolas municipais.

Para o órgão, os recursos aplicados na festa poderiam ter sido destinados a áreas prioritárias, relacionadas a direitos básicos em período de escassez hídrica e orçamentária. 

Além da indenização, a ação pede que a Justiça determine que a Prefeitura adote regras mais rigorosas para a contratação de atrações artísticas em períodos de crise financeira, seca ou outras emergências, para evitar gastos elevados enquanto serviços essenciais demandam prioridade.

 

Produto brasileiro sente ‘efeito Milei’ e perde liderança para a China na Argentina

Por Eduardo Laguna (Broadcast) / O ESTADÃO DE SP

 

 

Depois de ajudar, no ano passado, a amortecer o choque do tarifaço americano na balança comercial brasileira, a Argentina agora corta drasticamente as compras do Brasil e volta a ter a China como principal fornecedora. Neste ano, as importações da China no mercado vizinho superam as do Brasil em US$ 333 milhões, conforme dados de janeiro a maio do Indec, o instituto oficial de estatísticas da Argentina.

 

A “motosserra” do presidente Javier Milei, ao retirar subsídios que aliviavam despesas como luz, gás e transporte público, apertou o orçamento das famílias e levou muitos argentinos a adiar compras de bens de consumo supérfluos exportados pelo Brasil. No setor automotivo — principal item do comércio bilateral —, o quadro piora com a substituição de veículos brasileiros por modelos elétricos chineses.

Ainda que a liderança continue com as montadoras brasileiras, um em cada cinco carros importados pela Argentina já vem da China. Um ano após a entrada em massa de híbridos e elétricos, marcas chinesas somam mais de 9% dos veículos comprados no país, segundo dados do primeiro semestre da associação de concessionárias Acara.

 

A alta de preços acima da recuperação da renda, os juros elevados e o orçamento comprometido com gastos essenciais — incluindo planos de saúde, cujas mensalidades dispararam com o fim do controle de preços — fizeram a classe média postergar a troca do carro. De janeiro a junho, as vendas de automóveis e comerciais leves na Argentina caíram 10,5% ante o mesmo período de 2025.

 

Mesmo com o mercado menor, as cotas liberadas pelo governo Milei para importar até 50 mil veículos eletrificados com imposto de importação zero abriram espaço para a ofensiva chinesa.

O impacto é sentido pela indústria do outro lado da fronteira. Na semana passada, a Anfavea, entidade que representa as montadoras instaladas no Brasil, informou que a parcela da produção destinada ao exterior está entre as mais baixas dos últimos nove anos: 15,8% em 2026, acima apenas de 2024 (15,7%) e 2019 (14,7%).

 

De janeiro a junho, os embarques de veículos para a Argentina, principal destino das exportações das montadoras, recuaram 35,4%, para 106 mil unidades. Dados citados na última apresentação da Anfavea mostram que, em um ano, a participação dos carros brasileiros no total importado pela Argentina caiu de 82% para 56%.

 

O consultor Rogélio Golfarb, ex-presidente da Anfavea (2004-2007), afirma que a alta de preços de veículos e combustíveis favoreceu as montadoras chinesas, e que levar produção ao Brasil e a países vizinhos virou alternativa às barreiras tarifárias nos EUA e na Europa. “A internacionalização se tornou uma necessidade pelo excesso de capacidade de produção na China. Então, em três anos, saímos de um mercado praticamente dominado por marcas tradicionais para um ‘tsunami chinês’”, diz.

 

A substituição por produtos chineses também avança nas autopeças. Em dois anos, a participação do Brasil caiu de 33,9% para 28,2% nas importações argentinas do setor, enquanto a da China subiu de 8,8% para 15,3%, segundo a Afac, associação das fábricas argentinas de autopeças. Mais da metade do que a China vende ao país são itens também exportados por fabricantes brasileiros, como transmissões, componentes de motor, rodas, pneus e câmaras de ar.

 

espaço tanto no mercado de reposição quanto dentro das montadoras, já que parte delas vem se associando a grupos chineses e aproveitando cotas de importação sem imposto para veículos desmontados.

 

Com o fim da exigência de certificado nacional de segurança, o governo argentino retirou uma barreira técnica para autopeças chinesas de reposição. “A importação de peças de reposição da China a preços que não refletem o princípio da lei de oferta e demanda, com apoio estatal, gera um dano irreparável à indústria local e regional”, afirma Cantarella.

 

Reação dos EUA a avanço chinês pode endurecer competição na Argentina

O avanço da China no mercado automotivo argentino, tradicionalmente dominado pelo Brasil, pode ser só o primeiro teste de uma competição que tende a se intensificar com a abertura comercial do governo Javier Milei. A aliança com Donald Trump resultou, em fevereiro, em um amplo acordo comercial que ainda depende do Congresso, mas já provoca protestos e preocupação entre os demais sócios do Mercosul.

 

Embora as regras do bloco regional impeçam seus membros de negociar acordos tarifários individuais com outras nações, a Argentina se comprometeu a zerar para os EUA as tarifas de importação de 221 posições tarifárias, incluindo máquinas, equipamentos de transporte, dispositivos médicos e produtos químicos. Para outras 20 posições, entre elas autopeças, as alíquotas cairiam para uma taxa fixa de 2%.

Milei aceitou ainda eliminar barreiras técnicas e burocráticas aos produtos americanos que entram em seu país, como as exigências de licenças de importação e de testes adicionais em território argentino, passando a aceitar as certificações regulatórias americanas. Também está prevista a liberação de cotas para a compra de até 10 mil carros dos Estados Unidos por ano, com alíquota zero do imposto de importação.

 

“Resumindo, os Estados Unidos passaram a concorrer com o Brasil na Argentina. E esta é uma concorrência que, assim como a China, o Brasil não tem como enfrentar. Não temos preço para competir com a China, e muito menos com os Estados Unidos”, comenta José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Então, não vejo como reverter a situação. A tendência é, realmente, de queda nas exportações do Brasil para a Argentina”, acrescenta.

 

Para Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo (Camarbra), o acordo com os Estados Unidos pode afetar as vendas do Brasil em nichos específicos da Argentina. Ele cita a indústria de máquinas entre os setores potencialmente mais afetados. 

 

“Não se prevê um deslocamento total, mas a tecnologia americana pode vir a ganhar algum terreno”, comenta Servideo. Ele pondera que os carros e as autopeças do Brasil, “núcleo duro” do comércio bilateral, dificilmente serão substituídos por concorrentes americanos no curto prazo, dada a integração produtiva entre os países vizinhos e os acordos específicos do Mercosul.

 

Investimento em infra e comércio sem dólar sustentam liderança chinesa na Argentina

Os acordos de cooperação firmados com os governos peronistas que antecederam o atual presidente do país, Javier Milei, dão hoje à China condições de destronar o Brasil no fornecimento à Argentina. Embora tanto o Brasil quanto a China estejam vendendo menos ao mercado argentino em 2026, o impacto sobre os produtos brasileiros é maior.

 

De janeiro a junho, os argentinos compraram US$ 7,98 bilhões da China (22,5% das importações totais) e US$ 7,65 bilhões do Brasil (21,5%). A diferença é de US$ 333 milhões a favor dos produtos chineses, segundo os dados da balança comercial argentina.

Não é a primeira liderança chinesa: de 2020 a 2022, Pequim já ocupou o primeiro lugar. Nos três anos seguintes, o Brasil reagiu com a recuperação do mercado automotivo e a recomposição das reservas internacionais argentinas, que desatou o principal nó no comércio bilateral: a falta de dólares para pagar importações.

 

A proximidade geográfica, a integração produtiva regional e as trocas comerciais livres de imposto, contudo, não bastam para manter o Brasil na liderança. A invasão dos carros elétricos chineses está só começando e tende a fortalecer um fluxo comercial já bastante apoiado por iniciativas da época em que Pequim e a Casa Rosada trabalhavam mais em conjunto.

 

Após a adesão da Argentina à Nova Rota da Seda, há quatro anos, o capital chinês passou a financiar grandes projetos de energia renovável, mineração, logística e petróleo e gás — incluindo Vaca Muerta, segunda maior reserva de gás de xisto do mundo. Com isso, cresceu a importação de máquinas e equipamentos chineses usados nesses empreendimentos, que puxam a atividade econômica na “era Milei”.

 

Além disso, a Argentina pode pagar exportadores chineses com yuans depositados no banco central, sem usar dólares — em grande parte “carimbados” para a dívida externa. O arranjo, iniciado no governo Cristina Kirchner (2007-2015), só é possível porque a China, com trilhões de dólares em reservas, aceita prescindir dos dólares argentinos. Além disso, uma fatia relevante das exportações argentinas de grãos e carne vai para a China, o que serve como uma espécie de garantia na operação.

 

O Brasil, por sua vez, tem agora dois dos seus três maiores mercados comprando menos os seus produtos. No ano passado, os argentinos ajudaram a compensar o tombo das vendas aos Estados Unidos após o tarifaço do presidente Donald Trump. Agora, porém, as exportações para a Argentina caem 19,4%, reduzindo o superávit comercial do Brasil com o principal sócio no Mercosul a menos de US$ 1 bilhão no primeiro semestre, um terço do saldo registrado no mesmo período de 2025.

 

Ao mesmo tempo em que a participação dos Estados Unidos, inferior a 10%, é a menor da série estatística, iniciada em 1997, a parcela dos produtos brasileiros absorvidos pelo mercado argentino voltou a ficar abaixo de 4%. É algo que só tinha ocorrido antes, nos seis primeiros meses do ano, em 2024 (3,5%), 2020 (3,7%) e 2002 (3,9%).

 

Para Roberto Luis Troster, economista argentino que vive há 50 anos no Brasil, o principal desafio dos dois maiores sócios do Mercosul será aumentar a competitividade da indústria automotiva para enfrentar a enxurrada de carros chineses.

 

“O carro chinês é mais barato, o futuro é elétrico e tanto o Brasil quanto a Argentina estão demorando para reagir. O primeiro objetivo tem de ser melhorar a competitividade nesse setor, abrindo com isso espaço para um maior comércio entre os países”, comenta Troster.

 

 

 
 
 
 
 
 

Avanço na vacinação infantil

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O Brasil vem felizmente reduzindo ano a ano o número de crianças com menos de 1 ano de idade que não recebe nenhuma dose de vacina com componente DTP (pentavalente), que protege contra enfermidades letais como difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas pelo Haemophilus influenzae tipo B (Hib), bactéria responsável por doenças graves, como meningite e pneumonia. É o que atestam dados recém-divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

 

Em 2023, o número de crianças “zero dose”, isto é, que não receberam nenhuma dose, era de 360 mil, total que caiu para 255 mil em 2024 e para 50 mil em 2025, o que representa um recuo de quase 90% na comparação entre 2025 e 2023. De acordo com a OMS e o Unicef, a melhora se deve a ações como aprimoramentos no sistema público de registro e divulgação das informações sobre imunização.

 

Com a redução no número de crianças “zero dose”, o Brasil está entre os 17 países do mundo que conseguiram ampliar em mais de cinco pontos porcentuais a cobertura da primeira dose da vacina contendo DTP entre 2019 e 2025.

Apesar dessa melhora, o País não pode esmorecer nos esforços para cumprir a meta de cobertura vacinal de, em geral, 95%, estabelecida pelo Ministério da Saúde no Programa Nacional de Imunizações (PNI). Segundo o painel de cobertura vacinal do próprio ministério, o desempenho está abaixo da meta para uma série de imunizantes. No caso da febre amarela, por exemplo, a cobertura foi de apenas 75,24% em 2026, enquanto o da poliomielite foi de 84,03% – e no caso da dose de reforço, a cobertura cai para 76,47%.

 

Mundo afora, milhões de pessoas atrasam ou simplesmente deixam de tomar a segunda dose de vacinas por razões que vão do esquecimento puro e simples ao medo de reações. E, claro, há também a praga da desinformação. Mas a conclusão dos esquemas vacinais é essencial para que a proteção oferecida pelos imunizantes seja completa e duradoura.

Além disso, mesmo estando livre da circulação endêmica do sarampo (quando um vírus é transmitido continuamente dentro de um território ou população por mais de 12 meses), o País acaba de ver casos da doença serem confirmados na capital paulista. Há também registros, além de casos suspeitos, na região da Grande São Paulo.

 

Tais registros levaram o Ministério da Saúde a recomendar “dose zero” de vacina em bebês, ou seja, uma dose adicional da vacina tríplice viral, aplicada antes da idade prevista no calendário.

 

Países das Américas têm enfrentado surtos de sarampo, casos de Estados Unidos, México e Canadá – que sediaram a Copa do Mundo e receberam milhares de turistas, inclusive brasileiros, o que só aumenta a necessidade de vigilância interna.

 

Embora seja uma decisão individual, o ato de se vacinar produz ganhos para a coletividade. Tomara que, a exemplo da queda no número de crianças “zero dose”, o Brasil, cujo PNI sempre foi referência global, siga melhorando os índices de vacinação. Não há motivo algum para que doenças para as quais há imunizantes sigam vitimando crianças e adultos por aqui e no mundo.

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